A tarefa da psicanálise

A Psicanálise, corrente teórica nascida no início do séc XX, constituiu-se como um marco daquele século. Seu aparecimento, enquanto ciência, se dá em 1900, com a publicação do artigo de S. Freud sobre a “Interpretação dos Sonhos”, mais precisamente no cap. VII. Desde então a psicanálise vem sendo utilizada para explicar o comportamento do homem “neurótico” objetivando a busca de seu equilíbrio psíquico e do seu bem-estar.
Da ciência psicanálitica decorrem orientações metodológicas e técnicas que servem a formação do chamado “enquadre terapêutico”, situado em um atendimento clínico onde intervenção é feita com o objetivo psicoterapêutico da remissão da sintomatologia proveniente do manejo neurótico em sua relação com o mundo externo.

Fundamentalmente, a psicanálise propõe a existência de certos fenômenos em todos os sujeitos psíquicos:

* Narcisismo;
* Sexualidade infantil;
* Energia sexual;
* Existência de correntes pulsionais:

Pulsão de Vida

Pulsão de Morte

* Complexo de Édipo(completo – bissexualidade);
* Complexo de Castração;
* Ambivalência;
* Instâncias psíquicas (tópico, econômico, dinâmico e estrutural) com a existência de conteúdos que permanecem ausentes dos processos de conhecimento e percepção conscientes – ou seja, os chamados conteúdos recalcados (recalque originário ou primário e recalque secundário) que vêm a integrar o que se convencionou denominar “Inconsciente”;
* Infância como período das chamadas fixações que permanecem inconscientes e determinam o comportamento adulto (neurótico ou não);
* Consciente enquanto a “ponta do iceberg”, ressalvando-se considerar-se como mais predominantes e determinantes os processos do Inconsciente.

Em linhas gerais, consideramos que estas seriam as principais prescrições teóricas decorrentes das prescrições técnicas propostas por Sigmund Freud, também no início do século XX. Essas, basicamente, têm por fundamento:

· Psicanalista – Atenção flutuante;

· Paciente – regra fundamental (associação livre);

· Transferência e Resistência – presentes no processo, atualizando imagos infantis e atuando mecanismos de defesa inconscientes contra as ansiedades provocadas pelos conteúdos recalcados;

· Contra-Transferência e Contra-Resistência – relativos ao psicanalista e decorrentes do encaminhamento do processo, referentes, por um lado, às questões do paciente e, por outro, localizando-se no Inconsciente do psicanalista;

· os chamados “pontos cegos” do psicanalista – ou seja, conteúdos que permaneceram inconscientes para o terapeuta e que surgem como “algo mais” na relação transferência, devem ter seu núcleo apontado na supervisão e trabalhados em análise pessoal;

· Objetivo terapêutico – tornar consciente o que permanece inconsciente (1ª Tópica).

· Possibilitar ao ego a tomada de consciência dos conteúdos recalcados, articulando a passagem de energia e comunicação com as demais instâncias (Id, Ego, Realidade), mediante a supressão dos mecanismos de Defesa do Ego – processo neurótico inconsciente (2ª Tópica).

Enquadre:

* Horário das sessões;
* Honorários;
* Duração (50 minutos);
* Freqüência semanal;
* Neutralidade do psicanalista;
* Associação livre realizada pelo paciente;
* Abstinência sexual (psicanalista para com o paciente);
* Local de atendimento e todos os demais elementos que tenham existência fixa no decorrer do processo terapêutico.

Resumidamente, essas são as principais prescrições psicanalíticas. Na formação de um Psicanalista estarão implícitos o conhecimento teórico aprofundado e os conhecimentos vivenciados (análise didática ou formativa e atendimento de casos clínicos supervisionados – análise de controle).

"… Cada um de nós é uma biografia, uma história, uma narrativa singular que, de modo contínuo e inconsciente, é construída por nós, por meio de nós e em nós, através de nossas percepções, sentimentos, pensamentos, ações e, não menos importante, por nosso discurso, nossas narrativas faladas…".
(Oliver Sacks)

Sobre a leitura dessa biografia que se debruça um psicanalista, com total curiosidade e envolvimento, e a real percepção de que em nada poderá influenciar para seu desfecho. Com o envolvimento de um apaixonado e a isenção de um cirurgião, trabalha incansavelmente, buscando, investigando, vasculhando lapsos, atos falhos, sonhos, associações…Carona atento em uma viagem que, em quase nada, poderá influenciar sua direção. É ele quem está com o mapa na mão, orienta, checa as possibilidades das estradas, mas segue na direção que esse outro, a quem pertence o desejo dentro do enquadre psicanalítico, caminha. Total controle e total entrega, essa é a nada fácil tarefa que desempenha o psicanalista. Se houver falha e ocorrer a colisão, as feridas também o alcançarão. Porque, preliminarmente, existe o desejo do psicanalista, aquele que possibilitou a existência desse setting: “Neste nível, o temor de fracasso refere-se a uma situação de desprestígio profissional, entrando em cena a sociedade, o conjunto de pessoas que têm uma opinião sobre o trabalho do terapeuta”(Nahman Armony –“ Psicanálise: Da interpretação à vivência compartilhada”)
Por outra vertente "É fundamental que a relação analítica se assente em um chão de humanidade, sem o que as palavras ficam vazias de afeto e, portanto, vazias de sentido. É preciso que haja uma ligação autêntica, verdadeira, apesar dos limites que o trabalho analítico impõe."(N.Nahman- –“ Psicanálise: Da interpretação à vivência compartilhada”)

