Apresentação – Um Cartão de Visita

A Psicanálise nasceu de um guarda chuva. Um dia Freud, o neurologista, estava em Paris, em fins do século XIX, estudando técnicas de tratamento psiquiátrico com Charcot, quando este fez uma “experiência científica”: Hipnotizou um sujeito e lhe disse que, cinco minutos depois de acordar, ele iria até o canto da sala e abriria três vezes um guarda chuva que lá estava, sem se lembrar de ter recebido instruções para isso. Dito e feito: Depois de acordar do transe hipnótico, o sujeito fez exatamente o que Charcot lhe havia pedido. Ah, e ainda por cima inventou várias razões para agir daquele modo tão bizarro.

Freud ficou impressionado com aquele experimento. Acabou se convencendo de que o tal do 'inconsciente' de que filósofos e escritores tanto falavam era realmente uma força poderosa agindo no 'lado de dentro' da mente humana. E começou a trabalhar para entendê-la.
O desenvolvimento seguinte se deveu ao ciúme de uma mulher: O livro 'Quando Nieztsche Chorou', de Inrvin Yalom, conta de maneira fascinante a história dos momentos seguintes na carreira de Freud: como a sua colaboração com o (então) mestre Breuer levou à descoberta dos mecanismos inconscientes por baixo dos visíveis sintomas da histeria, e como o ciúme da mulher de Breuer o fez abandonar aquele tipo de trabalho, deixando Freud sozinho com o continente recém descoberto. Freud (cuja mulher era bem mais 'boazinha' que a de Breuer) explorou à vontade esse novo continente, e nos deu a Psicanálise.
A palavra 'continente', aqui utilizada, é uma boa metáfora para o que aconteceu. Assim como Colombo, Pizarro, Cortez e vários outros abriram a América para os europeus, mas não a colonizaram eles próprios, os que vieram depois embrenharam-se nas matas e nas pradarias, e suas andanças transformaram o continente desconhecido em moradia de todos nós. Os que vieram depois de Freud (Jung, Adler, Abraham, Férenczi, Klein, Anna, a filha dele, e vários outros) também levaram adiante o trabalho de exploração iniciado por ele, e outros mais vieram em seguida (Lacan, Winnicott, Bion, Searles e assim por diante) e criaram esse universo impressionantemente vasto e complexo que é a Psicanálise dos nossos dias.
Winnicott é, dentre todos esses, o meu "explorador" preferido. Formou-se pediatra, mas logo descobriu que, para entender bem o que estava fazendo, precisava conhecer também o lado oculto da alma, não só o lado oculto do corpo. Para ele era óbvio (por motivos pessoais) que a parte física de uma criança não explica, sozinha, o que acontece com essa criança. Por acaso tomou conhecimento (no início do século XX) que havia uma coisa chamada psicanálise, encantou-se com ela e partiu nessa direção. Tornou-se discípulo de Melanie Klein, ao mesmo tempo em que trabalhou perto de Anna Freud, e aos poucos transformou-se em mestre por direito próprio. Hoje é cada vez maior o número de profissionais que seguem a sua orientação.
A partir de hoje, tentarei explicar por que, e o que teve o pensamento desse homem de tão especial. Traduzi três de seus livros (Natureza Humana, Da Pediatria à Psicanálise, e O Brincar e a Realidade – este último ainda não publicado) e também um livro sobre ele (As Idéias de Winnicott – um Guia, de A. Newman). Trabalho de acordo com suas teorias há mais de trinta anos. Em meu trabalho, confirmei inúmeras de suas proposições e me convenci de que, ao menos do meu ponto de vista, sua forma de ver o ser humano e suas confusões interiores abre perspectivas totalmente novas para os que sofrem de problemas emocionais. Minha intenção, aqui, será essa: Explicar como "funciona" o ser humano descrito por Winnicott, e por que isso é importante. Espero conseguir.
Não sei quem são vocês, leitores. Coloco-me à disposição para que vocês saibam quem sou eu. Ah, ia me esquecendo: O meu ponto de partida para fazer este trabalho não é nem um guarda chuva nem uma mulher ciumenta. É o fato de que sou uma prova viva de que a psicanálise de Winnicott funciona. Não fosse ela (poderei explicar isso, se alguém perguntar) eu já estaria morto (física ou psicologicamente, ou ambas as coisas) há muito tempo.
Acho que, para um cartão de visitas, o que escrevi acima já está de bom tamanho. De hoje em diante tentarei trazer, a cada semana, um tema que descreva alguma das proposições de Winnicott e mostrar como ele afeta a vida das pessoas.
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