O afeto nas estruturas clínicas

Com este trabalho, o qual ocorrerá em duas fases, temos como objetivo principal, a apresentação da Teoria do Afeto nas estruturas clínicas, passíveis de uma abordagem psicanalítica. Em princípio nos deteremos na histeria, neurose obsessiva e fobia, deixando para uma segunda oportunidade, uma abordagem das psicoses propriamente ditas.
O que se pretende, no que tange ao afeto, não é enfocá-lo na clínica psicanalítica, mas sim qual é seu lugar nas diversas estruturas. A meta desse trabalho será a de localizar a situação do afeto, nas quatro principais formas clínicas.

Efetivamente, a histeria e a neurose obsessiva, estruturam a avaliação no que diz respeito ao campo das neuroses; assim como a psicose maníaco-depressiva e a esquizofrenia, estruturam o campo das psicoses. Faz-se importante ressaltar, que aqui não nos referimos a elas, como "doenças" no sentido psiquiátrico, mas sim como formas de organização, as quais nos revelam modelos estruturais.
Esses modelos sempre foram utilizados por Freud e Klein, e configuram modos de organização da estrutura edípica.

* O Afeto nas estruturas neuróticas: Ressaltamos que, para esse estudo enfocam-se as psiconeuroses de transferência.


1. Histeria

Conversão e Condensação.

Citamos Freud: "Na Histeria, a idéia incompatível torna-se inofensiva, uma vez que sua soma de excitação é transformada em algo somático. Por isso, desejo propor o nome de conversão".

Na verdade, a conversão pode ser considerada como sendo o núcleo da histeria, muito embora possamos notar que aqui Freud nomeia, mas não explica o processo de conversão. Assim, o salto para o somático, torna-se recoberto pelo mistério e será, na complacência somática, passível de ser inferido, no caso Dora que podemos obter um maior valor explicativo.
A conversão não é uma somatização desdiferenciada. A linguagem muda de instrumentos, muito embora continue a proferir um discurso.

Parafrasendo J. Lacan, o histérico fala com a sua carne. Aqui temos o diferencial em relação aos acometidos de neurose de angústia ou uma doença psicossomática.

Tentativa de relacionar a conversão com outros elementos da estrutura histérica:

# A inversão do afeto: substituição do desejo pela aversão (Caso Dora).

# A significação dos fantasmas histéricos como fantasmas encarnados: o histérico põe em ação uma parte importante das lembranças, ao invés de rememorá-las no tratamento. ("O histérico sofre de reminiscências".)

# Os fantasmas revelam o predomínio dos mecanismos de condensação.
Se a conversão se faz necessária é porque o seu papel é o de absorver os efeitos da tensão aumentada pela condensação.

Após seus estudos com Charcot, na Salpetrière, Freud surpreendeu-se com a tão chamada "bela indiferença" dos histéricos. Assim, temos que uma vez criada a formação substitutiva, a tensão afetiva cai. É o sucesso de uma operação de recalque, pois todo o excedente intolerável do conflito psíquico, mudou de natureza e de lugar. Uma vez passado para o somático, a "tranqüilidade" pode instalar-se novamente no histérico.
Nem sempre é esse o resultado do processo, sendo que nem sempre a indiferença acompanha a sintomatologia. Nota-se que muitas vezes a angústia pode coexistir com o sintoma. É importante percebermos que já não é mais a angústia ligada ao conflito, mas sim a angústia ligada ao sintoma. O sintoma vem para proteger da angústia, como Freud descobrirá mais tarde.

Contudo, quando essa função falha, ou seja, a angústia subsiste apesar do sintoma, ou é porque a estrutura neurótica teria sido ultrapassada, ou porque a angústia ligada ao sintoma não pôde ser absorvida por ele.

