Tipos de Dualismo na Filosofia da Mente

Revista Internacional de Filosofia Clínica (ISSN 1807-846X). Porto Alegre-RS, n. 3, jan/jun 2006

Transcrevo o artigo supra-citado de Flávio Kulevicz Bartoszeck, filósofo e pós-graduando em Neuropsicologia de Curitiba-PR; e-mail: flaviookb@yahoo.com.br.

Faço-o para engrossar as fileiras daqueles que levam devidamente em conta o Dualismo.

 

Resumo: Este trabalho visa a demarcação do dualismo referente à Filosofia da Mente. Não busca solucionar problemas de uma maneira direta, porém, ser um aliado didático daqueles que buscam seus estudos pela Filosofia da Mente. Serão mostrados tipos de dualismo e comentários sobre os estudos de Eccles e Popper, finalizando com uma analogia de seu "pluralismo" feita por Tripicchio & Tripicchio.

Palavras-Chave: Filosofia da Mente, Dualismo, Pluralismo.

Abstract: This study seeks to demarcate the dualism regarding Philosophy of Mind. It does not pretend to solve problems in a direct way, however to be an educational tool to those who seek to study along Philosophy of Mind. Types of dualism will be discussed as well as commentaries concerned Eccles and Popper studies, concluding with an analogy to their "pluralism" theory made by Tripicchio & Tripicchio.

Key-words: Philosophy of Mind, Dualism, Pluralism.

Dualismo

O Dualismo tenta responder a algumas perguntas construídas ao longo da história da filosofia com respeito à mente como: Qual a natureza dos estados mentais? Em que sistemas eles ocorrem, qual a sua relação com o mundo físico? A consciência é perene mesmo depois da morte? É possível um computador constituir consciência? O que são as outras mentes e de onde vêm? Utilizando-se de uma abordagem dualista, ou seja, diferen­ciando duas entidades para responder tais perguntas.

"Poucos, dentre os problemas que afloram à cogitação, quando no ser humano se iniciam as inquietações filosóficas, avultam tanto quanto o de compreender-se a natureza dos fenômenos mentais; e conhecer os fundamentos do estar­-se cônscio da própria existência constitui o acme desse enigma que vem fascinando a humanidade ao longo dos tempos. A aparente impossibilidade de se apreender sua essência decorre, em parte, de se identificarem características comuns à subjetividade e aos demais fenômenos que ocorrem no mundo que nos cerca. A peculiaridade das manifestações psíquicas confere-Ihes um atributo de mistério que transcende a vida e as transfere para a categoria dos enigmas inexplicáveis ou insondáveis". (Timo-Iaria, 1977, p. 23)

Em relação ao dualismo, não há apenas um tipo, mas sim diversas teorias dualistas. Todas elas concordam que a essência da inteligência consciente está num plano não­-físico algo intocável pelas mais variadas ciências existentes como a física, neurofisiologia e a ciência da computa­ção. (Churchland,1998)

Esta concepção não é unânime entre a comunidade científica, sendo mais popular nos níveis leigos de discussão. Ela [a concepção] serve de subsídio para a maioria das religiões. (Andrade, 1986)

Ao largo do processo de demonstração de tais teorias, que fique patente que a teoria dualista não se compreende superada, esquecida, somente utilizada como curiosidade histórica, sendo citados apenas seus expoentes antigos.

Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o dualismo pode ser um terreno fecundo de investigações sendo demons­trados pela pesquisa de nomes como o neurobiólogo John Eccles e o filosófo da ciência, Karl Popper.


Dualismo de substâncias

Este tipo de dualismo descreve que cada mente é uma res não-física distinta, um aglomerado individual de substância não-física, uma coisa cujas propriedades são independentes de um corpo que porventura esteja "conectada". Segundo ela, os estados mentais são oriundos dessas mesmas propriedades não-físicas, distintas e únicas de substância.

Levando-se em conta essas propriedades citadas, ao longo da história da filosofia teve-­se a idéia de caracterizar negativamente esta abordagem, apesar de certos expoentes da filosofia tentarem manejar uma explicação positiva com relação ao assunto, dentre eles René Descartes.

