O Famigerado Insulfilm

Este trabalho tem por objetivo tirar de "debaixo do tapete" algo que praticamente ninguém questiona e, o que é pior, acha chique, requintado, up to date, ou seja, na última moda.

É, me refiro aqui, ao famigerado insulfilm que hoje "adorna" os nossos carros. Recentemente, troquei de carro e, o que comprei já veio com o tal do insulfilm. No primeiro semáforo que parei, já à noite, olhei para o carro da minha esquerda, o qual tinha insulfilm, e não consegui ver quem estava dirigindo. Sem desanimar, olhei pro "vizinho" da minha direita e, qual não foi a minha decepção, ao me dar conta que ele também tinha insulfilm. Ou seja, eu não vi ninguém e eles também não me viram.

Quero, nessas reflexões, colocar em pauta o seguinte: a despeito de qualquer possibilidade estética, de beleza, etc, a minha intenção é a de retirar o insulfilm, mas não do carro, mas sim do imaginário das pessoas.

Uns dizem que o artefato nos protege, uma vez que os "ladrões", não sabendo o que se passa dentro do veículo, ficariam com mais receio e procurariam um carro "desprotegido".

Ouví dizer que, o avestruz, quando se sente em perigo , enfia a cabeça num buraco para se sentir protegido, mas o corpo fica todo prá fora. Grande proteção! E quanto a nós, nos "protegemos, mas de quem?, de que?

Num sentido mais imediatista, diriam os aficcionados pelo tal insulfilm: ora, dos ladrões, dos bandidos e, a pergunta que fico me fazendo é: quem seriam os verdadeiros ladrões que tolhem as nossas liberdades, a ponto de termos que nos proteger? Por que não podemos parar no farol, olhar pro lado e vermos quem dirige o carro? É homem, mulher, negro, branco asiático, etc.

Notem que nós acabamos nos protegendo de nós mesmos, uma vez que não temos para nos proteger quem de fato e de direito teria que fazê-lo e, por nos encontrarmos plenamente desprotegidos, racionalizamos, tentamos encontrar uma explicação para nós mesmos,e acabamos por dizer que é chique.

Insisto que não estou aqui discutindo gostos pessoais e que não tenho absolutamente nada, aliás, muito pelo contrário, contra os acessórios que acabam embelezando nossos carros para nós mesmos e, por que não, para os outros?. Trata-se aquí de um adorno narcísico, perfeitamente legítimo e normal.

O que penso que não é legítimo e muito menos normal, é nos enganarmos dessa forma, aparentemente resolvendo um problema, mas criando outro. Temos tolhida a nossa liberdade e ainda por cima achamos chique. Nesse momento, me lembro e gostaria de citar como ilustração, um poeta russo, que se suicidou, após a revolução de Lênin e que chegou a escrever até o início do século XX.

Notem como essas palavras foram e continuam sendo verdadeiras, infelizmente, práticamente cem anos depois. Estou me referindo ao poeta MAIAKOVSKI, o qual escreveu: "Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada. Já não podemos dizer nada".

Tenho prá mim que o leitor desse texto poderá se identificar e espero que se identifique com a extrema atualidade dessas palavras do poeta. Assim, penso que o insulfilm, além de nos roubar a visibilidade em relação ao nosso entorno, por outro lado, torna , para quem puder ver, extremamente visível o quanto nós nos enganamos e, pior ainda, acabamos achando bonito.

Trata-se aqui, a meu ver de uma miopia de visão,porém falo de uma "miopia mental", de uma "miopia de percepção", em relação ao que acontece conosco e sobre o quanto somos e podemos ser manipulados, nos atendo a uma miragem de beleza, a qual na verdade esconde algo muito feio e desagradável. Da mesma forma, colocamos portões altíssimos em nossas residências para, pelo menos nos sentirmos mais protegidos e , ainda somos capazes de dizer que ficou estéticamente, muito mais bonito, que valorizou o visual da residência.

Ao passarmos pelas ruas e vermos os portões altos, não sabemos mais quem são os presos, uma vez que temos a impressão de que os presos são os moradores, enquanto os verdadeiros bandidos, muitas vezes desfrutam da plena liberdade de ir e vir, direito aliás, garantido pela Constituição, mas garantido prá quem mesmo?

E aqui, parafraseando as palavras do poeta, "e porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada". E , eu acrescentaria, e porque não pensamos nada, já não podemos pensar em nada.

Acabamos por ter, cada vez mais, a nossa mente "filmada", só que à "revelação" desse filme, jamais teremos acesso. Por essas e por outras que defendo a bandeira: "ABAIXO O INSULFILM MENTAL"

About TOVAR TOMASELLI

SUPERVISOR CLÍNICO E CONDUTOR DE GRUPOS DE ESTUDO SOBRE PSICANÁLISE, ESPECIALMENTE SOBRE AS OBRAS DE FREUD E LACAN.

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