Novas velhas maneiras de se ensinar

O menino e a flor…

“Conta-se a história de um menininho que começa a estudar e a escola lhe parecia grande demais. Aos poucos o menininho foi se acostumando com o tamanho de sua escola e descobriu um caminho mais rápido de chegar a sua sala de aula.
No primeiro dia de aula a professora chegou e se apresentou e pediu que todos dissessem os seus nomes. Depois de uma breve confraternização a professora falou.

– Agora vamos fazer nossa primeira atividade. Vamos desenhar!
-Oba!Pensou o menininho. Eu adoro desenhar.
A professora distribuiu uma folha em branco para todos e o menininho começou a desenhar várias coisas que ele achava interessante, leões, carros montanhas, etc., mas foi interrompido:
– Não! Pare espere! Vamos todos começar a desenhar juntos uma flor.
O menininho não gostou muito da idéia, mas obedeceu. Quando terminou de desenhar, começou a pintar a flor. Imaginou pintá-las de várias cores, vermelho, azul, amarelo, mas…
-Pare!Espere! Vamos pintar a flor vermelha com o caule verde.
O menininho não gostou da idéia, mas obedeceu.
Passaram-se os dias e a professora propôs outra atividade:
– Hoje vamos fazer molduras com o barro.
– Oba! Pensou o menininho. Vou fazer várias coisas.
-Pare! Espere! Nós vamos fazer um prato
O menininho ficou triste, mas pensou:
– Vou fazer um prato bem fundo, mas.
-Pare!Espere! Vamos fazer um prato raso.
Passou-se o ano e aquele menininho foi estudar em outra escola, bem maior do que a anterior.
Em seu primeiro dia de aula a professora chegou se apresentou como de costume em todo início de ano letivo e propôs uma atividade:
– Vamos fazer um desenho bem bonito hoje.
E distribuiu as folhas de papel. O menininho recebeu sua folha, a professora percebendo que ele não desenhava nada, se aproximou e perguntou:
-Você não gosta de desenhar?
– Sim, gosto muito!Quando vamos começar a desenhar?
-Você já pode começar!Sorriu a professora carinhosamente.
– O que vamos desenhar? Perguntou o menininho
– O que você quiser…
E o menininho desenhou uma flor vermelha com caule verde.”

Autor Desconhecido

A educação pública brasileira é um fiasco. Uma negação. Alunos sem livros, professores sem aluno, escola sem professores e o Estado sem recursos. E ainda assim as velhas maneiras de se ensinar persistem como uma praga que nenhum veneno mata. O maior problema da educação pública brasileira não é a falta de infra-estrutura, não é a falta de dinheiro, a falta de professores capacitados, nem a evasão escolar. O maior problema da educação brasileira é a esperança!Quem tem esperança?
O brasileiro…

O brasileiro tem esperança demais!

“A criança é a esperança, o futuro do Brasil!” Não é assim que falamos?Ou que falam por nós?

O que o brasileiro tem a ver com isso? Bem, o brasileiro mora no Brasil… O Sistema Educacional brasileiro é do Brasil… Quem cria e operacionaliza as políticas educacionais no Brasil é o brasileiro, ou pelo menos representantes do povo brasileiro. Quem coloca os seus filhos na falida escola brasileira é o brasileiro… Mesmo que se leve em consideração o FMI, a política de juros, a economia mundial, a dívida externa… Não adianta passar a bola para frente!Somente dificultamos a explicação!Somos todos responsáveis, não há culpados.

A esperança na educação, a crença no futuro do nosso país, as levas de voluntariados ”amigos” da escola, a criatividade do brasileiro, o apelo luxuoso da mídia… Tudo isso se sobressai em detrimento do que realmente importa. Assim como o amor não enche barriga a esperança demais não traz felicidade…
Precisamos agir!

