Quebrando Paradigmas: relato de oficina sobre a mulher e o espaço

Reconhecer o uso do espaço no cotidiano feminino e questionar paradigmas foi a proposta apresentada e aprovada para a feitura de uma oficina arteterapêutica no Seminário Arte e Corpo na Diversidade: Práticas Inclusivas na FEEVALE, Novo Hamburgo, RS, em 2005. A oficina contou com: a) apresentação de imagens estimulantes do pensar sobre o espaço feminino e um relato de experiência (com slides no Power Point); b) exercício de percepção corporal; c) leitura de conto aberto sobre o universo feminino e, através de recursos expressivos como escrita e colagem de livre associação, buscar soluções ao conflito estabelecido no texto; d) apresentação dos trabalhos dos grupos e e) encerramento com leitura dos dois poemas (sombras e autora) do livro Ressurgimento (Costi, 2005).

PARADIGMAS FEMININOS

O direito da mulher passou a existir em meados do século XX. Ela possui o direito ao voto e de ser eleita, decide se quer ser mãe, casar ou viver sozinha. Independente e reconhecida profissionalmente, ela ainda não tem salário igual ao do homem para desempenhar as mesmas tarefas, mas faz escolhas pessoais e luta pelo seu direito de administrar a própria vida.

Afirma Maria Berenice Dias , Desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que só agora o valor econômico das tarefas domésticas vem sendo reconhecido. Elas “correspondem a 12,76% do Produto Interno Bruto, bem mais do que a agricultura, que responde por 10% do conjunto de riquezas produzidas por ano (PIB). Só no ano de 2004, se tais atividades fossem pagas, o custo seria o equivalente a R$ 225,4 bilhões.” Arrumar a casa, lavar, passar, cozinhar, ir às compras, recolher o lixo, passear com o cachorro, levar os filhos à escola? Quanto vale? Sem contar a missão de tirá-lo da cama, ensinar-lhe higiene, vesti-lo, alimentá-lo, levá-lo ao pediatra, ao parque e participar de reuniões com sua professora sempre no meio da tarde…
A mulher vem se desdobrando em várias facetas. Mas sua flexibilidade tem preço. Não só pelo seu valor monetário, mas pelo que isso representa na sua qualidade de vida: três turnos de trabalho. A necessidade de sobreviver.

A mulher cidadã vem quebrando paradigmas com sofrimentos diferentes dos de seus pais e avós. Jogada para todos os lados, cumpre horários ampliados em três turnos, resultando em pouco descanso, influenciando sua qualidade de vida. Com o direito à sexualidade e ao prazer, obteve a liberdade de escolher a maternidade quando do surgimento dos métodos contraceptivos.

Muitas mulheres agüentam a agressão masculina, suplício devido ao medo. Hoje, tomar consciência de que a mulher precisa empreender uma nova luta pelos seus direitos contra a violência é quebrar outro paradigma. O espaço onde a mulher se sobrecarrega com a tripla jornada é também um importante lugar de afeto. Já as mães de portadores de sofrimento psíquico não possuem espaço de lazer, de descanso mental e físico, de alívio. Carregam o peso do compromisso eterno com sua criação com muito sofrimento e quanto ao futuro, seu espaço é de incerteza.

Para tanto, quebrar paradigmas é começar removendo os próprios estigmas seculares de “dona do lar para fazer tarefas domésticas”, “rainha para pagar as contas”, “mãe abnegada e eternamente cansada”.

Romper barreiras de insegurança, remover culpas, aumentar a auto-estima, partilhar com outras mulheres para compreender os homens.

O ESPAÇO

A descrição de espaço é abstrata. Mesmo sendo melhor representado
através das formas geométricas, o espaço é “um tipo de espírito formal na mente”. (Hillmann,1993, p.61). Ele está relacionado à independência. Para que se tenha autonomia é preciso: a) ter a posse e domínio do espaço; b) usá-lo como convier; c) compartilhá-lo com quem quiser. Afirma James Hillmann, que “o espaço tende a regular nosso pensar e nosso pensamento” e dependendo, pode levar embora nosso sentido de lugar, quando nos perdemos.