2. Neurose Obsessiva

A Regressão do ato ao pensamento

O Deslocamento
Se continuarmos tomando como referência a obra de Freud, poder-se-á constatar que desde os primeiros trabalhos: "As Psiconeuroses de Defesa" (1894), "Obsessões e Fobias" (1895), bem como o manuscrito enviado a W. Fliess de 1896 e intitulado: "As Psiconeuroses de Defesa e os Novos Comentários sobre as Psiconeuroses de Defesa", poderemos constatar que Freud é guiado sempre por uma mesma idéia, isto é, a obsessão realiza um trabalho de dissociação entre a representação e o afeto, ou entre a idéia e o estado emotivo. Seria algo como, em vez de deslizar para o plano do corpo, driblando assim o conflito, o obsessivo encontra um outro meio para dissociar os elementos presentes no conflito, após ter procedido a um deslocamento da representação ou da idéia, para uma outra idéia, geralmente de importância secundária. Assim tratar-se-ia, segundo Freud, de um duplo deslocamento, onde o presente substitui o passado e o não-sexual, o sexual.

Encontraríamos aqui sim uma sexualização, a qual estaria voltada para os processos do pensamento.

Aqui existem três processos convergentes e complementares:

>A ação do deslocamento

>Os temas de agressão, ódio e morte

>A onipotência do pensamento

No indivíduo obsessivo, o combate inerente ao conflito deverá sempre ocorrer no plano do afeto. O que aqui nos importa destacar, é que é sempre a mesma potência de morte, a qual impera incessantemente, a partir da operação inicial, aparentemente anódina e inofensiva, que realiza a separação entre a representação e o afeto.

Como se disse anteriormente, com relação aos histéricos, os mesmos vivem a devoração de seus afetos, e estaríamos autorizados a dizer que o obsessivo se mantém com seus afetos decompostos, cadavéricos e com suas representações fantasmáticas.

Gostaríamos também de ressaltar que a ligação, quase que automática, entre caráter e neurose, é extremamente excessiva e abusiva. Dessa forma, uma sintomatologia obsessiva, poderá perfeitamente coexistir com uma "estrutura caracterial não-obsessiva".

  • 2) A Fobia e a Angústia

Em 1895, em "Obsessões e Fobias", Freud já sublinhava a sua natureza essencialmente afetiva. Dizia ele à época: "A fobia é a manifestação psíquica da neurose de angústia". Queremos ressaltar que o afeto da fobia é sempre o da angústia.Tratar-se-ia de uma angústia que não é nem descarregada e finalizada pela conversão, nem deslocada e, portanto isolada pela obsessão.

Sabemos que Freud, numa de suas cartas a Fliess, disse que a fobia é uma "representação-limite". Seria então, o último ponto ao qual a libido pode se apegar, antes de vir a se tornar uma angústia atemática, sendo dessa forma, não representável e não simbolizável. O mecanismo do deslocamento aqui se encontra presente, porém de uma forma limitada e, sobretudo pelo afeto, o qual está sempre pronto para dominar a fobia e a paralisar a infinita sucessão dos deslocamentos. Assim sendo, penso que poderíamos entender a fobia, como sendo uma maneira de circunscrever a angústia.

Será, de fato mais propriamente em "Inibição, Sintoma e Angústia", que Freud analisa a fobia em relação à problemática da castração.

II- O Afeto nas Estruturas Psicóticas

Segundo André Green, "o afeto nas estruturas psicóticas tem a sua situação determinada pela referência a um conjunto clínico, que a Psiquiatria anglo-saxã chama de psicoses afetivas: os estados de depressão e de excitação, enquanto se opõem aos estados esquizofrênicos.

Contudo, queremos ressaltar que aqui é impossível a circunscrição do afeto, uma vez que na psicose, afeto e representação ocorrem na forma de um mix.
As Psicoses Melancólicas e Maníacas: faz-se necessário lembrarmos que Freud, após ter considerado as psicoses como sendo neuroses narcísicas, restringiu essa designação unicamente à melancolia e à mania; sendo que o termo psicose teria ficado para as outras formas clínicas existentes.

A Melancolia, o afeto de luto e a dor

Relembramos a relação que Freud estabeleceu entre a perda do objeto e a depressão, a qual data de sua correspondência com Fliess, sobretudo no manuscrito "G", intitulado: "A Melancolia". A abordagem da Melancolia data de 1915, em "Luto e Melancolia". Assim, o luto do objeto tem como resultado a produção de um afeto de intensidade considerável, de matiz extremamente doloroso. Freud atribui a esse afeto de dor, uma significação essencialmente econômica. Sendo assim, tornar-se-ia imprescindível o trabalho do luto.

