A Personalidade Financeira: Checklists de seus 5 traços fundamentais

Depois de falar como a pesquisadora encara o desenvolvimento da personalidade financeira (entendida como o conjunto de comportamentos duradouros que dizem respeito a como a pessoa lida com dinheiro e valores relacionados), é hora de encarar a seguinte questão: como se estrutura a personalidade financeira? Em outras palavras: como compreender a psicologia financeira do indivíduo quando avaliada? Vale lembrar… No artigo anterior falei de como a personalidade financeira é gerada pelo aprendizado do indivíduo ao longo das fases de sua vida.
Ok, mas e como avaliar e compreender a personalidade financeira de alguém hoje? Em outras palavras, se você deseja compreender como uma pessoa lida com dinheiro, o que precisa perguntar para ela? Felton-Collins defende que há 5 componentes fundamentais que estruturam a forma como lidamos com dinheiro. A seguir cito e comento cada um:

1) Racionalidade de gastos “Você é o tipo de gasta racionalmente, ou é dado a surtos maníacos de consumo?” (Mensurável por uma escala que varia entre Muito Gastador e Muito Poupador). Este critério nos remete ao nível de racionalidade no uso do dinheiro. A pessoa age de forma sensata e controlada com seu dinheiro? Ou será ela um maníaco gastador? (Vale lembrar, segundo o DSM-IV, gasto compulsivo é efetivamente um sintoma de episódios maníacos; contudo isso se trata de um extremo patológico de um comportamento que eventualmente pessoas saudáveis podem apresentar).

Outras perguntas relacionadas: Quanto do seu dinheiro você poupa? Como você se sente quando gasta mais do que deveria? Você poupa visando objetivos futuros? Faz investimentos? Você é pão-duro?

2) Tolerância ao risco “Você compreende a natureza arriscada da vida e “surfa nessas ondas”, ou sua estratégia de lidar com risco é mesmo fobica?” (Mensurável por uma escala que varia entre Amante do Risco e Avesso ao Risco. Ou, se preferir, Maníaco e Fóbico). O risco é parte natural da vida financeira de pessoas e organizações, especialmente no que diz respeito a fazer investimentos. Investir é privar-se de um valor no presente visando um acréscimo nesse valor para o futuro. Mas esse processo envolve risco, uma vez que ao invés de acréscimo, pode haver perdas. Lidar com o risco determina que tipo de investidor você será. Pessoas que toleram muito risco em geral aderem a investimentos tais como Bolsa e “jogadas” imobiliárias para curto prazo. Já os mais tradicionais buscam fundos de renda fixa ou títulos, considerados mais seguros.

Outras perguntas relacionadas: Quanto você está disposto a perder de seu patrimônio na tentativa de aumentá-lo? Quanto você pretende lucrar com investimentos? Quanto risco diluído em um portfólio diversificado você tolera? Sua tolerância ao risco está de acordo com sua idade e estilo de vida? (Em geral pessoas mais jovens e sem dependentes podem se arriscar mais). Você precisa aumentar sua tolerância ao risco?

3) Tipo de organização “Você organiza as coisas a partir de detalhes, minúcias, ou prefere panoramas gerais? Dizendo de outra forma: você vê a árvore ou a floresta?” (Classificável mediante uma tipologia: Detalhista ou Generalista?) Há diferntes estilos de organização, e nenhum pode ser entendido como melhor que outro, a não ser se julgado em determinada contingência. Algumas pessoas são extremamente detalhistas, se atêm a preencher agendas de gastos, diários de vendas, inventários de posses, e sabem dizer com precisão incrível onde está alocado cada centavo de seu patrimônio contábil. Outras pessoas preferem ter “noções gerais”, registrar “mind maps” de seus fluxos de caixa na cabeça, pensar o uso do dinheiro em termos de escalas (“Caro”, “Barato”, “Razoável”,etc) e não como valores numéricos precisos.

Outras perguntas relacionadas: Você mantém registros de suas operações financeiras? Você tem sua contabilidade pessoal na memória? Você é capaz de detalhar o rendimento, risco e liquidez de cada investimento? Como você lida com documentos tais como demonstrativos contábeis? Sobre a representação mental de suas finanças: você poderia desenhá-la/escrevê-la numa folha de papel?

4) Escala de planejamento “Você vive o imediato, ou pensa a curto, médio ou longo prazo? Em outras palavras: qual seu nível de projeção para o futuro?” (Classificável mediante a tipologia: Imediatista, Planejador apressado, Planejador prudente e Planejador a longo prazo). Desta vez o tempo é o foco da questão. Mais especificamente, o futuro. Este critério gira em torno do nível de abstração e afastamento em relação ao presente que o indivíduo alcança. Algumas pessoas vivem apena o hoje, num eterno presente. Outras não consegue decidir nada a não ser que levem em consideração suas aposentadorias, dentro de décadas. Outras perguntas relacionadas: Você pensa muito no futuro? Se acha ambicioso? Você acha que deveria pensar mais no futuro? Seus planejamentos financeiros costumam dar certo? Seu pensamento projetado no futuro já o impediu de viver o presente?

5) Adaptação a mudanças “Pra você mais vale regras e previsibilidade, ou você é dado a mudanças?” (Mensurável por uma escala que varia entre Muito Inovador e Muito Tradicionalista). A economia vive de tendências, ondas. A vida financeira de uma pessoa também tem altos e baixos, que exigem aprendizagem, mudanças. Mudar é se expor, assumir riscos, e exige humildade, abertura. Algumas pessoas detestam mudanças. Outras, detestam rotinas. Outras perguntas relacionadas: Você anda aprendendo coisas novas sobre finanças? Diria que prefere rotina ou novidades? Sua ansiedade em relação a mudanças é tolerável? Quando algo inédito ocorre, você se sente ameçado ou vê como oportunidade? Levando em conta sua idade, padrão de renda e estilo de vida, você estaria apto a mudar até que ponto sua vida financeira?

Conclusões

Antes de mais nada, nós psicólogos devemos saber observar, avaliar, questionar. Com a psicologia das finanças pessoais não é diferente. Compreender como as pessoas lidam com dinheiro é pré-requisito básico para saber orientá-las rumo a uma vida financeira melhor. E nada como estudar instrumentos planejados mediante achados teóricos, no caso os checklists ofertados por este artigo, para ter um ponto de partida prático.

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