Universal x Particular

Não existe o conceito universal do ser humano que estamos analisando. Seria o mesmo que reclamar pelo homem-padrão universal, a partir do qual inferir-se-ia cada homem em particular. Os dados evolutivo-adaptativos são maravilhosos para a Biologia.

Freud escreveu bastante sobre isso. Ele foi um lamarckista esclarecido. Costumava dizer:- "O adquirido ontem será o herdado amanhã." Vale dizer, o meme de ontem será o gene de amanhã, usando expressões contemporâneas plenamente ratificadas por grande parte da comunidade científica de hoje. Acho tudo isso belíssimo. A distócia aparece entre a práxis clínica (que você cita), que é particularíssima, ou nominalista, embasada em uma teoria, que pretende ser universal, que é uma abstração. No movimento de aproximação entre Psicanálise e Psicologia Analítica, o grande gancho foi ter como equivalentes as noções de protofantasia com arquétipo, o que é muito gratificante para o analista poder pensar em termos tão sofisticados, mas, a meu ver, sem operacionalidade alguma. Não creio que dados da Evolução Biológica traga algum insight ao nosso cliente. Menos ainda um Inconsciente Coletivo. Nós estamos lidando com o Homo sapiens

fulano-de-tal-deste-divã, e não com o peixe que ele foi, ou o anfíbio ou réptil. Tomo a liberdade de reproduzir um pequeno trecho de um livrinho que escrevi anos atrás:

1. Ainda a Querela dos Universais:

Façamos um passeio pelo Jardim Botânico. De pronto nos deparamos com uma laranjeira. É árvore média e com folhas pequeninas peneirando a luz morna do sol. E mais ali, um coqueiro? Como é esguio e de folhas compridas nas suas alturas! Caminhando pela trilha, somos atingidos pela visão de longos e delgados galhos, embalados pelo vento, do velho chorão salgueiro.  E, mais ao fundo do Jardim, somos surpreendidos com uma floresta em miniatura, dos intrigantes e nipônicos bonsais, que nos coloca a todos como gigantes gulliverianos. 

Como reconhecemos que todos esses seres tão diferentes entre si – a laranjeira, o coqueiro, o salgueiro e o bonsai –  são árvores?  Através da operação mental abstração que extirpa tudo o que é diferente entre elas e só retém o que têm de igual. Através da igualdade de qualidades, podemos identificar que elas possuem as mesmas propriedades básicas. Esse é o processo de geração mental do conceito.

O conceito "árvore" é capaz de aprisionar dentro dele, todas as mais diferentes árvores do mundo! Isso é possível através do truque que Sócrates e Platão nos ensinaram: para conceber um conceito, precisamos definir a essência do ser estudado.

Será que as árvores que Monet pintava eram semelhantes a essa que você está imaginando? Se você der uma muda de árvore agora para o seu amigo, ela será parecida com a de Monet? Se você enviar uma dúzia de árvores para a sua mãe amanhã, ela será semelhante às de Monet e do seu amigo? Sim.

Então, como primeira conclusão, podemos apreender que o conceito de "árvore" é o mesmo independentemente do tempo. Em qualquer época, no passado, no presente ou no futuro, a árvore será sempre semelhante, tendo as mesmas características básicas. Tão parecida, que poderemos reconhecê-la como "árvore" em qualquer tempo, pois o conceito de "árvore" é constituído pelo mesmo jeito fundamental de ser a mesma essência.

Além disso, se você comprar árvores da Holanda, pode imaginar que chegarão plantas extremamente diferentes das árvores daqui? Se você for para a Austrália e lá comprá-las, o que você acha que aparecerão? E no Japão? Como serão as árvores japonesas? Serão do mesmo tipo que as nossas, ou que as de Monet?

Portanto, como segunda conclusão, podemos saber que o conceito de "árvore", permanece o mesmo, independente do lugar que formos no planeta. Os seres que chamamos "árvore" aparecem com as características básicas em qualquer local do mundo. Então, concluímos que independente do tempo e do espaço, o conceito de "árvore" é o mesmo. Isso é o que chamamos de conceito universal.

Descobrir a essência de um ser é captar aquilo que é universal em seus corpos.  Refere-se  às propriedades que somente aquele tipo de ente possui, e nenhum outro mais. A essência é a característica básica sem a qual, o ente deixa de ser reconhecido. Descobrir traços básicos universais nos seres – a determinação da essência – é que faz, por exemplo, com que você perceba que  uma árvore não é uma pedra. Quando você define uma essência, reduz todas as diferenças àquelas poucas características comuns que são universais. Platão (428-347 a C), no diálogo Crátilo, 386-e, trata disso.  A essência traz à tona da razão abstrata a identidade universal, que anula todas as diferenças específicas de cada ente singular. E, sobretudo, fazem com que os seres sejam reconhecidos como "tipos" e não como "este".

A querela dos universais e do estatuto ontológico das essências, nos  remete  à Antigüidade: o  fundador da Escola Cínica  Antístenes de Atenas   (436-366 aC) – discípulo do sofista Górgias (483-374 aC) e de Sócrates (470-399 aC) – provocava Platão dizendo:

– "Oh!  Platão, o cavalo, sim eu o vejo, mas a "cavalidade" não a vejo! Eu vejo o homem, mas a humanidade, não!"

Adotando uma postura metafísica distinta de Platão, para quem as essências – idéias universais – mantinham uma existência separada dos seres concretos, Aristóteles (384-322 aC) afirma que as essências – formas universais – são coladas indissoluvelmente à matéria. E proclama: "Só se pode fazer ciência do universal." (Metafísica, III, 1003, a, 15)

Essa polêmica sobre os universais teve o seu apogeu na Idade Média, entre os séculos XI e XV, com Roscelino (1050-1120) considerado o fundador do Nominalismo: onde postula  que os universais não são mais do que nomes, só os entes singulares  apresentam existência concreta. O seu  discípulo Pedro Abelardo, (1079-1142)  deu continuidade à essa  postura nominalista. Na realidade, Antístenes antecipou essa  postura  quinze séculos.

Nietzsche (1844-1900), retoma essa querela, afirmando no seu livro Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral, de 1873: "A desconsideração do individual e efetivo nos dá o conceito, assim como nos dá também a forma, enquanto que a natureza não conhece formas nem conceitos, portanto não conhece espécies." 

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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