No que tange a este trabalho, o mesmo deve ser entendido como sendo a necessidade de operar o desapego libidinal, exigido pela perda do objeto no luto. Porém, na melancolia devido ao investimento narcísico do objeto, notamos que a perda do objeto acarreta uma perda ao nível do ego, pois como se sabe, este se identifica com o objeto perdido e os investimentos (catexias) de objeto,retroagem para o ego.

"O ódio volta-se contra o ego, como se voltaria contra o objeto perdido".
Do artigo de Freud sobre Metapsicologia, citamos: "o complexo melancólico comporta-se como sendo uma ferida aberta atraindo de todos os lados em sua direção energias de investimento (aquelas denominadas, nas neuroses de transferência, de contra-investimentos, ou contra-catexias) e esvaziando o ego, até empobrecê-lo completamente".

Dessa forma, o ego é devorado pelo objeto perdido, assim como os investimentos a respeito desse objeto, são de natureza devoradora e, portanto, canibalesca. Diferentemente do indivíduo histérico, diríamos que o melancólico não devora o objeto, mas sim o seu próprio ego, através do processo de identificação.
Na história da produção teórica freudiana, uma das citações que mais tiveram alusões, foi a de que "a sombra do objeto, caiu sobre o ego". De outra forma, "o amor pelo objeto acarreta a derrota do ego, que assim, segue o objeto na morte".

Mais uma vez, citamos André Green: "Por isso é necessário completar a teoria do afeto na melancolia, pela referência à última teoria das pulsões, a qual levará Freud a falar em "pura cultura" das pulsões de destruição na melancolia. Não se trata simplesmente de "uma quantidade de sadismo" que irrompe no ego, é, isto sim, uma raiva destruidora que exige vingança ao ego, identificado com o objeto, e exige reduzir este último ao silêncio da aniquilação. Até o ponto onde toda dor é abolida, na anestesia do estupor e da sideração. Apenas citaremos, que Karl Abraham, já havia percebido este estado de coisas.

Lembramos, neste ponto, que "Luto e Melancolia" é anterior à introdução do superego na teoria psicanalítica. Dessa forma, a luta descrita por Freud entre duas partes inimigas de um mesmo ego, só acabará fazendo sentido, à luz de uma luta possível entre o superego e o ego. Entendamos da seguinte maneira: por um lado, o ego trata a uma parte de si mesmo, do mesmo modo que o Id trataria ao objeto e, por outro lado, o superego trata o ego de maneira semelhante. De qualquer forma, tratar-se-ia de uma clivagem, a qual estaria como regente da situação.

Ainda no tocante à melancolia, devemos voltar a nossa atenção para os fenômenos de devoração. A identificação com o objeto perdido deverá ser entendida como vetor resultante de um duplo processo: de um lado, os investimentos de objeto que trazem a marca das fixações orais, não podem ser expulsas em bloco, eles se opõem ao vômito, ao qual poderiam estar expostos, eles se estendem sobre o ego; por outro lado, o próprio ego responde a esta extensão, vindo a constituir-se como presa consentidora. Nas palavras de Green, "ele se torna o carcereiro prisioneiro, do prisioneiro que ele guarda".

O que se encontra em jogo no trabalho do luto é a digestão pelos venenos do objeto, visando-se assim, uma neutralização dos poderes destruidores do objeto.

A Mania, o afeto de triunfo e a euforia: não há muita dúvida de que o maníaco também, a seu modo, sofreu uma perda. Contudo reage a ela acentuando o sentimento de triunfo sobre o objeto. Segundo as observações de Freud e de Melanie Klein, ambos notaram que este sentimento existe de um modo efêmero, o qual freqüentemente acaba passando desapercebido no luto. Freud atribui esse sentimento, à satisfação narcísica de ter podido permanecer vivo. Klein, por sua vez o relaciona com as satisfações que as pulsões destruidoras retiram do objeto, o qual foi submetido e dominado.

