Ivan Pavlov: A Psicopatologia Clínica Russa

Observação: Apresento este meu breve artigo introdutório como mais uma opção de trabalho sério aos novos colegas do Campo Psi.


Resumo

A atividade do córtex cerebral é reflexa. O reflexo é uma propriedade de todo o Sistema Nervoso Central. O reflexo condicionado é a unidade elementar de toda a dinâmica cerebral e a palavra o principal instrumento desta dinâmica.

A palavra – "Sinal dos Sinais" – possibilita a abstração e se presta à generalização, propriedade específica do pensamento humano e base de toda Ciência.

Graças à força deste instrumento de comunicação, surgiu a psicoterapia, ou terapia verbal que tem a capacidade de corrigir pensamentos, emoções e comportamentos inadequados, desde que usado com boa técnica e conhecimento de causa.

A psicoterapia é agente indispensável no tratamento dos distúrbios funcionais da Atividade Nervosa Superior, no tratamento das neuroses, segundo a nomenclatura tradicional.

Neste momento em que as teorias subjetivas ainda têm grande influência no cenário da Psicopatologia Ocidental e, em particular, da brasileira, é importante tirarmos Ivan P. Pavlov (1849-1936) do esquecimento. E nos reportarmos às suas descobertas no campo da fisiologia da Atividade Nervosa Superior, sem nenhuma dúvida, de grande importância para a psicopatologia clínico-biológica.

Pavlov descobriu os reflexos condicionados observando que os cães de laboratório salivavam ao ouvir os passos dos empregados encarregados de sua alimentação. A princípio não entendeu o fenômeno. Como explicar a salivação como resposta a um estímulo auditivo? Naquela época já era bem conhecido dos fisiologistas o reflexo.

Já se sabia como o mesmo se faz através de uma via nervosa centrípeta que leva o estímulo do órgão sensitivo para o Sistema Nervoso Central, de sua transformação nessa região e de uma resposta motora ou secretora que chega ao órgão efetor – glândula ou músculo – através das vias nervosas centrífugas ou eferentes. A princípio ele denominou o fato como "secreção psíquica salivar", expressão que na verdade não trazia nenhum esclarecimento. Pouco tempo depois abandonou este conceito e passou a investigar o fenômeno em seu laboratório com trabalhos experimentais que culminaram com a descoberta do reflexo condicionado – unidade funcional dos grandes hemisférios cerebrais – cuja atividade é infinitamente complexa.

Em 1897 Pavlov termina sua obra "Lições sobre o Trabalho das Principais Glândulas Digestivas", que lhe deu o Prêmio Nobel em 1904. Mais tarde, em 1927, publica o livro "Lições sobre o Trabalho dos Grandes Hemisférios Cerebrais" que o imortalizou.

Para Pavlov o reflexo é a base fisiológica da adaptação. Ele divide os reflexos em dois tipos: os incondicionados e os condicionados. São incondicionados os reflexos alimentar, de defesa, de investigação, de liberação e sexual. Eles são inatos, filogenéticos, necessitam de vias de condução e são estáveis ou permanentes. O instinto é considerado como uma série de reflexos em que a resposta de um é o estímulo do subseqüente.

Por exemplo, se um gato é jogado de certa altura cai sempre de pé. A mudança de posição dos canais semicirculares no espaço provoca uma contração reflexa dos músculos do pescoço que restabelece a posição da cabeça do animal à normal em relação ao horizonte. Este é o primeiro reflexo. A posição do pescoço se converte por sua vez no estímulo de outro reflexo que ativa os músculos do corpo e das extremidades. É assim também que uma série de reações em cadeia permite a posição de pé, a marcha e o equilíbrio.

Os reflexos condicionados

Ao contrário dos anteriores, os reflexos condicionados são adquiridos, não são estáveis, mas temporários, são ocasionais e ontogênicos.

Os arcos reflexos se processam em dois planos; os arcos inferiores passam pelo plano dos centros nervosos "subcorticais" do cérebro, e os arcos superiores, através do córtex dos hemisférios. Os elementos corticais destes arcos equivalem à representação cortical dos reflexos incondicionados. Ao atuarem separadamente sobre o organismo o estímulo visual e o alimentar cada um dos arcos de dois planos destes diferentes reflexos será excitado isoladamente, originando-se também separadamente, os dois reflexos mencionados.

Quando estes mesmos estímulos atuam sobre o organismo simultaneamente, e põem em estado de excitação seus arcos reflexos, entre os elementos corticais excitados destes diferentes reflexos incondicionados se produz uma conexão condicionada mediante o surgimento de novas vias em conseqüência do encontro da irradiação das ondas de excitação de ambas as vias corticais bem como resultado da atração exercida pelo ponto mais intensamente excitado, o alimentar que é dominante, sobre os impulsos do outro ponto mais fracamente excitado. A ponte que se estabelece entre os dois pontos corticais mencionados pode estender-se através da massa do córtex ou através da substância branca subcortical. A repetição da combinação de ambos os estímulos conduz à consolidação da conexão criada e a formação do arco reflexo condicionado.

