Dicionário-Texto Budista A – M (Parte I)

Graças a um artigo do colunista Adriano Facioli, dei-me conta do quanto nós todos estamos carentes da Filosofia e Psicologia Budistas, e não exatamente do budismo como religião. Fato este, aliás, que somos contrários. Pregamos uma Espiritualidade sem religião, sem credo legislado, que só têm trazido disputas, estelionatos, inimizades, guerras enfim. Curiosamente, no budismo não encontramos guerras nem terrorismo em sua História. Mas, o Buda Shakyamuni não criou o budismo, nem Jesus, filho de José, inventou o cristianismo.
                                    

Tenho constatado uma enorme lacuna no mercado editorial brasileiro no que se refere a uma literatura mais técnica sobre o budismo. Ofereci ao meu editor este trabalho, que pretende ser não somente um dicionário, porém, também, um livro-texto para aqueles que querem conhecer melhor a doutrina do Buda, e mesmo para quem quiser segui-la como filosofia de vida ou como psicologia de auto-conhecimento e auto-realização.

Os verbetes aparecem com grande freqüência em páli, idioma original no qual foi escrito o Cânone budista. Alguns consideram o páli como um dialeto do sânscrito, língua sagrada da Índia, terra onde nasceu o Buda Shakyamuni e o budismo. Logo no início surgiram comentários e escritos importantes em sânscrito também. Vocês poderão observar a grande semelhança entre ambos.

Desta maneira, também é freqüente o aparecimento de verbetes em sânscrito. A partir da Índia, o budismo estendeu-se, primeiro para a China, depois para a Coréia e acabou chegando ao Japão. Claro que esta é apenas uma das vias de disseminação da Doutrina budista. Assim, procuramos, sempre que possível, oferecer as correspondências dos verbetes, também em chinês e japonês. Algo em tibetano, especialmente em função da intensa divulgação do budismo tibetano através de seu grande líder.

Falamos em livro-texto, pois procuramos nos estender um pouco mais no significado dos verbetes, em vez de somente dar-lhe um sinônimo, ou versão, em português. Com isso, o leitor poderá fazer um estudo do Dharma em ordem alfabética, o que torna a leitura mais fácil, leve e ordenada para a boa compreensão da matéria.

Na verdade, este trabalho eu já o tinha como um resumo pessoal quando comecei minha vida nesta senda. Faço parte da Buddha's Light International Association (BLIA), sediada aqui no Brasil junto ao Templo Zu Lai, na cidade de Cotia-SP (Km 28 da Raposo Tavares). Foi com este meu contato, e no maravilhoso "abrigo" das monjas deste Templo, que tive a grande fortuna de conhecer melhor o budismo, a ponto de segui-lo como filosofia de vida.

Observo que o povo brasileiro está sequioso dos ensinamentos do Buda Shakyamuni. Estou escrevendo numa 2ª feira, ontem, na cerimônia de domingo no Templo Zu Lai, tivemos, com alegria, a recepção de um público da ordem de mais de 1800 pessoas, entre às 10 horas da manhã até às 17 horas.  E é sempre assim. Elas lá aparecem, espontaneamente, curiosas, encantadas, fazendo-nos mil perguntas, o que mostra uma busca intensa do nosso povo, para ter algo em que acreditar, alguém em quem confiar, para, enfim, encontrar um caminho que possa diminuir o inexorável sofrimento da vida, especialmente, desta Vida Severina, o Samsara brasileiro. E o budismo tem muito a oferecer. São milhares de anos de sabedoria e prática a que nós, ocidentais, não estamos acostumados a experimentar no cotidiano.

A BLIA são os olhos, os braços, as pernas, a fala dos monges, pois eles são poucos, e lhes seria impossível dar atendimento a todos que os procuram. Este Templo foi inaugurado em 2003, e por ele já passaram milhares de visitantes. E muitos vão mais a fundo nesta visita, vindo cada vez com maior freqüência, e acabando por participar de cursos sobre a Doutrina, sobre Meditação, sobre pacificação de nossas mentes, e ainda matriculando-se em artes marciais, música, culinária, aulas de mandarim, oferecidas em seu espaço.

O fundador desta Escola, chamada Fo Guang Chan (O Buda da Luz da Montanha), o Venerável Mestre Hsing Yün, já está com mais de setenta anos de idade, mas dando assistência plena a quase duas centenas de templos espalhados pelo planeta. Ele esteve presente na inauguração de nosso Templo. Podemos dizer, em poucas palavras, que esta Escola, chamada Ch'an, é uma corrente do Budismo Humanista, que prega o contato dos monges e praticantes com todas as pessoas, sem qualquer tipo de discriminação. Ou seja, é um budismo horizontal em relação à Humanidade, e, não somente, vertical, como os budistas de muito antigamente, que se isolavam em montanhas e cavernas buscando uma iluminação solitária sem se preocupar com os demais seres vivos.

O Templo Zu Lai e a BLIA mantêm a Universidade Livre Budista Zu Lai, e já está no seu segundo ano de formação para a carreira, seja como Professor de Darma, seja como monge. É dentro deste espírito acadêmico que organizei este dicionário-texto, facilitando as pesquisas dos discípulos e do público interessado, em geral.

 

 

                                                               

 

 

 

DICIONÁRIO-TEXTO DE

BUDISMO HUMANISTA

 

 

Aprenda sobre budismo Ch'an (Zen) lendo-o de A a Z

 

 

 

 Adalberto Tripicchio

   

 

A – M

Editora Zu Lai

São Paulo  –  2005

A

(chinês) – Imperador.

ABHAYA (sânscr.) – "segurança", "paz", que não teme, que tranqüiliza. O abhayamudra é o gesto que pacifica.

ABHIDHAMMIKA (páli) – monge budista que se especializou no estudo do  Abhidharma. Foi também grande autoridade do Sutra-pitaka e do Vinaya­-pitaka.

ABHIDHARMA – parte do cânon páli de Escrituras budistas consa­grado à elaboração escolástica da Doutrina (Darma) contida no Sutta-Pltaka.

ABHIDHARMA-HRIDAYA-SHASTRA (sâncr.; chinês, A-p'i-t'an-hsin-lun; jap., Abidon-shin-ron) –  "O Coração do Abhidharma"; um compêndio 250 versos da doutrina do Abhidharma da escola de Sarvastivada, escrito no terceiro século por Dharmashri (conhecido também como Dharmashreshthin) e traduzido ao chinês em 384 por Samghadeva. Dharmashri, da escola de Sarvastivada, era do reino de Tukhara. O Coração do Abhidharma é um resumo dos ensinos doutrinários contidos nos comentários do grande Abhidharma, um dos textos básicos do Sarvastivadins. A escola de Sarvastivada compilou primeiramente o tratado na Fonte da Sabedoria e de outros seis textos doutrinários para esclarecer suas teses fundamentais, produzindo mais tarde o grande comentário no Abhidharma para um exame detalhado dos estudos a respeito de sua doutrina.

ABHIDHARMA-KOSHA (sânscr.) – texto do monge indiano Vasubandhu (século V) sobre a escola Sarvastivada.

ABHIDHARMA PITAKA (sânscr.; páli, Abhidhamma Pitaka) – compilação de ensinamentos sobre filosofia, psicologia e metafísica. Veja Tripitaka.

ABHIJNA (sânscr.; páli, abhinna) – poderes sobrenaturais, habilidades possuídas por um Buda, um Bodisattva, e um arhat. Geralmente, seis tipos de abhijna são descritos. As primeiras cinco são consideradas como naturais e se referem à realização das quatro absorções (dhyana). A sexta é considerada sobrenatural sendo alcançada somente por uma profunda introspecção (vipashyana). Estes poderes são reconhecidos por mabas escolas, Hinayana e Mahayana. As seis abhijnas são: (1) riddhi (ver); (2) "escuta divina" (percepção de vozes humanas e divinas); (3) percepção dos pensamentos dos demais seres; (4) lembrança de existências anteriores; (5) o "olhar di­vino" (conhecimento dos ciclos de nascimento e morte dos demais seres); (6) reconhecimento daqueles em que houva a extinção de suas impurezas e paixões (asrava), significando sua libertação.

ABHIMUKTI (sânscr.) – libertação do ciclo de nascimento e morte, que permanece somente enquanto os desejos estão presentes.

ABHIRATI (sânscr.) – "Reino da Alegria"; o paraíso do Buda (Akshobhya) no leste do universo. No budismo, os paraísos de Buda, os vários infernos, e outros reinos de existência são descritos não localizaçõas mas como estados de consciência.

ABHISHEKA (sânscr.) – ordenação, iniciação.

ACHAAN, AJAHN – professor ou monge mais velho no budismo tailandês.

ACHARYA (sânscr.; jap., ajari) – professor, mestre.

ADHARMA (sânscr.) – não tendo uma religião.

ADHIMUKTI (sânscr.) – crença, fé ou confiança.

ADHIPRAJNA (sânscr.) – sabedoria superior.

ADHISAMADHI – estabilização meditativa superior.

ADHISILA – éticas superiores.

ADHITTHANA (páli) – decisão, resolução, determinação, vontade.

ADI-BUDDHA – veja Samantabhadra.

a.E.C. – antes da Era Comum, expressão equivalente a antes de Cristo (a.C.) usada pelos ocidentais. Completando: E.C. – Era Comum, igual a d.C.

ADITYA SAMBHAVA (sânscr.) – "nascer do Sol"; nome de um dos Budas no Norte.

ADIVANA (páli) – ao que Shakyamuni chamou ao conjunto de "as más conseqüências, o perigo e a insatisfação".

AGAMA (sânscr.) – "fonte do ensinamento" terminologia Mahayana dada à coleção das primeiras escrituras budistas no cânone sânscrito; ensinamentos iniciais e básicos do Buda, correspondendo ao termo Hina­yana Nikayas, em páli.

AGARRAMENTO AO EM-SI – uma mente conceitual que retém qualquer fenômeno como se fosse inerentemente existente. A mente de agarramento ao em si dá origem a todas as outras delusões, como a raiva e o apego. Ela é a raiz de todo sofrimento e insatisfação.

AGNI – na religião védlca, deus do fogo.

AGREGADO – veja skandha.

AGYO (jap.) – "grandes palavras"; instruções do Mestre Zen para um discípulo. Também se refere a comentários dos Mestres Zen a um específico texto.

AHIMSA (sânscr. e páli) – Princípio de Não-Violência. Respeito a todo ser vivo.

AJANTA (páli) – aldeia da Índia meridional (Haiderabad), com cerca de trinta grutas decoradas com admiráveis afrescos budistas entre 200 e 700 de nossa era.

AJARI (jap.) – o mesmo que acharya (sânscr.).

AJATASATTU (páli; sânscr., Ajatashatru) – foi Rei de Magadha mencionado nos textos páli, que reinou durante os últimos oito anos de vida do Buda Shakyamuni, e por mais vinte e quatro anos depois (494-462 a.E.C.). Era filho da Rainha Vaidehi e do Rei Bimbisara, a quem matou. Junto com Devadatta, Ajatasattu conspirou contra Shakyamuini, sem sucesso. Posteriormente converteu-se ao budismo, divulgando-o.

AKASHA (sânscr.) – espaço que se refere à vastidão do céu; espaço primordial que foge à descrição.

AKSHOBHYA (sânscr.) – literalmente, "o Imóvel"; um dos cinco Dhyani-Buddhas.

AKUSHALA (sânscr.) – demérito, errado, mal, insano; carmicamente pernicioso.

ALARA KALANA – primeiro mestre com que se iniciaram, na Índia, Sidarta e seus cinco companheiros de ascese.

ALAYA-VIJNANA (sânscr.) – "armazém da consciência"; conceito da escola Yogachara para definir uma consciência cósmica que armazena todos os fenômenos; é o oitavo e mais sutil nível de consciência, no qual as "sementes" cármicas são armazenadas.

AMITABHA (sânscr., também Amita; chinês, O-Mi-To; jap., Amida): "luz infinita"; um dos cinco  -Dhyani-Budddhas, Buda de meditação (Dhyaní) da Luz Infinita (Ma­hayana);  é o Buda de misericórdia e de sabe­doria. Um dos mais importantes e populares Budas da tradição Mahayana. O Buda da luz sem limites. Quando alcançou a iluminação, o Buda Amitabha fez 48 votos, o mais importante deles sendo o de estabelecer um lugar onde não houves­se sofrimento para que os seres pudessem cultivar a mente em ambiente de plena paz e assim atingir a ilu­minação. Qualquer um que chame por seu nome com absoluta sinceridade e faça o voto de renascer na Terra Pura Ocidental (Sukhavati) será levado a essa terra perfeita onde passará pelo bem-aventurado estado de viver e aprender o Darma ensinado pelo Buda Amitabha. Seu culto foi instaurado por Sahara, Mestre de Nagar­juna e continua florescente na China. Sua representação gloriosa é Amitayus, Senhor da vida sem limite. Aparece nos Três Sutras da Terra Pura (Amitabha Sutra).

ANAGAMIM (sânscr.; páli) – o não-retorno; o terceiro estágio na realização do Nirvana.

ANAGARIKA (páli) – monge sem casa.

ANANDA (sânscr.) – "êxtase", "felicidade"; primo do Buda Shakyamuni e um dos dez grandes discípulos do Buda. Destacado pela notável capacidade de memorizar e ensinar, e também por sua humildade. Após o parinirvana (morte) do Buda, Ananda compilou os sutras na caverna Vaibhara, localizada em Magadha, Índia, onde os 500 discípulos do Buda estavam reunidos. Este evento ficou conhecido como o 1º Concílio.

ANANTA VIRYA (páli) – "esforço ilimitado"; nome de um Budo no Sul.

ANAPANASATI (páli) – meditação sobre a respiração.

ANATMAN (sânscr.; páli, anatta) – não-eu, não-ego, não-essência; ausência de qualquer indivíduo ou essência independente ou permanente. Veja trilakshana.

ANGUTTARA-NIKAYA (páli) – coleção numérica; uma das seções do Sutra Pitaka.

ANIRUDDHA (sânscr.) – um dos dez grandes discípulos de Shakyamuni.

ANITYA (sânscr.; pāli, anicca; chinês, wu-ch'ang; jap., mujô) – impermanência. Veja trilakshana.

ANTARABHAVA (sânscr.) – veja bardo.

ANUSSATI (páli) – "contemplação"; prática descrita nos sutras Hinayana.

ANUTTARA-SAMYAK-SAMBODHI (sânscr.; jap., anokutara-sanmyaku-sanbodai; páli, anuttara-samma-sambodhi) – anuttara significa supremo e insuperável; samyak-sambodhi refere-se ao supremo despertar perfeito, iluminação insuperável, completa e perfeita, que caracteriza todos os Budas.

ANUTTARA-YOGA – Ioga Superior, a quarta das quatro séries de tantras.

APARÊNCIA DUAL – a aparência de um objeto e de sua existência inerente à mente.

APAYA (sânscr.) – modo inferior de existência; quatro inferiores ou formas demoníacas de existência no ciclo de existência dos seres (gati). Estes são os seres infernais (naraka), fantasmas famintos (preta), ani­mais, e "titãs" (asura).

APEGO – fator mental deludido que observa um objeto contami­nado, considera-o como causa de felicidade e quer possuí-Io.

ARANYAKAS (sânscr.) – "Tratados florestais"; porção dos Vedas relativa aos Brahmanes e destinada aos eremitas.

ARHAN – inimigo destruidor.

ARHAT (sânscr.; páli, arahat, chinês, lo-han, jap., rakan) – "o digno", "o valioso". Ser perfeito, aquele que conseguiu superar o sofrimento do samsara e alcançar o Nirvana; objetivo das escolas não-Mahayana. Pode ser ouvinte (shravaka) ou realizador solitário (pratyeka-Buddha). Alcançou o nível mais elevado do aprendizado budista. Quando se refere ao Buda, significa "merecedor de oferendas", um de seus dez epítetos. De modo geral, arhat é alguém que se devota a alcançar a iluminação como meta individual em contraste com o caminho do bodhisattva, que busca a libertação para todos os seres. O homem de merecimento (Hinayana) que rompe os "dez entraves" segue as "Quatro Vias" e encontra­-se às portas do Nlrvana. Veja Quatro Frutos.

ARIYA (páli) – nobre, superior, ariya atthaangika magga (páli): O Nobre Caminho Óctuplo.

ARIYAN – uma pessoa que se elevou em relação aos seres comuns pelo reconhecimento direto do vazio.

ARMAZÉM DA CONSCIÊNCIA – veja Alaya.

ARUPADHATU ou Arupaloka – veja Três Mundos (triloka).

ÁRVORE BODHI: ou simplesmente Bo – a "árvore da Sabedoria"; é a figueira pipal (Ficus indica), ao pé da qual Gautama atingiu a iluminação em um local agradável, à beira do Rio Neranjara, em Uruvela, perto de Boddh Gaya, atual Bihar; tornou-se Buda aos 35 anos de idade. É o próprio Shakyamuni quem diz, num lugar de nome Uruvela. "Lá, pensei comigo mesmo que era um lugar agradável, de belas florestas, límpidas águas e bons sítios de banho; ao redor, prados e aldeias." Naquele lugar devotou-se ele ao mais severo ascetismo; durante seis anos seguiu a senda dos iogues que já haviam desaparecido do cenário hindu. Viveu de ervas e sementes colhidas no estrume. Reduziu gradualmente a alimentação até chegar a um grão de arroz por dia. Usava roupas feitas dos próprios cabelos, arrancados com tortura; ficava de pé intermináveis horas e deitava-se sobre espinhos. Deixou que o pó e a sujeira se acumulassem sobre o seu corpo, co­mo numa velha árvore. Freqüentava um sítio onde os cadáveres humanos eram expostos à fome das feras e abutres, e dormia entre as carcaças em putrefação. E, de novo, diz ele, "pensei no que seria se eu cerrasse os dentes, comprimisse a língua de encontro ao céu da boca e esmagasse meu espírito com o meu espírito. (Fiz assim). E o suor corria de minhas axilas. (…) Então pensei no que seria se eu praticasse o transe sem respirar. E retive a respiração, fechando a boca e o nariz. E fazendo isso ouvia um violento som de vento em meus ouvidos. (…) Como se um homem forte fosse esmagar a cabeça de alguém com a ponta da espada, assim esse vento perturbava minha cabeça. (…) Então pensei no que seria se eu apenas tomasse alimentos em mínimas quantidades, tanto quanto coubesse na palma de minha mão, caldo de favas, ervilhas, gravanços, legumes. (…) Meu corpo tornou-se extremamente delgado. Quando me sentava, a marca deixada era como uma pegada de camelo. Os ossos da minha espinha, quando me abaixava ou levantava, eram como fusos. E assim como no fundo do poço vemos o brilho da água, assim eram meus olhos vistos no fundo das órbitas. E como a cabaça amarga fenece e fende-se ao sol e à chuva, assim ficou a pele da minha cabeça. Quando eu julgava tocar a pele do meu estômago, eu realmente tocava na espinha. (…) Para aliviar o corpo eu batia nele com as mãos, e ao fazer isso os pêlos mortos caíam do meu corpo, por falta de alimento".

Mas um dia lhe veio o pensamento de que aquela mortificação não era o caminho. Talvez nesse dia estivesse extraordinariamente premido pela fome, ou alguma lembrança amável o agitasse. Percebeu que nenhuma iluminação lhe viera de tanta austeridade. "Por essa estrada eu não alcanço o conhecimento e a nobre introvisão superhumana." Ao contrário, um certo orgulho da autotortura tinha envenenado a santidade que acaso houvesse nascido nele. Buda abandonou o ascetismo e foi sentar-se à sombra de uma árvore (a árvore Bodhi, sob a qual se abrigou Buda, ainda é mostrada aos turistas em Bodh-gaya), e resolveu ficar ali imóvel até que a iluminação sobreviesse. Qual era, indagou ele a si mesmo, a fonte da dor humana, do sofrimento, da doença, da velhice e da morte? Súbito, uma visão lhe veio, da infinita sucessão de mortes e nascimentos do grande rio da vida: viu cada morte anulada por um novo nascimento, cada paz e cada alegria equilibrada por um novo desejo, um novo descontentamento, uma nova dor ou aflição. "Assim, com o espírito concentrado, clarificado, purificado, (…) eu dirigi minha idéia para o ir e vir dos seres. Com visão super-humana, divina, pura, eu vi os seres morrerem e renascerem, altos e baixos, de boa ou má cor, em felizes ou miseráveis existências, de acordo com os seus carmas – isto é, de acordo com a lei pela qual cada ato de bondade ou maldade é recompensado ou punido nesta vida ou em outra encarnação da alma".   

Foi a visão desta aparentemente grotesca sucessão de mortes e nascimentos que trouxe a Buda o desprezo pela vida humana. O nascimento, pensou ele, é a origem de todos os males. E os nascimentos continuam eterna e infindavelmente, reenchendo a corrente da dor humana. Se fosse possível deter o nascimento. (…) Por que não interromper o nascimento? Porque a lei do carma reclama novas reencarnações em que a alma se penitencie do mal feito em existências passadas. Se, entretanto, um homem pudesse viver uma vida de perfeita jus­tiça, de invariável paciência e bondade para com todos, se pudesse atar seus pensamentos às coisas eternas, não os ligando ao que é passageiro, então, talvez, lhe fosse poupado o renascimento, e nele a fonte da vida se secasse. Se um homem pudesse si­lenciar todos os desejos e só procurasse fazer o bem, então a individualidade, essa primeira e pior ilusão humana, podia ser suprimida, permitindo que a alma, afinal, se fundisse com o infinito inconsciente. Que paz no coração liberto de todos os desejos pessoais! E que coração, sem se libertar dos desejos, pode conhecer a paz? A felicida­de é possível, não aqui na terra, como pensava o paganismo, nem em outro mundo, como pensam muitas religiões. A paz só é possível na quietude sem fim do Nirvana".

     E assim, depois de sete anos de meditação, tendo descoberto a causa do sofrimento  humano, o Iluminado foi para a cidade sagrada de Benares, onde, no parque de gamos de Sarnath, começou a pregar aos homens o Nirvana.

ÁRVORE SAL – é a Shorea robusta, árvore que formava o bosque sagrado onde nasceu Sidarta Gautama. Segundo a lenda, a morte de Shakyamuni foi acompanhada de trovão e terremoto e as árvores sal que o ladeavam floresceram fora da estação.

ÁRVORE SHALA: árvore indiana valiosa pela madeira que produz; a expressão refere-se às árvores gêmeas sob as quais o Buda proferiu as derradeiras palavras dirigidas a seus discípulos: "Todas as coisas condicionadas estão sujeitas a degradar-se; procurem manter a consciência em alerta".

ARYADEVA – monge indiano (século III), discípulo de Nagarjuna; um dos fundadores da filosofia Madhyamika.

ARYASATYA (sânscr.; páli, aryasatta) – veja Quatro Nobres Verdades.

ASANGA – monge indiano (450 E.C.), fundador da escola Yogachara, inspirado por Maitreya; irmão de Vasubandhu.

ASAMSKRITA (sânscr.; páli, asankhata) – "incondicionado"; refere-se a tudo que está completamente além da existência condicionada; antônimo de samskrita.

ASAVA (páli) – intoxicação mental.

ASHOKA PIYADASSE (253-232 a.E.C.) – Imperador de toda a Índia (com exceção do sul) da dinastia Maurya. Grande propagador do budismo, mandou gravar os textos budistas em rochedos, colunas e grutas. Ingressou na ordem búdlca por volta de 241 a.E.C.

ASHTAMANGALA (sânscr.) – os oito símbolos auspiciosos.

ASHTA-VIMOKSHA (sânscr.) – as oito libertações.

ASHUBHA (sânscr.) – "desfavorável", "infeliz", "impuro"; antônimo de shubha.

ASHVAGHOSHA – poeta e filósofo; um dos fundadores do Mahayana indiano. Grande poeta budista (80 a.E.C.).

ASITA – veja Kala Devala.

ASKESE – ascetismo; veja dhuta.

ASRAVA (sânscr.; páli, asava) – "transbordamento"; qualquer impureza mental que crie carma.

ASSADA (páli) – ao que Shakyamuni chamou de "o desejo de prazeres dos sentidos".

ASURA (sânscr. e páli) – semi-deus, titã; um dos seis gati. São seres celestiais que, embora tenham bom coração, guardam resquícios de ira; espírito do mal; demônio.

ATISHA DIMPAMKARA SHRIJNANA (979-1054) – (páli.; tib., Jowoje/ Jo Bo Rje) monge indiano, de Bengala, que fundou a escola Kadam do budismo tibetano.

ATI-YOGA (sânscr.) – Ioga primordial, Dzogchen.

ATMÃ (sânscr.) – alma individual (sopro), que é aprisionada num corpo e deve voltar, depois de numerosas transformações, à Alma Su­prema (Paramatmã).

ATTA (páli) – eu, ego, self.

AUM MANI PADMÉ, HUM! – "A Jóia no Lótus, Hum". O Conhe­cimento no Espírito, a Doutrina no Mundo. Fórmula ritual tlbe­tana cuja recitação substitui as boas obras.

AUTO-AGARRAMENTO – mente conceitual que considera todos os fe­nômenos como inerentemente existentes. Ela dá origem a todas as demais delusões, como raiva e apego. É a raiz de todos os sofri­mentos e insatisfações.

AUTO-APREÇO – uma atitude mental que considera o eu como sendo precioso ou importante. É visto pelos Bodhisattvas como o principal objeto a ser abandonado.

AUTO-ILUSÃO – sensação de um eu separado de seu objeto e fixo na natureza. Chama-se ilusão porque, em profunda meditação, o Buda compreendeu que não há, em absoluto, nenhuma entidade fixa, que todas as coisas se encontram em um estado de constante mudança e que, portanto, o eu e o outro não são separados.

AVADANA (sânscr.; jap., abadana) – uma das doze divisões dos ensinamentos budistas. Refere-se àquelas partes dos sutras que relacionam parábolas, alegorias, ou histórias que ajudam à compreensão da doutrina. Avadana indica também as histórias das vidas precedentes de monges, discípulos e demais seguidores de Shakyamuni.

AVAIVARTIKAS (sânscr.) – aquele que não retrocede do ponto onde conseguiu atingir.

AVALOKITESHVARA (sânscr., "aquele que contempla os sons do mundo"; chinês, Kuan-yin, kuan-hsi-yin; jap., Kwannon, kanzeon, kanjizai; tib., Chenrezig/ spyan ras gzigs) – o Bodhlsattva mais venerado no budismo Mahayana; o Bodhisattva da grande compaixão. Fllho espiritual de Amitabha. Encarnou-se em Shakyamuni. Ele pode manifestar-se sob qualquer forma concebível para dar auxílio onde quer que seja necessário. Apesar de originalmente representado como sendo do gênero masculino, no final do século XIII, as imagens chinesas passaram a representá-lo com formas femininas, inspiradas na compaixão maternal.

AVATAMSAKA SUTRA (sânscr.; jap., Kegon-Kyô) – Discurso da Guirlanda de Flores; texto do budismo Mahayana de grade importância para as escolas Hua-Yen e Kegon.

AVIDYA (sânscr.; pāli, avijja; chinês, wu-ming; jap., mumyô) – ignorância, delusão.

AYATANA (sânscr.e páli) – entrada, isto é, os seis órgãos dos sentidos (olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo, mente) e, às vezes, refere-se também aos seus seis objetos (cores, sons, odores, sabores, sensações táteis e pensamentos), abarcando do o mundo epistemológico.


B

B.L.I.A. – "Buddha's Light International Association" (Associação Internacional Luz de Buda), fundada pelo Venerável Mestre Hsing Yün, em 1990, na ilha de Taiwan (República da China), com o objetivo de divulgar o seu budismo humanista. Desde 1992 a sede mundial da BLIA está localizada na Califórnia-USA. No Brasil, a sede fica em Cotia-SP, junto ao Templo Zu Lai.

BALA (sânscr. e páli) – literalmente "poder"; cinco poderes ou faculdades espirituais desenvolvidos pelo fortalecimento das cinco causas (indriya), que torna possível atingir a iluminação. São eles: (1) shraddha; (2) virya; (3)  satipatthana; (4) samadhi; (5) prajna).

BANHO DO BUDA – cermônia realizada principalmente na China no aniversário do Buda histórico – Shakyamuni, no oitavo dia do quarto mês. Nele, uma imagem miniatura de Shakyamuni, sentada em um trono de lótus, com a mão direita voltada para o céu, e a mão esquerda para a terra, é banhada com água e flores que lhe são oferecidas. Toda a sangha participa desta cerimônia. Este costume já era conhecido na Índia e baseia-se na tradição de que imediatamente após seu nascimento, no Bosque Lumbini, nove nagas borrifaram Sidarta com água.

BANKEI  EITAKU YOTAKI – monge Zen japonês (1622-1693) da linhagem Rinzai.

BARDO (tib., bar do; sânscr., antarabhava) – no budismo tibetano, o estado intermediário entre a morte e o renascimento; uma das seis yogas de Naropa (tib., naro chödrug).

BARDO TÖDÖL (tib., bar do thos grol) – Liberação através da Compreensão no Estado Intermediário; popularmente conhecido como o "Livro Tibetano dos Mortos", texto sobre o processo da morte e renascimento.

BASSUI ZENJI – monge Zen japonês (1327-1387) da escola Rinzai.

BENARES – primeiro discurso de Buda Shakyamuni logo após a sua Iluminação. Ocorreu em Sarnath, próximo a Benares. Nele está contido o ensinamento das Quatro Nobres Verdades e o Caminho Óctuplo.

BÊNÇÃO – (tib., jin gyi lab pa) transformação da men­te de um estado negativo para um estado positivo, de um estado infeliz para um estado feliz, ou de um estado de fra­queza para um estado de força, por meio da inspiração dos seres sagrados, como nosso Guia Espiritual, os Budas e os Bodhisattvas.

BHADANTA (sânscr.) – "grande virtuoso"; título respeitoso utilizado na índia para dirigir­-se ao Buda, a bodhisattvas ou a professores do Darma.

BHAGAVAD-GITA (sânscr.) – "Canto do Bem-aventurado"; poema religioso da devoção, incluído na epopéia indiana do Maha-Bharata.

BHAGAVAN (ou Bhagavat) – um dos dez epítetos do Buda. Literalmente, significa "afortu­nado, próspero, feliz, divino, adorável e venerável". Uma vez que o Buda conse­guiu eliminar todas as aflições e impurezas, ele é o mais venerável dos seres.

BHAGAVAT BHAISHAJYAGURU VAIDURYA PRABHA RAJA TATHAGATA – epíteto completo do Buda da Medicina em sânscrito, constituindo o conjunto de qualidades que se refere especificamente ao Buda da Medicina; algumas dessas qualidades, quando aparecem isoladamente, podem se referir a um ou outro Buda.

BHAISHAJYA-GURU-BUDDHA (sânscr.; chinês, yao-shih-fo; jap., yakushi nyorai) – "Buda da Medicina do Puro Brilho Azul Celeste"; no budismo Mahayana, o Buda da medicina, ou Mestre dos Remédios. É geralmente representado com um recipiente medicinal na mão esquerda e fazendo um gesto (mudra) de proteção com a mão direita. É também conhecido como o Buda da Cura. Em vidas anteriores, quando praticava o caminho do bodhisattva, ele fez doze grandiosos votos, destinados a auxiliar os seres sencientes a eliminar o sofrimento causado por enfermidades físicas e mentais e a guiá-Ios rumo à libertação.

BHAKTI (sânscr.) – devoção pessoal; meio de salvação em opo­sição à Via das Obras e à Via do Conhecimento.

BHANTE – senhor, venerável senhor.

BHAVA-CHAKRA (sânscr.) "a roda da vida"; representação iconográfica dos seis reinos (gati) do samsara.

BHAVANA (sânscr. e páli) – meditação.

BHAVANA-MARGA (sânscr.) – veja Yogachara.