Falando mais propriamente sobre a exaltação maníaca, diríamos que esta se constituiria numa dança fúnebre sobre o cadáver de um inimigo odiado e reduzido à impotência. Registremos, contudo, que os mesmos elementos encontrados na melancolia, estão também aqui presentes na mania, ou seja, a perda do objeto, ambivalência e regressão narcísica. De todos os elementos, o que prevalece mais marcante é uma relação canibalesca com o objeto.

Queremos registrar uma reflexão a esse respeito que encontramos em André Green, a saber: "Aqui um paradoxo nos detém: na melancolia, como o ego se identifica com o objeto perdido, é o assédio das pulsões destruidoras que explica o empobrecimento do ego.Não se pode negar que as pulsões destruidoras que se exprimem na onipotência maníaca operam aqui. Como é possível, então, que essa destruição assuma aqui a forma de uma expansão, ou seja, de um enriquecimento do ego? Poderão responder que neste caso, não é o objeto que devora o ego, mas é o ego que incorpora a onipotência do objeto, cuja capacidade de absorção é ilimitada. Mas é necessário insistir no fato de que nada pode ser assimilado dessa absorção. Tudo o que é tragado é despendido ou destruído, o que obriga o ego a buscar indefinidamente, outros objetos para consumir".

O autor B. Lewin vê na estrutura da mania, uma defesa contra o desejo de ser devorado e de cair no sono. Perguntamo-nos, se esse "sono", ao qual o autor se refere, bem como o "desejo de ser devorado", não seriam vetores resultantes da primazia da pulsão de morte???

* A. Green segue dizendo que: "o ego maníaco queima todas as suas reservas para que em nenhum momento a onipotência seja desmentida. Ele é um abismo sem fundo, esvaziando-se à medida em que se enche".

Penso que é importante que tenhamos em mente que, muito embora a mania corresponda a um mesmo nível de regressão que a melancolia, vem a ser mais prejudicial do que esta última. Clinicamente, em nenhum outro lugar, a negação se mostra tão maciça.No caso do maníaco, não foram as pulsões eróticas que triunfaram sobre as pulsões destruidoras. Seria algo como se as pulsões destruidoras tivessem colocado uma máscara das pulsões eróticas, dando ao acesso maníaco, o aspecto de Carnaval (Green).

Paralelamente, o ego do maníaco, disfarçou-se com os traços do objeto onipotente.

Sabemos que para Freud, o triunfo sobre o objeto, na mania, é acompanhado por uma devoração pelo ego, não apenas deste último, como também do superego. Na melancolia, o superego trata o ego como o ego (ou o Id) teria desejado poder tratar o objeto; assim, pela mesma operação, ele satisfaz o ódio do ego pelo objeto e o ódio do superego pelo ego.

Já, no que tange à mania, o superego é reduzido ao nada pelo ego onipotente. Curiosamente, o afeto de triunfo na mania é ainda mais exigente do que o afeto de luto, ocorrendo que tudo lhe é necessário!
Assim, o amor pelo objeto, como resolução do acesso maníaco, será proveniente, segundo Freud, do desapego em relação a ele, sendo que para Melanie Klein, serão provenientes da reparação dos objetos bons, os quais darão aos restos que permanecem intactos, após essa experiência macabra dionisíaca (Green).

Penso que para uma primeira abordagem sobre a situação do afeto nas estruturas clínicas, fizemos um percurso no mínimo razoável, optando por deixar a abordagem de outras estruturas clínicas, como "as psicoses esquizofrênicas", a "paranóia" e uma abordagem comparativa que pretendemos estabelecer entre Neurose e Psicose, como a "neurose de despersonalização", "os estados de perda e recuperação objetais", "estados psicossomáticos e psicopáticos", além do "retardo afetivo", para uma próxima oportunidade, aqui na RedePsi. Espero poder contar com a paciência dos colegas, onde oportunamente, poderemos estar retomando o nosso percurso na esteira do afeto.

About TOVAR TOMASELLI

SUPERVISOR CLÍNICO E CONDUTOR DE GRUPOS DE ESTUDO SOBRE PSICANÁLISE, ESPECIALMENTE SOBRE AS OBRAS DE FREUD E LACAN.

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