Compreendendo os Testes Informatizados

Este texto é uma adaptação do meu trabalho “Avaliação Neuropsicológica: o Computador e a Internet como Meios”, que apresentei no III PsicoInfo, em 2006, feito juntamente com Fábio Perin, psicólogo e Mestre em Neuropsicologia. Trata-se de uma panorâmica sobre o uso de meios digitais para o profissional de avaliação psicológica.
A avaliação do ser humano, em diversos critérios e formas, sempre esteve no cerne da prática profissional do psicólogo. Historicamente, uma Psicologia de fato científica teria começado com Wundt e suas medições psicofísicas. O desenvolvimento da área se deu com a invenção de hoje questionadas métricas de inteligência e aptidões, desde Binet até a psicometria contemporânea que possuem aplicações em escolas, empresas, etc.

Hoje, no século XXI, meios digitais entram em cena, trazendo questões inéditas para avaliação psicológica.


Classificação dos Testes Informatizados

Penso sem oportuno apresentar uma pequena tipologia de usos de testes por meios digitais, antes de tratar de questões de possíveis riscos e benefícios de tais recursos.

Os testes psicológicos por meio digitais podem ser classificados mediante três critérios :

1) Presença do Avaliador : se ele demanda a presença física do avaliador, se essa pode ser uma tele-presença, ou se dispensa até mesmo a observação indireta do avaliador.

2) Sincronicidade do Operação: se o teste deve ser realizado de forma síncrona ou assíncrona. Isto é, se avaliador e avaliando precisam estar ao mesmo tempo em ação.

3) Função da Tecnologia: o teste informatizado meramente processa informações ( conferindo agilidade e precisão aos cálculos e livrando o psicólogo de trabalho mecânico e repetitivo) ou ajuda de alguma forma a interpretar dados e mesmo a escrever laudos ou pareceres. Ou seja, este critério diz respeito ao nível de “inteligência” do recurso.

Eis alguns exemplos:

– o uso de um software para processamentos de dados do teste Roschach: avaliador presente, de forma síncrona (sentado a frente do cliente, por exemplo), usa o teste tão somente para inserir dados quantitativos da folha de resposta do cliente e obter indicadores que serão interpretados qualitativamente pelo próprio avaliador.

-já o Implicit Association Test (https://implicit.harvard.edu/) pode ser aplicado sem a presença do avaliador e de forma assíncrona (o avaliando sozinho em sua casa, por exemplo, com dados enviados com segurança para o email do avaliador) e a tecnologia confere processamento e interpretação completa dos dados

– um questionário sociométrico digital, por sua vez, pode ser aplicado com ou sem a presença do avaliador, de forma síncrona ou assíncrona, e seu papel é o de livrar o avaliador de uma quantidade imensa de cálculos matemáticos, mas não o de interpretar o sociograma resultante.

Benefícios e Riscos

São apontadas como vantagens do uso de testes informatizados:

– Maior precisão na aplicação e correção (elimina o risco de falhas de cálculo depois de 10, 20, 30, 40 testes corrigidos por um ser humano que fica exausto e perde a concentração depois de algumas horas). Por exemplo, a criação de um sociograma com centenas de sujeitos em uma fração de segundos e sem falhas de cálculos.

Armazenamento e arquivologia inteligente de dados, com possibilidade de fácil cruzamento de dados para comparações inter-testes e re-teste por meio de algoritmos especializados. Ex: comparação de marcadores patológicos de um mesmo sujeito indicados no PMK, Roschach, Zulliger e Wartegg, em uma fração de segundos.

– Maior mobilidade: aumento das situações onde um teste pode ser aplicado. Ex: aplicação em equipamento de imagineamento funcional.

– Computador gerando novas possibilidades de avaliação. Ex: a complexidade de aplicação do teste neuropsicológico CANTAB diminuída pelo uso de plataforma digital
– Possibilidade de massificar a abragência, i.e., aplicar um teste em muito mais pessoas de uma vez. Por exemplo, aplicação a distância de um inventário de interesses profissionais em milhares de estudantes ao mesmo tempo.

Os riscos mais comuns ao uso dos testes informatizados são:

– Aplicação de testes por pessoas sem preparo. O perigoso “Baixar e sair aplicando”. Para isso é vital esclarecer que o aplicativo não representa a totalidade da avaliação. De nada adianta um leigo ter em mãos um teste informatizado CANTAB, para avaliação neuropsicológica, se ele não tem formação em Neuropsicologia para interpretar os resultados. Nenhum teste é capaz de emitir um laudo discursivo interpretativo completo.

OBS: Confira www.cantabeclipse.com
Perda de eficácia e eficiência da avaliação a distância. OBS: observação qualitativa, como fica?. Por exemplo, o teste Piramides de Pfister exige a observação de detalhes da forma como o avaliando pinta as pirâmides. Detalhes esses que poderiam ser perdidos sem a presença atenta do avaliador.

– Os testes estão bem adaptados a plataformas digitais? Ex: interface confusa, ou que prejudica o avaliando. Problemas de usabilidade existem até em programas comerciais de longa data no mercado, e seriam especialmente graves em aplicativos dessa natureza, pois implicariam em falhas na área da Saúde, p.e.
Limitações de uso (carência de tecnologia, imperícia com a interface, inalfabetismo, etc)


Estado da Arte no Brasil

É curioso notar que no Brasil a área em que os testes informatizados mais avançou, em termos de produção cientifica de conhecimento, foi na Neuropsicologia. Cito como exemplos o TAVIS -2R e o TCA (ambos para avaliação da atenção). Isso talvez se explique pela atitude mais positiva na Neurologia com tecnologias digitais, e o fato da Neuropsicologia ter uma vocação psicométrica forte.

Já em termos não acadêmicos, a profusão de pseudo-testes digitais para avaliação de pessoal em empresas é preocupante, especialmente versões extremamente simplicadas dos inventários Jungianos de fatores de personalidade, como esta:

http://wiki.inspiira.org/cgi-bin/bin/view/Persona/TesteDePersonalidade

Fato este que evidencia uma necessária postura em termos de regulação e disciplinamento dos testes informatizados.

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