BHIKSHU (sânscr.; páli, bhikkhu) – monge.

BHIKSHUNI (sânscr.; páli, bhikkhuni) – monja.

Homens e mulheres que renunciaram à vida leiga e receberam orde­nação plena, tornando-se integrantes da sanga budista. De acordo com o Tratado sobre a Perfeição da Grande Sabedoria, a palavra bhikshu (gênero masculino) origi­na-se da palavra bhiks, "esmolar", e da expressão bhinna-klesa, "eliminação das aflições". Portanto, os bhikshus e as bhikshunis são também chamados de "pedin­tes" ou "aqueles que eliminam as aflições".

BHUMI (sânscr.) –  "terra", "país"; no budismo Mahayana, cada um dos dez estágios do Bodhisattva até alcançar a iluminação (bodhi).

BHUTATATHATA (sânscr.) – "substância da existência"; a realidade, em oposição às aparências do mundo fenomenal. Bhutatathata apresenta-se imutável e eterna, ao passo que as formas e aparências surgem, mudam e desaparecem. Nos tex­tos Mahayana, utiliza-se esse conceito como sinônimo de realidade absoluta ou suprema.

BIJA (sânscr.) – energia; particularmente importante na bija mantra.

BINDU (sânscr.; páli, thigle/ thig le) – no budismo Vajrayana, essência ou gota de energia sutil.

BODH GAYA – aldeia do Behar, onde se realizou a Iluminação de Shakyamuni. Até 1940, ainda se podia ver de pé a figueira (Ficus religiosus, ou Ficus indica) sob a qual se sentou Gautama na suprema meditação.

BODHI (sânscr. e páli; chinês, wu; jap., satori, kenshô) – "o iluminado", "o desperto"; é o estado de quem está desperto para a verdadeira natureza do ser, iluminado em relação à sua própria natureza búdica, tendo já eliminado todas as aflições e ilusões e conquistado a sabedoria.

BODHICHITTA (sânscr.) – "mente da iluminação"; no budismo Mahayana, a mente altruísta que visa beneficiar a todos os seres; a mente do Bodhisattva. Bodhi signi­fica iluminação e chitta, mente. Há dois tipos de bodhichitta convencional e última. De modo geral, o termo refere-se à bodhichitta convencional, uma mente primária motivada por grande compaixão, que busca espontaneamente beneficiar to­dos os seres vivos. A bodhichitta convencional pode ser de dois tipos: aspirativa e engajada. A bodhichitta última é uma sabedoria motivada pela bodhichitta convencional, que realiza diretamente a vacuidade, a natureza última dos fenômenos.

BODHIDHARMA (sânscr.; chinês, P'u-T'i-Ta-Mo; jap., Bodai Daruma) – monge indiano budista que introduziu em 520 E.C. foi a Lo-yang (Ho-nan) fundar o budismo na China; aí ficou conhecido pelo nome Ch'an (em sânscr. Dhyana). Foi o primeiro patriarca do budismo Ch'an e o 28° patriarca do budismo indiano. É a ele que se refere o famoso kung-an "O que significa o patriarca ter vindo do Ocidente?".  Foi o principal teórico da Escola de Meditação do Mahayana.

BODHIPAKKHIYA DHAMMA (páli; sânscr., bodhipakshika-dharma) – as 37 virtudes para a iluminação.

BODHISATTVA (sânscr., páli, Bodhisatta; chinês, P'u-Sa; jap., Bosatsu, Bodaisatta) – sattva: "ser senciente"; bodhi: "iluminado"; ser da iluminação; é a principal característica do budismo Mahayana; ser de grande compaixão que procura ajudar a todos os seres, praticando as seis perfeições (paramita), realizando a mente da iluminação (bodhichitta), e adiando sua passagem para o Nirvana. É alguém que busca alcançar a consciência do Buda, ou libertação.

Bodhisattva da Ilimitada Intenção do Significado (sânscr., Aksayamatir Bodhisattva): literalmente, aksaya significa ilimitado, imensurável ou infinito; matir, que deriva de mati, significa sabedoria. Assim, Aksaymatir é também cha­mado de Bodhisattva da Infinita Sabedoria.

Bodhisattva do Auxílio Salvador (sânscr., Bodhisattva Bhaishajyaraja): o bodhisattva que liberta os seres sencientes do sofrimento resultante de doenças e desastres. Sua manifestação física é vermelha, representada sobre um trono de lótus. Também conhecido como Bodhisattva Rei da Medicina; considerado um bodhisattva da cura, oferece aos seres sencientes medicamentos para curar enfermidades mentais e físicas. OU:

Bodhisattva Rei da Medicina (sânscr., Bhaishajyaraja Bodhisattva): considerado um bodhisattva da cura, oferece aos seres sencientes medicamentos para curar enfer­midades mentais e físicas.

Bodhisattva da Medicina Suprema (sânscr., Bhaishajya-samudgata Bodhisattva): juntamente com o Bodhisattva Rei da Medicina, é o Bodhisattva da Cura.

Bodhisattva da Resplandecente Luz Solar (sânscr., Suryaprabha Bodhisattva): um dos assistentes do Buda da Medicina, cuja manifestação física se dá na forma ver­melha; ele leva na mão direita o disco solar e na esquerda uma flor vermelha.

Bodhisattva da Resplandecente Luz Lunar (sânscr., Chandraprabha Bodhisattva): um dos assistentes do Buda da Medicina, sua manifestação física é branca; apare­ce sentado em um cisne e levando na mão o disco lunar.

BOROBUDUR – grande construção, uma stupa, em forma de mandala, na ilha de Java, Indonésia, no século IX.

BOSATSU (jap.) – veja Bodhisattva.

BRAHMA – qualificação do Brahmã (o Absoluto). Senhor das Coi­sas (Prajâpatl) criadas. Um dos três deuses da tríade hinduísta. Para o budismo é um Deus mundano (deva, em sânscrito).

BRAHMÃ – o Espírito Supremo Universal, objeto da meditação abstrata.

BRAHMA-VIHARA (sânscr. e páli) – meditações ilimitadas; amor (maitri), compaixão (karuna), alegria (mudita) e equanimidade (upeksha). Veja chatvari-apramanani.

BRAHMANA (sânscr., Shataprana) – interpretação sobre o Brahmã: a segunda parte dos textos sagrados védlcos.

BRÂMANES – na Índia antiga, sacerdotes, professores e intérpretes do conhecimento religio­so, que compunham a mais elevada das quatro castas (seguidos pelos xátrias, os guerreiros; vaixás, os lavradores, comerciantes e artesão; e sudras, os servos e escra­vos; não pertenciam a casta nenhuma os "impuros", ou párias).

BUDDHA (sânscr., chinês, Fo; jap., Hotoke, Butsu) – "o desperto", "o iluminado"; aquele que alcançou a iluminação (bodhi), faz parte da Jóia Tríplice (Triratna). Há incontáveis budas no universo. O Buda Shakyamuni foi o Buda histórico que ensinou o Darma na Terra (463-383 a.E.C.).

BUDDHAS PASSADOS – Budas que já entraram no Parinirvana em épocas passadas. Na atual Era, conhecida como Bhadrakalpa ("Era Afortunada"), existirão mil Budas. Quatro já apareceram: Krakucchanda, Kanakamuni, Kasyapa e Shakyamuni, o Buda do nosso tempo.

BUDDHAGHOSHA – monge da escola Theravada (século IV) que estudou no Sri Lanka (ex-Ceilão); autor do Visuddhi-Magga, a Via da Pureza.

BUDDHAHOOD – expressão usada para indicar a realização perfeita da Iluminação que caracteriza um Buda.

BUDDHAPALITA – veja Madhyamika.

BUDDHAT[V]A (sânscr.; jap., busshô) – natureza búdica.

BUDDHO – uma recitaçao do Buda; um exemplo de mantra.

BUDISMO – o Budismo nasceu na Índia, no séc. VI a.C., com Buda Shakyamuni. O Buda Shakyamuni nasceu ao norte da Índia (atualmente Nepal) como um rico príncipe chamado Sidarta. Aos 29 anos de idade, ele teve quatro visões que transformaram sua vida. As três primeiras visões – o sofrimento devido ao envelhecimento, doenças e morte – mostraram-lhe a natureza inexorável da vida e as aflições universais da humanidade. A quarta visão, um eremita com um semblante sereno, revelou-lhe o meio de alcançar paz. Compreendendo a insignificância dos prazeres sensuais, ele deixou sua família e toda sua fortuna em busca de verdade e paz eterna. Sua busca pela paz era mais por compaixão pelo sofrimento alheio do que pelo seu próprio, já que não havia tido tal experiência. Ele não abandonou sua vida mundana na velhice, mas no alvorecer de sua maturidade; não na pobreza, mas em plena fartura. Depois de seis anos de ascetismo, ele compreendeu que se deveria praticar o "Caminho do Meio", evitando o extremo da automortificação, que só enfraquece o intelecto, e o extremo da auto-indulgência, que retarda o progresso moral. Aos 35 anos de idade, sentado sob uma árvore, posteriormente conhecida como árvore Bodhi, em uma noite de lua cheia, ele, de repente, experimentou extraordinária sabedoria, compreendendo a verdade suprema do universo e alcançando profunda visão dos caminhos da vida humana. Os budistas chamam essa compreensão de "iluminação". A partir de então, ele passou a ser chamado de Buda Shakyamuni (Shakyamuni significa "Sábio do clã dos Sakya"). A palavra Buda pode ser traduzida como: "aquele que é plenamente desperto e iluminado".

BUDISMO HUMANISTA – seus Conceitos Fundamentais apresentados pelo Venerável Mestre Hsing Yün: Em 1990 o Venerável Mestre Hsing Yün falou sobre O Budismo Humanista, o fundamento da Ordem Budista Internacional Fo Guang Shan por ele fundada: (…) "o Budismo Humanista não está somente em meu coração; está também sempre em minhas atitudes e pensamentos". 

"Sabemos que o fundador do Budismo, Buda Shakyamuni, é o Buda de nosso mundo. Ele nasceu neste mundo; cultivou seu desenvolvimento espiritual, atingiu a iluminação e partilhou com outros, neste mundo, as profundas verdades que compreendeu. O mundo humano foi enfatizado em tudo o que ele fez. Por que ele não alcançou a condição de Buda em um dos outros cinco reinos? Por que não atingiu a iluminação em um dos outros dez mundos do Darma? Por que, ao invés disso, conseguiu o despertar supremo como um ser humano? Levando esta questão adiante, por que o Buda não alcançou a iluminação num kalpa passado ou futuro? Por que escolheu nosso mundo saha e o presente kalpa? Só pode haver uma resposta: o Buda desejava que os ensinamentos budistas fossem relevantes ao mundo dos humanos. A própria vida do Buda como ser humano nos deu inspiração e um modelo para o caminho espiritual, de modo a fazer, de nossas vidas, uma prática espiritual. O Budismo que o Buda nos ofereceu é humanista, e o Budismo Humanista é a integração de nossa prática espiritual em todos os aspectos de nossa vida diária".

Hsing Yün continua:

"O Budismo Humanista tem as seis seguintes características:

1. Humanismo. O Buda não era um espírito que andava para lá e para cá sem deixar rastros, nem fruto de nossa imaginação. O Buda foi um ser humano vivente. Como todos nós, ele tinha pais, uma família e viveu uma vida. Foi através de sua existência humana que ele mostrou a suprema sabedoria da compaixão; responsabilidade ética e sabedoria intuitiva. Portanto, ele é um Buda que foi também um ser humano.

2. Ênfase na Vida Diária. Em seus ensinamentos, o Buda deu grande importância ao cotidiano enquanto prática espiritual. Ele nos ofereceu orientação para tudo, desde o modo de comer, vestir, trabalhar e viver, até para caminhar, estar em pé, sentar e dormir. Ele deixou instruções claras quanto a todos os aspectos da vida, desde o conduzir nos campos social e político.

3. Altruísmo. O Buda nasceu neste mundo para ensinar, dar exemplo, e trazer alegria a todos. Ele ocupou-se de todos os seres, pois sempre teve, em seu coração e mente, o interesse dos demais. Em resumo, cada pensamento seu, cada palavra ou ação, originou-se de um coração repleto de interesse e consideração pelos outros.

4. Alegria. Os ensinamentos budistas dão alegria às pessoas. Através da infinita compaixão de seu coração, o Buda almejava aliviar o sofrimento de todos os seres e dar-lhes alegria.

5. Oportunidade. O Buda nasceu por uma grande razão: para construir um relacionamento especial com todos nós que vivemos neste mundo. Apesar de ter vivido há aproximadamente 2.500 anos, e ter alcançado o nirvana, ele deixou a semente da liberdade para as futuras gerações. Ainda hoje, os ideais e ensinamentos do Buda servem como guias importantes e oportunos para todos.

6. Universalidade. A vida do Buda como um todo pode ser caracterizada pelo seu espírito de desejar salvar a todos os seres, sem exceção. O Buda amava os seres em geral, fossem animais ou humanos, homens ou mulheres, jovens ou velhos, budistas ou não budistas, etc.

Há um tempo, era difícil para as pessoas compreenderem a relevância do Budismo para suas vidas modernas e diárias. Eu ainda me lembro do diálogo entre o Sr. Shu-ming Liang e o Mestre T'ai Hsu sobre a relevância do Budismo neste nosso mundo humano. O Sr. Shu-ming Liang disse sentir que o Budismo não enfatizava suficientemente os interesses humanos e essa seria a razão pela qual ele abandonara os caminhos do Budismo e focalizara suas atenções no Confucionismo. Quando o Sr. Liang foi convidado pelo Mestre T'ai Hsu para fazer uma palestra na Faculdade Budista Han Ts'ang, o Sr. Liang iniciou o evento escrevendo no quadro negro: ‘Agora, Hoje e Nós'. Disse ele: "Especificamente por estas razões, optei por estudar o Confucionismo. O Budismo fala do passado infinito, do presente e dos kalpas futuros, mas eu acredito que o tempo presente, no qual vivemos, é o mais importante. O Budismo fala do espaço e dos elementos, deste e de outros mundos, dos incontáveis mundos em todas as dez direções, mas eu acredito que é o nosso próprio mundo que devemos purificar. O Budismo fala dos humanos e de todos os seres dos dez mundos-Darma, mas eu acredito que são os humanos os mais importantes'. Após a conferência, o Mestre T'ai Hsu deu o seu parecer sobre a questão. Ele disse que, apesar de o Budismo falar do passado, do presente e do futuro, ele enfoca, particularmente, o bem estar universal dos seres do mundo presente; apesar de o Budismo falar deste mundo e de incontáveis outros, ele enfatiza, particularmente, o bem estar dos seres deste mundo; e apesar de o Budismo falar de todos os seres dos dez mundos-Darma, ele dá maior ênfase aos humanos". O Budismo é uma religião para seres humanos, e a atenção às questões humanas está fortemente na raiz desta religião. Nos vários sutras e shastras, o Buda reiteradamente disse que também ele era um membro da comunidade, de maneira a enfatizar que ele não era um deus. O Sutra Vimalakirti diz: ‘O reino do Buda se encontra entre os seres viventes. Além dos seres viventes, não há Buda. Além da multitude de seres, não há caminho para a Verdade'. O Sexto Patriarca também ensinou que: ‘O Darma está no mundo; compreender o mundo é compreender o Darma. Buscar a iluminação fora do mundo é como procurar chifres num coelho'. Para alcançar a condição de Buda, devemos treinar e cultivar a nós mesmos neste nosso mundo humano. Não há outro meio para se atingir essa condição. Já que tivemos a sorte de renascer como humanos, deveríamos viver nossas vidas em coerência com o Budismo Humanista, integrando nossa prática espiritual ao nosso cotidiano' ".

"Quando dizemos que o Budismo é uma religião para seres humanos, devemos entender que a forma humana é algo a ser valorizado e não menosprezado. Na verdade, o Sutra Lótus usa uma analogia para ilustrar o quão árduo e, ao mesmo tempo, precioso é ter-se nascido como ser humano. O sutra declara: ‘Numa noite escura como breu, uma tartaruga cega espera encontrar uma costa rasa. No vasto oceano e no escuro infinito há apenas um pedaço de madeira. Esse pedaço de madeira tem um buraco. Em cem anos, a tartaruga sobe à superfície apenas uma vez para buscar ar. Somente se ela for capaz de encontrar esse buraco ela conseguirá sobreviver'. No Sutra Agama também está escrito: ‘a quantidade de seres que perdem a forma humana é tão numerosa quanto as partículas de poeira na terra; o número dos que são capazes de alcançar a forma humana é tão escasso quanto a poeira sob uma unha'. Todas estas citações indicam a precariedade e a preciosidade da existência humana".

"Uma vez eu estava num encontro com membros de uma comunidade em São Francisco, e um professor, que fazia parte do grupo, me fez esta pergunta: ‘O Senhor pede a nós, budistas leigos, que trabalhemos no sentido de libertar-nos da roda do renascimento, sendo que esse não é o nosso desejo. O Senhor nos ensina o caminho para alcançar a condição do Buda, quando não é exatamente essa a nossa aspiração. Essas questões são remotas e distantes demais. Nós somos felizes só em poder viver nossas vidas um pouco melhor do que os demais, um pouco mais cultivadamente que os outros'. Esse comentário me perturbou intensamente porque tais pessoas concebem o Budismo como uma religião separada da humanidade. Essa concepção, de que o Budismo se caracteriza pelo isolamento, retiro em florestas, auto-centrismo e individualismo, perdeu toda sua qualidade humanista. Como conseqüência, muitos dos que têm interesse em transpor os portais do Budismo, não ousam fazê-lo; essas pessoas hesitam ao entrar e ficam vagando pelo lado de fora. Precisamos redefinir e redobrar nossos esforços no sentido de ajudar a todos os seres sencientes".

"Os primeiros 100 a 300 anos da história do Budismo foram o período do Pequeno Veículo, porém não do Grande Veículo. Ou seja, o Budismo Theravada era popular enquanto o Budismo Mahayana permanecia obscuro. Os 600 anos seguintes testemunharam a emergência da prática do Grande Veículo, mas não do Pequeno Veículo: o Budismo Mahayana ganhou popularidade, enquanto o Budismo Theravada retrocedeu. Durante os 1.000 anos que se seguiram, desenvolveu-se a prática Tântrica. O Budismo Humanista que eu advogo convida à integração de todos os ensinamentos Budistas desde o tempo do Buda até os dias de hoje, sejam eles derivados das tradições Theravada, Mahayana ou Tântrica".

"O Budismo Humanista é verdadeiramente o estudo do caminho do bodhisattva. O Budismo Chinês há muito vem honrando o caminho do bodhisattva, que o Budismo Humanista incorpora. No decorrer do desenvolvimento do Budismo Chinês, quatro montanhas se distinguiram como pontos de peregrinação. Cada uma dessas montanhas está associada com um bodhisattva em particular: Avalokiteshvara (Kuan-yin), Manjushri (Wen-shu), Samantabhadra (P'u-hsien), e Kshitigarbha (Ti-tsang). Dos quatro, Avalokiteshvara, Manjushri e Samantabhadra se manifestaram como budistas laicos. Somente o bodhisattva Kshitigarbha se manifestou como monge. Por que três dos quatro bodhisattvas se manifestaram como laicos? A resposta está no fato de que, enquanto os monges enfatizam o desprendimento e a transcendência da materialidade, são o otimismo e o engajamento ativo dos budistas laicos que detêm o maior de todos os potenciais para realizar os propósitos do Budismo Mahayana, estando mais próximos do espírito do Buda. Como disse certa vez o Mestre T'ai Hsu a respeito de si mesmo: ‘Não sou um bhikshu, nem me tornei um Buda; gostaria, porém, que me chamassem bodhisattva'. O que ele quis dizer é o seguinte: não ouso me intitular um bhikshu, já que é muito difícil seguir os preceitos de um bhikshu com perfeição. Se me chamarem de Buda, isso não é real, pois ainda não me tornei um. Minha esperança, no entanto, é servir ao próximo como um bodhisattva. Um bodhisattva não é meramente uma estátua de cerâmica a ser venerada num templo, ao contrário, é uma pessoa enérgica, iluminada e gentil, que luta para ajudar todos os seres viventes a libertar-se. Todos nós podemos nos tornar bodhisattvas. É por isso que o mestre T'ai Hsu dedicou sua vida a divulgar as palavras e ideais do Budismo Humanista. Compreender plenamente a maneira de ser de um bodhisattva é o objetivo do Budismo Humanista".

"Para sermos coerentes com o propósito de nos tornarmos bodhisattvas, deveríamos todos lutar para viver numa terra pura. Referimo-nos à Terra Pura da Suprema Bem-Aventurança no Ocidente e à Terra Pura do Azul (Céu) Resplandescente no Oriente. Na realidade, Terras Puras não se encontram somente no Oriente ou no Ocidente. Terras Puras estão em toda parte. O bodhisattva Maitreya tem a Terra Pura de Tushita e Vimalakirti, a Terra Pura da Mente. Muitos de vocês já estão familiarizados com o conceito de uma Terra Pura neste planeta. Ao invés de depositar nossas esperanças em renascer em uma Terra Pura no futuro, por que não trabalhamos na transformação do nosso planeta Terra num mundo puro de paz e plenitude? Em lugar de concentrar todas as nossas energias na busca de algo no futuro, por que não dirigir nossos esforços para a purificação de nossas mentes e corpos aqui e agora, no momento presente? É com esse espírito que Fo Guang Shan propicia o recolhimento a antigos e leais devotos que dedicaram suas vidas à Ordem. Dessa forma, eles não precisam ser necessariamente cuidados pelos seus filhos. Nem precisam esperar pela morte para, finalmente, gozar da Terra Pura do Buda Amitabha. Dizemos a eles: ‘Vocês fizeram muito pelo Budismo. Ocuparemo-nos de vocês lhes oferecendo uma terra pura em vida'. Acredito que os templos e mosteiros de Fo Guang Shan deveriam instilar nesses discípulos a confiança de que a Ordem pode suprir todas as suas necessidades e de que eles podem encontrar a alegria de uma terra pura aqui mesmo. Creio que o Budismo Humanista deve se concentrar mais nas questões deste mundo e menos em questões transcendentais; preocupar-se mais com os vivos do que com os mortos, beneficiar os outros mais do que a si mesmo, assim como objetivar a salvação universal mais do que a própria".

"Independentemente da escola (Theravada ou Mahayana) ou da ênfase (tantras ou ensinamentos gerais), o Budismo deve ter uma dimensão humanista a fim de permanecer relevante em qualquer época. Por atender as necessidades do tempo presente, sem apenas seguir cegamente as tradições, pode ser considerado um farol para o futuro. Agora, mais do que nunca, é importante divulgar os ideais do Budismo Humanista, pois, como observou mestre T'ai Hsu, vivemos no período denominado O Declínio da Compreensão do Darma. Durante o primeiro período do Budismo, o espírito Mahayana do Darma era visto através dos olhos dos shravakas, tradicionalmente chamados de "santos praticantes"; assim, este foi o período da Verdadeira Compreensão do Darma. Em seguida, veio o período da Aparente Compreensão do Darma, quando o espírito Mahayana era visto através dos olhos dos praticantes do "veículo celeste". Nós estamos atualmente vivendo o último estágio do Budismo, quando o espírito Mahayana é visto através dos olhos dos praticantes do "veículo humano". Este é o período do Declínio da Compreensão do Darma. Segundo o Mestre T'ai Hsu, durante este período quando nossa maturidade espiritual é nascente, torna-se importante a compreensão do Darma através da prática em nossa vida diária. Sendo este o caso, eu gostaria de mencionar os seguintes seis pontos, considerando o Budismo Humanista como a aplicação dos ensinamentos budistas a nossa vivência cotidiana".

BUSHIDO – (jap.) Via dos Cavaleiros. Código moral do guerreiro conforme a disciplina Zen.

BUTSU (jap.) – veja Buddha.

BUTSUDAN (jap.) – no budismo japonês, pequeno altar familiar.


C

CAMINHO ÓCTUPLO (sânscr., ashtangika-marga; páli, atthangika-magga) – é o caminho para a libertação do sofrimento (duhkha); é a evolução da última das quatro nobres verdades; é um dos trinta e sete limbos da iluminação; caminho óctuplo: (1) palavra correta (sânscr.: samyag-vach; páli: samma-vacha), (2) ação correta (sânscr.: samyak-karmanta; páli: samma-kammanta), (3) meio-de-vida correto (sânscr.: samyag-ajiva; páli: samma-ajiva), (4) esforço correto (sânscr.: samyag-vyayama; páli: samma-vayama), (5) plena atenção correta (sânscr.: samyac-smriti; páli: samma-sati), (6) concentração correta (sânscr.: samyak-samadhi; páli: samma-samadhi), (7) pensamento correto (samyag-samkalpa; páli: samma-sankappa), e (8) compreensão correta (sânscr.: samyag-dristhi; páli: samma-ditthi).

CANAL CENTRAL – o canal principal no centro de nosso corpo, em que estão localizados os chakras.

CARMA – veja karma.

CARYA – realização, a segunda das quatro séries de tantras.

CATTARI ARIYASACCANI (páli) – Veja "As Quatro Nobres Verdades".

CAUSA, CONDIÇÃO, EFEITO E CONSEQÜÊNCIA NA COMPREENSÃO DO BUDISMO HUMANISTA – o VM Hsing Yün nos diz: "Quando eu estava visitando o exército, alguns dias atrás, os oficiais me contaram que eles têm um problema com o pessoal. Alguns jovens recrutas os questionam dizendo: ‘Eu me alistei no ano passado, junto com ele. Por que ele já é sargento e eu ainda sou soldado? É muito injusto. Temos as mesmas qualificações e nos alistamos ao mesmo tempo. Então, por que a diferença no avanço de nossas carreiras?' Nós deveríamos saber que na lei de causa, condição, resultado e conseqüência, a condição está bem no meio. Quando as condições são diferentes, os resultados serão diferentes. Vamos pensar em duas flores, por exemplo: se a uma for dada mais água e fertilizante, e se ela for plantada em solo mais fértil, então, mesmo que ambas as flores sejam alimentadas pelo mesmo sol, elas crescerão diferentemente. As duas flores são da mesma variedade, porém, devido às condições diferentes, o resultado não é o mesmo. Alguns se queixam de seu destino e condenam o mundo como sendo injusto. Criticam que esse membro da família ou aquele amigo não é bom. Se apenas a origem de seus problemas… Por exemplo, poderiam enxergar que perderam a oportunidade de serem promovidos a sargento por alguma coisa imprópria que disseram. Outro exemplo seria alguém que, mesmo apresentando mais qualificações do que outra pessoa que estivesse disputando a mesma promoção, tivesse sido superado por essa pessoa que se esforçou apresentando qualidade de serviço, adequação de palavras, assumindo grandes responsabilidades em momentos críticos, ganhando portanto, a promoção. O Budismo nos ensina a melhorar nossas condições e a nos relacionarmos melhor com o próximo. Diz-se: ‘Antes de conquistarmos o Caminho do Buda, devemos cultivar bons relacionamentos com os outros'. Em nossa vida diária, deveríamos saber que um simples grão de arroz é o resultado de muitas causas e condições. Deveríamos valorizar cada uma das várias causas e condições. Deveríamos ser gratos a todos que nos deram a oportunidade de estar aqui nesta conferência. Deveríamos ser agradecidos à Faculdade Budista pelo patrocínio e pela afabilidade que torna tão agradável nossa presença aqui".

"Pela manhã, os jornais são entregues em nossas casas. À noite, muitos programas de televisão nos trazem entretenimento e informação sobre acontecimentos locais e globais. Será que aprendemos a apreciar o trabalho dos outros? Imaginem a limitação de visão e a monotonia da vida se essas coisas não estivessem disponíveis. Causas e condições nos habilitam a conectar-nos uns com os outros por todo o mundo. Os esforços e contribuições de muitas pessoas propiciaram a todos nós muitas facilidades. Deveríamos valorizar essas causas e condições. Já que outros trabalharam para oferecer-nos tão boas condições, o que podemos fazer para retribuir essa gentileza? Podemos aprender a agradecer e a verdadeiramente gozar a fortuna e a satisfação de viver, em qualquer lugar e em qualquer tempo. Falando de causa, condição, efeito e conseqüência, a lei de causa e efeito é profunda. Algumas pessoas não entendem a lei de causa e efeito. Alguns recitam regularmente o nome do Buda Amitabha, mas, assim que surge um problema, acusam Buda Amitabha por não tê-los protegido. Eles dizem: ‘Eu fui enganado, roubado e agora estou falido. Por que Amitabha não me protegeu?'; ‘Não ganhei dinheiro na Bolsa de Valores. Onde está o poder de Amitabha?'; ‘Sou vegetariano, mas minha saúde está em declínio. Por que o Buda Amitabha não tem mais compaixão?' No entanto, onde está a conexão entre o fato de se recitar o nome de Buda ou ser vegetariano, e o fato de se ter riqueza, saúde ou viver uma vida longa? Não devemos nos confundir quanto ao que causa que efeitos. Como pode alguém que plantou melões esperar colher feijão? Cantar e manter uma dieta vegetariana encontram-se no reino das causas e efeitos religiosos e morais. Acumular grande fortuna está no domínio das causas e efeitos econômicos. Ter boa saúde ou uma longa vida tem a ver com as causas e efeitos relacionados à saúde. Como podem as pessoas atribuir todos os seus problemas à crença religiosa? É por isso que hoje há muitas pessoas que, por fazerem uma conexão confusa entre certas causas e efeitos, não são capazes de compreender, com precisão, a lei de causa e efeito".

"Certa vez, uma pessoa que passava roubou um coco do quintal de uma família. O proprietário disse: ‘Ei! Como ousa roubar a minha fruta?' A pessoa respondeu: ‘O que você quer dizer com minha fruta? Ela é da árvore!' ‘Mas fui eu que a plantei!', gritou o proprietário. O passante retrucou: ‘O coco que você plantou está na terra. O meu eu tirei da árvore'. Não há, então, uma conexão entre ambos? Causa e efeito estão eternamente ligados um ao outro; não podem jamais ser desconectados. Uma causa, se encontrar boas condições, frutificará. Existe um ditado: ‘Os bodhisattvas temem as causas, os seres viventes temem os efeitos'. Por saber que as causas não podem ser encaradas levianamente, os bodhisattvas não as criam por acaso. Por não temerem as causas, os seres viventes agem sem pensar nos efeitos. No final, eles caem nas profundezas do olhassem um pouco mais de perto suas próprias causas e condições, descobririam a origem de seus problemas… Por exemplo, poderiam enxergar que perderam a oportunidade de serem promovidos a sargento por alguma coisa imprópria que disseram. Outro exemplo seria alguém que, mesmo apresentando mais qualificações do que outra pessoa que estivesse disputando a mesma promoção, tivesse sido superado por essa pessoa que se esforçou apresentando qualidade de serviço, adequação de palavras, assumindo grandes responsabilidades em momentos críticos, ganhando portanto, a promoção. O Budismo nos ensina a melhorar nossas condições e a nos relacionarmos melhor com o próximo. Diz-se: ‘Antes de conquistarmos o Caminho do Buda, devemos cultivar bons relacionamentos com os outros'. Em nossa vida diária, deveríamos saber que um simples grão de arroz é o resultado de muitas causas e condições. Deveríamos valorizar cada uma das várias causas e condições. Deveríamos ser gratos a todos que nos deram a oportunidade de estar aqui nesta conferência. Deveríamos ser agradecidos à Faculdade Budista pelo patrocínio e pela muitas pessoas que, por fazerem uma conexão confusa entre certas causas e efeitos, não são capazes de compreender, com precisão, a lei de causa e efeito".

