Dança do ventre: Corpo, Mente e Alma em Movimento

 

Acredita-se que a dança, provavelmente, foi a primeira forma de expressão artística criada pelo homem a fim de imitar os animais, os vegetais e os elementos, ou seja, imitar tudo aquilo que o rodeava. Foi a maneira física de compreender o fluxo da vida e de se unir ao mundo, por isso a dança seria uma ferramenta que possibilitar-nos-ia ligar ao sagrado, principalmente nas culturas pré-históricas, já que no início tudo aquilo que nos cercava era tido como sagrado, sendo criado do mesmo útero, a terra.  

A dança assume um papel importante no desenvolvimento humano, serviu para tentar explicar a nossa própria existência, o fato de nossos antepassados dançarem contribuiu em nosso desenvolvimento psicológico, experimentando sensações, emoções e sentimentos que eram liberados por essa arte.

 

A dança do ventre foi a primeira forma de expressão do feminino, ela surge em várias culturas. Há indícios de que possa ter surgido no antigo Egito por volta de 7.000 a.C., onde era realizada por sacerdotisas para rituais de fertilidade, e também existem pesquisadores que acreditam que ela tenha surgido com um povo mais antigo, os sumérios, proveniente de um ritual sagrado.

As atribuições artísticas só foram incorporadas com a invasão dos árabes ao território egípcio, quando os padrões da dança foram miscigenados, adicionando um caráter comemorativo, onde se celebra as formas de vida, a magia, o nascimento.

O verdadeiro nome dessa dança é Raks Sharki (dança do oriente), nos Estados Unidos é conhecida como Belly Dance (dança da barriga), e no Brasil é chamada de Dança do Ventre. É uma dança produzida por mulheres e para as mulheres, foi desenvolvida num tempo onde as deusas estavam vivas e presentes em forma de mito, num tempo onde a mulher e a serpente eram sagradas.

A serpente é um símbolo mítico ligado ao feminino, à fertilidade, a regeneração e a saúde. Ela também incorpora o ciclo da vida, enquanto Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda, representa a evolução própria, a continuidade, a auto-fecundação, a proximidade entre o mundo superior e inferior, e ainda a idéia de eterno retorno.  

Os mitos são a conscientização de arquétipos do inconsciente coletivo, neles encontramos representações internas, transcendentes e coletivas, que servem para organizar o funcionamento psíquico e o comportamento, de acordo com o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, os mitos ilustram arquétipos, estes não podem ser descritos, entretanto podem ser "representados".

Segundo James A. Hall, os arquétipos são padrões universais, determinantes inatos da vida mental, é uma parte não individual da psique, e algo coletivo, resumindo, são tendências herdadas no inconsciente coletivo, que faz com que os indivíduos se comportem de forma semelhante aos ancestrais que passaram por situações parecidas. 

A dança do ventre está intimamente ligada ao arquétipo da Grande Deusa-Mãe, que está relacionado à criação, ao nascimento, à fertilidade, àquilo que é puro e sagrado.  

"Em cada ser humano existe, no mais profundo do seu mundo interior, a recordação da Mãe. Mãe como natureza, mãe como mulher que gerou e criou, mãe como símbolo de toda a poderosa força criadora individual e universal. São impressões psicológicas muito antigas, relacionadas com a experiência do nascimento e da morte. A imagem arquetípica de uma formidável energia que pariu tudo o que existe fica latente no plano inconsciente até que se ative pelas experiências da vida, ou seja, despertada por meios invocatórios, como na dança ritualística. Qualquer mulher, quando vai ser mãe, sofre certa estimulação inconsciente desse arquétipo. Na prática, tudo funciona para que ela se adapte da melhor maneira possível à tarefa de parir, usando o acervo humano de incontáveis experiências. O arquétipo da Grande Mãe é uma espécie de banco de dados de incontáveis experiências de concepção, gestação, parto e cuidados maternais registrados no inconsciente. Tudo é parte do amplo conjunto de memórias do processo evolutivo humano." (PENNA, 1993, p. 87 – 88) 

As mulheres que praticam essa dança entram numa espécie de viagem interior, onde ganham contato com vários símbolos, emoções e sensações ainda não experimentadas, surgem assim as imagens arquetípicas, na dança do ventre alguns desses arquétipos são: Materno, Odalisca, e o da Prostituta Sagrada, esses dois últimos estão associados à sensualidade, aos desejos e ao prazer.

