Antropologia psicanalítica: filogenia e ontogenia

Pretende-se relacionar desenvolvimento filogenético humano e desenvolvimento ontogenético humano.
Procura-se evidenciar a repetição de padrões da filogenia na ontogenia ( e da ontogenia na filogenia ), considerando as fases de desenvolvimento psicossexual, mas não só.
As considerações feitas neste artigo baseiam-se nas considerações de Bergeret ( 1997, 1998 ) sobre estas fases de desenvolvimento psicossexual.

É de comparar o desenvolvimento e complexificação embrionária, e o desenvolvimento do feto e do recém-nascido, e isto numa perspectiva fisiológica, com as características de seres unicelulares, e pluricelulares pouco complexos, em que há uma predominância da sensibilidade celular, como fenómenos de fotossensibilidade, e que terão sido predominantes nos primórdios da vida biológica na Terra. Mais ainda, o espermatozóide e o oócito, que dão origem ao zigoto, poderão ser comparados a coacervados, ao “caldo primitivo”, do início da vida no planeta, que juntando-se darão, supostamente, origem a algo mais complexo, a um organismo coacerval mais complexo.

Compara-se, agora, a predominância anal e a vivência em grutas, relativamente ao que está fora e ao que está dentro ( que será mais influente na analidade do que na oralidade ), quanto ao que é conservado quanto ao que é expelido. Em relação ao que está na gruta, ao que é protegido, conservado, e àquilo que é feito no exterior da gruta, como o ir caçar e ir explorar o ambiente.
Em relação àquela exploração, e provavelmente ainda antes da vivência nas grutas, apesar de isso mesmo continuar, é de considerar a exploração do ambiente no bebé, o seu início e desenvolvimento, ainda antes, ou simultaneamente à predominância da analidade.

Pode ainda relacionar-se o desenvolvimento dessa capacidade exploratória do bebé, o desenvolvimento da autonomia, com a aquisição do gatinhar e locomoção, com o desenvolvimento das comunidades, no sentido da interrelação entre os membros das mesmas comunidades e de diferentes comunidades, no sentido de terem, para isso, explorado o ambiente, havendo, eventualmente, posteriormente, associação entre diferentes comunidades, criando unidades mais alargadas, tendo havido um desenvolvimento tal, no sentido, mais lato, de comunidades gregárias para comunidades sedentárias de que a vivência grutal será um exemplo.

É de comparar, também, a fase uretral com o que está relacionado com a demarcação territorial, o que pode ser verificado no comportamento de muitos animais, quando urinam para marcar ou demarcar o território. Este fenómeno poderá ser também verificado em relação à analidade, com a defecação a fazer essa marcação ou demarcação do território. Tendo em conta o considerado anteriormente acerca da relação entre analidade e vivência em grutas é de perspectivar a relação quanto à demarcação territorial implícita na vivência grutal, e no iniciar desse tipo de vivência.

Ainda é de comparar a fase fálica, com aspectos relativos à ambição, à vaidade e ao exibicionismo, em particular, e as manifestações artísticas na vivência grutal, de celebração do sucesso das caçadas nas pinturas grutais, relativas predominantemente aos aspectos de vaidade e de exibicionismo, claro está, com a ambição de novos e melhores sucessos. Há ainda a consideração particular de muitas das figuras humanas representadas serem simples representações pictóricas que não manifestam evidenciadas diferenciações sexuais, o que denota a característica da relativa indeferenciação sexual do falismo.

É de considerar ainda os aspectos da ambição fálica no que se relaciona com a agressividade fálica, e o desenvolvimento ou o início do desenvolvimento de utensílios de caça, em particular, lanças e setas. Para mais, e considerando os diversos aspectos da ambição, da vaidade e exibicionismo,é de relacionar os mesmos com as manifestações de celebração, tal com já referido, como com as manifestações de celebração artística e de expressão artística, em particular como as festividades de danças, vocalizações, cantares e expressão artística de vivências e crenças comuns.

Deve ainda estabelecer-se o paralelo relativamente a esta fase fálica quanto ao desenvolvimento hominídeo no sentido de comunidades paleolíticas para comunidades neolíticas, onde essas expressões artísticas são mais evidentes.

Quanto ao desenvolvimento posterior das comunidades humanas é de considerar, no mesmo, a progressiva complexificação e maturidade dos vínculos estabelecidos entre os seus membros, particularmente a nível intelectual e afectivo, como ao nível da expressão e apreciação estética, da interacção pessoal e grupal, no sentido de uma maior diferenciação, com características mais tipicamente genitais como, e para além dos desenvolvimentos corporais, a compreensão, o respeito pelo outro, a capacidade de dádiva, o ideal de união afectiva, a possibilidade de trocas, sem receio de perda nem necessidade de proveito, o sentimento amoroso ( em que se alia no mesmo objecto o desejo sensual e a ternura afectiva ), a diferenciação sexual, e a sua vivência, como ainda capacidade de estabilidade nas trocas relacionais e flexibilidade da transformação, caso o objecto seja desvantajoso demais, e isto para além da maior capacidade intelectual, apreciativa, atributiva e expressiva que ocorre, geralmente, com o desenvolvimento ontogenético.

É de relacionar ainda a diversificação dos interesses da criança, após o período de desenvolvimento genital, particularmente, aos níveis social, cultural, educativo-escolar, portanto, no desejo de aprender, etc., e possibilitada, particularmente, com as elaborações genitais, com desenvolvimentos posteriores das comunidades humanas como a invenção da escrita, que iniciou o período histórico da humanidade, diferenciando-a, portanto, relativamente ao período pré-histórico – que terá possibilitado uma melhor e mais diversificada transmissão de conhecimentos, e assim como outras invenções, descobertas e desenvolvimentos que ocorreram desde essa época.

Para terminar, e para além destas várias considerações, é de notar as características fisionomico-corporais dos diferentes tipos de hominídeo que se foram desenvolvendo com as características do desenvolvimento ontogenético, perspectivando importantemente a progressiva menor importância dos aspectos sensoriais e corporais e a progressiva maior importância dos aspectos mentais e psicológicos.

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