Como facilmente se depreende, a tarefa do psicanalista lhe impõe regras aparentemente contraditórias, quando, em verdade, completam-se num processo dialético relacional, reafirmando ser a psicanálise um imenso exemplo da dialética na sua mais completa aplicabilidade

"Se comunicamos a um paciente uma idéia que reprimiu em certa ocasião, mas que conseguimos descobrir, o fato de lhe dizermos isto não provoca, de início, qualquer mudança em sua condição mental. Acima de tudo, não remove a repressão nem anula seus efeitos, como, talvez, se pudesse esperar do fato de a idéia previamente inconsciente ter-se tornado agora consciente. Pelo contrário, tudo o que, de início, conseguiremos será uma nova rejeição da idéia reprimida. No entanto, agora, o paciente tem de modo concreto a mesma idéia, sob duas formas, em diferentes lugares de seu mecanismo mental: primeiro, possui a lembrança consciente do traço auditivo da idéia, transmitido no que lhe dissemos; segundo, também possui – como temos certeza – a lembrança inconsciente de sua experiência – em sua forma primitiva. Realmente, não há supressão de repressão até que a idéia consciente, após as resistências terem sido vencidas, entre em ligação com o traço de lembrança inconsciente. Só quando este último se torna consciente é que se alcança o êxito. Numa consideração superficial, isso pareceria revelar que as idéias conscientes e inconscientes constituem registros distintos, topograficamente separados, de mesmo teor. Mas basta uma rápida reflexão para mostrar que a identidade entre a informação dada ao paciente e sua lembrança reprimida é apenas aparente. Ouvir algo e experimentar algo são, em sua natureza psicológica, duas coisas bem diferentes, ainda que o conteúdo de ambas seja o mesmo." (FREUD, 1915c/1974, p.202)

A partir dessa comunicação de Freud, em seu texto de 1915 – O Inconsciente – , delimita-se de maneira óbvia e clara a tarefa da técnica psicanalítica. Fazer sentir a idéia (representante ideativo) recalcada. Essa tarefa é quase sempre o que nos aponta para a delicadeza do manejo da transferência, visto que sem ela nada poderá adquirir sentido (emoção) em relação ao que está recalcado (idéia).

A formulação do mecanismo do recalque da 1ª Tópica é fundamental para que entendamos o trabalho do psicanalista. Ele jamais deverá agir como um mero detetive que fica feliz com sua descoberta e apressa-se a comunicá-la ao seu paciente. Caso o psicanalista assim atue, correrá o risco de criar no lugar da ab-reação apenas uma inscrição na consciência de algo que remeterá de muito longe, quase inaudível, a origem da angústia sentida enquanto sintoma pelo paciente. Fato é que, com a formulação da 2ª Tópica, houve a necessidade de se adequar o sentido da técnica psicanalítica à nova dinâmica formulada, o que resultou em alguns equívocos importantes quando da aplicação da técnica freudiana. Um deles diz respeito ao ato – um tanto comum, infelizmente – de confundir-se Ego com consciência, ocasionando, assim, a aplicação equivocada da técnica ao supor, a partir de tal engano, que, uma vez que o paciente verbalize um conteúdo estaria à disposição para o insight, quando tal dedução quase nunca se mostra procedente. Quando uma interpretação cumpre sua função quase nunca representa algo que o paciente ignore. Uma correta interpretação é, na maioria das vezes, falar sobre o que é óbvio, visto que o analisando deverá já ter se aproximado o suficiente do conteúdo, ao ponto de não lhe comunicarmos nada que já não esteja pronto para o salto à consciência, a tomada de consciência pelo ego. Antes disso já terá operado todos os mecanismos inconscientes do ego que lhe servem de defesa contra o retorno do recalcado. Precisará, então, o psicanalista “descascar a cebola”, remetendo essa afirmação a um dos primeiros modelos do psiquismo formulado por Freud, o modelo da cebola, que se mostra ainda bastante eficiente para explicar o núcleo patogênico e o trabalho analítico de atravessar o campo das resistências.

Por tais razões, devemos pensar a técnica freudiana da livre associação/ atenção flutuante/ transferência/contra-transferência/resistência/contra-resistência – assimilada como própria por todas as correntes de psicanálise -, como um caminho que, necessariamente, emocionará os participantes da técnica. Essa deverá ser a medida da eficiência da aplicação do método e da técnica. Então, para que se tenha uma psicanálise acontecendo, deveremos pensar em duas pessoas emocionadas dentro do setting, afastando-se um tanto de um modelo razoavelmente “cirúrgico” de psicanalista que tem sido apregoado enquanto o lugar do analista. Neutralidade não deverá ser, em momento algum, sinônimo de indiferença; não enquanto estivermos falando de psicanálise. Freud afirma:

“O núcleo do Ics (Inconsciente) consiste em representantes instintuais(pulsionais) que procuram descarregar sua catexia: isto é, consiste em impulsos carregados de desejo”.