Desta maneira, mediante o estabelecimento de uma conexão entre as representações corticais de dois reflexos incondicionados se forma um arco de um reflexo de nova qualidade, e de um tipo mais elevado – o reflexo condicionado.

Do exposto se deduz que o reflexo condicionado por seu papel fisiológico e por sua importância é como um meio para a regulação cortical ou para a generalização superior (integração superior) das funções do organismo. Com a formação de cada novo reflexo condicionado, o córtex amplia cada vez mais o campo de sintetização, das complexíssimas funções do organismo e estende os limites de seu poder sobre estas funções. Em resumo, resulta que "este segmento superior mantém sob sua direção todos os fenômenos que se operam no corpo"

Pavlov com suas investigações estabeleceu solidamente o postulado fundamental para toda fisiologia, que a formação dos reflexos condicionados de diferentes graus e na natureza é uma das funções essenciais dos hemisférios cerebrais e que estes reflexos, como atos psíquicos elementares, constituem em seu conjunto a função básica da atividade nervosa superior ou psíquica. "De tal forma – ­escrevia Pavlov – com o fato do reflexo condicionado se põe nas mãos do fisiologista uma enorme parte da Atividade Nervosa Superior e, possivelmente, toda".

Em seu laboratório fez a seguinte experiência clássica:

Campainha – – – alimento – – – salivação.

A experiência é repetida várias vezes até se formar o reflexo condicionado:

Campainha – – – salivação.

Uma vez bem consolidado este reflexo, pode-se fazer anteceder ao estímulo sonoro, por exemplo, a luz de uma lâmpada:

Luz – – – campainha – – – salivação.

Depois de algumas repetições, será suficiente a luz da lâmpada para provocar a resposta salivar:

Luz – – – salivação.

Este é um reflexo condicionado de segundo grau e o anterior de primeiro grau. Os animais, normalmente, só conseguem estabelecer conexões até de segundo grau. No ser humano, entretanto, não tem limite o número de conexões e este é um dos fundamentos do surgimento da linguagem.

O reflexo condicionado, sendo temporário, necessita ser reforçado periodicamente, pelo estímulo incondicionado, o alimento, no exemplo acima, do contrário ele se inibe e o som da campainha passa a frear a salivação, dá-se a inibição por extinção.

O segundo sistema de sinalização – a palavra

O estímulo de um reflexo condicionado chama-se SINAL, ele sinaliza algo importante do ponto de vista biológico. Existem dois sistemas de sinais; o primeiro comum aos homens e aos animais. É formado por qualquer agente do meio externo, até então indiferente, como som, luz, odor, enfim qualquer mudança no meio ambiente. O segundo, especificamente humano, é constituído pela palavra ouvida, lida ou mesmo pensada.

Pavlov dizia em 1924: "Para o homem a palavra é evidentemente um estímulo condicionado tão real como aqueles que lhe são comuns com os animais, mas, por outro lado, a palavra possui uma extensão, abraça uma multidão de objetos, como nenhum outro estímulo. Neste sentido a palavra não pode comparar-se qualitativa ou quantitativamente com o estímulo condicionado dos animais. Mais adiante ele caracteriza de maneira rigorosa a natureza própria da linguagem como Segundo Sistema de Sinalização: "Se nossas sensações e representações, que se relacionam com o mundo que nos rodeia formam para nós os primeiros sinais da realidade, os sinais concretos, a palavra e, antes de tudo, as excitações sinestésicas que vão desde o órgão da palavra até o córtex cerebral, constituem os segundos sinais, OS SINAIS DOS SINAIS.

Eles representam uma abstração da realidade e se prestam a uma generalização, o que forma precisamente nosso modo de pensamento suplementar, especificamente humano, superior, que cria, primeiramente o empirismo próprio de todos os homens e, por fim a Ciência, instrumento superior que permite ao homem orientar-se no mundo que o rodeia e em si mesmo.

A origem e desenvolvimento das funções da fala contribuíram para a formação da linguagem, que é um dos fatores fundamentais da existência da sociedade. A linguagem, por estar ligada com a atividade complexa chamada pensamento, registra e consolida em palavras e orações, o trabalho do pensamento, o trabalho cognitivo do homem, e desta maneira torna possível o intercâmbio de idéias na sociedade (humana).

A significação complexa, generalizadora e ideativa da palavra é precisamente o que a diferencia qualitativamente não só como estímulo condicionado do Segundo Sistema de Sinalização, e também como unidade estrutural fundamental da linguagem. Nisto reside a força com que a palavra, como estímulo condicionado real, atua sobre os processos da Atividade Nervosa Superior do homem.