"Na minha cidade natal em Yang Chou, China, não havia polícia numa área de dezenas de quilômetros, nem tribunais de justiça em centenas de quilômetros. Mesmo assim, crimes e assassinatos eram raríssimos. No caso de um conflito, as pessoas não brigavam ou discutiam. Ao contrário, íamos a um templo e fazíamos um juramento diante dos deuses. Todos nós acreditávamos que isso era justo. Por quê? Porque nós acreditávamos que a lei de causa e efeito resolveria, por si só, a questão. Mesmo quando não havia meios de apelação, todos ficavam em paz. Todos sabíamos que a lei de causa e efeito não nos trairia. Como diz o ditado: ‘Todos os atos, bons ou maus, geram conseqüências; é só uma questão de tempo'.

‘Quando o Buda estava vivo, ele experimentou o fenômeno do envelhecimento, da doença, da vida e da morte, como todos nós. Ele também existiu no reino das causas e efeitos, e portanto, estava sujeito às manifestações de causa e efeito. É importante ter essa noção, uma vez que em face das causas e efeitos, todos somos iguais. Ninguém escapa dessa lei. Há um ditado que diz: "As pessoas abusam dos bons, mas aquele que enxerga a justiça, não. As pessoas temem os maus-caracteres, mas aquele que enxerga a justiça, não.'Quem, ou o que, é este "enxergador da justiça?' No Budismo, o enxergador da justiça é a causa e o efeito. Causa e efeito são sempre equânimes e justos. Nós, que promovemos o Budismo, lutamos para firmemente estabelecer o conceito de causa e efeito, por ser ele bastante científico e racional. Se todos acreditássemos em causa e efeito, isso serviria de polícia e guia de cada um de nós. Causa e efeito seriam, então, o princípio das leis internas de cada pessoa".

CHAKRA (sânscr.) – roda; centro de energia sutil; é um centro focal de onde os canais secundários saem do canal central. Meditar sobre esses pontos causa a entrada dos ventos internos no canal central.

CH'AN (chinês; sânscr., dhyana: "meditação"; páli, jhana; jap., Zen. Ch'an é a abreviação de Ch'anna, transliteração chinesa do vocábulo sânscrito Dhyana. Também é o nome de uma das mais importantes dentre as oito escolas do budismo chinês, que enfatiza a Iluminação, dando-lhe maior destaque do que à prática ritualística. O Venerável Mestre Hsing Yün nos diz: "Entre os oitenta e quatro mil ensinamentos do budismo, o Ch'an (Zen em japonês) é o mais entusiasticamente estudado e discutido no mundo de hoje. Embora uma vez confinado ao leste onde teve origem, nos dias de hoje o estudo do Ch'an captou a atenção e o interesse do ocidente. Por exemplo, muitas universidades dos Estados Unidos estabeleceram grupos de meditação. É encorajador ver que a meditação está se espalhando da reclusão dos monastérios para o mundo moderno, onde está desempenhando papel muito importante.

Descrever o Ch'an não é uma tarefa fácil, porque o Ch'an não é algo que possa ser discutido ou expresso em palavras. No momento em que a linguagem é usada para explicar o Ch'an, não estamos mais considerando seu verdadeiro espírito. O Ch'an está além de todas as palavras, contudo não se pode deixá-lo inexpresso".

Qual é a origem do Ch'an?

"O Ch'an é a forma abreviada da transliteração chinesa do termo sânscrito dhyana, que significa contemplação tranqüila. Originado na Índia, a lenda conta que durante uma assembléia no Pico do Abutre (Grdhrakuta), o Buda apanhou uma flor e, levantando-a, mostrou-a à assembléia sem dizer palavra. Os milhões de seres celestiais e humanos que estavam reunidos na assembléia não entenderam o que Buda queria significar, exceto Mahakashyapa, que sorriu. Assim, o Ch'an foi transmitido sem utilizar nenhuma palavra oral ou escrita: foi transmitido de mente para mente. Mais tarde, o Ch'an foi introduzido na China. Durante a época do Sexto Patriarca Hui Neng, o Ch'an floresceu e desenvolveu-se em cinco escolas, que se tornaram as principais correntes do budismo chinês".

O que é o Ch'an?

"O Mestre Ch'an Ching Yuang disse que o Ch'an é nossa mente. Esta mente não é aquela que discrimina e reconhece as coisas. Ele é nossa "verdadeira mente." Essa verdadeira mente transcende toda a existência tangível, contudo manifesta-se em toda existência do universo. Mesmo as coisas mais comuns no universo estão cheias das sutilezas do Ch'an. O Mestre Ch'an Pai Chang disse que o Ch'an é a vivência diária. Ele disse que rachar lenha, carregar água, vestir-se, comer, ficar de pé e andar, tudo é Ch'an. O Ch'an não é algo misterioso. O Ch'an está relacionado com nossa vida diária. Portanto, cada um de nós pode experimentá-lo. Hoje, o mundo interior das pessoas está freqüentemente em conflito com o mundo exterior, e a vida torna-se um fardo e um aborrecimento. Elas não podem ter prazer e captar os momentos oportunos do Ch'an na vida diária. Em contraste, os mestres Ch'an são bem humorados e interessantes. Apenas com poucas sentenças, eles podem nos livrar de preocupações e inquietação e nos guiar para a verdadeira felicidade. Esta transformação para a felicidade é bem parecida como fazer girar uma máquina complexa simplesmente pressionando um botão. Nenhum conhecimento complicado ou repetitivo é requerido. O estado da mente no Ch'an é muito alegre e vivaz".

Qual é o valor do Ch'an?

"Quando aplicado na vida diária, o Ch'an acrescenta colorido. Expande nossas mentes, enriquece nossas vidas, eleva nosso caráter, ajuda-nos a aperfeiçoar nossa moral e leva-nos ao estado em que estaremos tranqüilos quando nos encontrarmos na beira da vida e da morte. Quais foram então os ensinamentos maravilhosos que os mestres Ch'an legaram por escrito e passaram para nós? Como podemos tentar compreender o deleite do Ch'an através do uso da linguagem?"

Ter e Não-Ter

"Estamos acostumados a pensar que toda existência pode ser diferenciada por nomes e relatadas em termos de dualidade. Na realidade, as coisas não podem ser divididas em metades distintas. Por exemplo, a maior parte das pessoas pensa usualmente que ter e não-ter são dois conceitos opostos; se alguém tem então ele não pode estar no estado de não-ter; se alguém não tem então ele não pode estar no estado de ter. Para elas ter e não-ter não são coexistentes. A fala e o comportamento dos mestres Ch'an transcendem os conceitos comuns de ter e não-ter abraçando estes conceitos aparentemente opostos e alcançando um nível mais alto de "ter" e "não-ter." Suas visões são diferentes daquelas das pessoas comuns; se nós nos aproximarmos deste modo de pensar com o nosso conhecimento habitual, não seremos capazes de entender verdadeiramente os mestres Ch'an. Quando o Quinto Patriarca quis passar o manto e a tigela, símbolos do Darma, a um sucessor, ele pediu a cada um de seus discípulos que escrevesse um verso no qual poderia julgar quem, entre eles, tinha realizado a Verdade. O manto e a tigela apenas seriam entregues àquele que se tornaria o Sexto Patriarca. Seu discípulo mais velho, Shen-hsu, escreveu o seguinte verso:

O Corpo é uma árvore Bodhi

A mente é um espelho brilhante

Mantenha-o sempre cuidadosamente limpo

Para a poeira nele não assentar

Depois de ler este verso, todos elogiaram Shen-hsu dizendo que seu estado de mente era na verdade superior. O Quinto Patriarca pensava de modo diferente e disse ‘Não é mau, mas o escritor dessa obra ainda não viu o caminho'.

Hui Neng, que trabalhava no moinho de arroz, pediu nessa noite que alguém escrevesse também seu verso na parede:

Bodhi não tem nada a ver com árvores

E a mente não é um espelho brilhante

Desde que nada existe,

Como pode a poeira assentar

Depois de ler este verso, o Quinto Patriarca sabia que Hui Neng tinha visto a natureza vazia de todos os Darmas e entrado no caminho de Buda. Assim, ele entregou o manto e a tigela da linhagem da escola Ch'an a Hui Neng que se tornou o Sexto Patriarca".

"Shen-hsu possuía um bom entendimento dos princípios do Ch'an e era o chefe dos discípulos do Quinto Patriarca. Como o Quinto Patriarca também havia instruído os outros discípulos a praticar de acordo com os versos de Shen-hsu todos do monastério esperavam que ele, certamente, se tornasse o Sexto Patriarca. Em vez disso, o Quinto Patriarca escolheu Hui Neng de quem ninguém ouvira falar antes. Embora Shen-hsu tivesse alcançado um estado espiritual elevado, ainda estava apegado à mente de ter e seu conhecimento do Ch'an ainda não era o mais elevado. O caminho último é aquele que integra o ter como o vazio (shunyata). Esta é a diferença entre a mente Ch'an e a mente comum. Apenas quando pudermos transcender o ter e o não-ter é que poderemos realizar a mente Ch'an última e experimentar a maravilhosa verdade do Ch'an".

"Vamos ilustrar com outro caso bem conhecido na história do Ch'an. Um dia, alguém perguntou ao Mestre Ch'an Chao Chou: ‘O que significa Chao Chou?'

Chao Chou respondeu: ‘Portão leste, portão oeste, portão sul, portão norte'.

Essa resposta pareceu totalmente irrelevante, mas de fato, esta verdade dos quatro portões tinha um significado oculto. Queria dizer que o Ch'an de Chao Chou era muito vasto e não era limitado por qualquer escola particular. O Ch'an não é, de modo algum, confinado pelo espaço".

"Alguém perguntou a Chao Chou: ‘Os cães têm a natureza de Buda?'

Chao Chou respondeu: ‘Sim'.

Uma outra pessoa fez-lhe a mesma pergunta: ‘Os cães têm a natureza de Buda?'

Desta vez, Chao Chou respondeu: ‘Não'.

Por que o Mestre Ch'an Chao Chou deu duas respostas diferentes para a mesma pergunta? Do ponto de vista terreno, era bastante contraditório, mas para o Mestre Ch'an Chao Chou, elas eram um modo vivo de ensinar. Quando ele disse: sim queria dizer que os cães têm o potencial para se tornar Budas. Quando ele disse não, significava que os cães ainda não tinham se tornado Budas. Ao responder uma pergunta, os mestres Ch'an têm o cuidado de determinar a intenção e o estado de mente da pessoa que faz a pergunta antes de dar a resposta apropriada".

"O Imperador Wu, da Dinastia Liang, era um dos mais devotados budistas da história chinesa. Durante seu reinado ele construiu muitos templos, estátuas de Buda, estradas e pontes. Foi nessa época que Bodhidharma veio da Índia para a China a fim de propagar o Darma. O Imperador Wu perguntou-lhe: ‘eu fiz muitas coisas boas, quais os méritos que acumulei?' Bodhidharma respondeu friamente: ‘Nenhum mérito, de modo algum'. O Imperador não ficou muito feliz com a resposta e insistiu outra vez. Mais tarde, Bodhidharma foi embora porque não podia se entender com o Imperador Wu. Realmente como era possível que os bons feitos do Imperador Wu não tivessem produzido nenhum mérito? Quando Bodhidharma disse: "nenhum mérito, de modo algum", ele queria dizer que na mente de um mestre Ch'an não há este conceito dualístico de ter e não-ter, como é experimentado pela mente comum".

"De modo geral, percebemos e diferenciamos as coisas através de nossos sentidos. Por exemplo, quando olhamos para uma montanha ou um rio, vemos apenas uma montanha ou um rio. Depois que começamos a praticar o Ch'an, percebemos que tudo na existência é ilusório. Neste ponto, a montanha não é mais montanha e o rio não é mais um rio. Quando alcançamos completa realização, todos os conceitos relativos de é e não é, mente e matéria, tornam-se completamente integrados. Neste ponto, a montanha é outra vez uma montanha e o rio é outra vez um rio. A mente do Ch'an tornou-se unificada com o ambiente externo. O som que flui dos rios torna-se o Darma maravilhoso. Montanhas verdes tornam-se os corpos puros dos Budas. O mundo do Ch'an é ilimitado quando a relativa fronteira do ter e não-ter é destruída".

Movimento e Imobilidade

"A doutrina básica do budismo são os Três Selos do Darma, que declara que ‘Todos os samskaras (agregados) são impermanentes'. ‘Todos os darmas não têm um eu substancial', e ‘O nirvana é a paz verdadeira'. O objetivo último de estudar o budismo é alcançar o estado de paz perfeita, nirvana. A ‘perfeita paz' é diferente do conceito de imobilidade. Em nossa vida diária, quando dizemos que aquele determinado objeto está se movendo, enquanto aquele outro está imóvel, é devido à ação da mente. Todos os fenômenos são criados por nossa mente. De fato, os fenômenos, eles mesmos, não fazem distinção entre o que está se movendo ou o que está imóvel. O que faz a distinção de ser é o apego em nossa mente que é causado pela ilusão. Se nós pudermos nos livrar deste apego, nossa mente estará então em paz e tudo ficará em harmonia".

"Depois que Hui-Neng, o Sexto Patriarca, recebeu o manto e a tigela do Quinto Patriarca, ele se escondeu durante quinze anos antes de começar a ensinar. Um dia, quando chegou ao templo, ele viu duas pessoas discutindo calorosamente em frente a uma bandeira. Questionavam-se por que a bandeira estava se movendo. Um deles dizia: ‘Se não houver vento, como poderá a bandeira se mover? Assim, é o vento que está se movendo'. O outro disse: ‘Se a bandeira não se move, como pode você saber se o vento está soprando? Portanto é a bandeira que está se movendo'. Nesse ínterim, Hui-Neng ouvia pacientemente seus argumentos. Finalmente, lhes disse: ‘Por favor, não discutam mais. Não é o vento nem a bandeira que está se movendo. É sua mente que se move'. Desta troca de palavras, podemos ver como os mestres Ch'an observam o mundo: eles olham dentro de si, mais do que para a aparência superficial dos fenômenos. Afinal, os fenômenos existem de maneira transitória e fragmentada. A diferença surge em nossas mentes por causa da agitação de nossos pensamentos. Quando nossas mentes estão tranqüilas, os objetos não são capazes de fazer distinções por si mesmos. Contudo, quando nossas mentes estão agitadas, diferenciamos os fenômenos, causando distinção e separação entre nós e os outros. Portanto, a chave para realizar o estado no qual o movimento e a imobilidade estão em harmonia, e não mais diferenciado, é quando tivermos de fato eliminado todas as discriminações que surgem das diferenças percebidas. Deste modo podemos alcançar a paz perfeita".

"O Imperador Hsien Tsung da Dinastia T'ang era um budista muito devotado e queria mandar alguém a Feng Hsiang para buscar alguma das relíquias de Buda. Yu Han, um oficial do governo, tentou dissuadir o imperador dessa empreitada. Hsien Tsung ficou muito zangado com ele e demitiu-o do posto da província de Ch'ao Chou".

"Ch'ao Chou estava localizada na parte sudeste da China, que não era muito civilizada naquele tempo. Contudo, um monge bem educado e muito culto chamado Mestre Ch'an Ta Tien estava vivendo lá. Era muito respeitado pelas pessoas do local. Sendo um Confuciano erudito, Yu Han era muito orgulhoso de si e, naturalmente, desprezava o Mestre Ch'an. No entanto, já que não havia ninguém vivendo perto de Ch'ao Chou com quem ele pudesse ter uma conversa inteligente, ele, relutantemente, foi visitar o Mestre Ch'an". 

"Quando Yu Han chegou ao templo, o Mestre Ch'an estava meditando. Yu Han não queria perturbá-lo, assim, decidiu ficar do lado de fora e esperar. Depois de um longo tempo, o Mestre Ch'an ainda permanecia imóvel. Yu Han começou a ficar impaciente. Vendo isso, o discípulo do Mestre Ch'an murmurou para o mestre: ‘Primeiro, modifique-se através da meditação concentrativa, depois erradique a arrogância através da sabedoria'. Isto foi dito para o mestre Ch'an, porém, de fato, foi dirigido a Yu Han. O que o discípulo estava indiretamente dizendo era: A meditação do Mestre é um ensinamento sem valor para você; ele está testando sua paciência. No momento em que você passar no teste, ele usará suas palavras de sabedoria para livrá-lo de sua arrogância. Neste momento, Yu Han ficou convencido de que a erudição e a cultura do Mestre Ch'an era uma verdade profunda. Eles mais tarde tornaram-se bons amigos".

"Pelos exemplos acima, podemos ver que na mente dos mestres Ch'an, mobilidade e imobilidade são intrinsecamente unidas. Este entendimento é refletido no modo como eles ensinam. No decurso de seus ensinamentos, os Mestres Ch'an, algumas vezes, instruem pelo silêncio e outras através de poderosas pregações, como o rugir de um leão. Cada movimento de um Mestre Ch'an é cheio de sutilezas do Ch'an – seja um lembrete curto, gentil ou uma reprimenda vigorosa; um avanço ou um recuo de uma postura; uma pergunta ou uma resposta; um franzir de sobrolho ou um sorriso; beber chá ou comer arroz. Para a maior parte de nós, nossas experiências diárias de vida tendem a convencer-nos que mobilidade e imobilidade são dois estados distintos. Contudo, mobilidade e imobilidade, como acontece através da meditação concentrativa do Ch'an são uma verdade unificada, perfeitamente livre e natural".

Prática e Compreensão

"Algumas pessoas dizem que o budismo é uma filosofia. Essa é uma afirmação do ponto de vista intelectual; contudo, a real essência do budismo é a prática. A Verdade pode ser realizada apenas através da prática".

"O real espírito do budismo perder-se-á se nos limitarmos apenas ao estudo das doutrinas e negligenciarmos a prática religiosa. Para um praticante genuíno do budismo, discussões intelectuais sobre o budismo sem levar em conta a prática é apenas uma forma frívola de debate e deveria ser evitado. Se tratarmos o budismo meramente como uma filosofia, nunca experimentaremos sua essência. Porque no budismo, compreensão e prática são igualmente enfatizadas. Na escola Ch'an, o que é importante é a experiência da prática real, e não a crença na linguagem escrita ou falada".

"Na escola Ch'an, o cultivo e a realização do Caminho são esforços pessoais. Quanto mais extenso for o cultivo, mais perto estaremos do despertar. Se insistirmos apenas na teoria ou simplesmente decorarmos o que foi ouvido, não conseguiremos nenhum resultado. É como levar um cavalo sedento para beber água; se ele se recusar a beber, eventualmente morrerá de sede. De igual modo, todos os ensinamentos nos sutras budistas servem como uma bússola para guiar-nos em direção à verdade. Depois de compreendê-los precisamos praticá-los de acordo com o que aprendemos para provar do doce orvalho do Darma. Portanto o ditado seguinte lembra-nos que praticar é ‘como beber água – apenas você saberá por si mesmo se ela é fria ou quente'. Se quisermos verdadeiramente compreender o budismo e o Ch'an, compete-nos praticar e alcançar a realização. Ninguém pode nos dizer o que o budismo e o Ch'an realmente são".

"Como os mestres Ch'an praticam e alcançam a realização? Eles atingem a realização vivendo na comunidade da Sangha e praticando a cada momento de suas vidas cotidianas. Os virtuosos do passado sempre diziam: ‘Apanhar lenha e carregar água tudo é Ch'an. Em nossa vida diária, podemos praticar enquanto colocamos nossas roupas, fazemos nossas refeições, acordamos, dormindo e mesmo indo ao banheiro'. O começo do Sutra do Diamante descreve como Buda levava uma vida de sabedoria enquanto colocava seu manto, carregava sua tigela, e saía para pedir esmolas. Assim como todos nós, as pessoas iluminadas têm que colocar roupas e comer; no entanto, elas fazem isso de modo completamente diferente do resto de nós. Assim dizem que o budismo não é para ser encontrado fora da vida do mundo".

"Nós sempre acalentamos a concepção errada de que temos que nos entranhar nas montanhas ou florestas para praticar e alcançar a realização. Realmente, não precisamos nos isolar para praticar. Se pudermos extinguir o fogo do ódio em nossos corações e mentes, então todo ambiente no qual nos encontrarmos será um lugar fresco e confortável. Podemos até praticar no meio do mercado mais barulhento".

"Se tivermos um entendimento completo dos ensinamentos do budismo e se praticarmos de acordo com eles, seremos capazes de fazer duas vezes mais progressos com metade do esforço. Por exemplo, o ensino básico do budismo é a Gênese Condicionada, que significa que todo fenômeno existente neste universo acontece devido à reunião de condições e causas apropriadas e cessarão de existir quando as causas e condições necessárias não estiverem mais presentes. Não há tal coisa como um criador do universo para moldar os eventos de nossas vidas; é a nós que compete fazer os requeridos esforços".

"Do ensinamento da Gênese Condicionada, podemos inferir que todos os seres são iguais e têm a Natureza de Buda. Todos os seres têm o potencial de se tornarem Buda. O processo que leva à purificação deste potencial é dependente da determinação e prática do indivíduo. Nossas próprias ações determinam nosso futuro. Assim, o correto entendimento e a prática diligente do ensinamento budista ajudar-nos-ão a desenvolver uma perspectiva progressista e positiva".

"Do ensinamento da Gênese Condicionada, podemos também inferir que este universo é uma harmoniosa unidade. Todos os fenômenos e todos os seres são interdependentes. Com este entendimento, podemos facilmente ver como a centralização é contraditória à harmonia e porque a distinção entre ‘eu' versus ‘outros' deveria ser abolida. A fim de viver em harmonia com os outros, deveríamos direcionar nossos cuidados e ajudá-los e não ficarmos centrados em nós mesmos".

Pureza e Impureza

"A própria natureza não faz nenhuma distinção entre pureza e impureza, ou beleza e feiúra. São nossas preferências e aversões subjetivas que fazem a distinção. É dito no Sutra Vimalakirti: ‘Quando nossa mente for pura, a terra será pura'. As mentes comuns, contudo, são nubladas pelas ‘cinco poeiras' (os objetos que são percebidos pelos cinco sentidos) e enganadas pela aparência exterior de todos os fenômenos, evitando que a natureza de todos os darmas seja vista. As mentes dos mestres Ch'an realizados são puras e desobstruídas. Suas mentes são a Mente de Buda e elas podem ver a natureza real de todas as coisas. Para eles não há diferença entre bem e mal, beleza e feiúra, errado ou certo, enquanto que um ser comum vê o mundo corrupto e impuro. Os mestres Ch'an vêm o mundo como a terra pura de Buda".

"O estado Ch'an da mente não é alguma coisa que se pode fingir ou argumentar. Uma vez o mestre Ch'an, Chao Chou fez uma aposta com um discípulo seu, Wen Yen. Quem pudesse comparar-se com a coisa mais baixa e insignificante seria o vencedor.

O mestre Chao Chou disse: ‘Eu sou um burro'.

Wen Yen disse: ‘Eu sou o traseiro do burro'.

Chao Chou disse: ‘Eu sou o excremento do burro'.

Wen Yen disse: ‘Eu sou a larva dentro do excremento'.

O mestre Chao Chou ficou aturdido e não pôde continuar, mas perguntou:

‘O que você está fazendo no excremento?'

Wen Yen respondeu: ‘Estou me refrescando do calor do verão!'

Como as mentes dos mestres Ch'an são puras, eles se sentem confortáveis até mesmo nos lugares considerados os mais imundos. Para eles, todos os lugares são a terra pura; portanto, sentem-se livres onde quer que vão".

"Um dia, o Mestre Ch'an Yi Hsiu saiu com seu discípulo. Os dois chegaram à praia de um rio onde uma mulher estava hesitando atravessar a corrente veloz da água. Por compaixão, o Mestre Yi Hsiu carregou a mulher através do rio em suas costas. Tendo feito isso, mais tarde esqueceu-se do fato. Seu discípulo, contudo, estava muito incomodado pelo fato do mestre ter carregado uma mulher em suas costas. Um dia, o discípulo disse ao Mestre Yi Hsiu: ‘Mestre, uma coisa está me incomodando muito. O senhor pode me ajudar a resolver este problema?'

O Mestre Ch'an respondeu: ‘Oh! O que é?'

O discípulo disse: ‘O senhor sempre nos ensinou a guardar distância de mulheres. Mas há vários meses atrás, o senhor carregou uma mulher através do rio. Isto não é contraditório a seus ensinamentos?'

Ao ouvir isso, o Mestre Ch'an Yi Hsiu exclamou: ‘Ah! Eu apenas carreguei aquela mulher de um lado do rio para o outro e ela ficou lá, mas você, coitado, tem-na carregado por aí em suas costas por vários meses!'

Por esta história, podemos ver que o estado de mente dos mestres Ch'an é aberto e indiscriminado. Os mestres Ch'an não discriminam entre o puro e o impuro, o macho e a fêmea. Eles compreendem que a mente, o Buda, e todos os seres são iguais".

CH'AN: CARACTERÍSTICAS – o Venerável Mestre Hsing Yün, fala-nos sobre as "Características Singulares do Budismo": "Toda religião tem sua doutrina e sua filosofia. O Budismo é uma religião e, portanto, também tem uma doutrina abrangente e uma filosofia profunda. Chamamos de características singulares do Budismo justamente os aspectos dos ensinamentos da doutrina e da filosofia budistas que diferem dos de outras religiões".

I.  A Primeira Característica: O Carma (ou Karma)

"O carma é um ensinamento budista fundamental. É a sua mais importante característica e, ao mesmo tempo, a mais complexa e a mais freqüentemente mal compreendida. Carma é um termo sânscrito que significa ação ou ato. Qualquer ação física, verbal ou mental executada com uma intenção pode ser chamada de carma. Em outras palavras, pode-se dizer que carma é qualquer volição moral ou imoral, ou qualquer ação, reação ou resultado volitivo.

Antes de falarmos sobre carma, é necessário compreender que o corpo, a fala e a mente são os três mestres do carma, pois são eles que executam as ações ou atos que o constituem. Como exemplos de carma realizado pelo corpo, podemos citar: assassinato, roubo e má conduta sexual. Mentira, conversa frívola, difamação e palavras ásperas são exemplos de carma realizado pela fala. Entre os exemplos de carma realizado pela mente, pode-se incluir cobiça, raiva e ilusão. Na verdade, nem sempre o carma é um ‘mau' carma. Tanto a felicidade quanto o sofrimento na vida de alguém são determinados pelo carma de seu corpo, fala e mente.

‘Tipos de carma' – O carma pode ser categorizado, com base nas características das ações, em positivo, negativo ou neutro.

Carma positivo é o que segue a moralidade e é benéfico a todos.

Carma negativo é qualquer ação que prejudique alguém.

Carma neutro são ações que não possam ser definidas como sendo boas ou más, como, por exemplo, aquelas que não têm uma intenção consciente.

Uma vez que o carma é a resposta da volição, as sementes de carma positivo e negativo realizados pela volição encontram-se armazenadas no alaya-vijnana, o "armazém da consciência". Tais sementes manifestam-se quando surgem as condições apropriadas. A manifestação dessas sementes é o fruto do carma. O carma que causa sofrimento é chamado de carma maléfico e resulta em renascimento nos três reinos maléficos da existência. O carma que causa felicidade é chamado de carma abençoado e resulta em renascimento no mundo humano ou no celestial. Aqueles que alcançam o samadhi (concentração meditativa) ceifam o renascimento nos mundos da forma e da não-forma e permanecem em samadhi. O carma desses seres é denominado carma imóvel".

"O carma pode, também, ser classificado de acordo com o momento em que amadurece. Existem três dessas categorias: o carma que amadurece nesta vida, o carma que amadurecerá na próxima vida e o carma que amadurecerá em vidas futuras. O carma que amadurece nesta vida refere-se ao conjunto de ações realizadas cujos frutos amadurecerão ainda nesta vida. O carma que amadurecerá na próxima vida refere-se ao conjunto de ações cujos frutos amadurecerão na vida imediatamente posterior a esta. O carma que amadurecerá em vidas futuras refere-se às ações presentes cujos frutos amadurecerão após duas ou mais vidas. Isso demonstra que, do ponto de vista temporal, quer seja passado, presente ou futuro, nenhum efeito de nenhuma ação é extraviado. O fruto amadurecerá de acordo com o carma realizado. O bem gera o bem; o mal gera o mal. Ninguém está isento da Lei de Causa e Efeito. Quem conhece agricultura sabe que os frutos de algumas plantas já podem ser colhidos depois de apenas um ano do plantio; os de outras, depois de dois anos; e ainda há outras plantas cujos frutos só podem ser colhidos depois de muitos anos".

"Há quem não compreenda totalmente a Lei de Causa e Efeito e alegue que existem pessoas bondosas, que realizam atos benfazejos e, ainda assim, vivenciam muitos sofrimentos e infortúnios. E que, ao mesmo tempo, pode-se observar que outras agem de forma nociva e, ainda assim, têm uma vida confortável e livre. Concluem, portanto, que a Lei de Causa e Efeito de forma nenhuma se aplica. Alguns chegam mesmo a dizer: ‘Será possível que, em pleno século XX, ainda se acredite em superstições como causa e efeito?' Essas pessoas não percebem que tudo o que existe neste mundo depende da Lei de Causa e Efeito. Mesmo sendo muito complexa, a relação entre causa e efeito funciona de forma bastante ordenada e precisa".

"Há duas razões pelas quais os frutos do carma podem amadurecer em momentos diferentes. A primeira é a força da causa, que determina quando o efeito surgirá. Por exemplo, se uma semente de melão e outra de pêssego forem plantadas ao mesmo tempo, a de melão germinará e produzirá frutos no mesmo ano; no entanto, vários anos se passarão até que o pessegueiro que crescer daquela semente, frutifique. O segundo motivo pelo qual o fruto do carma amadurece em momentos diferentes é que as condições podem ser fracas ou fortes. Caso todas as condições necessárias estejam presentes, o fruto amadurecerá mais cedo; caso contrário, o amadurecimento tardará. Seja como for, diz um ditado budista: ‘Todos os atos, bons ou maus, geram conseqüências. É só uma questão de tempo'". 

"A Lei de Causa e Efeito é inexorável. Uma determinada causa resulta, inevitavelmente, em um determinado efeito: não há exceção. Uma pessoa boa sofre nesta vida porque sementes maléficas que plantou no passado estão amadurecendo agora. Assim, é necessário que sofra no presente. Mesmo tendo realizado inúmeras boas ações nesta vida, pode ser necessário esperar a próxima vida, ou vidas futuras, para colher os efeitos dessas boas ações.  Talvez as sementes dessas boas ações não tenham tido forças para frutificar nesta vida. Ao contrário, alguém que tenha realizado muitas más ações nesta vida pode, ainda assim, estar gozando uma vida boa. Isso acontece porque as boas sementes que ela plantou em suas vidas anteriores estão amadurecendo agora e, portanto, ela está usufruindo os frutos dessas boas ações passadas. As sementes maléficas que plantou nesta vida amadurecerão em vidas futuras".

"Portanto, podemos concluir que a Lei de Causa e Efeito tem dois aspectos essenciais. Primeiro: causas e efeitos são indestrutíveis. Uma vez que ações tenham sido realizadas, sejam elas boas ou más, as sementes desses atos serão armazenadas no alaya-vijnana e se manifestarão quando as condições adequadas se fizerem presentes. Segundo: as ações boas e más não compensam umas às outras. As sementes maléficas que já foram plantadas originarão frutos malignos. Elas não podem ser anuladas através de boas ações. A única coisa que podemos fazer é realizar mais boas ações e assim acumular mais condições positivas. Dessa forma, a gravidade dos frutos de nossas más ações será atenuada; ou, caso muitas boas ações estejam acumuladas, o fruto benigno amadurecerá mais rapidamente e as condições negativas serão enfraquecidas. Façam a seguinte associação: se vocês adicionarem bastante água doce a um copo de água salgada, a água doce vai diluir a salgada, tornando-a, assim, menos concentrada. O mesmo acontece com atitudes positivas e negativas. Portanto, é muito importante fazer boas ações e acumular condições positivas".

