Sincronicidade

Com freqüência vivemos em nosso cotidiano, em um mesmo intervalo de tempo, um bloco de situações paralelas e muito semelhantes entre si. Por exemplo, na experiência com meu consultório médico observo fatos incomuns que, de repente, começam a acontecer ligados pela dimensão do tempo. Lembro-me de ter feito, até aqui, dois únicos diagnósticos da doença de Paget em minha vida profissional. Estes dois casos aconteceram com dois dias de intervalo, em uma mesma semana. Isto já faz vários anos. Assim como não tinha encontrado antes esta doença, não mais a vi depois.

Existem épocas que só aparece um determinado tipo de doença mental, por exemplo, a esquizofrenia e, com delírios muito semelhantes. Todos sabemos da alta prevalência deste mal na população geral, entretanto, ficamos às vezes muito tempo sem receber um caso novo no consultório, até porque, pela gravidade do quadro clínico, a família já leva o paciente direto aos hospitais para internação. Já observei, também, se a causa poderia ser algum fator climático, aplicando as informações dadas pela meteorosensibilidade –  capítulo da ciência biomédica que cuida das interferências climáticas em nossa saúde  –  que pode trazer à tona nossas doenças dormentes, ou alterar nossos ritmos vitais, como sono/vigília, fome/saciedade, curvas circadianas de secreções do nosso metabolismo e, que obedecem rigidamente a um relógio biológico interno que todos temos – objeto de estudo da cronobiologia – com a descoberta de importantes ritmopatias, mas não pude fazer qualquer correlação clima/ritmo/doença.

Entretanto, mesmo atento aos recentes progressos da ciência, não encontro explicação para o fato de receber, de tempos em tempos, lotes de pacientes com as mesmas doenças e com queixas muito semelhantes, que vão além daquelas simplesmente esperadas pela própria doença.

É costume se dizer que uma desgraça nunca vem sozinha. A crença é de que venham em pacotes. Quando a sabedoria popular se manifesta, temos de parar um pouco para pensar. São crenças muito antigas que sobrevivem à seleção natural da cultura, transmitindo-se regularmente por memes.

Estamos falando de coincidências com significado especial para quem as experimenta. É claro que partimos do ponto de que seus protagonistas estão sadios mentalmente, pois, haveria o grande risco de estarmos simplesmente lidando com fenômenos delirantes, tão comuns na prática psiquiátrica.

Já não lhe aconteceu de, de repente, pensar em alguém que já não vê há anos, lembrar-se deste alguém com detalhes de cenas e acontecimentos cheios de significados para você, o dia continua, você esquece do fato, e nesse mesmo dia este alguém lhe telefona para ter notícias suas?

Ou, de você ter sonhado com algo estranho, e aparece alguém falando exatamente daquilo que você sonhou? E, veja bem, não se tratando de déja-vu, que tem uma fenomenologia bastante própria facilmente identificável.

Lembremos de grandes descobertas científicas que acontecem ao mesmo tempo sem que seus autores jamais tenham tido idéia de que sua pesquisa estava sendo feita por algum outro cientista.

Também no caso das invenções, simples ou de alta tecnologia, que são feitas com cuidados de sigilo empresarial, e descartando a possibilidade de espionagem específica, surgirem, ao mesmo tempo, idéias quase idênticas.

Em nenhum momento estamos pensando em algo esotérico, oculto, místico-religioso, tampouco estamos interessados em fenômenos de percepção extra-sensorial, pois não somos profissionais da parapsicologia.

Até pelo contrário, somos absolutamente céticos quanto a essas possibilidades, e ainda que a metodologia científica deixe muito a desejar, ainda é o único instrumento fidedigno que temos para lidar com a realidade dos fenômenos externos ou internos a nós mesmos. Estamos cientes das críticas feitas em psicologia quanto ao introspeccionismo quando usado como ferramenta de trabalho para a ciência. Aceitamos as críticas, e isso nos torna ainda mais cautelosos para não cairmos nas explicações metafísicas ingênuas.

Se lançarmos um dado com suas seis faces numeradas de 1 a 6, a probabilidade para cada face se mostrar é de 1/6. Se eu jogo 20 vezes o dado, cada jogada manterá esta mesma proporção de probabilidade. No entanto, apenas para exemplificar, se aparecem 18 ou 15 vezes o esperado número 6, e o dado não estando viciado, isto seria uma coincidência altamente significativa.