"Isso nos leva a fazer outras perguntas com relação a uma caracterização positiva dessa coisa-mente. Uma queixa freqüentemente feita em relação à abordagem dualista da substância é a de que sua caracterização da mente tem sido, até agora, quase inteiramente negativa. Essa, no entanto, não é necessariamente uma deficiência fatal, uma vez que, sem dúvida, temos muito que aprender sobre a natureza subjacente da mente, e talvez essa deficiência possa a vir a ser corrigida. Nesse sentido, o filósofo René Descartes (1596­-1650) fez mais que qualquer outro para apresentar uma explicação positiva da natureza dessa coisa-mente, e vale a pena examinar suas concepções". (Churchland, 1998, p. 26).

Descartes propunha uma divisão da realidade em dois tipos básicos de substância: o primeiro deles era o tipo ordinário que tinha como característica ocupar lugar no espaço, ter comprimento, largura e altura. Apesar da conotação da substância material parecer que ela não tinha importância, ela foi largamente exacerbada por Descartes, onde seus escritos serviriam de base para as extrapolações mecânicas de Newton.

Porém, havia uma substância que fugia de seu alcance de explicação pela mecânica. Esta substância era a razão consciente humana. Isto fez com que Descartes tenha proposto um tipo diferente de substância. Uma substância sem extensão nem lugar no espaço, onde a sua característica essencial era a atividade humana de pensar.

"E, por conseguinte, pelo próprio fato de que sei com certeza que existo, e que, contudo, percebo que não pertence necessariamente nenhuma outra coisa à minha natureza, ou à minha essência, salvo, que sou uma coisa que pensa. Concluo que minha essência consiste apenas em que sou uma coisa que pensa ou uma substância da qual toda a essência ou natureza consiste apenas em pensar. E, apesar de, embora talvez (ou, antes, com certeza, como direi logo mais) eu possuir um corpo ao qual estou muito estreitamente ligado, pois, de um lado, tenho uma idéia clara e distinta de mim mesmo, na medida em que sou apenas uma coisa pensante e com extensão e que não pensa, é certo que este eu, ou seja, minha alma, pela qual eu sou o que sou, é completa e indiscutivelmente distinta de meu corpo e que pode existir sem ele". (Os Pensadores,1999, p. 320)

Descartes ia mais além, pois dizia que o seu eu real não era de forma alguma seu corpo físico, mas sim a substância pensante e sem alocação no espaço. Esta mesma substância teria um nexo causal com o seu corpo. Por exemplo, suas experiências organolépticas [estímulos recebidos pelos sentidos] causavam experiências em sua mente, e seus impulsos e desejos proporcionavam reação em seu corpo físico. Estas conexões causais são a sua garantia que o corpo é seu e não de qualquer outra pessoa.

As razões para Descartes afirmar tais coisas pareciam bastantes simples na época. Primeiramente Descartes dizia que poderia verificar que ele era realmente uma substância pensante apenas utilizando-se de um exame interno, ou seja, a introspecção, de suas experiências mentais e nada além disso. Em segundo lugar, ele não poderia conceber que um simples sistema físico pudesse conceber algo tão extraordinário quanto a linguagem ou os raciocínios matemáticos.

Mas mesmo Descartes vislumbrava problemas com a sua própria teoria de mente/corpo, como, por exemplo, a respeito da interação causal entre a matéria pensante e a matéria física. Como poderia algo de compleição tão distinta como a matéria pensante ser a causa da matéria física, mesmo sendo a matéria pensante sem extensão e lugar no espaço. Note-se que para isso, Descartes utiliza de sua própria teorização sobre a conservação da quantidade de movimento, que a matéria se comportaria no espaço de acordo com leis rígidas, e não se poderia entrar em movimento a partir do nada.

Por quais artifícios a matéria pensante teria influência sobre a matéria dotada de massa? Para tal, Descartes sugeria que uma substância material de constituição mais sutil seria necessária, chamando-a de "espíritos animais". Onde seriam encarregados de induzir os comandos da mente para o corpo e vice-versa. Porém, ainda temos o problema com respeito a esta mesma substância dada, como tal substância praticamente sem massa teria tanta influência sobre o corpo?

