Drogas Ilícitas: Alucinógenos

O químico suíço Albert Hofmann estava pesquisando um remédio para o tratamento da enxaqueca e, acabou descobrindo um que iria lhe dar muita dor de cabeça.

Em 1938 ele sintetizou no Laboratório Sandoz, uma nova substância a partir do fungo Claviceps purpura existente no centeio. Testou o "analgésico" em animais e decepcionou-se. Hofmann esqueceu o preparado em uma prateleira. Cinco anos depois, ele ingeriu acidentalmente uma partícula do mesmo. Pasmo, o químico viu, sentiu e cheirou "uma torrente de imagens fantásticas de extrema plasticidade e nitidez, acompanhada de um caleidoscópico jogo de cores". Repetiu a experiência três dias depois com uma dose bem maior: 0,25 mg (0,05 mg teriam sido suficientes!), e teve de chamar o médico, aterrorizado com as alucinações. Hofmann havia criado o LSD.

Os alucinógenos confundem os neurônios, embaralham as mensagens entre os circuitos nervosos, alteram os sentidos e até os estados de consciência. Sobrevêm ilusões com sons e imagens irreais, acompanhadas de náuseas e vômitos.

É o mais poderoso alucinógeno criado pelo homem: uma dose de 0,05 mg proporciona de 4 a 10h de alucinações.

Em quatro décadas de pesquisas, ainda não se descobriu como exatamente esta droga afeta os circuitos nervosos e a percepção sensorial. Um mistério do LSD é que ele não produz resultados em intervalos curtos. Por isso, os mais aficcionados o tomam apenas uma vez por semana. Meses depois, no entanto, a droga pode voltar a agir e as alucinações reaparecem. Essa droga pode abrir caminhos para psicoses em quem tiver tendência e há também registros de suicídios.

Além do LSD encontramos ainda outros tipos de alucinógenos.

A linha sinuosa de 3326 km que separa o México dos EUA tem sido cruzada por dois fluxos migratórios opostos: mexicanos, que sobem à procura de paraíso material e americanos, que descem em busca do Éden espiritual. Desde o século XVI o México tem atraído estrangeiros com seus vegetais mágicos que provocam alucinações surrealistas.

Todos foram atraídos por uma planta típica do norte mexicano, o cacto peiote (Lophophora williamsii), usado há séculos pelos índios em rituais religiosos.

O chá da polpa do peiote fornece a matéria-prima para a mescalina.

O maior propagandista da via mexicana para o Nirvana tem sido Carlos Castañeda. Para escrever uma tese em antropologia, tornou-se discípulo de um bruxo a quem chamou de Don Juan em seu livro A erva do diabo. Don Juan era um velho índio yaqui de Sonora, no México, de setenta e poucos anos, conhecido como el brujo (curandeiro, pajé, feiticeiro). Carlos Castañeda era um estudante de Antropologia do curso de pós-graduação da Universidade da Califórnia, que estava reunindo informações sobre o peiote e ervas medicinais utilizadas pelos índios daquela região. Don Juan ensinou a Castañeda os usos do peiote e de outras plantas alucinógenas, que abrem as portas da percepção, iniciando-o nos métodos de conseguir a visão e o domínio de um mundo de realidade extra-sensorial, completamente além dos conceitos de civilização, pondo-o a caminho da "estranha aterradora jornada espiritual que o homem tem de empreender para tornar-se um homem de sabedoria".

EFEITOS DOS ALUCINÓGENOS NA UNIDADE CORPO/CÉREBRO/MENTE

Alucinações, despersonalizações… o usuário pode ter uma "viagem" boa e ver formas coloridas ou uma crise depressiva, a chamada bad trip. Pode ter reações psicóticas ou cometer suicídio. Os efeitos são bastante intensos, podendo demorar até de 2 a 3 dias.

Há o aumento da sensibilidade auditiva e da percepção visual. Sinestesia: as sensações auditivas se traduzem em imagens e vice-versa. Os efeitos anticolinérgicos (que antagonizam a acetil-colina) são capazes de produzir muitos sintomas periféricos. Assim, as pupilas ficam muito dilatadas (midríase), a boca seca e o coração dispara. Os intestinos ficam paralisados e a bexiga urinária fica "preguiçosa", com retenção de urina.

Doses elevadas podem produzir grande elevação da temperatura de até 40 a 41°C. Nesses casos a pessoa apresenta-se com a pele muito seca e quente, com vermelhidão principalmente no rosto e no pescoço.

Essa temperatura elevada pode provocar convulsões e tais doses são, por isso, bastante perigosas. Existem pessoas que também descrevem ter "engolido a língua" e quase se sufocado por isto. Ainda em casos de altas dosagens, o número de batimentos cardíacos sobe exageradamente, podendo chegar acima de 150 bpm.

Os resíduos da droga podem permanecer no cérebro por meses, provocando novas alucinações sem aviso. Este efeito flashback é muito perigoso se o usuário estiver em situação que exija estado de alerta, como dirigir uma moto, um automóvel, operar máquinas industriais que trazem riscos de danos etc.          

O LSD é uma droga que imita o neurotransmissor serotonina, sendo assim, capaz de inibi-lo, atuando no humor e na percepção. Os neurônios de serotonina estão concentrados no sistema reticular e, de lá, espalham-se pelo córtex cerebral.

O LSD age principalmente nas áreas responsáveis pelos sentidos e no córtex somatossensorial que os analisa. Há uma completa desvinculação das atividades cerebrais superiores com o meio externo.

O momento psicorgânico atual, pelo uso desse tipo de droga, apresenta intensa atividade produtiva, como alucinações visuais, distorções visuais, alucinações auditivas, sem qualquer conexão com a crítica e o julgamento, a tal ponto que não se conclui sequer processos delirantes.

Neurologicamente podemos considerar a atividade do encéfalo privado de serotonina como aquele estado em que os fenômenos produtivos ocorrem de forma maciça e intensa, o que se pode supor pela atividade colinérgica, mas com desvinculação total de qualquer parâmetro interior ou exterior, psíquico ou orgânico, a ponto de produzir a mais baixa resposta fisiológica aos estímulos externos, bem como a mais baixa resposta motora, a hipotonia muscular, fenômenos estes diretamente ligados à serotonina.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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