"Algumas pessoas têm expectativas errôneas quanto à Lei de Causa e Efeito. Por exemplo, alguns budistas dizem: ‘Fui vegetariano a vida inteira. De que me serviu? Hoje estou falido!' Outros dizem: ‘Já sou budista há muito tempo. Recito o nome do Buda, prostro-me diante dele e, ainda assim, minha saúde não melhora'. Alguns chegam a dizer: ‘Pratico o vegetarianismo e recito o nome do Buda, contudo meus filhos são desnaturados e indolentes'. Falta, nesses casos, um entendimento de causa e efeito. Essas pessoas não sabem que a moralidade é governada por um tipo de causa e efeito, a condição econômica, por outro tipo de causa e efeito e a saúde física, pelas causas e efeitos relacionados a ela. Se querem ser saudáveis, devem cuidar da alimentação, exercitar-se adequadamente e ter hábitos higiênicos. Se não cuidarem desses fatores e acreditarem que a mera recitação do nome do Buda Amitabha vai lhes trazer boa saúde, vocês têm uma compreensão distorcida do princípio de causa e efeito. Se quiserem ser bem-sucedidos financeiramente, é necessário que adotem práticas eficientes de administração financeira. Vocês não devem esperar enriquecer simplesmente porque são vegetarianos. Esse é outro exemplo de compreensão distorcida. Se não cuidarem bem de seus filhos, educando-os e ensinando-os, não esperem que eles se tornem pessoas respeitosas e membros produtivos da sociedade. Seria também um raciocínio distorcido. Causa e efeito não erram. Nem se usássemos uma calculadora eletrônica, ou um computador, para somar as boas e as más ações de alguém, o resultado seria tão preciso quanto o da Lei de Causa e Efeito".

"Os efeitos cármicos que se manifestam no momento da morte podem ser divididos em carma ponderado, carma habitual e carma recordatório. Carma ponderado significa que o indivíduo realizou bom e mau carma e o que tiver mais peso vai se manifestar primeiro. O carma habitual vai se apresentar de acordo com os hábitos cotidianos de cada um. A escola de Budismo Terra Pura ensina as pessoas a recitarem sempre o nome do Buda Amitabha para que essa prática se torne um hábito, e para que elas assim o façam também no momento da morte e renasçam na Terra Pura. O carma recordatório manifesta-se de acordo com a memória individual. Por exemplo, quando alguém caminha por uma rua e chega a uma encruzilhada, pode não saber qual direção tomar. De repente, lembra-se de que tem um amigo que mora na rua que segue à esquerda, e então vai nessa direção. Da mesma forma, ao morrer, a pessoa pode ser guiada por seu carma recordatório".

"O carma é certamente o que determina se um indivíduo renascerá como ser humano. O fato de termos nascido seres humanos é o resultado da propulsão de nosso carma. Em outras palavras, a propulsão do carma é a força que nos leva a renascer como seres humanos, e não como cães ou cavalos. Apesar de sermos todos humanos, temos diferenças individuais: podemos ser inteligentes ou tolos, virtuosos ou indisciplinados, ricos ou pobres, bem ou mal nascidos. Todas essas variações refletem diferenças no carma realizado pelos indivíduos em suas vidas passadas. Aqueles que foram generosos em vidas passadas tornam-se ricos; aqueles que mataram terão uma vida curta como conseqüência. O carma que ‘finaliza os detalhes' de nossos renascimentos é chamado de carma de preenchimento".

"Outra categoria é a do carma individual ou coletivo. O carma realizado por uma única pessoa resulta em uma determinada força; o carma realizado por centenas e milhares de pessoas resulta em força maior, enquanto o carma realizado por milhões e bilhões de pessoas resulta em força ainda maior. Tal força é denominada carma coletivo. Ou seja, o comportamento coletivo de muitos seres produz uma força extremamente intensa que determina o curso da vida, da história e do universo. Diferentemente do carma coletivo, o carma individual afeta uma única pessoa. Por exemplo, desastres naturais, tais como fome e terremotos, podem afetar todos os residentes de uma determinada área. Entretanto, durante um mesmo desastre, as pessoas são afetadas diferentemente, em função de seu carma individual".

"Há muitas categorias de carma, cada uma com seu respectivo nome; ainda assim, no singular ensinamento do Budismo, todos os atos e ações realizados pelo corpo, pela fala e pela mente são carma. Assim, é o comportamento de uma pessoa o que determina sua vida. Cada um é responsável por todos os efeitos cármicos, positivos e negativos, produzidos por suas próprias ações. Os efeitos cármicos não são impingidos aos seres humanos por deuses ou pelo Todo Poderoso, tampouco existe um Rei Yama no inferno para lhes infligir punições. Baseando-se nessa doutrina, pode-se inferir diversos princípios determinantes do carma:

1. O carma é uma criação pessoal: não é uma criação divina.

Todas as coisas, boas ou más, são criadas por nós mesmos e, portanto, não são determinadas ou impingidas por deuses.

2. O carma implica igualdade de oportunidade; não há favoritismos.

Perante a Lei de Causa e Efeito, todos são iguais e colhem seus próprios frutos cármicos. Ninguém recebe tratamento preferencial. O bem gera o bem; o mal gera o mal. Poder-se-ia argumentar que perante as leis nacionais as pessoas também são iguais. Contudo, existem aqueles que gozam de privilégios especiais sob o sistema jurídico. A Lei de Causa e Efeito é absolutamente justa: a ninguém é dado o usufruto de privilégios especiais.

Um primeiro ministro japonês, após ser sentenciado, deixou cinco palavras: ‘errado', ‘razão', ‘lei', ‘poder' e ‘céu'. Isso significa que o ‘errado' não pode vencer a ‘razão', a ‘razão' não pode vencer a ‘lei', a ‘lei' não pode vencer o ‘poder' e o ‘poder' não pode vencer o ‘céu'. Se visitarmos uma prisão, verificaremos que nem todos os criminosos condenados são irrevogavelmente culpados e insensatos. Alguns podem até ter razões plausíveis para justificar o crime que cometeram. No entanto, independentemente de quão sensata a pessoa seja, o ato cometido pode ter violado a lei. A lei pode ser justa e imparcial, e, no entanto, certos privilegiados detêm o poder de manipulá-la. No entanto, não importa quanto poder, inteligência ou riqueza um indivíduo possua, ele estará sempre sujeito aos seus próprios efeitos cármicos sob a Lei de Causa e Efeito. Não há exceções.

3. O carma nos dá esperança de um futuro radiante.

O carma nos diz que, mesmo que tenhamos feito muitas boas ações, não deveríamos nos ter em tão alta consideração, já que os méritos acumulados em função dessas ações são como uma conta bancária: por maior que seja a quantia nela acumulada, se continuarmos a sacar de nossas economias sem fazer depósitos periódicos, chegará o dia em que a conta estará zerada. Alguém que tenha realizado muitas más ações pode talvez se sentir altamente endividado e perder a esperança na vida. Mas, se trabalhar bastante, chegará o dia em que todas as ‘dívidas' terão sido pagas. Aquele que viola a lei precisa cumprir sua pena na prisão, ao final da qual estará livre para um novo começo. O carma é assim: dá esperança às pessoas. O futuro de cada um encontra-se em nossas próprias mãos, pois somos livres para decidir o rumo que queremos tomar. Nosso futuro é radiante.

4. Carma significa que o bem gera o bem e o mal gera o mal.

Talvez isso soe fatalista: é verdade que o carma determina nosso destino e futuro. Entretanto, somos nós quem criamos nosso carma. O efeito cármico que vivenciamos depende do carma que nós próprios criamos. Poderíamos questionar: ‘O Iluminado Buda Shakyamuni ainda tinha carma negativo?' A resposta é sim. Pode-se ter cometido incontáveis bons e maus atos em vidas passadas. Contudo, se não permitirmos que eles se manifestem, é como se não existissem. É como plantar sementes no solo: caso não lhes sejam fornecidas as condições adequadas para que germinem, nada acontecerá. Entretanto, sob condições adequadas, as sementes germinam e crescem saudavelmente, mesmo que entre elas haja algumas ervas daninhas. Isso significa que não precisamos nos preocupar demasiadamente com o carma negativo que realizamos no passado. Se continuarmos a plantar boas sementes nesta vida, as sementes de nosso mau carma anterior não terão a oportunidade de germinar. Assim, com esta compreensão mais clara a respeito do carma, podemos trabalhar efetivamente por nossa felicidade".

II.  A Segunda Característica: Gênese Condicionada

"O Buda Shakyamuni, fundador do Budismo, iluminou-se sentado sob a árvore Bodhi, em Bodhgaya, na Índia. Qual foi a verdade que ele compreendeu quando se iluminou? Ele compreendeu o Princípio de Causa e Condição e a verdade da Gênese Condicionada. Percebeu que o princípio de todos os fenômenos surge de causas e condições e que a Gênese Condicionada é uma verdade imutável da vida e do universo. Durante os 49 (alguns dizem 45) anos em que ensinou o Darma, o Buda dirigiu seus esforços a elucidar a verdade da Gênese Condicionada para os demais. A Gênese Condicionada é outra característica singular que diferencia o Budismo de outras religiões".

"A Gênese Condicionada baseia-se na Lei de Causa e Efeito. Toda a existência (bhava) surge de causas e de condições. A existência de todas as coisas deste universo é interdependente. Em termos gerais, algo tão grande quanto o mundo e algo tão pequeno quanto um grão de poeira, uma flor ou uma folha de grama – tudo surge devido a causas e condições. O Princípio da Gênese Condicionada não é algo que possa ser explicado através da erudição acadêmica; deve ser vivenciado e realizado através da própria prática. Antes de o Buda renunciar à vida secular, já era bem versado na filosofia dos quatro Vedas, nas cinco ciências e na filosofia das 96 religiões praticadas em seu tempo. Depois de seis anos de práticas ascéticas e de meditação, ele finalmente compreendeu o Princípio da Gênese Condicionada e alcançou a condição de Buda".

"Havia um brâmane, chamado Shariputra, que praticava o Bramanismo há tempos e tinha muitos seguidores; no entanto, ele ainda não havia compreendido a Verdade. Um dia, Shariputra andava por uma rua de Rajagrha quando encontrou Asvajit, um dentre os primeiros cinco discípulos do Buda. Asvajit havia sido profundamente influenciado pelos ensinamentos do Buda, e sempre os colocava em prática. O porte e a aparência de Asvajit conquistavam o respeito daqueles que o viam. Shariputra perguntou-lhe respeitosamente: ‘Quem é você? Quem é seu professor? O que ele lhe ensina?' Asvajit respondeu: ‘Todos os Darmas surgem devido a causas e condições; todos os Darmas cessam devido a causas e condições. É isso que o Senhor Buda, o grande sramana, sempre ensina'".

"Nesse contexto, a palavra Darma significa tudo na vida, todos os fenômenos do universo. ‘Todos os Darmas surgem devido a causas e condições' significa que todos os objetos e fenômenos deste universo surgem devido à combinação de muitas causas e condições. Quando essas causas e condições se ausentam, objetos e fenômenos deixam de existir. Ao ouvir isso, Shariputra ficou extasiado. Ele comunicou a maravilhosa novidade a seu bom amigo, Maudgalyayana. Os dois, juntamente com seus próprios discípulos, foram seguir o Buda. Sob o seu ensinamento, Shariputra tornou-se um expoente de sabedoria entre seus discípulos, enquanto Maudgalyayana tornou-se o mais proeminente quanto a poderes sobrenaturais. Assim, podemos ver que o Princípio da Gênese Condicionada é a Verdade".

"Podemos compreender o conceito da Gênese Condicionada através de três aspectos:

1. Efeitos surgem de causas

Hetupratyaya é a palavra em sânscrito para causa e condição. Hetu é a causa primária; pratyaya é a condição, ou condições, secundária. Hetu é a força direta da qual surge o fruto (efeito), enquanto pratyaya é a força indireta. Todos os fenômenos do universo surgem devido a uma combinação de muitas e diferentes causas e condições. Sem causas e condições adequadas, nenhum fenômeno pode existir. Isso é o que significa ‘Darmas não surgem por si próprios'. Como exemplo, tomemos um grão de soja, que é a semente, a causa principal. Água, solo, luz solar, ar e fertilizante são as condições secundárias. Caso essas causas e condições se combinem de maneira correta, a semente poderá germinar, florescer e frutificar. Assim, o fruto resulta de causas. Se, no entanto, o grão de soja tivesse sido armazenado em um granário ou plantado em cascalho, ele teria permanecido semente para sempre. Na falta de condições externas necessárias, uma semente não consegue germinar e frutificar".

"Do ponto de vista temporal, os fenômenos sociais de um determinado período talvez pareçam não ter conexão com os de um período posterior. Contudo, se analisarmos cuidadosamente esses fenômenos, logo nos daremos conta de que qualquer sociedade, de qualquer período, não poderia ter surgido sem a existência da que a antecedeu. Tomemos uma tocha, como exemplo. Quando a chama de uma tocha é transmitida a outra, ambas continuam sendo entidades distintas. Entretanto, existe uma relação sutil entre elas. A chama da nova tocha é a continuação da antiga chama. No fluxo do tempo, é impossível encontrar uma entidade isolada de todas as outras. Do ponto de vista espacial, parece que um Darma não tem nenhuma relação com outro. No entanto, analisando cuidadosamente, veremos que existem relações de causa e condições entre os Darmas. Por exemplo, hoje estamos tendo a oportunidade de nos encontrar nestes escritos, e isso é um efeito. A formação do efeito resultou de muitas e variadas causas e condições. Fui convidado a proferir uma palestra, eu estava disponível, uma escola nos permitiu utilizar suas instalações, esta palestra se tornou um texto e você teve o interesse de ler-me. Graças à combinação simultânea dessas condições é que este evento teve êxito em sua realização. Se apenas uma dessas condições tivesse falhado, não teria sido possível realizá-lo. Portanto, o surgimento de qualquer tipo de existência é o resultado de causas e condições".

"A existência de um indivíduo também depende de causas e condições. Mesmo com todo o avanço da ciência e da tecnologia e com a possibilidade de inventar e produzir objetos, ainda assim, não conseguimos inventar a vida em si: ela resulta de causas e condições. A junção do esperma de um pai com o óvulo de uma mãe origina uma nova vida. A partir de então, a vida humana só terá continuidade se necessidades físicas forem satisfeitas através de vários itens fornecidos por agricultores, operários e comerciantes. Como analogia, tomemos uma casa: ela é construída quando cimento, madeira, tijolos e outros materiais de construção são colocados juntos e de forma correta. Uma casa não existe se esses componentes forem eliminados. O mesmo acontece com um ser humano. Se a pele, a carne, o sangue e os ossos forem separados, a pessoa deixará de existir. Assim, todos os Darmas resultam de causas e condições".

"Quando falamos sobre a formação da vida, surge sempre uma pergunta que desde há muito incita debate: ‘Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?' Se a galinha tiver nascido primeiro, de onde ela veio? Se o ovo tiver nascido antes, de onde veio o ovo? O ovo ou a galinha: quem nasceu primeiro? O Budismo não se preocupa com esse tipo de questões sobre que entidade nasceu primeiro, nem sobre o começo ou o fim. O Budismo fala sobre um ‘círculo', que não tem começo nem fim. O Conceito da Gênese Condicionada é justamente esse algo, sem começo nem fim. Qual hetupratyaya vem antes e qual vem depois? Isso não pode ser determinado porque qualquer fenômeno surge devido à combinação de muitos hetupratyayas. Por exemplo, o relógio na parede funciona continuamente da meia-noite ao meio-dia e do meio-dia de volta à meia-noite. Qual é o começo? Qual é o fim? É muito difícil dizer, porque isso não tem começo ou fim. Com esse exemplo, pode-se compreender que os hetupratyayas são interdependentes e inter-relacionados. ‘Isto existe, portanto aquilo existe; isto surge, portanto aquilo surge; isto não existe, portanto aquilo não existe; isto cessa, portanto aquilo cessa'. Esse verso é a melhor definição da Gênese Condicionada.

2. Todos os fenômenos existem em consonância com a Verdade

O Princípio da Gênese Condicionada é sutil e complexo. É profundo e difícil de ser compreendido. Não pode ser analisado através de técnicas científicas, nem elucidado através da metafísica. No Sutra Agama, o Buda disse que a Gênese Condicionada é uma característica singular do ensinamento budista. É uma verdade do universo que não pode ser encontrada em ensinamentos seculares.

A Gênese Condicionada, que postula que todos os fenômenos existem em consonância com a Verdade, é baseada na Lei de Causa e Efeito. Quem planta sementes de feijão colherá feijão. Quem planta sementes de melão colherá melões. Uma semente de melão não resultará em feijão e uma semente de feijão não germinará melões. Uma causa específica resultará em um efeito específico: essa é a verdade exposta pela Lei de Causa e Efeito. As verdades deste mundo devem estar em harmonia com as condições de ‘assim era originalmente, assim é inevitavelmente e assim é universalmente'. A Verdade não pode ser modificada por discussões e não precisa ser descrita em palavras. Ela simplesmente é. O Buda disse, por exemplo, que tudo o que surge desaparecerá um dia. Do ponto de vista temporal, tal afirmação aplica-se a passado, presente e futuro. Do ponto de vista espacial, essa afirmação é verdadeira em todos os lugares do mundo. Não importa qual seja nosso grau de desenvolvimento cultural ou de avanço tecnológico, não se pode fugir do fato de que tudo o que surge, desaparece. Nunca surgirá um fenômeno que não esteja de acordo com a Verdade. É isso que significa dizer: ‘todos os fenômenos existem em consonância com a Verdade'".

3. O surgimento da existência depende de shunyata

"Como se originaram todos os Darmas de nosso universo? De acordo com o Princípio da Gênese Condicionada, o surgimento de todos os Darmas depende de shunyata (vazio). Sem o vazio, não existiriam fenômenos. Por quê? Porque sem o vazio não poderia haver a existência. Vazio não significa inexistência, ao contrário do que se poderia pensar com base na utilização usual do vocábulo. Shunyata é a ‘natureza do vazio' em todos os fenômenos. Se não fosse por essa natureza de vazio, os fenômenos jamais manifestariam seu valor e função de existência. A função dos fenômenos é a aplicação do vazio. Vamos supor que quiséssemos construir uma casa. Além do material, tal como madeira, cimento, vergalhões e tijolos, precisaríamos também de um projeto, de uma planta e de medidas. E, obviamente, antes de mais nada, precisaríamos de espaço vazio, sem o que, independentemente da qualidade do material e da beleza da planta, a casa simplesmente não poderia ser construída. Assim, somente onde existe vazio, os eventos e fenômenos podem surgir".

"A simples menção da palavra ‘vazio' geralmente amedronta as pessoas, porque elas interpretam, erroneamente, que a religião budista requer a negação de tudo. No entanto, de acordo com o Budismo, o ‘vazio' é a base de toda existência. Hoje, por exemplo, estamos aqui reunidos porque existe espaço. Caso não houvesse, não poderíamos estar aqui. O corpo humano é outro exemplo de vazio. De acordo com o Budismo, existe muito espaço no corpo humano. Uma pessoa pode existir porque seu nariz é vazio, porque sua boca é vazia e porque seu trato digestivo é vazio. Agora, imaginem se o nariz, a boca e o sistema digestivo não fossem vazios: será que conseguiríamos sobreviver? Será que a vida conseguiria, ainda assim, existir? Sem espaço, casas não podem ser construídas. Se uma bolsa não estiver vazia, não pode carregar nada. Se o universo não fosse vazio, a vida humana não poderia existir. Assim, só há ‘existência' onde há ‘vazio'. Sem shunyata, nenhum Darma poderia resultar das condições e, assim, não haveria o surgimento nem o fim de nada. Baseado nesse fenômeno da existência, no capítulo sobre as Quatro Nobres Verdades do Sastra Madhyamika, Nagarjuna disse: ‘Por causa de shunyata todos os Darmas podem surgir; se não houvesse shunyata, nenhum Darma poderia surgir'".

            III.  A Terceira Característica: Shunyata

"De modo geral, as pessoas não compreendem o conceito de shunyata (vazio), pois pensam que shunyata é o nada. Essa é uma interpretação errônea. Já falamos sobre o fenômeno da Gênese Condicionada, que significa que todos os Darmas se originam de causas e condições e findam como resultado de causas e condições. Todos os Darmas surgem por causa da combinação correta de causas e condições e findam como conseqüência da desintegração das causas e condições que resultaram em sua formação. Portanto, a natureza de todos os Darmas é o vazio. Ou seja, os Darmas não têm uma verdadeira natureza específica e, portanto, são descritos como ‘vazios'".

"Geralmente, as pessoas limitam a definição de shunyata a ‘nada absoluto', ainda que considerem a existência como sendo real. De acordo com os ensinamentos budistas, a existência, que surge como resultado da Gênese Condicionada, é ilusória, ainda que não exclua o vazio. Similarmente, shunyata, a natureza fundamentalmente vazia de toda existência, significa a não-substancialidade, mas não elimina a existência. Esse é o conceito de Gênese Condicionada com natureza de vazio.

Expliquemos o que é shunyata da seguinte maneira:

1. Os quatro grandes elementos são fundamentalmente vazios; os cinco grandes agregados não têm existência verdadeira.

"O significado infinito do Budismo Mahayana é shunyata e não o ‘nada absoluto'. É um conceito construtivo e revolucionário, utilizado pelos mahayanistas para explicar a existência do mundo e do universo. ‘Os quatro grandes elementos são fundamentalmente vazios; os cinco grandes agregados não têm existência verdadeira' – foi como o Buda explicou a natureza de todos os eventos e fenômenos deste mundo e do universo, depois de ter se iluminado. Todos os Darmas existem por causa da combinação dos quatro grandes elementos. Quais são eles? São terra, água, fogo e ar. A terra tem a propriedade da solidez; a água, a da umidade; o fogo, a do calor; e o ar, a da mobilidade. Por que dizemos que terra, água, fogo e ar são os grandes elementos? Porque tudo neste mundo e no universo é formado por esses quatro elementos. Uma xícara, por exemplo, é fabricada levando-se ao fogo a argila que foi moldada em forma de xícara. A argila pertence ao elemento terra. Adiciona-se água à argila para que possa ser moldada e, então, ela é levada ao fogo. Depois disso, a xícara é resfriada e é seca pelo ar. Assim, todos os quatro grandes elementos participam da formação de uma xícara. Da mesma forma, o ser humano também é formado pela união dos quatro grandes elementos. Por exemplo: nossa pele, cabelo, unhas, dentes, ossos e músculos pertencem ao elemento terra. Sangue, saliva e urina, ao elemento água. O calor corporal pertence ao elemento fogo e a respiração e o movimento, ao elemento ar. Assim, caso um dos elementos esteja em desequilíbrio, adoecemos. Se os quatro grandes elementos se desintegrarem, deixamos de existir".

"Assim, podemos observar que o corpo físico é formado pela combinação dos quatro grandes elementos. Além disso, a mente, de acordo com nossa compreensão usual, é apenas a combinação dos cinco agregados: matéria (rupa), sensação (vendana), percepção (samjna), formações mentais (samskara) e consciência (vijnana). A vida é o resultado da combinação de causas e efeitos que não têm em si um caráter verdadeiro e independente. Um corpo físico com consciência não é nada mais que um ser que existe como resultado de uma combinação de fatores. Quando a força unificadora dessas causas e condições se exaure, a combinação prévia desses fatores se dissolve e o ente vivente deixa de existir. Onde está, então, a verdadeira e independente individualidade? Assim, o Buda ensina que ‘os quatro grandes elementos são fundamentalmente vazios; os cinco agregados não têm existência verdadeira'".

"Certa vez, Tung-p'o Su, da dinastia Sung, foi visitar o mestre Ch'an Fo Yin. Quando Tung-p'o Su chegou, o mestre Fo Yin estava ensinando o Darma e, assim que viu o visitante, disse-lhe: ‘Senhor Su, de onde o senhor está vindo? Não temos lugar para que se sente'.

Tung-p'o Su imediatamente respondeu: ‘Mestre, se não há assento, por que é que o senhor não me empresta seus quatro grandes elementos e cinco agregados (seu corpo) para que eu os utilize como assento para meditar?'

O mestre Fo Yin disse: ‘Vou lhe fazer uma pergunta e, caso a resposta seja satisfatória, permitirei que me use como assento. Caso contrário, então, por favor, deixe-me seu cinto de jade como presente. Eis a pergunta: meus quatro grandes elementos são todos vazios e meus cinco agregados não têm existência verdadeira. Posso, então, perguntar aonde o senhor vai se sentar?'

Tung-p'o Su não conseguiu responder e, assim, tirou seu cinto de jade, que havia sido um presente do imperador, e partiu. Essa história nos faz perceber que o corpo humano, essa combinação ilusória dos quatro grandes elementos e dos cinco agregados, não tem em si uma natureza substancial que possamos agarrar".

2. O que é shunyata?

"No ensinamento Mahayana, shunyata integra os ‘Três Selos do Darma'. Shunyata é a Verdade Suprema, um importante conceito no Budismo e uma característica única do Budismo que o distingue de outros ensinamentos terrenos. A maioria das pessoas não compreende o que significa shunyata, e acredita que seja a nulidade completa, o nada. De forma nenhuma. Shunyata é, na verdade, a mais profunda e maravilhosa filosofia. Quem consegue compreender shunyata compreende o Budismo como um todo. O que é, então, shunyata? É absolutamente impossível explicar o significado de shunyata com apenas uma frase. O Tratado sobre o Mahayana oferece dez definições de shunyata que, apesar de não conseguirem explicar totalmente o seu significado, se aproximam muito disso.

As dez definições de shunyata apresentadas pelo tratado são as seguintes:

  • 1. Shunyata tem o significado da não obstrução. Assim como o espaço, pode ser encontrado em todos os lugares e não obstrui nenhuma existência material.

2. Shunyata tem o significado da onipresença. Assim como o espaço, a tudo permeia e alcança todos os lugares.

3. Shunyata tem o significado da igualdade. Assim como o espaço, não discrimina e trata tudo da mesma forma.

4. Shunyata tem o significado da vastidão. Assim como o espaço, é vasto, ilimitado e incomensurável.

5. Shunyata tem o significado do amorfo. Assim como o espaço, não tem forma ou feitio.

6. Shunyata tem o significado da pureza. Assim como o espaço, é sempre puro.

7. Shunyata tem o significado da imobilidade. Assim como o espaço, está sempre imóvel, totalmente além de qualquer forma de surgimento ou degeneração.

8. Shunyata tem o significado da negação absoluta. Nega todos os fatos e teorias.

9. Shunyata tem o significado do esvaziamento do próprio shunyata. Nega todos os conceitos de uma natureza individual independente, assim como destrói todo apego ao conceito de shunyata.

10. Shunyata tem o significado do inatingível. Assim como o espaço, não pode ser alcançado ou agarrado.

Essas dez definições não conseguem descrever perfeitamente a verdade de shunyata. Entretanto, juntas, fornecem um vívido quadro para que possamos compreender melhor esse importante ensinamento budista.

3. Como perceber shunyata?

a. "Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória da continuidade. Toda a existência é vazia porque todos os fenômenos são impermanentes. Assim como no rio Yang Tze, as ondas de trás empurram as da frente, a nova geração substitui a anterior. O tempo continua ininterrupto e os acontecimentos mundanos são sempre o sofrimento, o vazio e a impermanência. Através da continuidade da impermanência, pode-se ver o vazio".

b. "Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória dos ciclos. Todos os Darmas do universo são governados pela Lei de Causa e Efeito. Uma causa transforma-se em efeito, que por sua vez torna-se causa. Por exemplo, quando há quantidade apropriada de luz, ar, água e terra, uma semente pode germinar, florescer e frutificar. Quando as condições externas necessárias estão presentes, as sementes dessas frutas germinam, florescem e frutificam novamente. Nesse caso, a fruta, que era o efeito, transforma-se em causa. Através desse ciclo contínuo, no qual a causa transforma-se em efeito e efeito em causa, pode-se ver shunyata".

c. "Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória das combinações. Todos os Darmas surgem devido à união harmoniosa de várias causas e condições. O corpo humano, por exemplo, é feito da união harmoniosa de pele, músculos, ossos, sangue e vários fluidos corporais. Se o corpo humano fosse subdividido em seus componentes, não se encontraria um corpo humano independente. Assim, podemos compreender shunyata através da Gênese Condicionada".

d. "Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória da relatividade. Todos os Darmas deste universo são relativos, tais como um pai em relação ao filho e um professor em relação ao aluno. Por exemplo, quando o filho se casa e tem um filho, torna-se pai. Da mesma forma, o aluno que aprende o suficiente pode, então, tornar-se professor. Assim, todas as coisas são relativas e, portanto, irreais e vazias".

e. "Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória das aparências. Não existe um padrão definido ou medida para analisar as aparências. Por exemplo, a luz de uma vela pode ser muito intensa para os olhos, até o momento em que uma lâmpada elétrica seja acesa: a luz da vela passa, então, a ser tênue. A velocidade de um automóvel pode parecer alta, até que seja comparada à, de um avião. Esses exemplos nos permitem perceber que a aparência de todos os eventos e de todos os fenômenos é vista sem um padrão determinado; podemos, portanto, perceber shunyata".

f. "Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória dos termos. Atribui-se a cada Darma neste universo um nome diferente. Esses nomes não têm substancialidade e são, portanto, vazios. Uma criança recém-nascida, por exemplo, é chamada de ‘bebê'. Ao crescer, é chamada de ‘moça'. Ao casar-se, é chamada de ‘senhora'. Ao ter seus filhos, estes a chamam de ‘mãe'. Ao envelhecer e ter netos, passa a ser chamada de ‘avó'. De ‘bebê' a ‘avó', ela continuou sempre a mesma pessoa e, no entanto, os títulos foram diferindo. Assim, podemos compreender shunyata através da ilusão dos termos".

g. "Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória dos diferentes pontos de vista. Diferentes pessoas com diferentes mentalidades terão diferentes pontos de vista a respeito da mesma coisa ou fato. Um exemplo: em uma noite de nevasca, um poeta declamando em uma janela, dentro de uma casa quentinha e confortável, espera que a neve continue por toda a noite, para que possa usufruir de uma paisagem mais bela. Enquanto isso, um mendigo, tremendo de frio, espera que a neve cesse logo para que possa sobreviver àquela noite. Assim, podemos compreender shunyata através dos diferentes pontos de vista".

IV.  A quarta característica: Os Três Selos do Darma

"Os ‘Três Selos do Darma' (Três Características da Existência) são uma importante doutrina do Budismo. Os Três Selos do Darma podem determinar se um dado ensinamento budista é a Verdade Absoluta. Os Três Selos do Darma são como um carimbo oficial através do qual pode-se reconhecer a autenticidade de mercadorias do cotidiano. Uma doutrina que não esteja em consonância com os Três Selos do Darma não é um ensinamento completo, mesmo que tenha sido proferida pelo Buda. Por outro lado, uma doutrina que esteja de acordo com os Três Selos do Darma é um Darma genuíno, mesmo que não tenha sido pessoalmente transmitida pelo Buda. Os Três Selos do Darma são os seguintes: (1) ‘Todos as coisas condicionadas (samskaras) são impermanentes', (2) ‘Nenhum Darma (estados condicionados e não-condicionados) tem individualidade substancial', e (3) ‘O Nirvana é a paz perfeita'. Os três axiomas são utilizados conjuntamente para provar a autenticidade do Darma e, por isso, são denominados os ‘Três Selos do Darma'".

1. Todos os samskaras são impermanentes.

"A expressão ‘Todas as coisas condicionadas (samskaras)', refere-se a todas as formas e ações deste mundo. De acordo com a doutrina budista, nenhuma dessas formas ou ações é permanente. Tal impermanência pode ser ilustrada através dos seguintes pontos:

a. Os ‘três períodos do tempo' fluem contínua e ininterruptamente. Isso mostra que todos os samskaras são impermanentes.

b. Todos os Darmas originam-se de causas e condições e, portanto, são impermanentes".