"Como pode duas coisas tão diferentes ter algum tipo de contato causal? Descartes sugeria que uma substância material muito sutil ­"os espíritos animais"- transmitia a influência da mente ao corpo em geral. Mas isso não nos dá uma solução, uma vez que nos deixa com o mesmo problema com que começamos: como algo espacial e dotado de peso (mesmo os "espíritos animais") podem interagir com algo totalmente não espacial?" (Churchland, 1998, p. 28)

Pois bem, levando-se em conta a divisão utilizada por Descartes, podemos supor a princípio que ela não teria tanto impacto nos dias de hoje. Atualmente, caracterizando a matéria [constituída de Prótons, Nêutrons e Elétrons], precipitadamente, como algo que possui extensão no espaço. Um exemplo disso são os elétrons,  chamadas de partículas pontuais, sem nenhuma extensão, e muito menos uma posição determinada no espaço, somente uma posição determinada estatisticamente. (Loewenstein, 1999)

Dosando tais dificuldades há o surgimento de uma "subespécie" dualista de substâncias, chamada de dualismo popular, ou a famosa concepção do fantasma na máquina. Ela diz simplesmente que o fantasma seria uma substância espiritual de constituição diferente da matéria física, porém dotadas de propriedades espaciais desconhecidas. Em termos gerais, a substância parece estar dentro da cabeça, ou seja, em estreito contato com o cérebro.

Esta vertente é de peculiar popularidade, pois abre caminho para a oportunidade da substância pensante transgredir os limites impostos pelo corpo, ou seja, ser perene, apesar da morte do corpo.

Esta vertente se atém à possibilidade de algum dia, a sua explicação da interação com o corpo ser entendida de uma forma diferente, com a qual, tradicionalmente explicamos as demais trocas de energia, como, por exemplo, as forças forte, fraca, eletromagnética e gravitacional, além do que, é claro, biologicamente os ciclos de trocas e transfor­mações de energia na cadeia alimentar.

"Essa concepção será atraente a muitos, por uma outra razão: a de que ela pelo menos mantém a possibilidade de que a mente possa sobreviver à morte do corpo (embora, sem dúvida, não o garanta). Ela não garante a sobrevivência da mente porque, ainda assim, é possível que a forma peculiar de energia que estamos supondo constituir uma mente seja produzida e sustentada unicamente em conjunção com a forma altamente complexa de matéria que chamamos de cérebro, e que, portanto, ela também se desintegre quando o cérebro se desintegra". (Churchland,1998, p. 29)


Dualismo de propriedades

O dualismo de propriedades se assemelha deveras com os outros estilos de dualismo, porém ele se diferencia do dualismo Cartesiano no quesito metafísico de substância. Para o dualismo de propriedades não é necessário a postulação de outra substância além do próprio cérebro, e este teria consigo certas propriedades peculiares com relação a todos os outros objetos físicos existentes. As tais peculiaridades seriam não-­físicas, como as experiências de cor, a possibilidade consciente de pensar em algo e assim por diante.

São elas chamadas de não-físicas, pois não podem ser explicadas exclusivamente pelos conceitos ortodoxos da física atual. Requerem uma ciência dos fenômenos mentais.

Há várias sub-classes no dualismo de propriedades, a primeira a ser vislumbrada é a chamada vertente epifenomenalista. Esta vertente estabelece que, os estados mentais não ocorrem em estreita ligação com os fenômenos físicos cerebrais. Eles estariam por assim dizer "acima" da rede de conexões estabelecidas pelo cérebro. Porém, há uma condição para a manifestação dos fenômenos mentais: que o cérebro desenvolva um certo nível de complexidade pois, a partir daí os estados mentais seriam possíveis.

Porém, há algo a mais que os epifenomenalistas discorrem: a causação dos atos físicos e atos mentais. Eles não têm uma direta ligação, ou seja, é uma ilusão que compartilhamos a idéia de que nossos desejos, vontades e aspirações sejam realizados primeiro pelos estados mentais e depois pelos físicos.

