A patroa e a empregada

Imagine o seguinte cenário doméstico: dia de estréia da seleção na copa; na cozinha Maria, a empregada, termina de lavar os pratos do almoço; no quarto principal a patroa também Maria, porém de sobrenome aristocrático) termina de se empetecar, já na expectativa dos familiares que irão acompanhar o jogo contra a Croácia na TV de plasma de ultima geração que o marido comprou. Ambas estão ansiosas: a empregada mais pelo fato de que não poderá acompanhar os filhos e marido na periferia, pois a patroa quer que ela sirva comes e bebes após o jogo; a segunda porque espera para ver se as cunhadas vão reconhecer suas habilidades na escolha dos comes e bebes (além da roupa nova, é claro)
Pouco antes das 16:00 horas a filha mais nova, considerada rebelde pelo resto da família, chama a empregada para assistir ao jogo junto dos demais. Não da nem tempo da patroa protestar. Começa o jogo. Jogo tenso, típico da estréia em copa do mundo. A platéia ansiosa assistiu ao inicio do jogo toda de pé. O “quadrado mágico” parecia não funcionar e o ambiente ficava cada vez mais tenso. As pessoas andavam de um lado para outro procurando um lugar, uma configuração, qualquer coisa que pudesse levar sorte a seleção canarinho. A única que quase não se mexia era a Maria empregada. Talvez por uma sensação de que estava em um lugar ao qual não pertencia. Talvez porque pensasse na sua própria família. Ou talvez porque não conseguisse tirar os olhos da tela. A Croácia não assustava muito e a defesa ia bem, porém tanta tinha sido a expectativa dos brasileiros em cima daquele time que todos esperavam um grande show. Não dava para disfarçar a decepção dos presentes. A angustia foi tomando conta deles como se a seleção estivesse prestes a tomar um chocolate histórico. Pura ansiedade.

Bom, o clima era tal que dali a pouco as pessoas começaram a se esquecer de seus papeis no universo social. Aos 27 minutos Kranjcar chuta uma bola por baixo devidamente afastada para escanteio por Lucio. Unhas roídas e alivio geral. Aos 32 minutos Ronaldinho se prepara para cobrança de falta. Todos de pé. Ronaldinho parte para a bola, chuta e…na barreira! Ouvem-se palavrões e outros protestos ao melhor do mundo. Aos 38 minutos, quando todos esperavam pelo fim do primeiro tempo, um grande susto: Srna lança a bola e Tudor chega muito pouco atrasado, passando a centímetros de uma bola que poderia estragar a festa brasileira. Sem olhar para os lados as pessoas se encostavam, apertavam os braços e mãos uma das outras, compartilhavam uma espécie de solidariedade neurótica. Quando todos já se preparavam para o intervalo a bola é tocada para Kaká na intermediária. Ele avança, se livra de um marcador a distancia e emenda um tirambaço para o goooooooolllllll!!!!!! Alegria geral, abraços, cumprimentos, elogios rasgados a Kaká, perdões aos erros dos outros 43 minutos. Em meio as comemorações uma cena inusitada e percebida por poucos: as duas Marias se abraçando; patroa e empregada de braços entrelaçados, pulando felizes e inconscientes. Mas durou pouco: rapidamente as duas se afastaram um tanto constrangidas. Em meio a euforia do gol inesperado esqueceram-se de suas diferenças, porem rapidamente voltaram aos seus papeis. Felizmente, sem saber, ambas haviam rompido a barreira do contato físico mais próximo. E o que e melhor: nada de mal havia acontecido a elas.

Acaba o primeiro tempo. A empregada corre para a cozinha a providenciar quitutes para o intervalo. A patroa ajeita a roupa amassada na comemoração. A primeira sente a culpa de que tenha feito algo errado e acaba invadida pelo temor de ser despedida. A segunda olha em volta tentando perceber se algum dos convidados esta a lhe reprovar. Passam-se os minutos, os temores se dissipam e a vida transcorre normalmente. Maria, a empregada, toma uma decisão precavida: assiste ao resto do jogo da porta da cozinha, vigiando a si mesma para não repetir o fato. Maria, a patroa, passa o resto do jogo sentada no sofá, com os olhos na tela e com a cabeça longe: ao seu lado estão todos aqueles de quem ela gosta; de repente vem-lhe a imaginação os rostos do marido da empregada (a quem ela conheceu uma vez que precisou se serviços gerais) e dos filhos dela (vistos em uma foto). Ficou angustiada e também culpada. De vez em quando os olhares das duas se cruzavam. A empregada voltou a ficar ansiosa – “Ela está me olhando demais…”. A patroa pensava: “Acho que ela pensa que eu sou uma desalmada…”.

Ao fim do jogo todos se confraternizavam na sala e a empregada voltou para o interior da cozinha. Ouviu alguns passos atrás de sí e percebeu a patroa se aproximando. O coração disparou e ela mal conseguiu ouvir o que a patroa dizia estendendo-lhe a mão: “Obrigada, Maria. Você deu sorte para a seleção.” E, então completou: “No próximo jogo não quero vê-la por aqui.” Quase enfartando a empregada, confusa e com mão nas mãos da patroa, ainda ouviu: “Quando faltar uma hora para o próximo você poderá sair mais cedo para assistir com a sua família”. Aliviada, mas com lágrimas nos olhos, agradeceu e voltou aos seus afazeres. Mais tarde, no ônibus para casa sentia-se bem e estava contente. A família também ficaria ao saber que iriam estar todos juntos na próxima partida. E tinha mais: ate que era gostoso o cheiro do perfume francês que tinha ficado em sua roupa daquele abraço. No quarto principal a patroa se esticava toda na cama king size, com uma sensação melhor do que a que tivera ao acordar.

Que bom seria se o Brasil se unisse em outras situações além da copa.

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