A maioria dos espaços de morar é construída para toda a vida e tal ambiente precisa poder ser adaptado conforme as necessidades de seus usuários em qualquer momento ou situação de dependência física. Desde o nascimento até a velhice, o ser humano precisa ter segurança para se locomover e desenvolver suas atividades. Em qualquer ciclo vital, ele deve possibilitar: abrigo, refúgio, aconchego, descanso, lazer e segurança. Ser território pessoal e familiar. As dimensões dos espaços não são só físicas, são internas e estão relacionadas a espaços afetivos: tempo para si, para amar, para chorar, para ter raiva, para sentir, para compreender, para perdoar. Espaço de movimento para viver e para se construir. O físico reflete a necessidade interna.

Pela sua sensibilidade e singularidade, a mulher vem solicitando diversos tipos de espaço: espaço de reconhecimento, espaço de afeto, espaço de descoberta, espaço de expressão, espaço de criação, espaço de respeito, espaço de acolhimento. Espaço de ser plena.

A arquiteta portuguesa Maria Celeste Ramos (2005) afirma que “só a verdadeira liberdade é benéfica para a emanação da criatividade e da beleza do que cada ser tem dentro de si como potencial a desbravar e deixar correr, sem mais barreiras familiares, sociais e culturais”. Considera que é “a única forma também de crescer o grau de responsabilidade individual e coletiva e o mundo poder ser mais bonito, mais fraterno, mais inteligente”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho desenvolvido com o grupo demonstrou que o conteúdo feminino das lâminas projetadas era percebido/sentido/compreendido por todos. Quanto ao trabalho corporal, a fala posterior demonstrou que houve ampliação da percepção de si mesmo e do outro, ampliando a consciência sobre as necessidades humanas de espaço individual e coletivo durante o ciclo da vida. Observou-se que um único grupo “libertou o pássaro” personagem do conto (as componentes deste grupo tinham idade superior a quarenta anos). A mãe foi ouvida e foi feita uma redistribuição de tarefas, foram feitas trocas e dividiu-se responsabilidades. Alguns propuseram a reordenação do espaço familiar com afeto. Com muita dificuldade, as famílias se organizam reduzindo os trabalhos da mulher no mundo de hoje. O resultado dos grupos, através da escrita e da colagem, demonstrou o desejo de romper o paradigma. Todos os participantes deram término ao conto retomando o diálogo entre mãe e filhos.

A coragem de romper com o estabelecido, com a (in)segurança, com o sexo sem prazer, com o trabalho sem valor, com a maternidade a lhe exigir mais do que deveria ocorre através do conhecer-se, compreender-se e reconstruir-se. Perceber o uso do espaço pode ser parte do processo de autoconhecimento.

A luta pelo espaço feminino pode ser ampliada através da Arteterapia. Individualmente ou em grupos, a mulher pode se reconhecer e se reencontrar, descobrir potenciais e romper bloqueios. Identificando-se com as demais mulheres, no universo feminino, ela ampliará o espaço interno que necessita, o que também refletirá no espaço externo.

REFERÊNCIAS

Costi, Marilice. (2005). Ressurgimento. Porto Alegre: EVANGRAF. Prêmio Açorianos de Poesia – 2006 – Prefeitura Municipal de Porto Alegre.
Costi, Marilice. (2005). Uma história por terminar: a mãe que virou abajur. (inédito)
Dias, Maria Berenice.(2006). Um grito de guerra. em 20 nov 2006.
Dias, Maria Berenice. (2005). Quanto vale. em 23 set 2005.
Hillmann, James. (1993). Cidade e alma. São Paulo: Studio Nobel.
Ramos, Maria Celeste d´Oliveira. (2006) A arquitectura no feminino. publicado no site Lisboa, Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) /LNEC e Grupo Habitar, 5 de Abril de 2006.

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