"O epifenomenalista sustenta que, embora os fenômenos mentais sejam causados pelas diversas atividades do cérebro, eles, por sua vez, não têm quaisquer efeitos causais. Eles são totalmente impotentes com respeito a efeitos causais no mundo físico. São meros epifenômenos (…)".  (Churchland,1998, p. 31)

O que os epifenomenalistas querem dizer é que a ação é causada por certos estímulos físicos cerebrais. Porém, toda a gama de eventos mentais é apenas um fenômeno à parte de todo esse aparato cerebral.

Ao ficarmos cientes dessa perspectiva, surge a dúvida do por que esta vertente poderia chegar a conclusões tão radicais a esse respeito. Primeiramente, imaginemos um neurocientista no seu labor diário de pesquisas, observando as entradas de estímulos e saídas de respostas (inputs e outputs), concluindo que os fenômenos constatados podem ser explicados simples­mente usando-se alguma teoria com respeito à química ou à física. E ainda mais, as propriedades comportamentais originadas devido ao nosso aparato cerebral só seriam possíveis a partir de uma seleção natural implacável, ou seja, a gênese do comportamento humano deve ser física, na sua constituição, origem e processos interiores (estes entendidos, como a consciência, que nada mais seria que uma resultante evolutiva dos processos de sobrevivência ).
Levando-se em conta esses pormenores, podemos indagar se porventura algum neurocientista poderia, por hipótese, considerar também os seus próprios estados internos como sendo constituintes de uma explicação sobre o porquê do comportamento, ou seja, em pactuar com a sua idéia física em que os estados mentais seriam criados por estímulos físicos e químicos, porém com uma constituinte pessoal, onde os seus desejos e aspirações estão sendo considerados, mas à parte dos constituintes causais do cérebro, a saber físico e químicos.

Esta posição de meio termo pode ser chamada de dualismo interacionista de propriedade, o qual é diferente da concepção anterior em um ponto crucia!. O interacionista difere do Epifenomenalismo quanto à possibilidade das propriedades mentais terem efeito causais no cérebro. No seu caso ele diz paulatinamente que é possível que elas tenham efeitos causais no cérebro. Ou seja, nossas ações podem ser presumidas como causadas por nossas vontades e desejos.

Por mais que ainda seja uma posição de meio termo, ainda se estabelece que as propriedades mentais seriam "emergentes", sendo determinadas se e somente se as propriedades físicas do cérebro estiverem suficientemente organizadas de uma forma complexa o suficiente. Porém, eles vão mais além discorrendo que apesar dos fenômenos mentais poderem causar mudanças comportamentais, eles são fenômenos irredutíveis, ou seja, são propriedades além de toda a previsão ou explicação pela ciência física.

Levando em conta essa última propriedade, questiona-se: Como um sistema físico evoluído de uma certa forma complexa poderia forjar fenômenos não-físicos? Seria de se esperar que propriedades emergentes de sistemas físicos fossem passíveis de ser tratadas pela física.

Mesmo com esses dualismos já apresentados, algum pesquisador dualista poderia, enfim, supor que a consciência seria algum tipo de energia física, em outras freqüências, podemos citar como exemplo Wilber (1977). Tal pesquisador poderia supor que tais propriedades mentais não necessitariam de um estatuto evolutivo determinado, para dizer simplesmente que as propriedades mentais são propriedades fundamentais da realidade. Este tipo de concepção não é muito diferente de velhas teorias que diziam que os fenômenos eletromagnéticos seriam uma forma branda de manifestações mecânicas.

Esta posição citada pode ser chamada de dualismo da propriedade elementar, porém fica a dúvida, por que tais propriedades fundamentais só são observadas em sistemas físicos complexos, e não em todos os níveis da realidade como a matéria, onde todas as partículas elementares aparecem?

Dualismo de Eccles e o Pluralismo de Popper

Apesar do nome do neurocientista, Eccles aparecer comumente associado ao filósofo da Ciência Karl Popper, pois não obstante escreverem conjuntamente o livro "The self and its brain", suas idéias particulares sobre o tema se distinguem.

