Relações Humanas: Um problema e uma possível solução

O presente artigo procura descrever de que maneira a congruência auxilia no crescimento e na maturidade dos indivíduos e, também, como a incongruência contribui para a inibição do desenvolvimento psicológico, segundo alguns princípios da Teoria de Rogers (1961).

Este trabalho trata de expor de forma aberta as relações entre as pessoas, como se pode melhorá-las, assim como as barreiras que impedem que estas relações não se desenvolvam de uma maneira positiva e produtiva. Este artigo ainda nos propõe indagações relevantes a cerca das relações terapeuta-cliente, juntamente com a questão da congruência que tem fortes ligações com a eficiência da terapia.

O termo congruência é demasiadamente complexo, no entanto podemos reconhecê-lo facilmente nos indivíduos com quem nos relacionamos. Do mesmo modo reconhecemos a incongruência nesses mesmos indivíduos, a partir de uma maior observação, uma observação mais detalhada. Fato é que ao mantermos um contato simples com uma pessoa não reconhecemos o real sentido que está sendo transmitido por esta em seus relatos, mas na medida em que o contato se torna mais profundo, mantendo um diálogo extenso já se consegue intuir se esta pessoa está realmente sendo franca em suas expressões.

(…) Reconhecemos num indivíduo que ele não pretende dizer apenas aquilo que diz, mas que os seus sentimentos mais profundos se revelam através daquilo que está a dizer. Por conseguinte, quando o individuo está irritado ou é afetuoso, quando está envergonhado ou entusiasmado, nós sentimos que ele é o mesmo em todos os níveis (…) ao nível da consciência e nas palavras e comunicações. Temos a tendência para nos sentirmos bem e confiantes numa relação desse tipo. Com outra pessoa, reconhecemos que aquilo que ela está a dizer é, quase com certeza, uma defesa ou uma fachada. Perguntamo-nos o que será que ela realmente sente, experimenta, por detrás dessa fachada. Rogers (1961, p. 255).

De acordo com o que afirma Rogers (1961), o indivíduo que é congruente em suas comunicações, tem maior maturação emocional e certamente apresenta facilidade em se relacionar. Já o indivíduo incongruente apresenta-se defensivo na singularidade de suas relações, portanto não seria difícil a conclusão de que este indivíduo tem ou terá problemas em suas relações afetivas.

Os indivíduos diferem no grau de congruência, num mesmo sujeito esse grau é variável, conforme o momento que está a experimentar e da atitude de aceitar conscientemente a sua experiência ou se defender dela.

Quando o sujeito atravessa a barreira que o separa de si mesmo, pode-se dizer que está começando a comunicar-se com o seu self e é a partir deste instante que ele passa a aceitar a si mesmo. Quando o indivíduo reconhece a si mesmo e se aceita, acaba por ser, naturalmente, mais sincero em suas relações, torna-se então congruente em seus atos. Em um processo terapêutico centrado na pessoa do eu acontece algo que tem demasiada importância para as futuras relações do cliente, quando este se modifica, torna-se um ser em transformação constante e a partir daí este indivíduo passará a envolver todos ao seu redor neste processo, porque suas relações tornam-se mais facilitadoras e produtivas, enriquecendo-o.

Quando o indivíduo sabe o real valor de si mesmo, tem uma vida moral satisfeita, sente prazer em viver, certamente terá relações mais empáticas, mais duradouras, principalmente por ser mais congruente nestas relações.

Ao tratarmos da incongruência, podemos perceber que pessoas incongruentes sentem mais angústia, são mais receosas, pois não exprimem seus sentimentos, de certa forma estão mentindo. Pessoas que costumam mentir têm tendência a se sentirem sós, dificultando em vários aspectos de suas vida.

A pessoa emocionalmente desadaptada, (…) tem dificuldades em se comunicar, porque rompeu a comunicação consigo mesma e como resultado dessa ruptura a comunicação com os outros fica prejudicada (…). No indivíduo neurótico, a parte dele próprio a que chamamos de inconsciente, e que é recalcada ou rejeitada da consciência, sofre uma obstrução que impede a comunicação com a parte consciente ou dirigente do indivíduo. Rogers (1961, p. 282).