A psicoterapia ou terapia verbal

Graças a esta força da palavra ela pode ser usada como instrumento terapêutico, no tratamento dos transtornos funcionais da Atividade Nervosa Superior, provocados pela sobrecarga de suas funções fundamentais, a excitação, a inibição e a mobilidade dessas funções, por agentes reflexo-condicionados patogênicos, os chamados traumas psíquicos. As infecções e intoxicações, os traumas encefálicos e os transtornos da alimentação, entre outros fatores, enfraquecem as estruturas do Sistema Nervoso Central e predispõem o indivíduo aos transtornos denominados pela nomenclatura clássica de neuróticos.

A educação do ser humano, segundo A. Sviadosch, sua experiência vital, seus pontos de vista, seus ideais, sua ideologia, condicionados por influência do meio ambiente, determinam o valor sinal (em relação com ele a importância patogênica) que tem para ele um agente reflexo-condicionado. Contraem neuroses tanto os homens como as mulheres – sendo que estas com mais freqüência, por serem ainda mais discriminadas apesar de todos os progressos de nossa época – e, por isso mesmo, o sexo masculino ainda se destaca em quase todos os ramos da atividade humana, mas é inegável que tem havido grandes avanços sociais neste aspecto.

Hoje é do conhecimento geral que em várias psicopatologias como a depressão, a fobia e os estados obsessivo-compulsivos, há alterações patológicas nos níveis dos neurotransmissores, principalmente da noradrenalina, da dopamina e da serotonina, o que vem estimulando, na prática clínica, o uso cada vez mais freqüente dos antidepressivos de vários tipos, bem como dos ansiolíticos e hipnoindutores, com excelentes resultados. Embora de recente aparição, 1950 para cá, surgiram estes novos recursos terapêuticos que vieram entrar em confronto, por assim dizer, com os métodos de tratamento tradicionais, os quais recorriam quase que exclusivamente à psicoterapia que freqüentemente se prolonga por anos a fio e na maioria das vezes sem resultados efetivos.

Agora corremos o risco de cair no extremo oposto, tentados a tratar estes distúrbios emocionais apenas com aqueles medicamentos. Embora não conheçamos ainda a relação entre os traumas psíquicos e os distúrbios dos neurotransmissores, não se pode negar a ação dos agentes reflexo-condicionados patogênicos, como os infortúnios afetivos familiares, a perda de seres queridos, as ameaças à vida, o temor de perdas materiais, as dificuldades no trabalho, a perda de esperança etc., na etiologia destes distúrbios.

Na psicopatologia pavloviana, tendo em vista o conhecimento da importância da palavra como instrumento da mobilidade cortical, a psicoterapia é usada como estímulo corretivo, modificando idéias errôneas, procurando tranqüilizar, conscientizando, tentando criar novas perspectivas e esperanças, orientando na busca de outro plano de vida, fortalecendo certos processos psíquicos, encorajando o paciente para tomar iniciativas e adquirir novas experiências que poderão ser valiosas e definitivas na sua recuperação.

Certos recursos da psicoterapia comportamental ou da cognitiva coincidem plenamente com as bases da terapia verbal da escola russa.

A psicopatologia clínica hoje, com o advento das descobertas biológicas, é uma especialidade que avança como ciência com resultados jamais sonhados. Agora, somando estas conquistas com as descobertas de Pavlov e de seus colaboradores, quase desconhecidos em nosso meio, estaremos nos libertando definitivamente das raízes filosóficas idealistas dominantes na psicopatologia tradicional e trabalhando para a cura, em número cada vez maior, dos transtornos mentais.

Conclusão

Partindo da definição do reflexo e de sua classificação estudamos a seguir a importância da palavra como estímulo ou sinal do mais complexo reflexo condicionado. "A palavra é para o homem um estímulo condicionado tão real como os demais estímulos comuns com os animais, mas ao mesmo tempo de uma extensão tão ampla como nenhum outro".

É o principal agente de mobilidade cortical, representa uma abstração da realidade e se presta a uma generalização o que forma especificamente o pensamento humano e serve de base para o surgimento da ciência que capacita o homem para o domínio da natureza e, através do processo histórico, transformar-se a si mesmo.

A palavra denominada por Pavlov de "sinal dos sinais" é um estímulo poderoso e a sua força a torna um excelente instrumento terapêutico dos distúrbios funcionais da Atividade Nervosa Superior provocados pelos agentes patogênicos reflexo-condicionados – os traumas psíquicos. Assim, a terapia verbal, ou psicoterapia,  pode ser usada como estímulo corretivo modificando idéias errôneas, emoções inadequadas, orientando o paciente na busca de novo plano de vida, estimulando na direção de outras experiências que poderão ser especialmente importantes, ou mesmo definitivas na recuperação de sua saúde.

Muitas vezes os medicamentos são os fatores principais no tratamento e a psicoterapia apenas complementar e, em outras, pelo contrário, a terapia verbal é a mais importante e os novos recursos medicamentosos vêm em segundo plano, tudo dependendo do diagnóstico e da gravidade do quadro clínico.

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About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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