Eccles utiliza os três mundos de Popper, que serão vistos num quadro posteriormente. Porém, utiliza-se de um rigor em relacionar os estados mentais e os estados cerebrais, rigor este obviamente neurocientífico.

Utiliza ele do Critério de Verdade Por Correspondência de Aristóteles (Metafísica, Livro IV, 7, 25), usando-o para a unificação dos dois estados, a saber o físico e mental.

A seguir um quadro explicativo no que se refere suas evidências na formulação da hipótese dualista:

1. Existe um caráter unitário sobre as experiências da mente autoconsciente; o que varia é o enfoque concentrativo para determinados aspectos do desempenho cerebral a cada momento; este é o fenômeno da atenção;

2. Consideramos que as experiências da mente autoconsciente têm correlação com os eventos neurais, no "cérebro de ligação", existindo uma relação de interação por correspondência, mas não de identidade;

3. Pode existir uma defasagem temporal entre os eventos neurais e as experiências da mente autoconsciente;

4. Existe a experiência permanente demonstrando que a mente autoconsciente pode, efetivamente, atuar sobre os eventos cerebrais;

5. A unidade da experiência consciente é proporcionada pela mente autoconsciente, e não pelo mecanismo neural das áreas de ligação do hemisfério cerebral dominante;

6. A unidade experimentada é proporcionada pelo caráter integrador da mente autocons­ciente, e não pela síntese neurofisiológica. (Tripicchio & Tripicchio, 2004, p. 44)

Ao demonstrar estas evidências, podemos formular algumas perguntas, como por exemplo: Como se dá a relação entre a mente autoconsciente com os eventos neurais, tendo-se em conta as ações de recepção ou transmissão de informação? Utilizando-se a teoria dos três mundos, reformulando a pergunta, como ocorreria a comunicação entre o mundo 1 com o mundo 2?

Podemos dizer em poucas palavras, que a autoconsciência se conecta diretamente a "módulos", os quais seriam conjuntos de neurônios agindo de uma forma padronizada. Podemos fazer uma analogia com respeito aos módulos da seguinte maneira:

Ele equivaleria aos transmissores/­receptores dos rádios, ou microcircuitos complexos, onde cada módulo cerebral seria um conjunto de neurônios, no caso poderíamos chamar aquelas peças complexas dos rádios como os transístores, bobinas, e assim por diante. A hipótese levantada por Eccles é a que na interação da mente com o cérebro, a mente autoconsciente teria a habilidade de vislumbrar a atividade de cada módulo em atividade.

A mente seria uma organização de caráter funcional, e não espacial, as lesões cerebrais evidenciariam que os danos poderiam afetar a capacidade do cérebro de ligação entra a autoconsciência e os módulos.

Agora vamos tratar do já mencionado livro escrito em co-autoria de Eccles, porém nosso foco será a teoria popperiana, apresentando seu quadro dos três mundos:


Mundo 1: Objetos e grandezas físicas, incluindo organismos

a) Inorgânico

Matéria e energia do cosmos

b) Biologia

Estruturas e ações de todos os seres vivos – ­cérebros humanos

c) Artefatos (produtos artificiais)

Substratos materiais:

Da criatividade humana – Das ferramentas – Das máquinas – Dos livros

Dos trabalhos de arte – Da música

Mundo 2: Experiências mentais (estados de consciência)

Conhecimento subjetivo

Experiências de:

Percepção – Pensamento – Emoções – Intenções dispositivas – Memórias

Sonhos – Imaginação criativa

Mundo 3: Produtos da mente humana (teorias)

  • a) Conhecimento no sentido objetivo

Herança cultural codificada sobre substratos materiais:

Filosófica – Teológicas – Científicas – Histórica – Literária – Artística – Tecnológica

  • b) Sistemas teóricos

Problemas científicos

Argumentos críticos

(Tripicchio & Tripicchio, 2004, p. 45-46)

Popper, como seria de se esperar de qualquer estudioso da filosofia da mente, tentou resolver o dilema entre cérebro/mente. Para o filósofo, vivemos no primeiro mundo, o mundo dos corpos físicos, porém, quando nos comunicamos tratamos da comunicação com outras mentes mas não corpos físicos.