Neste exemplo estamos pensando linearmente, um evento após o outro se sucedendo no tempo. Mas, se fizermos a experiência de jogar as mesmas 20 vezes o dado, sendo que cada jogador esteja distante um do outro, e, no mesmo instante, dermos o sinal para lançar os dados, e a coincidência de sair uma mesma face com seu número sair da probabilidade de 1/6, digamos que saíram 17 vezes o número 3. Repetimos a experiência, e o resultado continua sendo muito acima do esperado, este fenômeno será mais que uma simples coincidência. Houve eventos síncronos de modo surpreendente e, aparentemente, inexplicável.

Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra suíço, que acabou por se dedicar ao estudo e prática da psicologia profunda, deixando uma obra comparável com a de Sigmund Freud, em volume e importância, chamou a esse fenômeno da coincidência significativa de SINCRONICIDADE.

Em 1952 ele escreve "Sincronicidade: um princípio casual de conexão", procurando, como sempre o fez em toda sua obra, dar um tratamento à questão que fosse irrepreensível pela comunidade científica de seu tempo.

Nossa visão ocidental de mundo nos condiciona a termos um pensamento causal e de modo linear. Assim, se existir uma seqüência de eventos A, B, C, D, nós a observamos de trás para frente, perguntando-se como foi que D apareceu em conseqüência de C, C de B, e B em conseqüência de A, sempre buscando um nexo, ou cadeia causal dos elementos.

Graças às investigações da física quântica, operando sempre com uma matemática de ponta, fica provado que o princípio da causalidade nos níveis da macro e microfísica deixou de ser completamente válido. Não podemos pensar mais na causalidade como sendo uma lei absoluta, mas, como uma tendência ou probabilidade dominante.

O binômio causa/efeito é um modo de pensar mais para satisfazer nossas apreensões mentais em relação a um conjunto de eventos físicos, do que algo que atinja, de fato, completamente o âmago das leis naturais.

No oriente, em especial na filosofia chinesa, o que se desenvolve é um pensamento sincronístico, ou pensamento de campo, cujo centro é o tempo.

Está claro que no pensamento causal a dimensão do tempo também participa, uma vez que subentendemos que a causa vem sempre antes do efeito. No entanto, no pensamento sincronístico, a questão não consiste em saber por que tal evento ocorreu, ou que fenômeno causou tal efeito, mas, o que é provável que tenha acontecido conjuntamente, e de modo significativo, no mesmo momento. Os chineses sempre se perguntam pelo que tende a acontecer conjunta e simultaneamente (no tempo) naquele campo existencial.

Assim, o centro do conceito de campo seria um instante "t" de tempo no qual estão aglomerados os eventos A, B, C, D, do exemplo dado.

Imaginemos um círculo (campo) com um centro "t", cortado em fatias, como se fosse um bolo, ou uma pizza. As quatro fatias A, B, C, D, coexistem, unidas pelo seu centro, aqui chamado momento crítico – um certo momento no tempo – que constitui o fato unificador, o ponto focal para a observação desse complexo de eventos.

Em nosso pensamento ocidental causal, efetuamos uma enorme separação entre os eventos físicos e os eventos psíquicos. Estamos limitados apenas a observar como os eventos físicos se produzem uns aos outros, ou têm um efeito causal recíproco, e também, assim pensamos quanto aos eventos de ordem mental, que só poderiam agir entre si. Aí temos um intransponível dualismo: o universo do físico e o universo do mental. Sem intercâmbios, mas, apenas correndo paralelamente ao longo do tempo.

A pergunta que se faz hoje é se existiriam interações entre essas duas linhas. Haveria algo como uma causação mental que pudesse promover efeitos físicos, e vice-versa? E mais, não seriam duas linhas de um mesmo e único universo, o monismo?

Para a medicina psicossomática não existe mais dúvidas: ao lermos uma carta onde está escrito que alguém a quem muito amamos morreu, e daí, resultarem efeitos funcionais que poderão nos levar até a uma perda de consciência, não iremos imaginar que foi uma reação alérgica causada pela tinta e pelo papel da carta, mas sim, pelo conteúdo vivencial da comunicação.

 Entretanto, o modo sincronístico de pensar é completamente diferente. Trata-se de uma diferenciação do pensamento primitivo em que nenhuma distinção jamais foi feita entre fatos psíquicos e físicos. Na indagação, por exemplo, dos chineses sobre o que é provável que ocorra junto, podem ser reunidos fatos internos e externos. Para o modo sincronístico de pensar, é até essencial observar as áreas da realidade, a física e a psíquica, e assinalar que no momento em que tivemos tais e tais pensamentos ou tais e tais sonhos – que seriam os eventos psicológicos – aconteceram tais e tais eventos físicos exteriores, ou seja, há um complexo de eventos físicos e psíquicos único no tempo.

