Depressividade e hiperactividade – perspectiva psicodinâmica

Este artigo baseia-se nas considerações de Bergeret ( 1997, 1998 ) sobre a depressividade e sobre a hiperactividade. Dir-se-à que nos indivíduos depressivos, poder-se-à relacionar certas tendências comportamentais de hiperactividade ( como manifestações de exuberância, gesticulação exagerada e euforia ) com agressividade interiorizada, que, através de contra-investimentos ( por contraposição aos investimentos efectuados anteriormente em relação a figuras objectais e situações, relativas a essa agressividade ), será manifestada externamente através daquelas manifestações comportamentais de hiperactividade. Será, portanto, revelada em uma expressão relacional comportamental, ocorrendo, pois, que a mesma se torna observável.

As manifestações comportamentais referidas surgirão em situações, e em condições, em que as mesmas não são impedidas pela censura de se manifestarem, ocorrendo, nesse caso, uma descarga energética relativa àquela mesma agressividade. Essas manifestações passarão como que encobertas pela censura, e surgirão em condições relacionais em que a hiperactividade poderá surgir, claro está, relativamente a pessoas que não estão ligadas, precisamente, com aquelas figuras objectais e situações, como as referidas anteriormente, ou seja, que não foram investidas mas, sim, contra-investidas.

A hiperactividade permitirá ao indivíduo manifestar esses comportamentos relativamente àquelas tendências latentes. Tem-se que a carga afectiva será desligada da representação objectal e derivada e manifestada corporalmente. Neste desligamento, nesta clivagem, acontecerá que aquelas tendências hiperactivas surgirão, precisamente, em situações que não evoquem aquelas representações objectais, ocorrendo as manifestações comportamentais através do deslocamento da carga afectiva desligada, com sua descarga nas mesmas. Naquelas situações que evoquem, precisamente, aquelas representações objectais, essas tendências hiperactivas não surgirão, já que a carga afectiva das representações objectais foi desligada e deslocada, ocorrendo, porventura, outro tipo de manifestações depressivas.

Acontecerá, pois, que, nestes indivíduos, sucede que isto será feito de uma maneira tal em que aquelas mesmas pessoas e situações, em relação às quais ocorrem essas manifestações hiperactivas, façam parte desse mecanismo relacional, servindo de facilitadores à ocorrência dessas mesmas manifestações, e em que aquelas mesmas pessoas e situações em relação às quais não ocorrem essas manifestações hiperactivas, portanto, façam também parte desse mesmo mecanismo relacional. Tem-se, pois, que ocorre uma clivagem afecto/representação e uma manifestação ao nível da expressão relacional de tipo ambivalente. Nesta ambivalência relacional poder-se-à ainda hipotetizar dificuldades ao nível da escolha de objecto, com eventuais tendências homossexuais.

Pelo descrito, ter-se-à um carácter-limite, pelas tendências depressivas acentuadas, com uma organização predominante de tipo anal, caracterizada por uma ambivalência não resolvida. Referências bibliográficas Bergeret, J. ( 1997 ) ( tradução portuguesa ) A personalidade normal e patológica. Climepsi Editores Bergeret, J. ( 1998 ) ( Dir. ) ( tradução portuguesa ) Psicologia patológica – Teórica e clínica. Climepsi Editores

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