O arquétipo Materno surge de diversas formas, mas sempre de uma simbologia própria, para diversos psicólogos junguianos, o arquétipo da Grande Deusa-Mãe é o próprio arquétipo Materno. A imagem da Grande Deusa-Mãe surge através da história das religiões, e se estende em várias imagens arquetípicas. Nos olhares da psicologia nos relacionamos com o arquétipo Materno através da própria mãe e a avó, da madrasta e a sogra, e outras mulheres com as quais nos sentimos bem, também com a igreja, a universidade, a cidade, a floresta, a lua, útero e outros. São todos esses e muitos mais os símbolos que tratam deste arquétipo.  Algumas características que esses arquétipos trazem são: a bondade, o feminino, a sabedoria, a espiritualidade, o cuidado, o instinto, a fertilidade, o oculto, o obscuro, o renascimento, o sedutor, o venenoso, o pavor e o mortal. 

A Odalisca é uma dançarina que se utiliza de homens para satisfazer sua sexualidade, ela traz a sensualidade como forma de vida. É uma mulher comum que serve sexualmente no harém do rei, uma de suas técnicas de sedução é a dança do ventre. Esse arquétipo fala da relação com o próprio desejo. As mulheres em contato com ele vivem a idéia de serem vistas como deusas da beleza, da sensualidade e do prazer, o que é uma condição psicológica existencial, aonde vêem o sexo como uma forma de domínio pelo prazer, isso é uma necessidade de acabar com a própria impotência, inferioridade que tem inconscientemente.

A Prostituta Sagrada é uma fêmea humana que encarna as diversas deusas do amor, paixão e da fertilidade, algumas dessas são: Inana (Suméria), Istar (Babilônia), Ísis e Bastet (Egito), Astarte (Fenícia), Afrodite (Grécia) e Vênus (Roma).  Ela representa a sexualidade de forma divina, é a sexualidade feminina sendo reverenciada, são responsáveis pela felicidade sexual e pelo desejo. Ao rejeitá-la, traz insatisfação.

As mulheres tomam contato com essas informações do inconsciente através de visões e sonhos que aparecem depois de algum tempo do trabalho corporal que é feito. O ideal é que as praticantes dessa arte busquem uma psicoterapia junguiana para trabalhar os símbolos e entrar em contato com o seu verdadeiro eu.

Outro fator importante na dança do ventre é o trabalho bioenergético que se realiza, os movimentos trabalham alguns músculos, o que faz com que as couraças se dissolvam, liberando as emoções que no decorrer de nossas vidas ficam presas ao corpo.  

Boyesen (1988) diz que as couraças são tensões que são geradas ao longo da vida, servem para proteger o indivíduo de experiências dolorosas e ameaçadoras.

Para os psicoterapeutas corporais, o corpo conta a história de vida de cada indivíduo, e o trabalho corporal é necessário para que ocorra a liberação de emoções "engarrafadas" no corpo e para um melhor fluxo de energia orgônica, o que nos proporciona uma melhor qualidade de vida.

Segundo Wilhelm Reich, médico e psicanalista o Orgone é uma energia universal, sem massa e nem inércia, que está em tudo o que é vivo, e pode ser acumulado no corpo através da respiração profunda.

Na dança do ventre é fundamental o trabalho com muitos músculos e com respiração profunda, o que é base no trabalho corporal, os seus movimentos atuam diretamente nos desbloqueios das couraças e no acúmulo de orgone.

Nessa abordagem levamos em conta que o corpo é um local privilegiado da subjetividade de cada um, e deve ser respeitado como tal.

A dança do ventre religa as suas praticantes ao feminino, ao sentimental, ao puro, ao sagrado, ao prazeroso, nos remete a tudo aquilo que é essencial e a sociedade atual não tem tempo para desfrutar, uma construção humana primordial. Nessa jornada do auto-conhecimento entramos num processo de auto-cura onde há aumento da auto-estima, sensualidade, sexualidade, do gosto pela vida e melhor fluxo de nossas próprias idéias.  

Então com olhares de duas abordagens psicológicas diferentes, podemos ver que trabalham excelentemente bem juntas, um trabalho corporal e analítico, nos faz entrar em contato com a nossa verdade, com nossos símbolos, com o sagrado e com nosso corpo, é a aproximação de corpo, mente e alma.

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