Precisamos de rigor metodológico, de sistemas contínuos de avaliação para os usuários do sistema público de ensino, para as instituições, para as políticas e programas da secretarias municipais, estaduais e para o MEC, precisamos de metas a curto, médio e longo prazo que sejam inteligíveis, “palpáveis”, concretas, que possam ser compreendidas pelos eleitores, pelos professores, pelos alunos, pelos pais dos alunos, pelos secretários de governo, pelos trabalhadores da Educação, pela mídia impressa e televisionada. Precisamos de procedimentos empíricos e validados cientificamente no trato com os nossos aprendizes. Precisamos de capacitação contínua para os nossos professores e professoras e demais técnicos. De salários melhores que possam ser suficientes para pelo menos prover as necessidades básicas dos trabalhadores da educação. Precisamos de um estado forte, intervencionista que modere a relação público-privada no que concerne aos sistemas de ensino. Precisamos de instalações melhores e não os chiqueiros que muitos e muitas estudantes usam para assistir às aulas. Precisamos instituir, realmente a democracia participativa na construção de políticas, locais, regionais e nacionais – não significa que para todo e qualquer ação que se institua nas escolas precise-se abrir uma assembléia para discussão: ações de cunho técnico devem ser operacionalizadas por técnicos. Conhecer o “Sistema” Educacional brasileira é essencial para que haja mudanças significativas.

“Skinner afirma que para existir uma tecnologia do ensino efetiva é importante compreender tanto o comportamento do aluno quanto os elementos do sistema educacional no qual ele está inserido. Desse sistema fazem parte: os que ensinam, os que fazem pesquisa na área educacional, os que administram as instituições de ensino, os que estabelecem as políticas educacionais e os que mantêm a educação.”(VALE,1997)

Para Skinner (1972 citado em VALE, 1997) “a manutenção do sistema quase sempre determina a política adotada”.

“Ou seja, para compreender um sistema de ensino, além de suas características, é preciso conhecer quais contingências e regras influenciam o modo de agir e de pensar dos responsáveis pela manutenção do sistema. […] Em algumas situações basta que um sistema educacional tenha um valor de sobrevivência da cultura para que ali ele se mantenha. Nessa situação para que esse sistema tenha o seu valor cultural é preciso saber quais os problemas a serem enfrentados pela cultura, que tipo de comportamentos contribuirão para a solução de seus problemas e de que modo é possível se alcançar esses comportamentos.” (VALE, 1997)

De acordo com Vale (1997) o sistema educacional utilizado por um grupo social possui um valor que será determinado pela sua capacidade de promover a sobrevivência, a adaptação e a evolução da cultura desse grupo, pois, se adequadamente empregado, pode “(…) maximizar as oportunidades que a cultura tem, não só de lidar com os seus problemas, mas de aumentar firmemente sua capacidade de fazê-lo” (SKINNER, 1972 citado em VALE 1997).

As culturas que: desenvolveram uma política de educação universal, ampliaram a instrução recebida pelos seus membros e que a planejaram adequadamente (e com base em suas necessidades) tiveram sua probabilidade de sobrevivência aumentada e se tornaram mais “fortes”. (VALE, 1997)

Para Skinner (1972, citado em VALE, 1997) “possivelmente, uma cultura será tanto mais forte quanto maior for o número de seus membros que for capaz de educar (de forma eficiente)”.
E como a Análise do Comportamento pode ajudar nesse processo de instituição, de concretização, de operacionalização das políticas públicas?

Maria Ester Rodrigues (2006) retoma um pouco da história da influência da Análise do Comportamento no(s) sistema(s) educacional (is) brasileiro quando fala sobre formação de professores em Análise do Comportamento e enumera alguns elementos importantes para esta.
Muitos dos críticos do Behaviorismo Radical, talvez devido a preconceitos, ou até por causa mesmo de falta de conhecimento histórico afirmam que a abordagem educacional que predominou na década de 60 foi a comportamental, a qual chamam de “tecnicista”, mas Maria Ester Rodrigues, após uma extensa revisão bibliográfica afirma que o Behaviorismo Radical não influenciou a década de 60 e que a abordagem “tecnicista” que se fazia na época (se é que se fazia!) tinha um cunho eclético ( mais um exemplo de que o ecletismo em qualquer atuação profissional é sinônimo muitas vezes de incompetência) logo a atuação profissionais no campo da educação não era influenciada pelos princípios criados pela Análise Experimental do Comportamento. A história da Análise do Comportamento em relação á Educação ainda está por ser contada!