Portanto, existiriam o mundo 1 dos corpos físicos e os estados fisiológicos também inclusos, e além deste, o mundo 2 dos processos mentais.

Para exemplificar suas teorias, Popper atualiza as idéias cartesianas. Por exemplo, a produção de sons físicos para a comunicação, como sendo uma atribuição da alma "excitar" o corpo físico para que ele produzisse sons.

Para tal atualização, ele atribui ao cérebro, referências antes feitas à "alma".

Neste caso, no ato de comunicar-nos utilizamos efeitos físicos que são os sons, que por sua vez, saem codificados e são imediatamente decodificados, por nós mesmos ou outros, sons esses com significados, com sentido.

Com esta analogia, Popper declara a sua proposta de um dualismo com respeito a interação entre os processos físicos com os processos mentais, porém ele vai além e postula a existência de um terceiro mundo, o qual seja, o mundo dos produtos da mente humana. Assim, Popper se define não como apenas um dualista, mas sim como um pluralista.

Para darmos um exemplo de algo do mundo 3, usaremos as analogias com respeito às obras de arte. Consideremos a estátua Atena de Fídias. Ela neste caso, estaria simultaneamente em dois mundos, pois é um corpo físico presente no mundo 1, mas também é um produto do mundo 3, sendo uma realização da mente humana, insuperável, mesmo que se represente a estátua de Atena das formas mais variadas não irá se igualar à Atena de Fídias.

Com a introdução deste terceiro mundo, o problema mente/cérebro parece estar parcialmente solucionado, sendo o mundo 2, dos processos mentais, como um intermediário entre os dois mundos restantes. A seguir uma suscinta analogia feita por Tripicchio & Tripicchio (2004, p. 48) para ilustrar a interação entre esses três mundos:

"Vejamos, numa linguagem metafórica, uma interação destes 3 mundos, na história de Pigmalião, escultor lendário da Grécia Antiga:- Pigmalião, como achasse todas as mulheres pecaminosas e censuráveis (mundo 3), optou pelo celibato (mundo 2). Entretanto, para não ficar completamente só, decidiu fazer uma estátua de jovem mulher, em marfim, a que chamou Galatéia (Mundos 1 e 3). A estátua era tão perfeita que Pigmalião acabou apaixonando-se por ela (Mundo 2). Vestiu-a ricamente, adornou-­a com jóias e flores, ofereceu-lhe presentes (Mundo 1). Tomado pela paixão (Mundo 2), durante uma festa de Vênus (Afrodite), pediu à deusa que lhe concedesse uma mulher semelhante à estatua (Mundo 1). Vênus, apiedando-se de Pigmalião, deu vida à própria virgem de marfim (Mundo 1). O escultor uniu-se à jovem tendo com ela um filho, Pafo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, H. G. Psi Quântico: Uma extensão dos conceitos quânticos e atômicos à idéia de espírito. São Paulo, SP: Editora Pensamento, 1986.

CHURCHLAND, P. M. Matéria e Consciência: Uma introdução contemporânea à filosofia da mente. Sao Paulo: Unesp, 1998.

DESCARTES  Os Pensadores. São Paulo, SP: NOVA CULTURAL, 1999.

LOEWENSTEIN, W. R. The touchstone of life: Molecular information, cell communication, and the foundation of life. Nova Iorque, NY: Oxford Univ. Press, 1999.

POPPER, K. &  ECCLES, J.C. The Self and Its Brain: An argument for interactionism. Nova Iorque, NY: Springer, 1977.

TIMO-IARIA A consciência como problema biológico. Em: C. Chagas Filho, C. & Gomes, A. (org.) . Ciência e consciência. Rio de Janeiro, RJ: Tempo Brasileiro, 1977.

TRIPICCHIO, A. & TRIPICCHIO, A.C. Teorias da Mente: O cérebro na mira da Ciência, da Religião e da Filosofia. Ribeirão Preto, SP: Tecmedd, 2004.

WILBER, K. O espectro da consciência. São Paulo, SP: Editora Cultrix, 1977.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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