"O que significa dizer ‘os três períodos de tempo' fluem continuamente? Esses períodos são: passado, presente e futuro. Do ponto de vista temporal, todos os Darmas são impermanentes porque, nem por um instante, permanecem imutáveis, surgindo e desaparecendo a cada momento. Os Darmas do passado já estão extintos. Os Darmas do futuro ainda não chegaram a existir. Os Darmas do presente extinguem-se assim que surgem. Assim, todos os Darmas são impermanentes. Por que dizemos que todos os Darmas, que surgem devido a causas e condições, são impermanentes? Uma vez que todos os Darmas são formados pela combinação e unificação de diferentes condições, a desintegração das causas e condições necessárias resulta na eliminação dos Darmas. Como as causas e condições são impermanentes, qualquer Darma que surja delas é conseqüentemente impermanente também. Por exemplo, um ser humano renasce como resultado de seu carma anterior. Do nascimento à morte e da morte ao nascimento, as vidas passam perpetuamente por passado, presente e futuro. A vida é verdadeiramente impermanente".

"O funcionamento de nossa mente é também impermanente. Nossos pensamentos surgem e desaparecem constantemente, mudando a todo momento. Da mesma forma, todos os Darmas deste universo surgem e desaparecem a cada instante. Sua existência é um processo contínuo. Os fenômenos terrenos do surgimento, manutenção, degeneração e destruição; as mudanças sazonais da primavera, verão, outono e inverno e o próprio ciclo da vida do nascimento, envelhecimento, adoecimento e morte: tudo flui como um rio. Nada jamais permanece imutável nesse fluxo contínuo. Costumamos classificar os sentimentos humanos em três categorias: sentimentos agradáveis, desagradáveis e aqueles que não são nem agradáveis nem desagradáveis. É claro que sentimentos desagradáveis são sofrimento (duhkha). Entretanto, sentimentos agradáveis também são duhkha porque eles também findam. A saúde e a beleza, por exemplo, resultam em sentimentos agradáveis, mas sua perda pode gerar sofrimento. Sentimentos que não são nem de felicidade, nem de tristeza, trazem-nos sofrimento por causa da mudança (intrínseca a eles). Exemplos disso são os sentimentos resultantes da passagem do tempo, da brevidade da vida e da impermanência de todos os Darmas. Esse movimento perpétuo de mudanças causa intolerável angústia nas pessoas – esse é o sofrimento da impermanência. É por isso que os ensinamentos budistas afirmam que todos os samskaras são impermanentes e que todos os sentimentos são duhkha".

2. Nenhum Darma tem individualidade substancial.

"Quando, anteriormente, abordamos a afirmação "todos os samskaras são impermanentes", discutimos que nada é permanente do ponto de vista temporal. Agora, se considerarmos o ponto de vista espacial, nada pode existir independentemente. Nós, seres humanos, gostamos de nos aferrar à nossa individualidade e acreditar que o ‘eu' ou a ‘minha individualidade' existem: minha cabeça, meu corpo, meus pensamentos, meus pais, meu cônjuge e meus filhos. Desenvolvemos ‘apego à individualidade' com relação ao que acreditamos ser. Desenvolvemos apego aos objetos que nos cercam. Temos a tendência de olhar para o mundo tendo o ‘eu' como centro de tudo, como se nada pudesse existir sem esse ‘eu'. Contudo, de acordo com a profunda e racional perspectiva dos ensinamentos budistas, na verdade, a tal individualidade permanente e independente não existe. Por quê? Para considerarmos que uma entidade tenha individualidade, quatro pré-requisitos precisam ser preenchidos: a entidade precisa necessariamente ser permanente, autônoma, imutável e independente".

"Analisemos então o corpo humano, entidade que tendemos a considerar como sendo ‘eu'. Desde o momento do nascimento, e ao longo das várias décadas da vida de uma pessoa, o corpo humano passa por constantes mudanças fisiológicas de nascimento e morte à medida que cresce, amadurece e envelhece. De que forma, então, poderia ser permanente e imutável? O corpo humano é formado pela combinação e unificação dos quatro grandes elementos e dos cinco agregados; é originado quando se apresentam as condições necessárias para tal unidade e deixa de existir quando tais condições desaparecem. Como, então, poderia ele ser autônomo? O corpo humano é o local onde todas as variedades de sofrimento se reúnem: sofrimentos fisiológicos, tais como fome, frio, doença, fadiga; e sofrimentos mentais e emocionais, que incluem ira, ódio, tristeza, medo e frustração. Quando vivencia todos esses sofrimentos, o corpo não consegue se libertar. Como poderia ele, então, ser independente e soberano? Podemos observar, portanto, que a ‘individualidade', como definida anteriormente, não existe aqui. Assim, os ensinamentos budistas afirmam que nenhum Darma tem individualidade substancial. A ausência de uma individualidade substancial, anatman (ou anatmã), é o alicerce do Caminho do Meio, é o ensinamento fundamental do Budismo. A ausência de uma individualidade substancial é um ensinamento singular que distingue o Budismo de outras doutrinas religiosas ou filosóficas".

3. O Nirvana é a paz perfeita

"Essa afirmação significa que as coisas acabarão por alcançar um estado de paz, independentemente de quão caóticas estejam no mundo. Não importa que as coisas pareçam diferentes, no fim tudo será igual. O estado de Nirvana é, na verdade, de paz e igualdade. De acordo com o Budismo, o resultado de se alcançar o estado de Nirvana é que todas as aflições e o ciclo de nascimento e morte são exterminados, o sofrimento deixa de existir, a felicidade eterna é alcançada, a sabedoria perfeita torna-se realidade e todas as ilusões são erradicadas. As pessoas comuns acreditam que o Nirvana só pode ser alcançado depois da morte. Na verdade, a definição de Nirvana é ‘sem nascimento nem morte'. Nirvana significa a extinção do apego, a eliminação do atmagraha (aferro à noção de ‘individualidade') e do Darma-graha (aferro à crença de que as coisas são reais), a erradicação dos obstáculos gerados pela impureza e dos impedimentos ao conhecimento. Significa dar um fim ao ciclo de nascimento e morte. Nirvana é liberação. A impureza é cativeiro. Um criminoso acorrentado não é livre, da mesma forma que não o são os seres vivos agrilhoados por cobiça, raiva e ilusão. Praticando o Darma e se purificando, os seres vivos liberam-se e alcançam o Nirvana. Esse processo é o único caminho para o Nirvana".

"Na época do Buda, seus discípulos viajavam a diferentes lugares para ensinar o Darma, depois de terem alcançado o Nirvana. Seus exemplos nos fazem compreender que o Nirvana não é algo para ser alcançado fora do contexto dos Darmas. Todos os Darmas eram originalmente Nirvana. No entanto, uma vez que a mente dos seres vivos está obscurecida pela ignorância, pela ilusão, pelo apego e pela crença de que a individualidade e os Darmas têm existência substancial que pode ser alcançada, as pessoas encontram obstáculos, impedimentos e cativeiro em todos os lugares. Se pudermos ser como os sábios budistas que entenderam que tudo se origina por causa da Gênese Condicionada, então, ainda que continuemos a existir neste mundo, perceberemos que toda a existência está em permanente mutação e não tem uma verdadeira natureza individual. Não mais seremos apegados, estaremos libertos onde quer que estejamos. Liberação é Nirvana.

CH'ENG-SHIH (chinês; jap., Jôjitsu) – escola chinesa, baseada nos ensinamentos da filosofia indiana Sautrantika; seu texto principal é o Satyasiddhi, escrito por Harivarman (século IV).

CH'U SAN-TSANG CHI-CHI (chinês) – coleção de registros referentes ao Tripitaka.

CHA-NO-YU (chinês) – cerimônia do chá.

CHAITYA ou Caitya (sânscr.; páli, cetiya) – literalmente "santuário"; salão principal da comunidade budista para meditação e apresentação de ensinamentos.  Nela sempre encontramos uma imagem de Buda Shakyamuni.

CHAKRAVARTIN (sânscr.) – "O Soberano da Roda", "Rei do Mundo"; também chamado de "chakravartirajan" na mitologia indiana. Chamava-se assim um rei virtuoso, nobre e poderoso, capaz de governar o mundo inteiro com compaixão e habilidade. Distinguem-se quatro tipos de chakravartin, simbolizados por rodas de ouro, prata, cobre e ferro. Este tornou-se um epíteto do Buda, cujo ensinamento é universal e aplicável a todo o cosmo.. E' a mais alta potência temporal, como Buda o é na ordem espiritual. Se Gautama não tivesse sido iluminado, teria sido um chakravartln. Possui sete te­souros: roda, elefante branco, cavalo, jóia, pérola das esposas, te­soureiro, ministro e conselheiro (ou caixa de selo).

CHANDRAKIRTI – um grande erudito e meditador budista indiano, que escreveu, entre muitos outros livros, o Guia ao Caminho do Meio, no qual ele elucida claramente a visão da escola Madhyamika-Prasangika, de acordo com os ensinamentos dados por Buda nos Sutras da Perfei­ção da Sabedoria.

CHANG-AN TA-SHIH (chinês) – O Grande Mestre.

CHANNA, ou Chandaka – fiel escudeiro do príncipe Sidarta, que o acompanhou em suas quatro saídas do palácio do pai, o rei Suddhodanna. Foi Channa quem esclareceu a Sidarta sobre os Quatro Sinais Especiais que ele presenciou: (1) a velhice; (2) a doença; (3) a morte, e (4) o ascetismo.

CHATVARI-APRAMANANI (sânscr.) – "os quatro aspectos ilimitados da mente búdica": (1) generosidade ilimitada (maitri); (2) compaixão ilimitada (karuna); (3) alegria ilimitada (mudita) e (4) equanimidade ilimitada (upeksa).

CHENG-FA (chinês) – A Lei Correta.

CHENREZIG (tib., Spyan Ras Gzigs) – veja Avalokiteshvara.

CHI – na medicina chinesa, a energia ou força vital que circula pelo corpo. Acredita-se que o mesmo poder vital flua por todo o universo. Ki em japonês.

CHI-KUAN (chinês) – veja kôan.

CHI-KUNG (chinês; jap., ki kong) – desde o término da Revolução Cultural Chinesa, a tolerância religiosa vem aumentando neste país, e para as pessoas simples as prá­ticas e crenças religiosas têm se tornado cada vez mais importantes. O culto aos ancestrais é amplamente praticado, e muitas famílias oferecem sacrifícios aos mortos, em festivais ou aniversários. A localização dos túmulos familiares nas áreas rurais é novamente escolhida segundo o conselho de mestres de yin-yang e feng shui (geomancia). Enquanto os heróis revolucionários são negligenciados, voltaram a ser populares tem­plos e santuários locais, onde deuses e deusas regularmente recebem ali­mentos e incenso. Mosteiros budistas e templos taoístas vêm atraindo um número de pessoas cada vez maior e a doação de esmolas é comum entre os peregrinos. Certas religiões vêm desenvolvendo as suas doutri­nas por meio do sincretismo de aspectos do budismo, do taoísmo e do cristianismo, especialmente em nome do exercício do chi (ki) através de prá­ticas como chi kung, ou ki kong

No entanto, as religiões populares e comunais também tiveram proble­mas. O governo estipula que as religiões "normais" sejam protegidas e per­mitidas, enquanto as religiões e os cultos "anormais" ou "supersticiosos" sejam perseguidos e eliminados. Questiona-se em que ponto traçar a linha entre o normal e o anormal. Praticantes religiosos, como os taoístas erran­tes e os xamãs, e certas atividades religiosas, como o estudo da fisionomia, a quiromancia e a geomancia, realizavam tudo isso tradicionalmente fazendo parte da re­ligião popular, mas que agora é considerado reacionário e supersticioso. Várias formas de ki kong, extremamente populares nas décadas de 1980 e 1990, acabam de ser definidas como "cultos" ou "religiões do mal", o que se po­de constatar na recente repressão à bem-sucedida organização Falun Gong, ou Práticas da Roda do Darma (parte religião, parte psicofisiotera­pia e parte comércio), que alega que as suas práticas e crenças são capazes de curar todas as doenças. Foi banida pelo governo em 1999, basicamente devido ao lado mais obscuro das suas práticas e ao seu envolvimento em assuntos políticos.

CHI-TSANG – monge chinês (549-623) da escola San-Lun (Sanron), autor de diversos comentários sobre a filosofia Madhyamika.

CHIEN-CHEN (chinês; jap., Ganjin) – monge chinês (688-763), fundador da escola Lü-Tsung (jap. Ritsu).

CHIH-I (chinês; jap., Chisha) – monge chinês (538-597), fundador da escola T'IEN-T'AI (jap. Tendai).

CHIH-KUAN (chinês) – veja Shamatha-Vipashyana.

CHIH-TUN – monge chinês (314-366), fundador da escola Prajna.

CHING-T'U[-TSUNG] (chinês; jap., Jôdo-[Shû]) – escola fundada pelo monge chinês HUI-YÜAN em 402, centralizada na veneração do Buda Amitabha.

CHINUL – Mestre Zen Coreano.

CHITTAMATRA (sânscr.) – "apenas mente"; principal ensinamento da filosofia Yogachara.

CHOGYE – grande seita Zen Budista Coreana.

CHU-HUNG – monge chinês (1535-1615) que desenvolveu um movimento leigo, combinando as escolas Zen e Jôdo.

CHU-SHE [LUN](chinês; jap., Kosha) – escola chinesa baseada nos ensinamentos do Abhidharma-Kosha; fazia parte da escola Fa-Hsiang (jap. Hossô).

CHÜEH-HSIEN (chinês) – Buddhabhadra.

CHUNG-LUN (chinês) – Tratado do Caminho do Meio.

CINCO ASCETAS – são aqueles que se juntaram a Sidarta, em sua primeira fase, a do ascetismo; são eles: Kondanna (aquele brâmane que predissera o destino do recém-nato Sidarta),  Bhaddiya, Vappa, Mahanama e Assajit. Os seis vestiram seus mantos laranja dos ascetas e viajaram como um grupo.

CINCO BUDAS TRANSCENDENTES – representam os aspectos da mente iluminada: VAIROCHANA, AMITABHA, AMOGHASIDDHI, AKSHOBHYA e RATNASAMBHAVA.

CINCO CAMINHOS – 1. Preparação ou Acumulação; 2. Aplicação ou Ligação; 3. Visão; 4. Cultivo; 5. Não-mais-aprendizagem. Os cinco Caminhos incorporam-se às Trinta e Sete Asas da Ilu­minação.

CINCO CIÊNCIAS: as cinco ciências de estudo obrigatório para os monges: (1) idioma, (2) artes e matemática, (3) medicina, (4) lógica, (5) filosofia budista.

CINCO DESEJOS – são cinco os desejos saudáveis: (1) fome razoável; (2) busca equilibrada de abrigo e vestimenta; (3) atividade social sensata; (4) sexualidade moderada, e (5) dedicação sem exagero às diversões.

CINCO DINASTIAS (907-960 E.C.) – o último Liang, o último Tang, o último Chin, o último Han e o último Chou.

CINCO GRAUS DE DHYANA – no estado de absorção mental, na meditação, acham-se presentes cinco elementos cooperativos: (1) Reflexão, raciocínio ou discriminação (vitaka); (2) Investigação ou pesquisa (vicara); (3) Alegria extática ou êxtase (piti); (4) Felicidade ou paz (sukkha), e (5) Unificação ou uniorientação (ekagatta). Quando estes cinco estados mentais encontram-se completamente desenvolvidos, surge a Equanimidade (upekka).

CINCO IMPEDIMENTOS ou obstáculos (páli, nivarana) – dificultam o Caminho para dhyana (absorção mental para a meditação): (1) sensualidade (concupiscência, luxúria) – yamacchanda; (2) maldade (má vontade, repugnância, ódio) – vyapada; (3) indolência (torpor físico e mental) – thinamiddha; (4) inquietação (ansiedade, agitação, preocupação) – uddhacca, e (5) dúvida cética (defensiva ou discursiva) – vicikiccha.

CINCO MALES – (1) do kalpa, (2) das visões, (3) das preocupações, (4) das existências, e (5) dos seres.

CINCO PODERES, ou Cinco Raízes – são as condições necessárias ao controle da mente (veja Quatro fundamentos da plena atenção), são elas: (1) confiança ou fé (sradda); (2) energia (virya); plena atenção (sati), (4) concentração (samadhi), e (5) sabedoria (panna).

CINCO PRECEITOS: preceitos morais mais fundamentais do budismo: (1) não matar, (2) não roubar, (3) não mentir, (4) não ter má conduta sexual, (5) não se intoxicar com drogas ou álcool. Poderão chegar a Dez Preceitos para os leigos (veja).

CINCO PRECEITOS E DEZ VIRTUDES NA PRÁTICA DO BUDISMO HUMANISTA – o VM Hsing Yün nos diz: "Hoje cedo, o diretor da Academia Militar me perguntou: ‘O Senhor poderia me dar especificamente alguns exemplos concretos do que o Budismo pode oferecer à nação e à sociedade?' Respondi que a nação e a sociedade podem se beneficiar dos ensinamentos Budistas do Tripitaka. De fato, os Cinco Preceitos bastariam para trazer paz ao país e ao mundo inteiro. Como vocês todos devem saber, os Cinco Preceitos nos ensinam que se deve abster de matar, de roubar, de manter uma conduta sexual desregrada, de mentir e de fazer uso de substâncias tóxicas. Abster-se de matar demonstra respeito pela vida em geral; ao não desrespeitarmos os direitos dos outros, podemos todos desfrutar a liberdade de vida. Não roubar significa não infringir o direito dos demais à propriedade, só assim pode haver liberdade na conquista do bem estar material. Evitar uma conduta sexual desregrada demonstra respeito ao corpo e honra à integridade dos outros, permitindo a todos gozarem a liberdade do corpo e da honra. Abster-se de mentir e de usar um falso discurso significa respeitar a reputação alheia e não prejudicar ninguém. Abster-se de substâncias tóxicas e estimulantes significa evitar danos físicos e mentais a nós mesmos, e aos outros, também. Aquele que segue os Cinco Preceitos tem a moral e o caráter bem estruturados. A família que segue os Cinco Preceitos mantém em bom estado o caráter e a moral de seus membros. Se todos em uma organização, sociedade ou nação puderem seguir os Cinco Preceitos, essa nação certamente terá como características estabilidade, paz e prosperidade".

"É só visitar uma penitenciária para perceber que todos aqueles que foram aprisionados por causa de seus crimes violaram, de alguma forma, os Cinco Preceitos. Assim, os assassinos e homicidas violaram o preceito de não matar. Os corruptos, estelionatários e ladrões, violaram o preceito contra o roubo. Pornografia, adultério, poligamia, estupro, abdução e prostituição são exemplos de violação do preceito contra a conduta desvirtuada do sexo. Envolver-se em fraude, inadimplência e chantagem viola o preceito contra a mentira. Além de álcool, o preceito contra tóxicos inclui heroína, cocaína e outras drogas ilegais que afetam negativamente o cérebro, prejudicando nossas habilidades cognitivas e provocando atos inconscientes. Se todos respeitassem os Cinco Preceitos, as penitenciárias estariam vazias".

"Para nós budistas, também há uma lição aqui. Hoje em dia, alguns budistas encaram o Budismo como uma religião popular. Eles reverenciam o Buda esperando alcançar longevidade, riqueza, uma família próspera, fama e saúde. Se pudermos elevar o nível de nossa fé e seguir os Cinco Preceitos com reverência, gozaremos verdadeiramente grandes bênçãos, sem precisar suplicar por elas. Se além de não matar, protegermos a vida, como não atingir a longevidade? Se além de não roubar, agirmos com generosidade, como não conquistar riqueza? Se além de não apresentar condutas sexuais desvirtuadas, formos respeitosos, como pode nossa família não ser harmoniosa? Se além de não mentir, formos também honestos, como não ter boa reputação? Se além de não nos intoxicar, cuidarmos de nosso corpo, como não ter boa saúde? Os Cinco Preceitos causam, de fato, grande impacto tanto no indivíduo, quanto na sociedade e na nação".

"Assim sendo, o que significa Budismo Humanista? Budismo Humanista nada mais é que a prática dos Cinco Preceitos e das Dez Virtudes. As Dez Virtudes são extensões dos Cinco Preceitos. Em nossas atitudes, elas são: não matar, roubar ou envolver-se em desvios de conduta sexual. Em nosso discurso: não mentir, injuriar, enganar ou ofender. Em nossos pensamentos: não ser gananciosos, rancorosos, ou corrompidos. No Budismo, o desenvolvimento do pensamento correto é chamado de estudo da sabedoria: o propósito supremo de despertar a sabedoria de nossa verdadeira natureza. Os Cinco Preceitos e as Dez Virtudes são ferramentas que nos auxiliam nessa tarefa. É disso, também, que trata o Budismo Humanista".

CINCO SKANDHAS – ou agregados da existência: (1) agregado da matéria, da corporeidade – rupa; os demais são agregados mentais – nama: (2) as sensações, (3) as percepções, (4) as formações mentais, e (5) a consciência.

CINCO VEÍCULOS PARA A REALIZAÇÃO

Sravakayana – o veículo daquele que ouve os ensina­mentos do Buda compreende o sofrimento inerente ao samsara e concentra-se na compreensão de que não existe um eu independente. Vencendo a emocionalidade, o Sravaka alcança o estágio do Vencedor-da-Corrente; no Caminho da Visão, progride para o estágio daquele que Retorna-mais-uma-vez no qual renasce mais uma única vez, e o estágio do Sem-volta, a partir do qual entrará no nirvana. A meta final é tornar-se um Arhat, aquele que cessou completamente todas as forças cármicas e assim finalizou o ciclo de renascimento.

Pratyekabuddhayana – o veículo daquele que pratica o Darma sem um mestre e, portanto, nunca aparece no tempo de um Buda. O Pratyekabuddha investiga sozinho as leis da existência e descobre que tanto o eu quanto o mundo não têm existência última. Depois de alcançar a realização, pode viver sozinho ou com outros. Pode ensinar por meio de gestos e exemplos, mas nunca com palavras.

Bodhisattvayana – o veículo daquele cuja meta é a realização plena do estado de Buda para o benefício de todos os seres sencientes. Começando com a geração da bodhicitta, a mente dedicada à iluminação, desenvol­ve-se a compaixão, a sabedoria e a perfeita compreensão de sunyata, o vazio de toda existência. Praticam-se as seis paramitas, ou perfeições: generosidade, obediência aos preceitos, paciência, vigor, concentração meditativa e prajna. Do interior de prajnaparamita, a sexta das perfeições, surgem mais qua­tro paramitas: meios hábeis, votos, força e sabedoria completa e abrangente. Ao realizar o caminho, o Bodhi­sattva progride em dez bhumis, ou estágios; três ou seis estágios adicionais são algumas vezes acrescentados nos ensinamentos Mantrayana.

Hinayana – o caminho daqueles que se concentram em sua própria liberação e buscam deter as forças que conduzem ao renascimento no samsara. Muito mais uma atitude do que um conjunto de ensinamentos, a visão Hinayana pode surgir em cada um dos três veículos, embora os Sravakas e Pratyekabuddhas sejam mais suscetíveis a esta abordagem mais limitada, do que aqueles dedicados ao ideal do Bodhisattva.

Mahayana – o caminho daqueles que seguem o ideal do Bodhisattva e têm a intenção de alcançar a liberação com o propósito de beneficiar todos os seres. Os dois caminhos que conduzem à realização do Bodhisattva são o Sutrayana e o caminho dos que seguem os ensinamentos dos Trantas.

CINCO VIOLAÇÕES: (1) matar o pai, (2) matar a mãe, (3) matar um arhat, (4) derramar o sangue de um Buda, (5) destruir a harmonia da sanga.     

CINERÁRIO – sala onde se gurdam as cinzas dos antepassados dos discípulos e benfeitores de um templo budista.

CINQÜENTA E DOIS ESTÁGIOS DO CAMINHO BODHI – uma detalhada análise, apresentada no Sutra Avatamsaka, dos estágios que vão da consciência comum à plena iluminação de um Buda.

CITTA (páli) – material mental, consciente e e inconsciente. Abrange sentimentos agradáveis, dolorosos ou neutros; percepções, memórias de objetos: visuais, auditivas, táteis, olfativas, gustativas e mentais; atividades volitivas conscientes e inconscientes.

CLARA LUZ – mente muito sutil manifesta que percebe uma apa­rência de espaço vazio e claro.

CLARIVIDÊNCIA – habilidade que surge de uma concentração es­pecial. Há cinco tipos principais: clarividência do olho divino, a habilidade de ver formas sutis e distantes; clarividência do ouvi­do divino, a habilidade de ouvir sons sutis e distantes; clarivi­dência dos poderes miraculosos, a habilidade de emanar várias formas com a mente; clarividência de conhecer vidas passadas; e clarividência de conhecer mentes alheias. Alguns seres, como os do bardo e alguns humanos e espíritos, têm clarividência contaminada, que se desenvolve devido ao carma, mas isso não é clarividência verdadeira.

CLASSIFICAÇÃO DO DARMA – Angas: são as diferentes formas de expressar os ensinamen­tos do Darma, cada uma um meio distinto de evocar a realização no ouvinte. O Mahayana geralmente reco­nhece doze angas, ao passo que a tradição Theravada enumera nove. Um único texto pode conter mais de uma anga. Segundo Bu-ston, que segue o Abhidharma samuccaya, as doze angas são as seguintes:

1. Sutra: provérbios curtos; 2. Geya: resumo de versos; 3. Vyakarana: previsões; 4. Gatha: versos; 5. Udana: exclamações de alegria e louvor; 5. Nidana: instruções sobre conduta para determinadas pessoas; 7. Avadana: histórias e parábolas; 8. Itivrttaka: relatos de tempos passados; 9. Jataka: relatos sobre vidas anteriores de Buda como um Bodhisattva; 10: Vaipulya: ensinamen­tos abrangentes; 11. Adbhutadharma: relatos de eventos milagrosos; 12. Upadesa: explicações sobre a doutrina.

COLEÇÃO DE MÉRITO – ação virtuosa motivada por bodhichitta que é a causa principal para se atingir o corpo-forma de um Buda. Exemplos: fazer oferendas e prostrações aos seres sagrados com a motivação de bodhichitta e praticar as perfeições de dar, disci­plina moral e paciência.

COLEÇÃO DE SABEDORIA – ação mental virtuosa motivada por bodhichitta que é a causa principal para se atingir o corpo-verdade de um Buda. Exemplos: ouvir e contemplar a vacuidade e meditar sobre ela com a motivação de bodhichitta.

CONCENTRAÇÃO VAJRA – o último instante do caminho Mahayana da meditação. É o antídoto às obstruções muito sutis à onisciência. No momento seguinte, o meditador atinge o caminho mahayana do não-mais-aprender, ou budeidade.

CONCÍLIOS BUDISTAS (sânscr., samgiti) – 1º Concílio realizado pouco depois da morte de Buda, sob os auspícios do Rei Ajatasattu, do norte da Índia, em Rajagriha, no ano 480 a.E.C. sob a presidência de Kashyapa, fica determinado o Cânone Páli; 2º Concílio em Vaishali, em 386 a.E.C., apoiado pelo Rei Kalasoka; ocorre a secessão dos futuros adeptos do Mahayana; 3º  Concílio (escola Theravada), em Pataliputra (hoje, Patna), em 308 a.E.C., sob o reino de Ashoka: cisão definitiva do Mahayana; 4º Concílio realizado sob o patrocínio do Rei Kanishka, entre os anos 29 e 13 a.E.C., o Cânone Páli é redigido (antes eram guardados de memória) pela primeira vez, escrito em folhas de palmeira no Ceilão (hoje, Sri Lanka); 5º Concílio foi efetuado em Mandalay (Burma), no ano de 1871, sob o governo do rei-patrono Mindon; os textos foram então escritos em 729 lousas de mármore, e o 6º Concílio (Theravada), em Rangoon-Birmânia (República da União de Burma), da Lua Cheia de maio de 1954, à Lua Cheia do mesmo mês de 1956; a este Concílio compareceram cerca de 2000 representantes de povos budistas, dos mais eruditos, com a finalidade precípua de estudar, comparar, corrigir ou aprovar textos doutrinários; o Cânone Páli é revisado e a edição Páli é publicada em birmanês.

CONDIÇÃO – a fenomênica como se mostra no presente. "Surgimento condicionado" ou "gênese condicionada". Significa que todos os fenômenos resultam de outros fenômenos e nenhum deles tem natureza autônoma. Originação (causação) interdependente.

CONFISSÃO – purificação de carma negativo por meio dos quatro poderes oponentes – o poder da confiança, do arrependimento, do antídoto e da promessa.

CONFÚCIO (chinês, K'ung Tzu, 551-479 a.E.C.) – um dos primeiros filósofos chineses da moral. O confucionismo, filosofia que leva seu nome, foi a filosofia oficial da China entre o século III a.E.C. e a queda da dinastia Ch'ing, em 1911.

CONSIDERAÇÃO – agindo em prol do interesse dos ou­tros, este fator mental leva-nos a evitar as ações impróprias.

CONTEMPORÂNEOS DE BUDA SHAKYAMUNI – na Índia, ao tempo de Shakyamuni, temos o Mahavira, do Jainismo; na China, Lao-Tsé e Confúcio; na Judéia, Jeremias e o segundo Isaías; na Grécia, os filósofos pré-socráticos, e talvez na Pérsia, Zaratustra. Tal simultaneidade de gênios denota muita intercomunicação de idéias entre as antigas culturas.

CORPOS DE BUDA – um Buda tem quatro corpos: o Corpo-Verdade Sabedoria, o Corpo Natureza, o Corpo Fruição e os Cor­pos Emanados. O primeiro é a mente onisciente de Buda; o segundo é a vacuidade ou a natureza última da sua mente; o terceiro é o seu Corpo Forma efetivo, que é muito sutil; e o quarto são os Corpos Forma densos que são visíveis para os seres comuns e dos quais cada Buda manifesta um número incontável. O Corpo-Verdade Sabedoria e o Corpo Natureza fazem parte do Corpo Verdade, e o Corpo Fruição e os Corpos Emana­dos fazem parte do Corpo Forma.


D

DAI JI (jap.) – um dos diagramas referentes à transmissão do Darma, ou dos ensinamentos secretos transmitidos de mestre a discípulo.

DAIGIDAN (jap.) – grande dúvida; um dos Três Pilares do Zen.

DAINICHI-KYÔ (jap.) – veja Mahavairochana-Sutra.

DAIOSHÔ (jap.) – grande monge; termo honorífico de mestres Zen.

DAISHI (jap.) – grande mestre; título honorífico do budismo japonês.

DAISHIKAN (jap.) – grande raiz de fé; um dos Três Pilares do Zen.

DAITOKU-JI (jap.) – Monastério da Grande Virtude; um dos maiores monastérios Zen de Kyoto, no Japão.

DAKINI – no budismo Vajrayana, ser de sabedoria feminino, irado, que transmite ensinamentos tântricos.

DALAI LAMA (tib., Ta La'i Bla Ma) – "Oceano de Sabedoria"; título honorífico concedido pelo príncipe mongol Althan Kham ao líder da escola tibetana Gelug, em 1578. É o chefe temporal do Tlbete, encarnação de Avalo­klteshvara. Residia em Lha-Sa, capital do Tibete, a "Cidade dos Deuses".

 Relação dos 14 Dalai Lamas:

I. Dalai Lama Gendün Drub – (1391-1475)

2. Dalai Lama Gendün Gyatso – (1475-1542)

3. Dalai Lama Sönam Gyatso – (1543-1588)

4. Dalai Lama Yönten Gyatso – (1589-1617)

5. Dalai Lama Losang Gyatso – (1617-1682)

6. Dalai Lama Jamyang Gyatso – (1683-1706)

7. Dalai Lama Kelsang Gyatso – (1708-1757)

8. Dalai Lama Jampel Gyatso – (1758-1804)

9. Dalai Lama Lungtog Gyatso – (1806-1815)

10. Dalai Lama Tsültrim Gyatso – (1816-1837)

11. Dalai Lama Kedrub Gyatso – (1838-1856)

12. Dalai Lama Trinle Gyatso – (1856-1875)

13. Dalai Lama Tubten Gyatso – (1876-1933)

14. Dalai Lama Tenzin Gyatso – (nasc. 1935)

DANA (sânscr. e páli) – generosidade; um dos seis paramitas.