O experimento EPR

Apesar de constituir-se num dos responsáveis pelo surgimento da  Física Quântica, Einstein recusava-se a aceitar todas as suas conseqüências, preferindo acreditar que estas ficariam restritas ao universo subatômico. Esta obstinação em manter-se contra as evidências levou-o, na década de 20, a efetuar um debate com Niels Bohr, ao final do qual foi obrigado a reconhecer que a interpretação da Teoria Quântica feita por este último, juntamente com Werner Heinsenberg, formava um sistema perfeitamente coerente de pensamento. Guardou para si, contudo, a firme convicção de que uma interpretação determinista viria a ser encontrada mais cedo ou mais tarde, de maneira a eliminar toda a dubiedade da nova ciência.

Na tentativa de combater a posição de Bohr, Einstein imaginou um experimento que se tornou conhecido como o experimento Einstein-Podolsky-Rosen (EPR), e que acabou resultando num verdadeiro tiro no pé. O experimento a princípio imaginado envolvia a medição do par posição/quantidade de movimento em duas partículas emitidas conjuntamente em direções opostas. Mais tarde, porém, com o aperfeiçoamento da experiência, a medição visaria o spin (rotação: giro em torno de seu próprio eixo) das partículas em questão. Assim, reportaremos o experimento de forma simplificada, tal como pôde ser realizado em 1982, por Alain Aspect, na Universidade de Paris-Sud, no sul da França.

Dois fótons, oriundos da mesma fonte de luz, são observados por dois detectores, que deverão medir sua polarização. Como os fótons são emitidos sincronicamente, as suas polarizações estão relacionadas porque são sempre complementares, mas a relação de polaridade existente entre elas somente será determinada após sua medição. Isto equivale a dizer que as partículas não possuem uma polaridade "real", em si mesma, dependendo de um observador para que adquiram essa característica. Aqui aparece a contestação de Einstein: enquanto a Teoria Quântica advoga que a polarização não existe senão quando é medida, ele defendia a chamada hipótese das variáveis ocultas, afirmando que cada fóton teria uma polarização "real", bem definida, desde o momento em que é criado. Entenda-se aqui como "variável oculta" qualquer conexão causal que ligaria os fenômenos ocorridos com as duas partículas, conexão essa chamada "oculta" porque ainda não determinada por nenhum sistema de medição disponível na época. A suposta indefinição das partículas quanto à natureza de seu giro dever-se-ia, portanto, segundo as esperanças de Einstein, a uma deficiência no processo de observação e não à natureza intrínseca das mesmas.

O resultado da experiência, porém, trouxe os resultados esperados pela Teoria Quântica, inviabilizando a hipótese das variáveis ocultas. E, para piorar as coisas, constatou-se algo ainda mais surpreendente: a medida da polarização de um dos fótons tinha um efeito síncrono sobre o outro, que assumia polarização oposta, como se ambos estivessem ligados por um fio invisível. Havia algum tipo de interação entre os dois, embora ambos se movessem em sentidos contrários, à velocidade da luz e, lembrando que a Teoria da Relatividade do próprio Einstein tenha demonstrado que nenhum sinal pode viajar mais depressa do que a luz. Se nenhum sinal pode viajar mais rápido que a luz, a primeira partícula não poderia de modo algum comunicar-se com a segunda e assim "avisá-Ia" sobre sua opção:- "Mudei o sentido de rotação do meu spin". Ficavam então as interrogações: como pôde a segunda partícula saber da polarização conferida à primeira pela prática da medição, e como pôde a sua polarização ficar simultaneamente complementar à outra, sendo que elas se encontravam mutuamente inalcançáveis por qualquer meio imaginável? Decididamente, a resposta transcenderia quaisquer conceitos da Física clássica ou mesmo do senso comum. Portanto, temos aí um efeito (aparentemente) não-causal e não-local. Por outro lado, acredito que em nosso Universo, que hoje chamamos com mais precisão de Multiverso, é um Todo formado de partes interligadas. Isso já dizia Lao-Tsé: "O bater de asas de uma borboleta na China é vendaval do outro lado do mundo". Demorou muito para a Sabedoria Milenar do Oriente chegar até nós.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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