Ao psicanalista deve ser vedado sucumbir ao prazer da comunicação rápida, da interpretação feita para satisfação de seu gosto pela descoberta. Para que uma interpretação, ou mesmo uma construção, seja eficaz há que se cumprir uma condição inarredável : aguardar sua aproximação, seu tempo oportuno (timing), vencendo na transferência cada etapa da resistência. Essa é a verdadeira arte que exerce o psicanalista: a arte da espreita e do uso da correta oportunidade. O desatendimento de tal forma leva-o ao risco de inscrever no psiquismo de seu paciente um registro destituído de emoção – o chamado segundo registro (ou duplo), distanciando ainda mais daquele sujeito a "luz" que o insight e sua correspondente ab-reação poderiam proporcionar.

“Disto resulta um novo tipo de divisão de trabalho: o médico revela as resistências que são desconhecidas ao paciente; quando estas tiverem sido vencidas, o paciente amiúde relaciona as situações e vinculações esquecidas sem qualquer dificuldade” (S.Freud – Recordar, repetir elaborar – vol XII – pág 193).

Este é um trabalho introdutório cujo objetivo prende-se, antes, a suscitar dúvidas e trazer à luz questionamentos, do que propriamente respondê-los. A técnica psicanalítica deve merecer lugar de destaque em nossas discussões, condição essa que considero um tanto negligenciada hoje na atuação e produção dos psicanalistas. Muito há ainda o que se falar sobre esse tema.

Freud, em um arroubo de consentimento, escreve em seu texto sobre a “História do Movimento” que qualquer um que trate com os conceitos de Transferência e Resistência poderá se denominar Psicanalista, mesmo que chegue a resultados diferentes dos seus.

A Psicanálise, em nome de ser uma concepção teórico-científica, tem se prestado a atuar em qualquer área do conhecimento humano. Expandiu sua “teia” de ação, saiu do divã e, carregando-o nas costas, penetrou na família, nos grupos, libertou crianças e explicou os movimentos institucionais. Adequou sua terminologia e refinou seu instrumental técnico, incorporando o que há de mais contemporâneo na teoria da comunicação. Na revolução familiar deixou de falar de pai e mãe, para falar de função – aquele que funciona como tal.

Segundo Felix Guattari, a psicanálise propõe uma “regressão infinita”.

“Quem é primeiro”: a galinha ou o ovo? Mas, também, o pai e mãe ou o filho? A Psicanálise faz como se fosse o filho (o pai está doente de sua própria infância), mas ela é, ao mesmo tempo, forçada a postular uma pré-existência parental (o filho só o é em relação a um pai e à uma mãe)”.

Como decorrência desse enfoque, criam-se correlações infinitas e o ponto de adoecimento está em todas e, de modo concomitante, em nenhuma delas. A dialética é o princípio vivo do organismo humano bio-psico-social; esse ponto psicanalítico é o que de mais eficiente é feito na escuta psicanalítica da demanda. Devemos funcionar, na maioria das vezes, tão somente como o tradutor e intérprete das questões inconscientes. Para onde seremos levados? Apenas o desejo (e do outro) há de saber; desejo aqui entendido como correlato da pulsão de vida ou ao componente agressivo da pulsão de morte, que levará à confrontação e não à estagnação – ao mentiroso estado de harmonia.

Aqui não estamos preocupados em nomear esta ou aquela prática como “psicanalítica”, ou, ainda, apenas como de “inspiração psicanalítica”. Entendemos ser esta uma discussão de somenos importância, uma vez que acreditamos ser a psicanálise muito mais abrangente do que o conceito de psicoterapia; ela é, na verdade, uma concepção teórica sobre o psiquismo, presente em tudo quanto se reconheça como humano: no casal, na família ou no sujeito individualizado, sendo esse último uma hipótese.

Como aparato teórico-científico, a psicanálise fica, como já dissemos, mais atrás – como um mapeamento, um dos muitos possíveis. Ela descreve o todo, o funcionamento (teoria), diz em que barreiras ou precipícios deveremos prestar atenção (método) e como manejar tal conjunto (técnica). A Psicanálise amplia-se, então, não apenas pelo avanço teórico-metodológico-técnico, mas, também, por uma necessidade de adequação na evolução de sua demanda pelo social.

Perfilamo-nos com aqueles para os quais a psicanálise consiste em possibilitar a fala do desejo, nomear o que está oculto, ou seja, trabalhar com o Inconsciente, conceito que funda sua teoria. Ela tornará possível, dessa maneira, o emergir do conflito, daquilo que nos referimos mais atrás, nomeando-o de “regressão infinita”. Tarefa essa posta para o eficiente psicanalista, ampliar a leitura do real, possibilitando o ato criativo e a fala do desejo. Essa tarefa inscrita no atual momento é, e continuará sendo, revolucionária.

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro “Cinematerapia – Entendendo Conflitos”.

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