DANGYÔ (jap.) – veja Liu-Tsu Ta-Shih Fa-Pao-T'an-Ching.

DARUMA (jap.) – veja Bodhidharma.

DEDICAÇÃO DE MÉRITOS (sânscr., parinama) – no budismo, o último passo de qualquer cerimônia ou recitação, seja de sutras, seja de daranis ou dos nomes do Buda.

DELUSÃO – um fator mental que nasce a partir de atenção imprópria e serve para tornar a mente agitada e descontrolada. As três delusões principais são: ignorância, apego e ódio. Delas derivam todas as outras: ciúme, orgulho, dúvida deludida, etc.

DELUSÕES INATAS – aquelas que surgem naturalmente, sem especu­lação intelectual.

DELUSÕES INTELECTUALMENTE FORMADAS – aquelas que surgem como resultado de raciocínios incorretos ou dogmas equivocados.

DEMÔNIO (sânscr.) – "Mara"; tudo o que obstrui a aquisição da libertação ou da iluminação. Existem quatro tipos principais de de­mônios: o demônio das delusões, o demônio dos agregados contamina­dos, o demônio da morte descontrolada e os demônios Devaputra. Entre eles, só os últimos são seres sencientes. O principal demônio Devaputra é Ishvara irado, o mais elevado dos deuses do reino do desejo, que habita na Terra de Controlar Emanações. Um Buda é chama­do de 'Conquistador' porque ele ou ela conquistou os quatro tipos de demônios.

DENKÔROKU (jap.) – "Transmissão da Luz"; coletânea de episódios sobre as transmissões da escola Sôtô Zen.

DESTRUIDOR DE INIMIGOS (sânscr., Arhat) – um praticante que, treinando-se nos caminhos espirituais, abandonou todas as delusões e suas sementes, e que nunca mais irá renascer no samsara. Neste contexto, o termo 'inimigo' refere-se às delusões. Veja Ouvinte e Arhat.

DEVA (sânscr. e páli) – ser celestial ou deus; um dos seis gati. Classe de habitantes de um dos reinos su­periores de existência, que reside nos felizes mundos celestiais, mas que como todos os seres, está sujeito ao ciclo de renascimento. Como resultado de boas ações anteriores, eles gozam de vida longa e feliz. Contudo, tal felicidade repre­senta o principal obstáculo à sua iluminação. Por causa desse sentimento, os devas não conseguem compreender a verdade do sofrimento.

DEVADATTA – um dos discípulos do Buda Shakyamuni, primo de sua esposa Yasodhara.

DEVA-DUTA  (sânscr.) – mensageiros divinos.

DEVA-RAJA (sânscr.) – reis celestiais.

DEZ APEGOS POTENCIAIS QUE IMPEDEM A BOA MEDITAÇÃO – o Visuddhimagga lista dez categorias de apegos potenciais, todos empecilhos ao progresso na meditação: (1) qualquer moradia fixa se sua manutenção é motivo de preocupação, (2) família, se seu bem­estar gera inquietação, (3) acúmulo de presentes ou reputação, que envolve perda de tempo com admiradores, (4) um séquito de discípulos ou a ocupação de estar ensinando, (5) projetos, ter "algo para fazer", (6) perambulações, (7) pessoas caras a alguém cujas necessidades pedem atenção, (8) doença que necessita de tratamento prolongado, (9) estudos teóricos não acompanhados pela prática, e (10) poderes psíquicos sobrenaturais, cuja práti­ca se torna mais interessante que a meditação. Desprender-se dessas obrigações libera o meditador para a busca sincera da meditação, isso é, "purificação" no sentido de liberar a mente de questões preocupantes. A vida do monge é traçada para esse tipo de liberdade; para o leigo, breves retiros permitem um isolamento temporário.

DEZ ATOS BENÉFICOS ou Dez Bons Caminhos – a saber: (1) não matar, (2) não roubar, (3) não ter má conduta sexual, (4) não mentir, (5) não fin­gir, (6) não proferir palavras ásperas, (7) não adular, (8) não ser ganancioso, (9) não sentir raiva, (10) não  alimentar a ignorância.

DEZ BENEFÍCIOS ADVINDOS DA PRÁTICA DA DILIGÊNCIA – (1) não somos facilmente derrotados pelas circunstâncias; (2) recebemos as bêncãos de muitos Budas; (3) somos honrados por seres de outros planos de existência; (4) lembramos o Darma com facilidade; (5) aprendemos depressa; (6) passamos a utilizar a linguagem de forma eficaz; (7) alcançamos estados de samadhi profundos; (8) temos menos doenças e preocupações; (9) melhoramos a digestão, e (10) iluminamo-nos mais rapidamente.

DEZ DIREÇÕES – os oito pontos da bússola (norte, sul, leste, oeste, nordeste, noroeste, sudeste e sudoeste) mais os pontos do nadir e do zênite.

DEZ EPÍTETOS DO BUDA – dez nomes pelos quais são descritas as características e qualidades do Buda. São eles:

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1. Bhagavan (ou Bhagavat): literalmente, significa "afortunado, próspero, feliz, divino, adorável e venerável". Uma vez que o Buda conseguiu eliminar todas as aflições e impurezas, ele é o mais venerável dos seres.

2. Mundialmente Honrado: tradução usual adotada na atualidade para as expressões originais em sânscrito loka-natha: "senhor dos mundos" e loka-jyestha:"o mais venerável no mundo".

3. Merecedor de Oferendas (sânscr., arhat ou arhant; pāli, arahat ou arahant): tendo levado à    plenitude todas as virtudes, alcançado a sabedoria suprema e se libertado de todas as ilusões e sofrimentos. Portanto, é merecedor de oferendas dos seres celestiais e humanos.

4. Absoluta Consciência Universal lluminada (sânscr., samyaksambodhi; pāli, sammasambodhi): a expressão sambodhi designa a verdadeira sabedoria, que possibilita ver a real natureza de todos os Darmas. Esse tipo de sabedoria é também conhecido como a sabedoria do Tathagata. Samyaksambodhi refere-se ao conhecimento completamente perfeito e à sabedoria para os quais despertam todos os Budas.

5. Atividade da Brilhante Plenitude (sânscr., vidya-charana-sampanna): "Brilhante Plenitude" representa a iluminação suprema (anuttara-samyak-samboddhi); "atividade" con­cerne à conduta que tem por base seguir os preceitos, praticar a meditação e aperfeiçoar a sabedoria. Portanto, pode-se dizer que o Buda alcançou a iluminação suprema como resultado da plena execução da prática dos preceitos, da meditação e da sabedoria.

­6. Aquele que Partiu Imaculadamente (sânscr., sugata) ou ''Aquele que Partiu Bem"; refere-se a entrar em estado de samadhi profundo e de maravilhosa sabedoria. Em outras palavras, o Buda atravessou para a outra margem e nunca mais esteve sujeito ao ciclo de nascimento e morte.

7. Compreensão Transcendente do Mundo Comum (sânscr., lokavid): o Buda sabe tudo sobre o mundo comum, incluindo o que é associado aos seres sencientes e não-sencientes. Ele também compreende a causa da formação e da extinção do mundo material. Por outro lado, conhece verdadeiramente o caminho que leva ao mundo supramaterial.

8. Insuperável (sânscr., anuttara): as virtudes e a sabedoria do Tathagatha são insuperáveis no mundo material.

9. Verdadeiro Homem que Doma e Harmoniza (sânscr., purusha damyasarathi): significa que    o Buda é um mestre que emprega meios hábeis, grande bondade amorosa, compaixão e sabedoria para domar e guiar os seres sencientes na trilha para a libertação.

10. Professor de Seres Humanos e Divinos (sânscr., sasta deva-manusyanam): o Buda ensina a todos os seres sencientes, inclusive os celestiais e os humanos, o que deve e não deve ser feito, o que é íntegro ou não. O Buda também sabe determinar se alguém é capaz de seguir seus ensinamentos, praticá-Ios de fato, não abandonar o Darma e o caminho e, em última instância, libertar-se de todas as aflições.

DEZ ESTÁGIOS DE EVOLUÇÃO DO BODHISATTVA – também conhecidos como os "dez terrenos", englobam do 41º ao 50º nível dos 52 que compõem o caminho do bodhisattva. São os estágios através dos quais um praticante budista progride.

DEZ GRILHÕES QUE NOS PRENDEM À RODA DA EXISTÊNCIA CONTÍNUA – (1) crença na personalidade ou na ilusão do "eu"; (2) dúvida cética defensiva, ou discursiva; (3) apego a regras e rituais; (4) desejo sensorial pela procura de satisfação através da imaginação da mente; (5) má vontade, repugnância e ódio; (6) anseio pela paz espiritual devido ao apego a objetos psíquicos sutis da meditação intensa (mundo das formas); (8) orgulho espiritual; (9) inquietude e preocupação da mente, e (10) ignorância devido aos resíduos de apego e de auto-ilusão.

DEZ IMPERFEIÇÕES – é Buda que diz: 3 para o corpo (matar, roubar, e, o mau uso dos prazeres sensuais: adultério, luxúria, gula etc.); 4 para a palavra (mentir, dizer palavras vãs, dizer palavras rudes, difamar), e, agir pelo mau pensamento (desejo de concupiscência, desejo de prejudicar – ódio e inveja -, incredulidade – juízos errôneos dúvida  cética e discursiva).

DEZ PERFEIÇÕES – no budismo Mahayana este é o caminho do Bodhisattva; segundo  o Sutta Pitaca, Buda-Vasna, são as seguintes: (1) caridade ou generosidade (dana), (2) a conduta ética ou dever (sila), (3) a renúncia (nekkhamma), (4) a sabedoria (panna), o esforço, energia (virya), (6) a paciência (khanti), (7) a fidelidade (sacca), (8) a determinação (adhitthana), (9) a bondade ou compaixão (metta), e (10) a equanimidade (upekka).

DEZ PRECEITOS: expansão dos Oito Preceitos de Purificação (ver neste dicionário), incluin­do (9) não comer depois do meio-dia; (10) não possuir ouro, prata ou outros metais e pedras preciosos.

DEZOITO GRANDES ARHATS – que prometeram permanecer no mundo depois do Parinirvana do Buda para proteger o Darma até que fosse proclamado por Maitreya, o próximo Buda do Bhadrakalpa. Segundo Bu-ston, no budismo primitivo encontram-se dezesseis grandes Arhats; são eles: Panthaka (ou, Svapaka), Abhedya, Kanaka, Bakula, Bharadvaja, Mahakalika, Vajriputra, Rahula (não era o filho de Shakyamuni), Sribhadra, Gopaka, Nagasena, Vanavasin (ou, Vanava), Ksu­drakapanthaka, Ajita, Kanakavatsa e Angiraja. Confor­me outras fontes tradicionais (budismo primitivo) os nomes dos Dezesseis Arhats são Angaja (ou, Ingada), Ajita, Vanavasin, Kalika, Vajriputra, Sribhadra, Kanakavatsa, Kanakabharadvaja, Bakula, Rahula (não era o filho de Shakyamuni), Cudapanthaka, Pindola, Bharadvaja, Panthaka, Nagasena, Gopaka, Abheda. Na tradição Mahayana, foram acrescentados mais dois Arhats; citaremos os dezoito, com os nomes encontrados em nossas fontes: Pindolabharadvaja, Kanakavatsa, Kanakabharadvaja, Subinda, Bakula, Bhadra, Kalika, Vajraputra, Jivaka, Panthaka (ou, Svapaka), Nagasena, Rahula, (não era o filho de Shakyamuni), Angaja (ou, Ingada), Vanavasin (ou, Vanava), Ajita, Cudapanthaka, Dharmatrata e Maitreya (não é o próximo Buda).

DEZOITO MUNDOS ou OS DEZOITO ELEMENTOS PSICOFÍSICOS – os dezoito elementos psicofísicos são constituídos pelas seis bases internas – olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo, mente -, pelas seis externas – formas visíveis, sons, odores, sabores, objetos tangíveis, objetos da mente – e pelos seis tipos de consciência: consciência visual, auditiva, olfativa, gustativa, tátil ou do corpo, e mental.

Este nosso ser, este nosso suposto eu, são dezoito elementos psicofísicos que se entrosam e atuam de uma maneira ininterrupta. Assim, cada vez que ouvimos qualquer coisa, opera-se um fenômeno que é condicionado pela base interna, pela base externa, e aquele momento de consciência é composto de sensação, percepção, formação e consciência.

Desta forma, os Cinco Agregados (matéria, sensações, percepções, formações mentais e consciência) que chamamos um "ser", um "indi­víduo", ou "eu", são apenas um rótulo que damos a esta combinação que é impermanente e em constante mudança. O EU é um composto instável em contínuo movimento e que a todo momento se modifica; o EU dura o tempo exato de uma combinação de elementos do plano psicofísico, pois, no instante seguinte, outra é a combinação existente. Por mais que analisemos o EU, sob qualquer aspecto que possamos considerá-Io, sempre vamos encontrar a impermanência, e em nenhuma parte um lugar para qualquer coisa permanente.

Deste modo A não é igual a A nunca, mas apenas um fluxo de surgir e desaparecer sucessivos e instantâneos. Como disse Buda a Rathapala: "O mundo é um fluxo contínuo e impermanente. É como um rio de montanha que vai longe e corre rápido, ininterruptamente, levando consigo tudo o que encontra pelo caminho, não deixando um momento, um instante, de correr. Assim também, ó brâmane, a vida humana assemelha-se a esse rio; é contínua e impermanente."

Heráclito (cerca de 500 a. E. C.) na sua doutrina, segundo a qual tudo está num perpétuo estado de mudanças ou transformações, disse: "Nunca podeis descer duas vezes no mesmo rio, pois novas águas escoarão sobre vós."

O que chamamos indivíduo, eu, ou coisa, em suma, nada mais é que certo aspecto da corrente de causa e efeito que com nossos sen­tidos percebemos, em dado momento do tempo.

        Quando uma coisa desaparece, condiciona o surgimento da se­guinte em uma série de causas e efeitos contínuos, de onde se vê que não existe substância permanente. Não há nada por detrás desta corrente que possa ser considerado como um "eu" permanente, uma individualidade; não há nada que possa ser chamado realmente "eu". Porém, quando os cinco agregados físicos e mentais, que são ínterde­pendentes, trabalham em conjunto, surge em nós uma formação mental, que dá a falsa idéia de um "eu". Não há outro "ser", ou "eu", por trás dos cinco agregados que constituem um ser. Buddhaghosa disse: "Só o sofrimento existe, porém não se encontra nenhum sofredor".

É fundamental compreender que os Cinco Agregados da existência surgem e passam ao mesmo tempo. Quando há o contato entre a base interna e a base externa, não é que surge a sensação primeiro, depois a percepção, depois a consciência – elas surgem e passam ao mesmo tempo. Tudo aquilo que sentimos, ao mesmo tempo percebemos e ao mesmo tempo estamos conscientes de tudo aquilo que nós sentimos e percebemos.

Refletindo, observamos que os fenômenos psicofísicos são imper­manentes, pois tudo, por mais longa que seja a duração neste Universo, terá um fim. Desta forma, sobre a existência, o drama da vida, o drama de sangue, de suor, de lágrimas, da vitória do mais apto, etc., concluí­mos, verdadeiramente, esta existência é insatisfatória. De acordo com a Realidade e a verdadeira Sabedoria é impossível haver controle sobre os Cinco Agregados da existência; então vemos que não somos donos desse nosso corpo, das nossas sensações, percepções, volições e cons­ciência. Se o que temos de mais pessoal, mais íntimo, não nos per­tence, então muito menos as coisas exteriores. Desta maneira, che­gamos à conclusão de que existe um vir-a-ser, um fluxo de fenômenos; não há verdadeiramente um dono, o que nos demonstra a impessoali­dade de todos os fenômenos psicofísicos e, portanto, do eu. Quando compreendemos isto, o apego, que é a causa fundamental do sofrimento, vai-se tornando cada vez mais fraco.

DHAMMAPADA (páli) – parte do Khuddaka-Nikāya com 426 versos sobre o ensinamento budista.

DHARANI (sânscr.) – "a que sustenta"; no budismo Mahayana e Vajrayana, curtas escrituras que contêm fór­mulas poderosas compostas de sílabas com conteúdo simbólico (mantras); podem comunicar a essência de um ensinamento ou de um estado particular da mente que é criado pela repetição da darani. Geralmente são mais longas que os mantras e mais curtas que os sutras. Veja Mantra

DHARMA (sânscr.; páli, Dhamma; chinês, Fa; jap., Hô) – "carregando", "segurando"; os ensinamentos do Buda que portam a verdade; os orientais também usam a palavra Buddhadharma, uma das Três Jóias (Triratna); com letra minúscula, dharma geralmente se refere a um fenômeno ou manifestação da realidade. É o cerne da for­ma como o budismo vê a realidade e também o papel que desempenhamos nessa realidade. Tem vários significados, como a lei cósmica que se manifesta em todos os fenômenos; o ensinamento do Buda; o comportamento moral e as regras éticas; a realidade do estado geral das coisas; coisa; fenômeno; conteúdo mental; objeto de pensamento; idéia – o reflexo de algo na mente humana; termo para os assim chamados "fatores da existência", considerados os blocos constituintes da personalidade empírica e seu mundo.

DHARMACHAKRA (sânscr.; páli, dhammachakka) – "Roda do Darma"; o símbolo do budismo.

DHARMADHATU (sânscr.) – "mundo do Darma"; plano em que todos os darmas (fenômenos) surgem e desaparecem.

DHARMAGUPTAKA (sânscr.; páli, Dhammaguttika; chinês, Lü-Tsung; jap., Ritsu[-Shû]) – "protetor do ensinamento"; escola fundada pelo monge indiano Dharmaguptaka, pertencente ao grupo Sthaviravada.

DHARMAKAYA (sânscr.) – "Corpo do Darma", "Corpo da Grande Ordem"; natureza do Buda, que é idêntica à realidade transcendental. A unidade do Buda com tudo o que existe. Um dos três corpos (Trikaya), sendo os outros dois o Sambhogakaya e o Ninnanakaya.

DHARMAKIRTI – monge indiano (século VII) da filosofia Yogachara.

DHARMAPALA – guardião dos ensinamentos, protetor do Darma.

DHATU (sânscr.) – campo, esfera, reino (do desejo, da forma e da não-forma).

DHATUGABBHA (páli) – veja stupa.

DHATUGARBHA (sânscr.) – veja stupa.

DHÜTA (sânscr. e páli) – "lançar fora"; práticas ascéticas aceitas pelo Buda que se podem fazer consigo mesmo,  pelo voto, por períodos de tempo específicos a fim de desenvolver o contentamento e o poder da vontade; para eliminar as paixões. São conhecidas doze práticas ascéticas: (1) usar vestes gastas e remendadas; (2) usar veste feita de três retalhos (trichivara); (3) comer somente alimento mendicado; (4) fazer somente uma refeição ao dia, (5) comer somente o estritamente necessário; (6) comer somente uma porção; (7) viver segregado em lugar afastado; (8) viver em terra de ossários; (9) viver sob uma árvore; (10) viver ao relento; (11) viver conforme lugar se apresenta, e (12) somente sentar-se, nunca se deitar.

DHYANA (sânscr.; páli, Jhana; chinês, Ch'an; jap., Zen) – meditação, concentração, absorção meditativa.

DHYANI-BUDDHA (sânscr.) – Buda meditacional; no budismo Mahayana, os cinco Budas transcendentes que representam os aspectos da mente iluminada: VAIROCHANA, AMITABHA, AMOGHASIDDHI, AKSHOBHYA e RATNASAMBHAVA.

DIGHA-NIKĀYA (páli) – Coleção Longa; uma das seções do Sutta Pitaka.

DIGNAGA – monge indiano (480-540) da escola Yogachara.

DINASTIA T'ANG (618-905) – até a repressão do Budismo pelo império, em 845, a dinastia T'ang foi o mais grandioso período dessa religião na China.

DIPAMKARA – Buda lendário de um passado distante.

DISCIPLINAS DO BODHISATTVA – todas as práticas do caminho do bodhisattva, incluindo as perfeições, dentre as quais as mais conhecidas são as "seis perfeições", ou "seis para­mitas"): (1) generosidade, (2) cumprimento dos preceitos, (3) paciência, (4) dili­gência, (5) meditação e (6) sabedoria (prajna).

DITOSA ÁRVORE DAS BRISAS MUSICAIS – tipo de árvore que só cresce nas Terras Puras dos Budas. Ela emite música ao ser tocada pela brisa.

DOAN (jap.) – a pessoa que conduz o cântico e toca os instrumentos durante um culto budista.

DÔGEN, ZENJI – monge Zen japonês (1200-1253), fundador da escola Sôtô.

DOKUSAN (jap.) – entrevista formal de estudante Zen com seu mestre.

DOSA (páli) – raiva, ódio, má vontade.

DOSHÔ – monge japonês (629-700), fundador da escola Hossô.

DOZE ATOS DE UM BUDA – são as ações significativas realizadas por qualquer Buda manifestando-se no reino humano: (1) a decisão de renascer pela última vez; (2) a descida do céu de Tusita; (3) a entrada no útero de uma mãe; (4) o nascimento no reino humano; (5) a demonstração de superioridade nas habilidades terrenas; (6) habitação em casa com mulher; (7) a partida do lar; (8) a prática de austeridades; (9) a conquista do demônio Mara; (10) a Iluminação; (11) girar a Roda do Darma, e (12) o Parinirvana.

DOZE CONDIÇÕES CAUSAIS ou doze nidanas (sânscr.) – "elos" os doze elos na cadeia da "gênese condicionada". São eles: (1) ignorância, (2) formações cármicas, (3) consciência, (4) nome e forma, (5) os seis sentidos, (6) contato, (7) sensações, (8) desejos, (9) apego, (10) vir-a-ser, (11) renascimento, e (12) morte.

DUALIDADES, ou Oito Ventos – os quatro pares de dualidades ou opostos, também chamados de Oito Ventos, são: (1) lucro e prejuízo; (2) difamação e fama; (3) elogio e censura, e (4) sofrimento e alegria. O Buda Shakyamuni ensinou que essas oito condições, conhecidas como "ventos", são parte integrante da vida.

DUHKHA (sânscr.; páli, dukkha; chinês, K'u; jap., Ku) – sofrimento, dor; uma das Quatro Nobres Verdades. Veja também: Trilakshana.

DVESHA (sânscr.) – raiva, ódio, má vontade.


E

EGO (lat.) – no budismo o conceito de um ego, no sentido de consciência de um indivíduo, é visto como composto de fatores não-válidos, como a delusão. O conceito de um ego instaura-se quando a dicotomização intelectual (o sexto sentido – shadayatana) é confundido na pressuposção de um dualismo entre ego e não-ego (ou outro). Em conseqüência nós pensamos e agimos como se fôssemos entidades separadas de tudo o mais. Veja Dezoito Mundos.

EIHEI-JI (jap.) – Monastério da Paz Eterna; um dos principais monastérios da escola Sôtô Zen no Japão.

EINSTEIN, ALBERT – achamos oportuno registrar um escrito deste cientista: "A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a Teologia. Abrangendo os terrenos material e espiritual, essa religião será baseada num certo sentido religioso procedente da experiência de todas as coisas, naturais e espirituais, como uma unidade expressiva ou como a expressão da Unidade. O Budismo corresponde a essa descrição" 36.

EISAI ZENJI – monge japonês (1141-1215) da linhagem Rinzai Ôryô, que levou o Zen da China para o Japão. Também levou mudas de chá da China e, por isso, é conhecido como o "pai do chá japonês".

EKA (jap.) – veja Hui-K'o.

EKO (jap.) – a prática de transferir os próprios méritos para os outros.

ENGAKU-JI – Monastério da Iluminação Completa; monastério Zen fundado em 1282 na cidade de Kamakura, no Japão.

ENNIN – monge japonês (793-864) da escola Tendai, discípulo de Saichô.

EN'Ô (jap.) – veja Hui-Neng.

ENSÔ (jap.) – "círculo"; no budismo Zen, símbolo do vazio, do absoluto, da iluminação.

ESPANADOR CH'AN (chinês, fu-tzu) – emblema da autoridade do mestre e importante instrumento pedagógico na metodologia Ch'an, sendo empregado para comu­nicar um ensinamento através de gestos, sem o emprego de palavras. Consiste em um bastão com cerdas, como um grande pincel. Simbolicamente, ferra­menta para a remoção do pó (ignorância) de uma superfície (o espelho da mente original).

ESTADO INTERMEDIÁRIO (tib., bardo) – o estado entre a morte e um próximo renascimento. Começa no instante em que a consciência deixa um corpo e termina quando ela ingressa no corpo da próxima vida.


F

FA-HSIANG (chinês; jap., Hossô) – escola chinesa fundada por Hsüan-Tsang (600-664) e K'uei-Chi (638-682), com base na filosofia indiana Yogachara.

FA-HSIEN – monge peregrino chinês (337-422) que viveu por muitos anos na Índia.

FA-HUA-CHING (chinês) – o significado do capítulo das Práticas Pacíficas do Sutra do Lótus.

FA-HUA HSÜAN-I (chinês) – significado profundo do Sutra do Lótus.

FA-HUA-SAN-MEI (chinês) – meditação do Sutra do Lótus.

FA-HUA WEN-CHÜ (chinês) – palavras e frases do Sutra do Lótus

FA-HUA WEN-CHÜ-CHI (chinês) – anotações do Hokke Mongu.

FA-LANG – monge chinês (507-581) da escola San-Lun.

FA YEN (885-958) – monge budista chinês que fundou a escola Fa Yen, que durou cerca de cem anos.

FAN CHUNG-YEN (989-1052) – funcionário do governo, durante a dinastia Sung, que cresceu em um monastério budista. Fan foi um grande benemérito para o Budismo.

FANTASMAS FAMINTOS – o penúltimo nível dos Seis Planos da Existência. Caso os fantasmas famintos comam ou bebam, o alimento transforma-se em fogo em suas gargantas.

FATOR MENTAL – conhecedor que apreende, principalmente, um atributo particular de um objeto. Há 51 fatores mentais especí­ficos.

– o budismo é baseado na visão das coisas pelo conhecimento e compreensão, e não pela fé ou crença cega. No momento em que "vemos", a crença desaparece e a fé cede lugar à confiança baseada no conhecimento. Os ensinamentos budistas nos convidam a "vir e ver", não a "vir para crer". À propósito, lemos em Georges Silva, p. 29,o seguinte: "Estritamente falando, o Budismo não é uma religião, nem um sistema de fé e culto, não possuindo qualquer vinculação com um Ser Supremo. É um caminho que guia o discípulo, mediante uma vida pura e pensamentos puros, à Suprema Sabedoria e libertação".

FESTAS DO BUDISMO

Em países Theravada:

Magha Puja – a lua cheia do mês de fevereiro comemora o discurso do Buda a 1250 monges plenamente iluminados, sob a forma de três estrofes que cultuam a essência do Darma, também conhecido como Ovadapatimokkha.

Vesakha, ou Vesak – a lua cheia de maio comemora o nascimento, a Iluminação e a morte (Parinirvana) do Buda Shakyamuni.

Poson, ou Festa do Dharma Vijaya – a lua cheia do mês de junho comemora o início da propagação do Darma por países estrangeiros, sob o governo do imperador Asoka (leia-se Ashoka) da Índia, e principalmente no Ceilão (hoje Sri Lanka), que foi convertido por seu filho Mahinda.

Dhammacakka, ou Asalha Puja – a lua cheia do mês de julho comemora o Primeiro Sermão do Buda, realizado em Benares.

Em países Mahayana:

em fevereiro – o nascimento do Bodhisattva Avalokiteshvara (em chinês, Kuan Yin Pu Sa).

15 de fevereiro – o Mahaparinirvana do Buda.

8 de abril – aniversário do Buda (no Japão, Hanamatsuri: "festa das flores").

em junho – a Iluminação do Bodhisattva Avalokiteshvara (em chinês, Kuan Yin Pu Sa).

em julho – o Dia da Sanga (Festival Ullambana ou Dia da Alegria do Buda).

em julho – o nascimento do Bodhisattva Kshtigarba (em chinês, Ti Ts'ang Pu Sa).

em setembro – o nascimento de Bhaishajyaguru Buddha, o Buda da Medicina (em chinês, Yao Shih Fo).

em novembro – o nascimento do Buda Amitabha (em chinês, O Mi To Fo).

15 de dezembro – o dia da Iluminação de Sidarta Gautama, o Buda Shakyamuni (em chinês, Shi Chia Mo Ni Fo).

FLOR UDUMBARA (Ficus glomerata) flor rara e maravilhosa. Nos sutras budistas, é utilizada como metáfora para o raro aparecimento de um Buda na Terra.

FO  (chinês) – veja Buddha.

FO GUANG SHAN (chinês, "Montanha da Luz de Buda") – é o nome do Monastério Central, em Taiwan (República da China), da Escola fundada pelo Venerável Mestre Hsing Yün.

FO-KUO-CHI (chinês) – registro sobre as regiões budistas

FO-TSU – é um cordão de contas, como "rosários" para guiar-se ao recitar mantras; existe na forma de colar ou de pulseiras de recitação menores. Veja mala.

FO-TSU T'UNG-CHI (chinês) – registro da ascendência do Buda e dos Patriarcas.

FUGEN (jap.) – veja Samantabhadra.

FUKAN-ZAZENGI (jap.) – Princípios Gerais para a Prática da Meditação; texto de Dôgen Zenji.

FUSÃO DOS ENSINAMENTOS DO C'HAN, TERRA PURA E O CAMINHO DO MEIO NO BUDISMO HUMANISTA – o VM Hsing Yün nos diz: "Os ensinamentos budistas são vastos e profundos, e existem muitas seitas e escolas. Os ensinamentos das escolas Ch'an e Terra Pura, a doutrina da unidade da forma e do vazio e o Caminho do Meio são alguns dos ensinamentos budistas voltados para o cotidiano das pessoas, e são, portanto, parte do Budismo Humanista. Na tradição Ch'an, patriarcas e mestres não praticam meditação para se tornarem Budas, mas para atingirem a iluminação. Com a iluminação, eles são capazes de experimentar a liberação e concentrar suas mentes e corpos no aqui-e-agora da vida diária. O que há de mais gratificante para os praticantes do Ch'an é encontrar a paz do corpo e da mente, ou em outras palavras, ‘iluminar a mente e desvendar nossa Verdadeira Natureza'. Assim, os praticantes do Ch'an direcionam sua atenção à vida neste mundo".

"A escola da Terra Pura faz o mesmo. Seus praticantes praticam a consciência (mindfulness) do Buda Amitabha e recitam o nome do Buda neste mundo na esperança de conseguir o renascimento na Terra Pura. Se suas práticas não forem adequadas, o renascimento na Terra Pura é impossível; assim, eles consideram este mundo como uma base para se devotarem a seu crescimento e a serem conscientes do Buda Amitabha. Não há atalhos. A prática da Terra Pura é um excelente método para acalmar nossas mentes e corpos, especialmente quando somos obrigados a enfrentar os desafios da sociedade moderna. Ao praticar os métodos do Darma, Ch'an e Terra Pura, se está verdadeiramente praticando Budismo Humanista".

