A estória de cada um não é a mesma estória de cada um.

Álbum de Família. Ao abrí-lo, dá-se início a uma viagem na História – dos costumes da época, dos trajes, dos lugares; mas também da pequena estória de cada um, a estória singular das famílias, dos sentimentos familiares de pertencimento a um grupo, do surgimento das rivalidades entre irmãos, da época em que pai e mãe eram felizes. Enfim, uma sensação contraditória de mergulhar numa estória que embora já tenha acontecido, não se sabe onde vai chegar.
As lembranças de uma fotografia não são as mesmas para cada membro familiar; isso ocorre pelo fato desta imagem estar relacionada com a estória pessoal de cada um, seu afeto com o que estava sendo vivenciado naquele momento e sua ligação com o ambiente e as demais pessoas da foto.

Já experimentou falar da infância com sua irmã ou irmão? Não é incomum terem lembranças bem diferentes, mesmo quando se referem a uma mesma época. Desta forma, reafirma-se o dito popular "Para cada filho, um pai e uma mãe" e eu incluiria que "para cada irmão, uma infância e uma lembrança".
Podemos nos perguntar então: qual é a função da maternidade? da paternidade? enfim, para que serve esses papéis que desempenhamos ao longo de nossas vidas? somos pai, mãe, filho, irmão, esposa, marido, chefe e empregado, somos uma infinidade de possibilidades. Somos o mesmo em todos eles? Carregamos as mesmas crenças em todas as nossas atuações? nos relacionamos da mesma forma nesses ambientes tão diversos?
A autora Passos (2005)* questionou: Afinal, para que família? e em seu artigo discute as funções parentais e também de filiação. Afirma:

"O laço de filiação coexiste com outros laços no interior família, a saber:os laços do
casal, os laços fraternos e também o laço que associa as criança a seus antepassados. Todos eles dependem do nível de investimentos que são feitos reciprocamente. Esses investimentos, por sua vez, dependem do reconhecimento que cada um faz do outro no interior do grupo e, particularmente, entre as parcerias. Isso siginifica dizer que, no processo de filiação, assim como na formação dos demais laços, é fundamental que cada sujeito se reconheça em uma determinada posição, ao mesmo tempo que legitima a posição do outro." p.14.
Uma outra questão seria a que metaforicamente empresta seu nome a essa Coluna – Qual a importância representativa de um Álbum de Família? é um hábito? uma tradição? para que serve?
No álbum, temos o registro daquela família que, por certo, se relaciona com uma História maior, a História da sociedade da época. Essa necessidade de registrar, sistematizar, guardar imagens e objetos é antigo e permanece, pois dessa forma, com esses significantes, construímos a nossa identidade enquanto pessoa e enquanto grupo familiar.
Através da fotografia, temos a chance de nos ver com outros olhos – pelos nossos olhos -, podemos matar a saudade dos que já se foram, iniciar a estória daquele que chega e descobrir até que todo caminho percorrido valeu à pena.
É por isso e por muito mais que as fotos e os álbuns são tão importantes. Estão cheios de cores, mesmo quando em preto e branco, cheios de estórias e sentidos. Em tempos tecnológicos, de máquina digital, o que nos pegamos fazendo? álbuns digitais, arquivos de fotos no computador. Muda-se a forma, mas o conteúdo afetivo permanece, pois sem História, registro, lembrança, afeto, é quase impossível ser família.
Em tempo, a fotografia por vezes é substituída em famílias pobres por representações mentais, que ficam gravadas na lembrança e possuem igual valor afetivo.
A Coluna se chama Terapia de Família e Casal – Álbum de Famílias no plural, pela crença da autora de que as famílias são diversas e contraditórias. Aliás, você mesmo, já se questionou porque a sua família é ao mesmo tempo tão igual e diferente das outras?
Bibliografia:

PASSOS, Maria Consuêlo. Nem tudo que muda, muda tudo: um estudo sobre as funções da família. In: Família e Casal: efeitos da contemporaneidade / organização: Terezinha Feres-Carneiro – Rio de Janeiro: Ed. Puc-Rio, 2005.
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