Maria Ester complementa que a influência da Análise do Comportamento na formação de professores nas décadas de 60 e 70 foi pequena. Na verdade há grande imprecisão da literatura científica em relação à formação de professores a partir desses princípios científico-naturalistas.

Ela sugere ainda que para a formação de professores – com embasamento filosófico Behaviorista Radical – é necessário que todo curso objetivo contemple quatro temáticas:

1. Filosofia da Ciência do Comportamento;
2. Conceitos básicos;
3. Técnicas educacionais e
4. Pesquisa.

Percebe-se claramente a preocupação com a formação para a pesquisa e para a construção do conhecimento nessa proposta de estruturação de cursos para a formação de professores.
Conceitos básicos devem ser trabalhados – definidos de maneira operacional – exaustivamente para que a partir daí o professor possa visualizar de maneira clara sua prática:

1. Conhecimento
2. Educação
3. Ensino;
4. Aprendizagem;
5. Papel do professor.

Deve-se ter em mente que um professor que seja formado por um curso de orientação analítico-comportamental é acima de tudo um planejador… Um planejador de contingências. O planejamento deve perpassar pelas seguintes fazes e todas devem ser contempladas sem exceção:

1. Análise inicial dos repertórios comportamentais dos aprendizes visando-se fazer um levantamento dos mesmos sob óticas individual e grupal;
2. Criação de objetivos comportamentais para satisfazer as necessidades de alunos, pais, escola, sistema educacional e cultura. Os objetivos devem levar em conta os comportamentos estritamente acadêmicos, a capacidade de autogoverno e gerenciamento dos estudos e a ética corrente na cultura. Os objetivos devem ser claros, operacionalizáveis, voltados para a implementação, para a ação.
3. Seleção de materiais que serão utilizados durante o ensino;
4. Intervenções (procedimentos, métodos) baseadas no uso de tecnologias educacionais e sociais referendadas por teorias científicas;
5. Avaliação do processo. Ressalta-se que a avaliação deve ser contínua e devem ser utilizados como instrumentos roteiros de observação, entrevistas, questionários e registro de desempenho.

Como ensinar?O professor deve trabalhar para minimizar ou até mesmo eliminar as contingências aversivas; deve utilizar correta e efetivamente os reforçadores; deve substituir reforçadores artificiais (notas, láureas, diplomas, medalhas…) por reforçadores naturais (atenção dos professores e colegas, apreço da família, satisfação pessoal, interesse pelos estudos…); deve trabalhar para que os comportamentos aprendidos no mundo acadêmico se mantenham e se generalizem; deve respeitar os ritmos individuais dos alunos atravéis da personalização do ensino; deve registrar continuamente os comportamentos dos alunos; deve ter a capacidade de fracionar o conteúdo e trabalhá-lo de forma gradual para que o aluno não se frustre; deve trabalhar para que a decodificação ocorra paralelamente á compreensão; deve ter estratégias de ensino eficientes como, por exemplo, instruções claras e precisas e utilização correta de reforçadores; deve também realizar a utilização correta de tecnologias de ensino (Sistema Personalizado de Ensino, Ensino Programado…).

Um curso de formação de professores baseado em princípios analítico-comportamentais deve se comprometer em “ensinar [os professores] a ensinar”. Parece fácil, mas é um caminho que exige além do rigor científico bom senso, ética, criatividade e responsabilidade social.

Referências Bibliográficas

RODRIGUES, Maria Ester. Quais elementos uma formação de professores em Análise do Comportamento poderia conter? Fala da Mesa Redonda “Diferente concepções sobre o processo ensino-aprendizagem e suas implicações na educação escolar e na formação de professores” do II Congresso Brasileiro de Psicologia, 2006.

VALE, Antonio Mais Olsen. Aprendizagem e Ensino no Pensamento Skinneriano. Fortaleza, 1997

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