"O Caminho do Meio, que é a sabedoria de harmonizar o vazio e a existência, nos permite a aventura de introduzirmo-nos diretamente na verdadeira realidade de todos os fenômenos. Ter a sabedoria prajna do Caminho do Meio significa gozar felicidade e bênçãos nesta vida mesmo. Algumas pessoas enfatizam excessivamente a vida materialista; elas se perdem no entusiasmo ardente das buscas mundanas. Outras abandonam o mundo recolhendo-se às montanhas para estarem sós. Cegos para os sofrimentos do mundo, tais pessoas são tão insensíveis quanto um galho seco ou um punhado de cinzas frias. Uma vida muito reclusa ou muito apaixonada não é saudável; falta-lhe a harmonia do Caminho do Meio". 
"O ‘Caminho do Meio' se refere à sabedoria prajna de contemplar o modo harmonizado. Se tivermos esse tipo de sabedoria, conheceremos os princípios subjacentes funcionando em várias situações e as atitudes apropriadas para lidar com eles. Se tivermos a sabedoria do Caminho do Meio, saberemos que a existência ocorre no vazio; sem o vazio nada poderia existir. Se não houvesse vazio espacial, como poderíamos nos reunir aqui? Sem espaço, como poderia desenvolver-se a infinidade de fenômenos do Universo? Somente em meio ao nada pode surgir a existência. O Budismo Humanista reconhece que o material e o espiritual são igualmente importantes na vida e, por isso, clama por uma vida que sustente a ambos. Existe o mundo externo das buscas e existe, também, o mundo interno da mente. Existe o mundo à nossa frente e existe, também, o que está atrás de nós. Se insistirmos em seguir em frente cegamente, é inevitável que nos machuquemos. É preciso, igualmente, olhar para trás e para dentro. O Budismo Humanista tem em conta tanto a existência quanto o vazio, a possessão e a não-possessão, o mundo do companheirismo e o da solidão. Harmonizando todas as coisas neste mundo, o Budismo Humanista permite às pessoas conquistar uma vida bela e maravilhosa".

"O Budismo Humanista que promovo pode ser observado no objetivo que estabeleci para a Ordem Budista Internacional Fo Guang Shan. O objetivo é dar às pessoas convicção, alegria, esperança e bem-estar. Acredito que estar disposto a servir, a dar uma mão, a estabelecer laços de amizade e a alegrar os demais são os ensinamentos do Buda. Em poucas palavras, a meta do Budismo Humanista promovido por Fo Guang Shan é tornar o Budismo relevante no mundo, em nossas vidas e em cada um de nossos corações. Apenas feche seus olhos e todo o Universo estará lá, dentro de você. Pode dizer a si mesmo: ‘Todos no mundo podem me abandonar, mas o Buda em meu coração jamais vai me deixar' ".

 "No mundo de hoje, estamos todos sobrecarregados de responsabilidades. Todos nos sentimos estressados com as obrigações em relação à nossa casa, aos negócios e à família. Sendo assim, como podemos viver uma vida satisfatória e feliz? Se praticarmos o Budismo Humanista, ou, em outras palavras, aplicarmos os ensinamentos budistas ao nosso cotidiano, possuiremos, então, todo o Universo, felizes e em paz em tudo que fizermos. Como disse o Mestre Ch'an Wumen: ‘A primavera tem suas flores, o outono, sua lua cheia brilhante; o verão tem suas brisas frescas e o inverno, a neve. A menos que sejamos aprisionados pelas preocupações mundanas, todas as estações são ótimas estações'. ‘Quando a mente está sobrecarregada, o mundo todo parece limitado; quando a mente está livre de preocupações, até uma pequena cama se alarga". Quando verdadeiramente alcançamos o mundo interno de nossas mentes, somente então somos um com todos os seres viventes e com todos os mundos. Com esta consciência, podemos ser felizes e relaxar. Como conseguir esta consciência? Só a obteremos se praticarmos continuamente os ensinamentos budistas em todas as circunstâncias de nossa vida diária. Este é o verdadeiro espírito do Budismo Humanista".

"Eu lhes apresentei aqui as seis diferentes maneiras pelas quais o Budismo Humanista incorpora os ensinamentos tradicionais dos Cinco Veículos; os Cinco Preceitos e as Dez Virtudes; Os Quatro Votos Ilimitados; os Seis Paramitas e as Quatro Grandes Virtudes Bodhisattvas; causa, condição, efeito e conseqüência; Ch'an, Terra Pura e o Caminho do Meio. Como esta conferência sobre o Budismo Humanista está chegando ao fim, ofereço-lhes estes pensamentos. Que sejam todos abençoados!"


G

GAMPOPA (tib., Sgam Po Pa) – monge tibetano (1079-1153), fundador da escola Kagyü.

GANTHA (sânscr.; jap., kongô-rei) – no budismo Vajrayana, instrumento que representa a sabedoria (prajna).

GANJIN (jap.) – veja Chien-Chen.

GARUDA (sânscr.) – pássaro mítico, metade homem, metade pássaro. No budismo garuda é, ocasionalmente, usado como sinônimo para Buda; em represen­tações de dhyanabuddha Amoghasiddhi, garuda aparece, às vezes, como seu veículo.

GASSHO (jap.) – um gesto ou cumprimento de respeito em que as mãos, com as palmas unidas e os dedos estendidos, são mantidas no nível superior do tórax ou na região inferior do rosto. Simboliza a unidade do corpo e da mente.

GATHA (sânscr.) – verso, sutra.

GATI (sânscr.) – modo de existência em um dos "Seis Reinos do Samsara": divino (deva), semi-divino (asura), humano (manushya), animal (tiryak), fantasmagórico (preta) ou infernal (naraka).

GAUTAMA (sânscr., tama: "o mais vitorioso", gau: "na terra") – nome do chefe da linhagem do clã dos Sakya; nome do Buda histórico.

GAZAN – monge Zen Soto que viveu três gerações após Zenji Dogen e que foi o sucessor de Keizan Jokin.

GELUG[-PA] (tib., Dge Lugs [Pa]) – escola Vajrayana fundada pelo monge tibetano Tsongkhapa (1357-1419), centralizada nos ensinamentos do Lamrim.

GÊNESE CONDICIONADA (sânscr., pratitya-samut-pada) – "surgimento dependente", "surgimento candicionado", "gênese co-dependente" – a lei de funcionamento do universo conforme percebida pelo Buda, segundo a qual todos os fenômenos dependem uns dos outros. Assim, nenhuma coisa ou fenômeno surge do nada nem pode existir indepen­dentemente por si própria. Ensinamento fundamental de todas as escolas do budismo, segundo o qual todos os fenômenos mentais e físicos da existência individual são interdependentes e condicionam-se mutua­mente. Ao mesmo tempo, a expressão descreve como os seres sencientes se emaranham no samsara.

GENJO-KÔAN (jap.) – é o kôan da Vida Diária; texto de Zenji Dôgen.

GESHE – um título dado pelos Monastérios Kadampas para mestres Bu­distas realizados.

GESHE LANGRI TANGPA (1054-1123 E.C) – um grande Geshe Kadampa que era famoso por sua realização de trocar o "eu" por outros. Ele compôs os Oito Versos do Treino da Mente.

GOKE-SHICHISHÛ (jap.) – cinco casas e sete escolas; as linhagens do budismo Zen chinês, surgidas durante a dinastia Tang (618-907).

GOTO EGEN – registros históricos de renome dos mestres zen chineses, em vinte e dois volumes.

GRANDE VEÍCULO – veja Mahayana.

GRIDHRAKUTA (sânscr.) – "Pico dos Abutres"; montanha indiana onde Shakyamuni teria transmitido os ensinamentos Mahayana.

GURU (sânscr.; tib., Lama/ Bla Ma) – "mestre espiritual"; uma das Três Raízes do budismo Vajrayana. Alguns consideram-no como a Quarta Jóia.

GURU RINPOCHE (tib.) – Mestre Precioso; veja Padmasambhava.

GUTEI – designação chinesa dada a Chuchih, mestre Zen do século IX.

GYOZAN EJAKU (falecido em 890) – famoso mestre Zen da dinastia T'ang.

GYULÜ (tib., Sgyu Lus) – corpo ilusório; uma das seis yogas de Naropa (Naro Chödrug).


H

HAIKU (jap.) – poesia japonesa de dezesseis sílabas.

HAKUIN ZENJI – monge Zen japonês (1689-1769) da escola Rinzai, autor do famoso kôan "qual o som de uma só mão batendo palmas?"

HAN SHU (chinês) – história dos Han anteriores.

HANKA-FUZA (jap.) – postura de meio-lótus, na qual uma perna fica sobre a outra.

HANNYA (jap.) – veja prajna.

HANNYA SHINGYÔ (jap.) – veja Mahaprajnaparamita-Hridaya Sutra.

HARA (jap.) –  uma região central na parte inferior do abdome, de onde vem a respiração durante a meditação. A hara é um ponto de equilíbrio e fonte do ki, ou energia vital

HARIVARMAN – monge indiano (século IV) cujos trabalhos originaram a escola Satyasiddhi (chinês, Ch'eng-Shih; jap., Jôjitsu).

HASSU (jap.) – sucessor do Darma, ancestral, patriarca.

HAYAGRIVA (sânscr.; jap., batô myô-ô) – manifestação irada de Avalokiteshvara, com cabeça de cavalo.

HINAYANA (sânscr.) – "Pequeno Veículo"; ramo ortodoxo da budismo que se espalhou principalmente pela sul da Ásia (Sri Lanka, Tailândia e Burma), também conhecido como Theravada. A ênfase do budismo Hinayana é colocada na iluminação individual, diferentemente do budismo Mahayana, que enfatiza a compaixão e a salvação de todos os seres. O termo Hinayana é, às vezes, utilizado em chinês para denotar práticas budistas individualistas, que não se preocupam com o bem-estar dos demais.

HÔGEN[-SHÛ] (jap.; chinês, Fa-Yen[-Tsung]) – escola Zen chinesa da tradição Goke-Shichishû.

HÔNEN – monge japonês (1133-1212), fundador da escola da Terra Pura (jap. Jôdo[-Shû]).

HOSSÔ (chinês, Fa-Hsiang) – escola japonesa fundada pelo monge Dôshô (629-700), com base nos ensinamentos da escola chinesa Fa-Hsiang. Também chamada de escola da Ideação Simples. Seu principal objetivo era investigar as qualidades e a natureza de tudo o que existe.

HOTEI (jap.) – veja Pu-Tai.

HOTOKE (jap.) – veja Buddha.

HOU HAN SHU (chinês) – história dos Han posteriores.

HSI-YU-CHI (chinês) – viagem para o Oeste.

HSI-YÜ – região Ocidental.

HSIANG-FA (chinês) – Lei Imitativa.

HSING SZE (?-740) – importante discípulo de Hui Neng. O mestre Hsing Sze foi fundamental no estabelecimento do Ch'an como uma das mais importantes escolas do Budismo chinês.

HSING YÜN – Venerável Mestre e 48º patriarca do budismo chinês da Escola Ch'an (Zen). Nascido em 1927 na China continental, fundou a Ordem Budista Fo Guang Shan, com sede na ilha de Taiwan (República da China), da qual foi abade até 1985.

HSÜ KAO-SENG-CHUAN (chinês) – biografias ulteriores de monges eminentes.

HSÜAN-TSANG – monge peregrino chinês (600-664), fundador da escola Fa-Hsiang, traduziu muitos textos do sânscrito para o chinês. Hsuan Tsang é famoso por sua viagem à Índia, onde foi buscar os sutras. Foi um dos fundadores da escola Fa Hsiang, a versão chinesa do Yogachara.

HUA-YEN (jap., Kegon) – Escola da Guirlanda de Flores; escola chinesa fundada pelo monge Fa-Tsang (643-712) com base nos ensinamentos do Avatamsaka Sutra.

HUI CH'AO – sucessor de Fa Yen.

HUI-K'O (jap., Eka) – monge chinês (487-593), discípulo e sucessor de Bodhidharma.

HUI-NENG (jap., En'ô) – monge chinês (638-713), sexto patriarca, ou líder, do budismo Ch'an na China, chamado Zen no Japão. Mestre de Hsing Sze (?-740), que foi fundamental no estabelecimento do Ch'an como uma das mais importantes escolas do Budismo chinês.

HUI-YÜAN – monge chinês (334-416), fundador da escola da Terra Pura (chinês Ching-T'u[-Tsung]). Foi aluno de Tao An e o Primeiro Patriarca do Budis­mo Terra Pura na China.

HUNG-JEN (jap., Gunin, Kônin) – monge chinês (601-674), quinto patriarca do Zen na China.


I

I-CHING – monge e peregrino chinês (635-713), um dos principais tradutores de textos do sânscrito para o chinês.

ICHCHANTIKA (sânscr.) – "incrédulo"; pessoa que se desviou do caminho benéfico.

IDDHI – poder psíquico.

IDDHIPADA – os Quatro Caminhos da Realização.

IGNORÂNCIA – é o fato de não estarmos conscientes das atividades da mente; é tudo aquilo que escapa de nossa Plena Atenção. Contemplando o aparecimento, o desenvolvimento e o desaparecimento dos pensamentos tornamo-nos conscientes deles, vendo-os como são, e sua influência sobre nós enfraquece-se cada vez mais.

ILUMINAÇÃO – veja bodhi.

INDRA (sânscr., deva) – um dos deuses mundanos.

INDRIYA (sânscr. e páli) – faculdade, força e poder dos sentidos e da própria mente.

INFERNO – o mais inferior plano da existência consciente. O mais baixo dentre os Seis Reinos da Existência. Há vários reinos infernais e em todos eles o sofrimento é tão intenso que pouco ou nada se avança no rumo da iluminação.

INGA (jap.) – causa e efeito, karma.

INKA-SHÔMEI (jap.) – confirmação da transmissão Zen de um mestre a um discípulo.

INNEN (jap.) – causa e efeito, carma.

INTEGRAÇÃO DOS CINCO VEÍCULOS NO BUDISMO HUMANISTA – o VM Hsing Yün nos diz: "Sabemos que o Budismo fala dos Cinco Veículos, que são: o humano, o celestial, o shravaka, o pratyekabuddha e o bodhisattva. Tanto o veículo humano como o celestial focalizam as questões mundanas. Os veículos shravaka e pratyekabuddha focalizam questões que transcendem a matéria. O veículo bodhisattva combina o espírito mundano dos veículos humano e celestial com o espírito transcendental dos veículos shravaka e pratyekabuddha. Deveríamos lutar pelo objetivo bodhisattva de, simultaneamente, beneficiar, entregar e despertar a nós mesmos e aos outros. Se entendermos que todos os seres estão indissoluvelmente inter-relacionados, veremos que beneficiar ao próximo significa beneficiar a si mesmo. Quando libertamos a outros seres viventes, também nos libertamos. Assim, quando a inter-relação dos ensinamentos desses cinco veículos é compreendida, temos então, o Budismo Humanista, ou o Budismo do mundo dos homens. Vou dar um exemplo para ilustrar o que quero dizer. Suponhamos que eu queira ir a Taipei hoje. Taipei é o objetivo de meu aperfeiçoamento budista; é uma terra pura. Ao pegar o trem, passa-se por Tainan, Taichung e Hsin Chu. Mesmo não tendo que descer nessas estações, não tenho outra escolha, a não ser passar por Tainan, Tai Chung, e Hsin Chu. Isso equivale a dizer que, enquanto atravessamos o cultivo dos veículos humano, celestial, sravaka e pratyekabuddha, podemos buscar a condição de Buda diretamente praticando os ensinamentos do Budismo Humanista do caminho do bodhisattva entre a multidão".

ISHIN-DENSHIN (jap.) – no budismo Zen, transmissão de coração-mente para coração mente.

ISHTA-DEVATA (sânscr.; tib. Yi Dam) – no budismo Vajrayana, divindade meditacional.

ISIPATANA – também conhecido com os nomes de Mrigadava e Rishipatana, refere-se ao Parque das Gazelas, próximo a Benares, onde Shakyamuni vai procurar seus cinco antigos companheiros, e profere sua primeira pregação sobre as Quatro Nobres Verdades.


J

JAINISMO – é um seguidor dos jinas, os conquistadores espirituais de cujas vidas e ensinamentos deriva a religião jainista na Índia. Eles são mestres humanos que atingiram o mais elevado conhecimento e visão interior e compartilharam com seus seguidores o caminho para o moksha, a liberação do renascimento em mundos de ignorância e sofrimento. Os jinas também são conhecidos como tirthankaras, "os fazedores de vaus", que conduzem as almas, através do rio do renascimento, ou samsara, para a liberdade espiritual. Os jainistas crêem que 24 tirthankaras surgam a cada meio ciclo do tempo para ensinar o caminho de libertação da alma, jiva, de sua prisão na existência material, o carma. Veja Mahavira.

JAKUJO (jap.) – tranqüilidade total. Jaku significa que "não há ninguém com quem você queira conversar", e jo significa "serenidade" ou "imperturbabilidade".

JAKU MOKU (jap.) – versão japonesa do chinês muni ("sábio" em sânscr.), a segunda parte do nome Shakyamuni. A palavra japonesa tem conotação de tranqüilidade e silêncio.

JAMPA (tib., Byams Pa) – veja Maitreya.

JAMPEL (tib., 'Jam Dpal) – veja Manjushri.

JATAKA – seção do Khuddhaka-Nikāya com as lendas sobre as vidas passadas do Buda Shakyamuni. Também, descreve, em um dos seus livros, os fatos (lendários?) em torno ao nascimento de Shakyamuni: ­"na cidade de Kapilavastu a festa da lua cheia… fora anunciada. A rainha Maia, no sétimo dia antes da lua, celebrou a festa sem bebidas e com abundância de guirlandas e perfumes. Levantando-se cedo no sétimo dia, banhou-se em água perfumada e distribuiu 400.000 moedas em esmolas. Belamente adornada, comeu alimentos escolhidos, fez os votos do Uposatha (isto é, votos apropriados para o Uposatha, ou quatro dias santos do mês: a lua cheia, a lua nova, e o oitavo dia depois de cada uma dessas luas), entrou em seu ornamentado aposento e, deitando-se na cama, sonhou um sonho".

"Quatro grandes reis a ergueram com o leito e a levaram para o Himalaia, onde a depuseram no platô de Manosila. (…) Então vieram as rainhas e a levaram para o lago Anotatta, banharam-na para remover a marca humana, vestiram-na de roupas celestes e enfeitaram-na de divinas flores. Não longe dali levantava-se uma montanha de prata, e no alto da montanha uma mansão de ouro. Lá lhe prepararam um leito divino, com a cabeceira para o oriente, e nele a deitaram. Então Bodhisattva (isto é, destinado a ser um Buda; aqui significando o próprio Buda (…) cujo nome pessoal era Sidarta, e cujo nome de clã era Gautama. Também foi chamado Shakya-muni, ou o "Sábio dos Shakyas", e Tathagata, "Um Que Conseguiu a Verdade". Buda, porém, nunca aplicou a si próprio qualquer desses nomes) tornou-se em elefante branco. Não longe dali estava a montanha de ouro, à qual ele se dirigiu em seguida; desceu-a e passou para a montanha de prata, na direção norte. Na tromba, que era como um calabre de prata, levava um lótus branco. Então, trombeteando, o elefante entrou na mansão de ouro, rodeou três vezes o leito de sua mãe, feriu-lhe o lado direito e como que lhe entrou na madre. E assim recebeu… uma nova existência".

"No dia seguinte a Rainha despertou e contou o sonho ao Rei. O Rei convocou 64 proeminentes brâmanes, honrou-os e satisfê-Ios com excelentes refeições e presentes. Então, quando os viu contentes daqueles prazeres, contou-Ihes do sonho da rainha e pediu-Ihes a significação. Os brâmanes responderam: Não te aflijas, ó Rei, a' Rainha conceberá filho macho, não fêmea, e tu terás um filho; e ele morará numa casa e se tornará rei, um monarca universal; se deixar sua casa e sair pelo mundo, ele se tornará um Buda, um afastador do véu (de ignorância) do mundo. (…) A Rainha Maia, trazendo em si, por dez meses, o Bodhisattva como óleo na ânfora, quando chegou o dia do parto desejou ir para a casa dos seus parentes e disse ao Rei Suddhodhana: "Desejo, ó Rei, ir para Devadaha, a cidade de minha gente." O Rei aprovou a idéia, e fez que aplainassem a estrada de Kapilavastu a Devadaha, e a enfeitassem de pavilhões e bandeiras; e, pondo-a num palanquim carregado por mil cortesãos, mandou-a com grande comitiva. Entre as duas cidades, e pertencendo aos moradores de ambas, havia um agradável bosque de árvores Sal, chamado Bosque Lumbini. Naquela ocasião, do nível do solo ao topo, as árvores eram só flores. (…) Quando a Rainha viu o bosque, desejou recrear-se nele. (…) Foi para baixo de uma árvore e desejou deitar mão num ramo. O ramo, como se fora flexível vi­me, inclinou-se ao seu alcance. A Rainha tomou-o e enquanto o segurava deu à luz a criança. (…) As outras criaturas quando nascem vêm envoltas em matéria impura – mas não foi assim com Bodhisattva. Como um pregador da Doutrina descendo da sede da Doutrina, como um homem que descesse das estrelas, estirou os braços e pernas e, isento de qualquer impureza, cintilante como uma jóia em panos de Benares, saiu de sua mãe."

Cumpre ainda notar que durante o nascimento de Buda uma grande luz apareceu no céu; os surdos ouviram; os mudos falaram; os paralíticos se levantaram; os deuses se debruçaram nos céus para contemplá-Io; e de longe vieram saudá-Io os reis.

JE RINPOCHE (tib., Je Rin Po Che) – veja Tsongkhapa.

 JE TSONGKHAPA (1357-1419 a.E.C.) – uma manifestação do Bodhisattva da Sabe­doria, Manjushri, cujo aparecimento como monge durante o século qua­torze no Tibete, havia sido predito por Buda. Ele restabeleceu a pureza da doutrina de Buda e demonstrou como praticar o puro Darma em tempos degenerados. Sua tradição ficou conhecida mais tarde, como a Tradição Ganden.

JIJUYU SAMADHI – o estado de consciência de uma pessoa plenamente iluminada. Jijuyu é um termo japonês dado a alguém que despertou para a verdade e que usa a alegria desse despertar em benefício dos outros. Samadhi é um termo sânscrito dado ao mais elevado estado de consciência.

JINA (sânscr.) – "vitorioso"; epíteto do Buda.

JIRIKI (jap.) – poder próprio (para alcançar a iluminação); o oposto de tariki.

JIZÔ (jap.) – veja Kshitigarbha.

JÔDO-SHIN[-SHÛ] (jap.) – Verdadeira Escola da Terra Pura, fundada pelo monge japonês Shinran (1173-1262), com base nos ensinamentos da escola Jôdo[-Shû]. O shin é a única variedade japonesa do tipo de budismo conhecido como Terra Pura. Sua origem se remonta ao século XIII pela figura carismática e profética de Shinran cuja interpretação da doutrina e dos ensinamentos tradicionais não somente influenciou enormemente em seu próprio tempo mas conservou sua força até nossos dias. Em uma época em que o budismo japonês estava dominado por um elite monástica, Shinran propôs um caminho de libertação que democratizou a doutrina e estendeu sua influência entre todas as camadas da população, sem distinção de idade, classe ou sexo. O shin é uma das grandes contribuições religiosas do Japão, sendo a forma de budismo mais praticada neste país. Entretanto, é pouco conhecida no Ocidente.

JÔDO[-SHÛ] (jap.) – Escola da Terra Pura, fundada pelo monge japonês Hônen (1133-1212) com base na escola Ching-T'u[-Tsung] chinesa.

JOHN MAIN (1926-1982) – monge beneditino que recuperou a tradição da meditação no cristianismo. Em 1975 fundou o priemiro Centro de Meditação Cristã, que veio a florescer na World Community for Christian Meditation (Comunnidade Mundial de Meditação Cristã), em Londres.

JÓIA-TRÍPLICE – veja Triratna.

JÔJITSU (jap.) – Escola da Perfeição da Verdade, fundada no Japão pelo monge coreano Ekwan em 625, com base na escola Ch'eng-Shih chinesa. A escola não existe independentemente, mas sim como uma parte da escola japonesa Sanron (chinês San-Lun).

JU CHING (1163-1228) – o mestre de Zenji Dogen na China, sob cuja orientação ele alcançou a iluminação. Em japonês, ele é conhecido como Tendo Nyojo.

JÛGYÛ[-NO]-ZU (jap.) – Dez Figuras de Boiadeiro; representação gráfica dos diversos níveis de realização Zen.

JÛJÛ[-KIN]-KAI (jap.) – Dez Preceitos Principais da escola Zen (não matar, não roubar, não cometer adultério, não mentir, não difamar, não ser orgulhoso ao elogiar, não cobiçar, não ter raiva, não difamar as Três Jóias). Veja dez perfeições.

JÛKAI (jap.) – receber os preceitos budistas.


K

K'ANG-CHÜ (chinês) – Sogdiana.

KADAM[-PA] (tib., Bka' Gdams [Pa]) – escola da Instrução Oral, escola Vajrayana tibetana fundada pelo monge indiano Atisha (980/90-1055), precursora da escola Gelug. É uma pessoa que pratica sinceramente o Lamrim e que in­corpora todos os ensinamentos do Buda que ela conhece à sua prática de Lamrim. Veja Lamrim.

KAGYÜ[-PA] (tib., Bka' Rgyud [Pa]) – Escola da Transmissão Oral, escola Vajrayana tibetana fundada pelo monge Gampopa (1079-1153), centralizada nos ensinamentos Mahamudra.

KAGYUR – Tratado tlbetano do Vinaya em cem volumes.

KALA DEVALA – sábio venerável, também chamado Asita, que tinha poderes de clarividência. Foi ele quem disse ao pai de Sidarta, o rei Suddhodanna, que seu filho não seria um homem comum, mas que estava destinado a se tornar totalmente Iluminado.

KALACHAKRA (tib., Dükyi Khorlo/ Dus Kyi 'Khor Lo) – Roda do Tempo; o tantra mais complexo e popular do budismo Vajrayana tibetano.

KALPA (sânscr.; páli, kappa) – "ciclo ou era universal"; na cronologia hindu período de tempo correspondente a 4.320.000 anos (um éon; aeon em latim). Significa eternidade, no sentido de um tempo aparentemente interminável, mas que, apesar de tudo, tem limite; tempo que o universo leva para expandir-se e contrair-se.

KALYANAMITRA (sânscr.; páli, kaluanamitta) – bom amigo, amigo espiritual, mestre.

KAMADHATU – veja Três Mundos.

KANCHÔ (jap.) – abade geral de um monastério Zen.

KANGYUR TENGYUR (tib., Bka' Gyur Bstan 'Gyur) – tradução da Palavra e Tradução do Ensinamento; o cânone do budismo tibetano.

KANNO DOKO (jap.) – "apelo e resposta que se cruzam muito rapidamente", ou sinceridade.

KANNON (jap.) – veja Avalokiteshvara.

KANTHAKA – era o nome do cavalo do príncipe Sidarta, que, quando resolve não mais voltar à casa paterna, ordena a seu assistente Channa, que levasse o animal de volta. Channa não consegue movê-lo. Foi necessário que Sidarta insistisse com seu cavalo, que apenas caminhou um tanto, virou-se uma última vez para seu mestre, e quando finalmente movimentou-se para o seu retorno, diz a tradição, as lágrimas rolavam-lhe de seus olhos. Em breve Kanthaka morria, segundo diziam, de saudades.

KANZEON (jap.) – veja Avalokiteshvara.

KAO-SENG-CHUAN (chinês) – biografias de monges eminentes.

KAPILA – veja Sankhya.

KAPILAVASTU – hoje chamada Tilaurakot, capital do reino dos Sakyas (atualmente Nepal), ao norte da Índia, no sopé do Himalaia; cidade onde nasceu o Buda histórico, em cerca de 563 a.E.C.

KARMA (sânscr.; páli, kamma; jap., inga, innen) – "trabalho", "ação"; Lei universal de Causa e Efeito. Todos os atos intencionais produzem efeitos, que inevitavelmente serão vivenciados por quem os praticou. Uma das doutrinas fundamentais do budismo.

KARMAN – ato que possui um valor moral, bom, mau ou neutro.

KARMAPA (páli, Kamma; tib., Ka Rma Pa) – líder da escola tibetana Karma Kagyü.

KARUNA (sânscr. e páli) – compaixão; um dos quatro Brahma-Viharas.

KASANA (sânscr.) – uma fração de segundo; uma unidade de tempo indiana equivalente à sexagésima quinta parte de um segundo.

KASAYA (sânscr.) – veja kesa.

KASHAYA (sânscr.) – "paixão"; sutil influência deixada como resíduo na consciência em forma de samskara, seguindo o deleite dos sentidos. Também usado como referência à roupa (hábito) usada pelos monges.

KASHYAPA – discípulo e contemporâneo de Buda; irmão mais jovem de Uruvilvakashyapa, que converteu seus duzentos discípulos ao Budismo; presidiu o 1º Concílio. É, também, o nome do Buda que precedeu Shakyamuni.

KASINA – artifício externo usado para desenvolver a concentração da mente.

KEGON-KYÔ (jap.) – veja Avatamsaka Sutra.

KEGON[-SHÛ] (jap.) – Escola da Guirlanda de Flores; escola fundada no Japão pelo monge chinês Shen-Hsiang (jap. Shinshô), com base nos ensinamentos da escola chinesa Hua-Yen. E também o nome de uma im­portante escritura (sânscr., Avatamsaka Sutra) que relata os ensina­mentos do Buda logo após sua iluminação.

KEIZAN JÔKIN – famoso mestre zen japonês que se tornou monge sob a orientação de Koun Ejo, um discípulo de Zenji Dogen. Fundou o Soji-ji, um dos dois principais mosteiros do budismo Soto no Japão atual.

KEKKA-FUZA (jap.; sânscr., padmasana) – posição de lótus completa, com cada pé sobre a coxa oposta.

KENDO (jap.) – esgrima praticada com espadas de bambu,

KENSHÔ (jap.) – estado mental próximo à iluminação.

KESA (jap.; sânscr., kasaya) – manto; parte do hábito utilizado pelos monges Zen.

KHADROMA (tib., Mkha' 'Gro Ma) – veja Dakini.

KHANTI – paciência, tolerância.

KHUDDAKA-NIKĀYA (páli) – Coleção Curta; uma das seções do Sutta Pitaka.

KI (jap.) – "ação"; veja chi.

KINHIN (jap.) – meditação do caminhar lento, realizada entre os períodos da meditação convencional sentada, o Zazen. Kinhin ajuda a relaxar as pernas ao mes­mo tempo em que o praticante se mantém no estado de meditação.

KLESHAS (sânscr.: páli, kilesa) – são as funções mentais perniciosas como, por exemplo, as obsessões nocivas; impurezas. Veja Quatro Demônios.

KOAN (jap.; chinês, Kung-An) – "documento público". No budismo Rinzai, um koan é uma frase ou episódio Zen que utiliza o paradoxo para transcender a lógica ou os preceitos; é uma afirmação ou uma pergunta que não po­de ser compreendida ou solucionada intelectualmente; por exemplo: "Qual o som que resulta de se bater palmas com uma só mão?" A meditação acerca de um koan nos leva a transcender o intelecto e a experimentar a natureza não-dual da realidade,

KÔBO-DAISHI – veja Kûkai.

KODO, SAWAKI (ROSHI) (1880-1965) – famoso mestre Zen Soto que evitou qualquer forma de institucionalização e que nunca teve seu próprio tem­plo. Viajou muito por todo o Japão para ensinar o Zazen.

KOKORO (sino-jap., shin) – coração-mente.

KONDANNA – foi o oitavo brâmane chamado pelo rei Suddhodanna, pai de Sidarta, para examinar o filho, logo após seu nascimento, como já o fizera o sábio Kala Devala. Depois de examinar as marcas do corpo do bebe disse que, quando Sidarta presenciasse os Quatro Sinais Especiais, renunciaria ao mundo e se tornaria um Buda.

KOROMO (jap.) – manto externo usado pelos monges zen-budistas; é origi­nário da China.