Um indivíduo neurótico tem dificuldades de se relacionar e, como afirma Rogers (1961), principalmente, porque tem distorções na comunicação com os outros, passando então por um sofrimento dentro de si e nas suas relações. A função do psicólogo seria a de ajudar esse indivíduo a comunicar-se consigo mesmo, melhorando assim as relações intersubjetivas.

Muitas vezes a maior barreira que nos impede de manter boas relações são os julgamentos premeditados, as depreciações que fazemos das afirmações de pessoas com as quais nos relacionamos, mas fazemos isso naturalmente, às vezes sem percebermos que estamos a desaprovar antes mesmo de ouvir. Isso pode interferir nos relacionamentos, pois passamos uma imagem negativa, todavia no momento em que somos capazes de ouvir o que o outro tem a nos dizer, esta barreira se rompe e as diferenças são reduzidas. Cada um se torna um agente de transformação.

Para que uma relação, qualquer uma, possa realmente surtir efeito são necessários vários fatores. Algo que parece simples, contudo é demasiadamente abstruso. Quando nos deparamos com a necessidade de nos colocarmos no lugar do outro, de enxergar como este enxerga, corremos o risco de por um momento pensarmos como ele pensa e então o medo de ser modificado, de incorporar aquela personalidade acaba por nos tornar fracos, quando devíamos ser fortes, corajosos. Porque é exatamente assim que devemos agir em nossas relações, devemos observar, ouvir e buscar compreender o que o outro tem a nos dizer.

Tanto o terapeuta quanto o cliente precisam saber ouvir, quando as duas partes se compreendem reciprocamente está estabelecida a relação, então é imprescindível que se deixe de lado os julgamentos precipitados , mas que se aja com empatia e compreensão.

Este processo não deve de maneira alguma ser indigesto para o terapeuta, este precisa deixar de lado a “fachada” e comunicar-se verdadeiramente com o cliente, tratando-o como um ser em metamorfose constante que necessita ser compreendido em sua totalidade para que a transformação se dê livremente e com assiduidade. Diante do que foi dito, seria necessário que o terapeuta vislumbrasse as situações de vulnerabilidade peculiares a cada sujeito, pois acarretaria em melhoramentos no manejo dos afetos e introjetaria neste o sentimento de igualdade e pertença perante os seus.

Em vista disso podemos perceber que todas as relações humanas possuem suas falhas, mas podem obter melhoras. Em suma, quanto mais somos congruentes, nos expressamos conscientemente, verdadeiramente, maior será nossa adaptação psicológica e intersubjetiva. Portanto, qualquer relação deveria acarretar indubitavelmente no crescimento e maturação subjetivos a cada um, mais ainda na descoberta de si mesmo dentro dos olhos do outro.

Assim, quanto maior for a comunicação mútua, melhor se dará a relação. Porém, seria necessário que o sujeito não se amedrontasse perante uma rejeição, mas a grande maioria das pessoas tem receio dessa rejeição e, desta forma, acabam evitando uma comunicação consciente.

Enfim, não há como saber quando é que a consciência será congruente com a experiência, pois existe, ainda, a necessidade de defesa do sujeito. Então muito depende do que se está a experimentar e pra que direção almejamos levar uma relação

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diz-se então que, a congruência, em uma dada relação, pode levar o sujeito a uma maior adaptação psicológica, a uma maior compreensão de si mesmo e dos outros, auxiliando no seu amadurecimento. Mas, no entanto, a incongruência pode contribuir para a inibição do desenvolvimento psicológico e, no caso de uma relação terapêutica, poderá atrapalhar tanto o cliente quanto o terapeuta, na medida em que se torna uma relação sem empatia e compreensão para ambas as partes.

São várias questões que podemos propor para uma maior compreensão do assunto tratado, como por exemplo, será que temos realmente coragem de nos expressarmos livremente, verdadeiramente ou devemos ser mais defensivos, reduzindo nossas comunicações? Mas, neste caso podemos ser rejeitados, poderemos, então, assumir tal risco? Desta forma, não há como afirmar qual será a posição que iremos tomar em determinada situação, somente a partir do momento em que estivermos dentro desta, ou seja, quando esta relação já estiver iniciada.

4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. Tradutor: Manuel José do Carmo Ferreira. Lisboa: Moraes Editores, 1970.

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