KOSHA[-SHÛ] – escola japonesa surgida entre os séculos VII e VIII, baseada na escola chinesa Chu-She.

KOTI (jap.) – um número astronômico, às vezes indicando dez milhões, ou­tras vezes cem milhões.

KRIYA – ação, a primeira das quatro séries de tantras.

KSHANTI (sânscr.; páli, khanti) – paciência; um dos seis paramitas.

KSHITIGARBHA (sânscr.; chinês, T'i-Ts'ang; jap., Jizô) – "Ventre da Terra"; no budismo Mahayana, é o Bodhisattva que protege dos tormentos, principalmente as crianças. Ele fez voto de permanecer no inferno até que todos os seres sencientes tenham sido libertados (iluminados).

(jap.) – veja shunya.

KUAN-YIN PU SA (chinês) – versão chinesa do Bodhisattva Avalokiteshvara (sânscr.: "Aquele que ouve todos os sons do mundo") –  de poder e compaixão infinitos. Um dos mais grandiosos Bodhisattvas do budismo Mahayana. O Bodhisattva Avalokiteshvara pode se manifestar sob qualquer forma para dar auxílio onde quer que seja necessário. Diz a tradição que tem mil olhos e mãos para poder salvar todos os seres sencientes e aplacar seus temores. Na iconografia, quando o budismo se espalhou pela China, passou a ser representado sob forma feminina, por estar associado à compaixão maternal.

K'UEI-CHI – monge chinês (632-835), discípulo de Hsüan-Tsang e co-fundador da escola Fa-Hsiang.

KUEI-FENG (780-841) – também conhecido como Tsung-mi, foi o quinto patriarca da Escola Hua-yen do budismo chinês.

KÛKAI – monge japonês (774-835), também conhecido como Kôbo-Daishi, que fundou a escola Shingon com base nos ensinamentos da escola chinesa Mi-Tsung.

KUMARAJIVA – um dos principais tradutores de textos budistas do sânscrito para o chinês (334-413). Nascido em Kucha, na Ásia Central, foi um dos grandes tradutores dos sutras budistas na China. Suas traduções são extraordinárias por sua fluidez e permanecem populares até hoje.

KUNDA – era um ferreiro, artesão em metal, proprietário de um pequeno bosque de mangueiras, em Pava, no qual Buda Shakyamuni parou para descansar, vindo de viagem desde Bhoga-gama. Ao saber da presença de Buda, Kunda saudou-o, convidando-lhe para tomar sua refeição, no dia seguinte, em sua casa, juntamente com seus acompanhantes. Foi servido arroz-doce, bolos e um prato de javali. Esta foi a última refeição de Buda, pois em seguida caiu gravemente enfermo, com uma violenta diarréia e dores lancinantes. Buda comunica a Ananda que deseja ir para Kusinara, onde acaba fazendo sua passagem ao Parinirvana. Suas últimas palavras foram: "Ouvi-me, meus irmãos, eu vo-lo digo, a dissolução é inerente a todas as formações! Trabalhai sem descanso para vossa salvação!" Buda foi cremado com o cerimonial adotado para os reis. Segundo a tradição Ele tinha oitenta e um anos.

KUNG-AN (chinês) – "documento público", pois originalmente diz respeito à ação jurídica que constituía um precedente. Popularizada na forma japonesa koan, essa palavra significa um pensamento que contém um paradoxo. No Ch'an, frase de um sutra, episódio da vida de um mestre, ensinamento sobre a com­preensão do Ch'an que apontam a natureza da realidade suprema. Essencial no kung-an é o paradoxo, ou seja, aquilo que se encontra além do raciocínio e transcende o lógico ou o conceitual. Assim, uma vez que não pode ser resolvido pelo emprego da razão, um kung-an não é um enigma comum; sua solução requer um salto para outro nível de compreensão. Veja kôan.

KUNG-FU (chinês) – "homem suado", "trabalho duro"; no Ocidente o sentido da expressão foi reduzido a uma forma de arte marcial. Originalmente, perfeição alcançada em uma ou várias artes. Prática que mantém o corpo saudável, previne e  cura doenças, fortalece a vontade, aumenta a concentração, controla a mente, acalma o espírito.

KYÔ (jap.) – veja sutra.

KYOSAKU (jap.) – no budismo Zen, bastão utilizado para "despertar" os praticantes de zazen com uma batida no ombro.


L

LALITAVISTARA (sânscr.) – biografia tradicional sobre o Buda Shakyamuni, a qual foi parafraseada por Edwin Arnold em "The light of Asia".

LAMA (tib., Bla Ma) – em tlbetano: "instruido", "exaltado". Título dado aos religiosos sábios. Veja guru.

LAMDRE (tib., lam bras) – Caminho e Fruto; principal ensinamento da escola tibetana Sakya.

LAMRIM  (tib., Lam Rim) – "as etapas do caminho". Uma organização espe­cial de todos os ensinamentos do Buda, fácil de ser entendida e pratica­da. Revela todas as etapas do caminho à iluminação; principal ensinamento da escola tibetana Gelug.

LANGRI TANGPA, GESHE (1054-1123) – grande geshe da tradição Kadampa, famoso pela realização da prática de trocar eu por ou­tros. Compôs Os oito versos do treino da mente.

LANKAVATARA SUTRA (sânscr.) – Discurso sobre a Descida ao [Sri] Lanka; texto do budismo MAHAYANA que enfatiza o despertar da não-dualidade através da realização da natureza búdica.

LEÃO – para os budistas o leão é um símbolo dos Budas e Bodhisattvas que são fortes em seus corações e não temem nenhum mal. O rugir do leão é como um trovão despertando os seres para o poder do Darma; representa os ensinamentos dos mestres Ch'an e a força superior da mente não-limitada por pensamentos.

LIN-CHI-TSUNG (chinês) – veja Rinzai[-Shü].

LING-KU (chinês) – é um tambor com um pequeno sino, normalmente colocado à direita do altar; é usado nos cantos e recitações. Seu som simboliza o fim do ciclo de renascimentos, o qual inevitavelmente leva à felicidade.

LIU-TSU TA-SHIH FA-PAO-T'AN-CHING (chinês; jap., Rokuso Daishi Hôbôdan-Gyô, Dan-Gyô) – Discurso do Sexto Ancestral da Alta Plataforma do Tesouro do Darma, ou simplesmente o Sutra da Plataforma; biografia do monge chinês Hui-Neng, sexto ancestral do Zen na China.

LO-HAN (chinês) – veja arhat.

LOBHA (sânscr. e páli) – cobiça; veja akushala.

LOKAPALA (sânscr.) – protetor do mundo; imagens muito comuns na entrada dos grandes monastérios, como guardiões do templo.

LOKAS – em número de três: Céu, terra e Infernos, conforme a divisão hinduísta do universo.

LOKAVID – veja Compreensão Transcendente do Mundo Comum

LOKESHVARA – Avalokiteshvara entre os Khmers.

LONGCHENPA (tib., Klong Chen Pa) – lama tibetano (1308-1364) de grande importância para a transmissão dos ensinamentos Dzogchen da escola Nyingma.

LÓTUS (sânscr., padma) – planta aquática da família lily (Nelumbo nucifera, também Nelumbium speciosum). No budismo o lótus é um símbolo da verdadeira natureza dos seres, que permanece imaculada pela lama do mundo do samsara e pela ignorância (avidyã) e que se realiza com a iluminação (bodhi). Frequentemente o lótus é também um símbolo do mundo, com a haste como sua linha central. Iconograficamente, representa a forma do assento ou do trono do Buda. O lótus é também o atributo identificador do Bodhisattva Avalokiteshvara. Na escola Terra Pura é o símbolo da doutrina do Buda.

LÓTUS DA BOA LEI – sermões pronunciados por Buda no Pico dos Abutres, perto de Gaya. Escrita especial da seita Nlcheren no Japão.

(chinês) – (seita) Vinaya.

LÜ-TSUNG (chinês; Ritsu[-Shû]) – Escola da Disciplina; escola fundada pelo monge chinês Tao-Hsüan (596-667) com base nos ensinamentos da escola indiana Dharmaguptaka.

LUMBINI um dos quatro locais sagrados para o budismo (Sarnath, Bodh-gaya,  Kushinagara), onde acredita-se tenha sido o lugar do nascimento do Buda histórico Shakyamuni. Lumbini fica perto da capital do reino dos Shakya, Kapilavastu, atual Nepal.

   Em Lumbini há uma coluna de pedra a qual o Rei As­hoka erigiu por ocasião de sua peregrinação por lá no ano 249 a.E.C. Há nela uma inscrição que diz: "Vinte anos depois de sua coroação o Rei Devanapiya Piyadasi (Ashoka) veio aqui e comemorou com sua ven­eração, porque o Buda, o sábio do clã de Shakya, aqui nasceu. Há um relevo na coluna de pedra que mostra o nascimento do venerável. O Rei liberou a aldeia de Lumbini de taxas e reduziu seus tributos (usualmente de um quarto) para um oitavo".

LUN-HUI (chinês) – veja samsara.


M

MADHYAMA-PRATIPAD (sânscr.) – expressão aplicada ao "Caminho do Meio" do Buda histórico, Shakyamuni, que ensinou a evitar os extremos – a indulgência com os prazeres sensuais por um lado, a automortificação e o excessivo ascetismo por outro. Refere-se mais especificamente à escola Madhyamika (veja).

MADHYAMIKA (sânscr.) – filosofia Mahayana do Caminho do Meio, fundada pelos monges Nagarjuna (século II) e Aryadeva (século III). ln­troduzida na China em tomo de 380 pelo monge indiano Kumarajiva. Escola que se abstém de escolher entre posições opostas e em relação à existência e não-existência de todas as coisas.

MAHA (sânscr.) – grande.

MAHAKASHYAPA (sânscr.; páli, Mahakassapa; jap., Daikashô, Makakashô) – um dos grandes discípulos do Buda Shakyamuni, considerado o primeiro ancestral do Zen.

MAHAMUDRA (sânscr.; tib., Chagya Chenpo/ Phyag Rgya Chen Po) – Grande Sinal; principal ensinamento da escola tibetana Kagyü.

MAHAPRAJAPATI  GAUTAMI – rainha, tia e madrasta de Sidarta Gautama, tornou-se a primeira monja budista com a intervenção do discípulo e primo do Buda, Ananda. Até então o Sangha não admitia a participação de mulheres.

MAHAPARINIBBANA-SUTTA (páli) – texto do Digha-Nikāya que relata os últimos anos da vida do Buda Shakyamuni.

MAHAPARINIRVANA-SUTRA (sânsc.) – coleção de textos do budismo Mahayana sobre a natureza búdica.

MAHAPRAJNAPARAMITA-HRIDAYA SUTRA (sânscr.; jap., Maka Hannya Haramitta Shingyô) – um dos principais e mais breves textos do Prajna-Paramita Sutra, de grande importância para o budismo Mahayana.

MAHASANGHIKA (sânscr.) – Grande Comunidade; escola que se separou do grupo Sthaviravada após o concílio de Pataliputra, precursora do budismo Mahayana.

MAHASATTVA SADAPARIBHUTA – (sânscr.) – "Bodhisattva que jamais era desrespeitoso"; personagem que aparece no ensinamento final do Buda Shakyamuni, o Sutra do Lótus. No texto, o Buda admite que esse bodhisattva era ele próprio em uma vida anterior. Ele era alvo de zombaria pelo fato de sempre saudar monges, monjas ou leigos dizendo respeitá-los por terem natureza búdica e capacidade para se iluminar.

MAHASIDDHA (sânscr.) – "Grande Adepto"; mestre dos ensinamentos Vajrayana, dotado de poderes sobrenaturais ou siddhis.

MAHASTHAMAPRAPTA BODHISATTVA (sânscr.; chinês, Shih-Tza; jap., Seishi) – no budismo Mahayana, o Bodhisattva que traz os seres ao conhecimento; um dos principais Bodhisattvas na Terra Pura Oci­dental do Buda Amitabha, tema de um dos capítulos do Sutra Shurangama. Mahabodhisattva do Grande Poder de Cura e Salvação, também chamado de Bodhisattva do Grande Esforço. Ele ilumina o universo com a luz da sabedoria; é representa­do sentado em um lótus vermelho, segurando uma flor de lótus na mão esquerda.

MAHATMA (sânscr.) – "Grande alma". Mestres de sabedoria e de compaixão que, assim como os Bodhisattvas do Mahayana, renun­ciaram, momentaneamente, a terminar a própria evolução espi­ritual, a fim de permanecer na terra, imortais, para ajudar os outros no caminho da salvação. Por extensão, termo aplicado a grandes filósofos, tais como Ghandi.

MAHAVAIROCHANA-SUTRA (sânscr.; jap., Dainichi-Kyô) – Discurso do Grande Radiante; texto Vajrayana de grande importância para as escolas Mi-Tsung e Shingon.

MAHAVASTU (sânscr.) – Grande Evento; texto da escola Mahasanghika sobre a vida do Buda SHAKYAMUNI, marcando uma transição para o budismo Mahayana.

MAHAVIRA – para o pensamento jainista o tempo é infinito e feito de uma série de movimentos ascendentes e descendentes que duram milhares de anos. Durante cada um deles, os 24 mestres aparecem sucessivamente. São os tirthankaras, ou "aqueles que fazem a vau através das águas do renascimento", que reacendem a fé jainista quando a humanidade entra em declínio espiritual. Mahavira é o vigésimo quarto tirthankara no presente movimento do tempo. Para os jainistas, todos os predecessores de Mahavira são figuras históricas. O próprio Mahavira tem sua vida tradicionalmente datada entre 599 e 527 a.E.C., e foi contemporâneo de Buda Shakyamuni. Nascido na bacia do Ganges, na Índia, como um membro principesco da casta guerreira hindu xátria, Mahavira renunciou ao mundo aos trinta anos de idade para se tornar um asceta errante. Depois de negar o corpo por 12 anos, ele atingiu a iluminação. Então, converteu 12 discípulos, que estruturaram seus ensinamentos nas escrituras jainistas e constituíram uma comunidade de seguidores. Mahavira morreu meditando e se tornou uma alma liberada.

MAHAYANA (sânscr.) – a escola do Grande Veículo movimento surgido por volta dos séculos I-II que procura valorizar a libertação de todos os seres através da compaixão dos Bodhisattvas. É também conhecida como a escola do Norte, à medida que se propagou pelo Tibete, a Mongólia, a Coréia e o Japão. A Escola Mahayana enfatiza a inclusão de todos (pessoas leigas e sa­cerdotes, homens e mulheres) como seguidores do Buda e como seres ca­pazes de alcançar a perfeita iluminação.

MAHAYANA-SHRADDHOTPADA-SHASTRA (sânscr.) – Tratado sobre o Despertar da Fé no Mahayana; texto do budismo Mahayana dos séculos V-VI, atribuído a Ashvaghosha (séculos I-II).

MAHINDA – monge missionário indiano (século III a.C.) enviado pelo rei ASHOKA ao Sri Lanka.

MAHISHASAKA – escola que se separou do grupo Vibhajyavada (século II a.C.) e que originou a escola Dharmaguptaka.

MAITREYA (sânscr.; chinês, Mi-Lo; jap., Miroku ou Ajita) – "amistoso", "benevolente";  Buda do futuro, que deverá aparecer no mundo para restaurar o Darma. Será o próximo Buda, que suce­derá o Buda Shakyamuni neste mundo. Atualmente, este Bodhisattva encontra-se no Paraíso Tushita, ou paraíso do leste, expondo o Darma para seres celestiais no palácio interior. É habitualmente representado como um Buda gordo e sorridente. Sua metamorfose para essa aparência mais jovial ocorreu na China durante a Dinastia Sung, quando um rotundo e generoso monge foi associado com o Bodhisattva Maitreya. Assim, muitos propagam a idéia de que para o kalpa do passado existiu o Buda Dipamkara; ao kalpa do presente, o Buda Shakyamuni, e ao kalpa do futuro existirá o Buda Maitreya. O futuro Buda Maitreya há de vir 5 bllhões e 656 milhões de anos depois da morte de Buda Shakyamuni.

MAITREYANATHA – monge de historicidade contestada, que teria vivido na Índia entre os séculos IV-V e que seria um dos fundadores da filosofia Yogachara.

MAITRI (sânscr.; páli, metta) – bondade; uma das quatro Brahma-Vihara.

MAJJHIMA-NIKAYA – Coleção Média; uma das seções do Sutta Pitaka.

MAKA HANNYA HARAMITTA SHINGYÔ (jap.) – veja Mahaprajnaparamita-Hridaya Sutra.

MAKYO (jap.) – fenômenos ou distrações que podem ocorrer durante a prática de zazen.

MALA (sânscr.; jap., nenju) – rosário de 108 contas para recitação de mantras, dharanis, nenbutsu etc.

MANA (sânscr.) – veja anushaya.

MANA (sânscr. e páli) – mente; órgão interno de percepção e conhecimento mental, que tem a faculdade de analisar impressões que recebe; é o elemento da nossa consciência que mantém o equilíbrio entre as qualidades empíricas individuais, de um lado, e as qualidades espirituais e universais, de outro. É o que nos prende ao mundo sensorial, ou nos liberta dele. Na Polinésia: fôrça anônima e impessoal, difusa em todos os seres e que está na base de toda atividade.

MANA SIKARA (páli) – atenção.

MANDALA (sânscr.; jap., mandara; tib., kyilkhor/ dkyil 'khor) – diagrama circular do budismo Vajrayana, representando a consciência iluminada como uma dimensão pura.

MANI (Jóia Mani) – a tradução para mani pode ser "como desejado", uma vez que o possuidor da jóia recebe o que deseja. Corresponde a uma pedra preciosa, brilhante e luminosa, que simboliza o Buda e sua doutrina.

MANJUSHRI (sânscr.; chinês, Wen-Shu; jap., Monju) – "nobre e gentil"; no budismo Mahayana, o Bodhisattva das Cinco Sabedorias (sânscr., prajna). É geralmente retratado empunhando a espada da sabedoria, com duas flores de lótus na altura de sua cabeça, onde se vê um livro de sutras. Aparece, tam­bém, sentado sobre um leão, símbolo de majestade. Nono predecessor de Buda. O único que não possui Shakti.

MANTRA (sânscr.; jap., shingon) – "a que sustenta", "unir e segurar";  no budismo Vajrayana, série de sílabas que representam a fala iluminada. É a poderosa prática espiritual de recitar uma palavra ou verso com a finalidade de cultivar a sabe­doria, aprofundar a concentração e transformar a consciência. São os sons dos mantras, e não o significado, que formam a base de sua força mística. Veja dharani.

MANTRA SECRETO – sinônimo de tantra. Os ensinamentos do mantra secreto diferem dos ensinamentos do sutra por revelarem métodos de treinar a mente com o objetivo de trazer o resultado futuro – a budeidade – para o caminho atual. Mantra secreto é o caminho supremo à iluminação. O termo "mantra" indica que se trata de uma instrução especial de Buda para proteger nossa mente das aparências e concepções comuns. Os praticantes do mantra se­creto superam as aparências e concepções comuns visualizando seu corpo, ambiente, prazeres e atividades como os de um Buda. O termo "secreto" indica que as práticas devem ser feitas reserva­damente e apenas pelos que receberam uma iniciação tântrica.

MANTRAYANA (sânscr.) – Caminho do Mantra, Vajrayana.

MANUSHYA (sânscr.) – reino humano; um dos gati.

MARA (sânscr. e páli) – "assassino", "destruidor"; demônio da ignorância, do apego, personificação da morte. Mara simboliza no budismo as paixões que oprimem os seres humanos e também tudo o que impede o surgimento das raízes benévolas e o progresso no caminho da iluminação. Reina no sexto céu, o das delícias sensuais.

MARANA (sânscr. e páli) – "morte"; acrescentando ao sentido convencional de morte, o budismo Marana refere-se à morte de todo fenômeno mental e físico.

MARCAS ACESSÓRIAS – as características secundárias de um Buda. Veja Oitenta Nobres Qualidades.

MARCAS DA EXCELÊNCIA ou 32 Marcas da excelência (sânscr., dvatrimsanmaha Purusha laksanani) – também conhecidas como "as 32 Excelentes Marcas de um Buda", são as notáveis características físicas dos Budas, que simbolizam as qualidades conquis­tadas de quem chegou ao mais alto nível de aperfeiçoamento: (1) pés nivelados; (2) sinal da Roda de Darma nas solas dos pés e nas duas mãos, (3) dedos longos e finos; (4) calcanhares fortes; (5) dedos dos pés e das mãos curvos; (6) mãos e pés macios e suaves; (7) pés arqueados; (8) membros inferiores como os de um antílope; (9) braços que chegam aos joelhos; (10) pênis que não se afina no prepúcio; (11) corpo poderoso; (12) corpo coberto de pêlos; (13) pêlos grossos e crespos; (14) corpo dourado; (15) corpo que irradia energia até 3 metros em todas as direções; (16) pele suave; (17) mãos, ombros e cabeça arredondados; (18) ombros bem-formados; (19) membros superiores como os de um leão; (20) corpo ereto; (21) quarenta dentes; (22) ombros poderosos e musculosos; (23) dentes alinhados; (24) dentes alvos; (25) face semelhante à de um leão; (26) paladar maravilhoso para todos os alimentos; (27) língua larga; (28) voz como a de um Brahma (no sentido de "um deus"); (29) olhos azuis límpidos; (30) cílios como os de um touro; (31) elevação em forma de cone no alto da cabeça; (32) cacho de cabelo entre as sobrancelhas. (Fontes: Fo Guang Encyclopedia; Shambhala Dictionary of Buddhism and Zen.)

MARCA MENTAL (imprint, em inglês) – há dois tipos de marca men­tal: marcas das ações e marcas das delusões. Cada ação deixa uma marca na mente; as marcas se tornam potencialidades cármicas, que nos fazem experienciar certos efeitos no futuro. As marcas das delusões permanecem mesmo depois delas, as delusões, te­rem sido abandonadas; constituem obstruções à onisciência e só são completamente abandonadas pelos Budas.

MARGHA (sânscr.; páli, Magga) – caminho (para a cessação do sofrimento); uma das Quatro Nobres Verdades.

MARPA LOTSAWA (tib., Mar Pa Lo Tsa Ba) – tradutor tibetano (1012-1097), discípulo de Naropa e mestre do poeta Milarepa; seus ensinamentos Mahamudra foram passaram a ser transmitidos pela escola tibetana Kagyü.

MAUDGALYAYANA (sânscr.; páli, Moggalana) – um dos grandes discípulos do Buda Shakyamuni.

MAYA (sânscr., ilusão) – aparência, decepção, delusão. Potência insondável que reside na derradeira Realidade Bramã atmã. Sua função é "projetar" o universo material e quanto nele se encerra.

MAYA ou Mahamaya ou Mahamayadevi – mãe de Sidarta Gautama, que faleceu no sétimo dia após seu nascimento sendo substituída por sua irmã Mahapradjapati.

MEDITAÇÃO, PREPARAÇÃO PARA A – a prática começa com sila (virtude ou pureza moral). Este cultivo sistemático do pensamento, palavra e ato virtuo­sos concentra os esforços do meditador para a alteração da consciência na meditação. "Pensamentos não virtuosos", por exemplo, fantasias sexuais ou raiva, levam à distração durante a meditação. São uma perda de tempo e energia para o medi­tador sério. A purificação psicológica significa descartar pen­samentos dispersivos. O processo de purificação é uma das três grandes divisões do treinamento no esquema budista, sendo as outras duas samadhi (concentração meditativa) e punna (introvisão). A introvisão é entendida no sentido especial de "ver as coisas como são". Purificação, concentração e introvisão são estreita­mente ligadas. Esforços para purificar a mente facilitam a con­centração inicial, que permite a introvisão sustentada. Desen­volvendo a concentração ou a introvisão, a pureza se torna, em vez de um ato de vontade, fácil e natural para o meditador. A introvisão fortalece a pureza, enquanto ajuda a concentração; a forte concentração pode ter como subprodutos a introvisão e a pureza. A interação não é linear; o desenvolvimento de qual­quer uma facilita as outras duas. Não existe progressão neces­sária, mas antes uma espiral simultânea das três no curso da via da meditação. Embora a apresentação seja linear aqui por necessidade, existe uma inter-relação complexa no desenvolvi­mento da pureza, concentração e introvisão do meditador. São três facetas de um único processo.

MENCIUS – nome latinizado de Meng-Tsé, também conhecido como Meng K'o, filósofo chinês (371-289 a.E.C.), representante da linha idealista do confucionismo. Para ele, o homem é inerentemente bom quando nasce, mas sua natureza é corrompida pela experiência mundana.

MENTE – com "M", o termo se refere àquela mente que se encontra em com­pleta harmonia com a verdade do universo; com "m", significa nossa mente terrena e comum, que não se encontra em harmonia com a qualidade uni­versal e vasta da vida. A Mente transcendeu o eu; a mente apega-se, tenaz­mente, à idéia de eu.

MENTE BODHI: o pensamento dirigido ao bodhi ou à iluminação. Veja bodhichitta.

MENTE-DO-CAMINHO – a mente que retomou à sua natureza original, a da se­renidade e da tranqüilidade.

MENTE CONCEITUAL – pensamento que apreende seu objeto através de uma imagem genérica.

MENTE NÃO-CONCEITUAL – conhecedor para o qual o objeto apa­rece com clareza, sem se misturar com uma imagem genérica.

MENTE DE MACACO – a mente que está sempre correndo atrás dos objetos do desejo, pulando de uma coisa para outra.

MENTE PRIMÁRIA – conhecedor que apreende, principalmente, a mera entidade de um objeto. Há seis mentes primárias: cons­ciência visual, consciência auditiva, consciência olfativa, cons­ciência gustativa, consciência corporal e consciência mental.

MÉRITO – a boa sorte que é criada pelas ações virtuosas, e o poder potencial para aumentar as nossas boas qualidades e produzir felicidade.

MERU (sânscr.) – "a montanha do mundo"; na concepção cosmológica da Índia antiga, o centro do universo, ponto em que residem os deuses; referido também como "Monte Sumeru". De acordo com a concepção budista, o monte Meru está cercado por mares e continentes, abaixo dos quais estão os reinos do inferno e dos fantasmas famintos; acima de Meru encontram-se os reinos elevados dos Devas e dos deuses do reino de "forma pura" (rupaloka), bem como o reino do sem-forma e finalmente os Campos-de-Budas (Terra Pura).

MESTRES MAHAYANA – AS OITO JÓIAS:

1. Nagarjuna – mestre e siddha, cujos comentários sobre ensinamentos tais como o sunyata e as duas verdades tornaram-se a base da Escola Madhyamika, que se formou mais tarde. Nagarjuna recuperou sutras Prajnaparamita importantes; sua obra mais conhecida é a Mula Madhyamika karika (Versos sobre o Ensinamento do Meio).

2. Aryadeva – o principal discípulo de Nagarjuna, famoso por suas habilidades em dialética. Aryadeva foi o prin­cipal esclarecedor dos trabalhos de Nagarjuna.

3. Asanga grande mestre e professor, iniciado nos ensi­namentos Prajnaparamita pelo Bodhisattva Maitreya. Asanga compilou os ensinamentos de Maitreya em cinco grandes tratados e os esclareceu em seus comentários e textos originais.

4. Vasubandhu – Irmão de Asanga; mestre em Abhidharma que mais tarde se devotou ao Mahayana. Vasubandhu escreveu tratados que esclareceram o Abhidharma e as doutrinas das escolas mentalistas.

5. Dignaga – Discípulo de Vasubandhu; mestre em lógica cujos textos tornaram-se o fundamento da lógica budista.

6. Dharmakirti – estudante importante na linhagem de Dignaga; mestre no debate e em lógica. Dharmakirti continuou o trabalho de Dignaga e estabeleceu os alicer­ces de uma teoria completa do conhecimento (pramana).

Dois professores admiráveis:

7. Santideva – filósofo e Mahasiddha, conhecido por sua explicação da natureza, da visão e do caminho do Bodhisattva.

8. Candragomin – filósofo e Mahasiddha, conhecido por sua maestria nos ensinamentos Mahayana, em lógica e em gramática.

MI-LO-FO (chinês) – "Buda da Felicidade"; representação do monge Zen chinês Pu-Tai (século X), considerado uma encarnação do Bodhisattva Maitreya.

MI-TSUNG (chinês) – Escola dos Segredos; escola Vajrayana chinesa, fundada no século VII pelos indianos Shuvhakarasimha (chinês, Shan-wu-wei, 637-735), Vajrabodhi (chinês, Chin-kung-chih, 663-723) e Amoghavajra (chinês, Pu-k'ung, 705-774); deu origem à escola japonesa Shingon.

MIAO-FA LIEN-HUA CHING (chinês) – Sutra do Lótus.

MIKKYÔ (jap.) – Ensinamento Secreto, Vajrayana.

MILAM (tib., Rmi Lam) – sonho; uma das seis yogas de Naropa (tib., Naro Chödrug).

MILAREPA (tib., Mi La Ras Pa) – poeta tibetano (1025-1035), recebeu os ensinamentos Mahamudra do tradutor Marpa e foi mestre do monge Gampopa, fundador da escola tibetana Kagyü.

MILINDAPANHA (páli) – Questões de Milinda; texto da escola Theravada com o diálogo ente o rei Milinda (ou Menandro, século I E.C.) e o monge Nagasena.

MIROKU (jap.) – veja Maitreya.

MO-FA (chinês) – Fim da Lei.

MO-HO CHIH-KUAN (chinês) – grande concentração e intuição.

MOHA (sânscr. e páli) – ignorância, delusão, ilusão.

MOKUGYO (jap.) – peixe de madeira; no budismo japonês, tambor utilizado para recitar marcar a recitação dos sutras.

MONDÔ (jap.) – pergunta e resposta; diálogo entre um mestre Zen e um discípulo.

MONJU (jap.) – veja Manjushri.

MU (jap.; chinês, wu) – "nada", "não", "in-", "an-", "negação de tudo, inclusive da própria negação"; está presente no famoso koan "Chao-chou, cão", geralmente chamado de koan mu, como segue: Um monge pergunta ao Mestre Chao-chou, respeitosamente, "Um cão tem realmente uma natureza-Buda ou não?" Chao-chou respondeu: "Mu".

A tarefa do estudante de Zen, ou Ch'an, enquanto praticante do zazen com este mu, ou wu, é a de obter uma experiência imedi­ata, para além de qualquer significação intelectual, de seu verdadeiro conteúdo profundo. Geralmente é o primeiro koan que o noviço Zen recebe de seu Mestre. Quando o estudante termina sua iniciação diz-se que ele adentrou ao "Mundo do MU".  Na formação do Zen o MU é vivenciado e demonstrado em seus vários níveis de profundidade constantemente.

MU-YÜ (chinês) – é um bloco de madeira esculpido com o formato estilizado de um peixe; é usado como instrumento de percussão durante os cantos e recitações. Normalmente é colocado ao lado esquerdo do altar e pode ter vários tamanhos. O peixe é utilizado como um símbolo por nunca fechar os olhos e estar sempre "desperto", o que representa o incansável esforço de se estar sempre alerta na prática do Darma.

MUDITA (sânscr. e páli) – alegria; uma da quatro Brahma-Viharas.

MUDRA (sânscr.; chinês, yin; jap., inzô; tib., chagya/ phyag rgya) – uma postura simbólica do corpo ou gesto da mão. Seu poder reside na própria postura como meio de comunicar a qualidade da verdade.

MUMONKAN (jap.) – veja Wu-Men-Kuan.

MUNI (sânscr.) – o sábio.

MUNDO SAHA  (sânscr., saha-lokadhatu) – "mundo duradouro"; este mundo de ilusões no qual pregou Buda Shakyamuni.

MYOHÔ-RENGE-KYÔ (jap.) – veja Saddharma-Pundarika Sutra.

Ver Parte II em meu Site   http://adalbertotripicchio.com


 

 

 

 

 

 

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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