Psicopatologia do Vínculo Financeiro

Qual a natureza do seu vínculo com o dinheiro? Trata-se de uma ligação saudável, funcional? Ou você diria que sua forma de se relacionar com o dinheiro é problemática, patológica?
Introdução: Por que investigar a vida financeira?

O bom psicólogo deve investigar a vida do cliente/paciente em diversos campos: emoções, cognição, sexualidade, relações sociais, etc. A forma como o cliente/paciente lida com dinheiro, nesse contexto, apresenta-se como um recorte de investigação privilegiado, uma vez que tal temática trespassa diversas outras (poder, saúde, projeto de vida, relações com outros, carreira, etc).

Este artigo é uma tentativa inicial de reunir diversos sintomas de transtornos mentais que estão ou podem estar relacionados a vivências com o dinheiro. Seu objetivo é de fornecer subsídios para investigações a respeito da vivência financeira, por meio da compreensão das formas de vínculo com o dinheiro. Parte-se do pressuposto que a forma como a pessoa se vincula ao dinheiro é um importante dado clínico não apenas para eventuais consultorias financeiras, mas para entender a seu funcionamento global.

Vínculos Patológicos com o Dinheiro

A Psiquiatria tem mais de 500 patologias, ou transtornos mentais, catalogados atualmente. Vez por outra, ao se ler a descrição de um deles, surge a temática do dinheiro. Diz-se, p.e., que pessoas com tal transtorno desenvolvem tais problemas financeiros, ou que determinado problema financeiro pode ser sintoma de tal transtorno, e por aí vai.

Entendendo um transtorno mental como uma condição debilitante onde o portador tem seus padrões de comportamento globalmente afetados, sofrendo prejuízos em diversos campos de sua vida, fica fácil imaginar como as finanças de alguém podem servir de termômetro para tais problemas.

A partir da classificação de transtornos mentais presente no DSM-IV (ver Bibliografia, no final do artigo), pode-se hipotetizar algumas categorias de vínculos financeiros patológicos:


A – Vínculos Esquizofrênicos

1. Na Esquizofrenia clássica, ocorre um desligamento psicótico da realidade objetiva, com a possibilidade de delírios. Pessoas que se relacionam dessa forma com o dinheiro vivem em uma realidade paralela, particular. Têm um padrão de consumo inadequado a sua renda, e nutrem fantasias a respeito do dinheiro, i.e., quanto a origem, a duração, a quantidade, etc. Dificilmente percebem os absurdos que cometem em gastos e investimentos, mesmo quando aconselhados e confrontados a fatos.

2. Narcisismo, sentimento de grandiosidade, invunerabilidade. É uma especificação do tipo anterior, marcada pela arrogância e decorrente incapacidade de aprender com erros. Convencido que é um mago das finanças, com uma auto-imagem patologicamente autoconfiante, as pessoas com este vínculo cometem sempre os mesmos erros e não aprendem. P.e., investidores agressivos tendem a sofrer desse mal.

3. Esquizotípico. Esse vínculo é caracterizado pelo sentimento de que o dinheiro pode gerar um mundo particular de proteção e conforto, isolando-o do sofrimento do “mundo lá fora”. Comum entre pessoas que se iludem buscando amor e/ou sexo através de riquezas materiais, ou em buscas extravagantes por prazeres imediatos, como praticando hábitos excêntricos e caros, etc. Imagine uma pessoa, p.e., que gasta mais de R$ 2.000,00 por mês “tunando” o carro porque apenas dentro de seu carro ele se sente bem?

4. Paranóide. Tipo de vínculo esquizofrênico em que o dinheiro está sempre ameaçado por todo tipo de forças. Comum entre “pão-duros” e pessoas extremamente avessas ao risco.

B – Vínculo Dissociativo

Nesta categoria alisto as pessoas que possuem uma espécie de amnésia em relação a sua vida financeira: sentem ou alegam não saber ao certo o que fazem com seu dinheiro. Dizendo de outra maneira: uma dupla personalidade. Ela vive de uma forma, mas quando lida com dinheiro, muda radicalmente. Um exemplo clássico: o provedor que põe dinheiro em casa e exige que a esposa administre por inteiro, porque não quer pensar nisso.

C – Vínculo Maníaco

O maníaco é um gastador impulsivo, em geral de itens desnecessários. Períodos de arrependimento e culpa podem se seguir. O maníaco não deseja gastar. Sai de casa sem planos para isso. O pensamento vem por impulso, quando encontra oportunidade, e a decisão é irrefletida. A clássica “dondoca de shopping” e o “nerd na loja de computador” são exemplos.

D – Vínculo Depressivo

O dinheiro, para a pessoa que estabelece esse vínculo com ele, gera culpa, tristeza. Lidar com dinheiro não faz sentido, pois é uma fonte de sofrimento. Uma praga bíblica: “a raiz de todos os males”. Por isso o melhor é ensimesmar-se e esperar que os outros resolvam. Rejeita se relacionar com o dinheiro e em geral dos benefícios materiais que ele pode proporcionar.

E – Vínculo Fóbico

Evita ativamente o dinheiro, de uma maneira repleta de ansiedade, nervosismo. Diferente do Depressivo, ele vê sentido em lidar com dinheiro, mas mesmo querendo, não consegue. Pode estar associado com insegurança, baixa auto-estima, traumas.

F – Vínculo Compulsivo

O dinheiro é desejado, ardentemente. Quanto mais melhor, a qualquer custo. Desgastes e prejuízos pessoais não fazem diferença. Em geral esse vínculo é uma estratégia para não pensar em outros temas, como a família ou a frustração no trabalho. Diferente do vínculo maníaco porque aqui os gastos e investimentos são planejados e ruminados, e dificilmente ocorre um arrependimento posterior.

G – Vínculo Dependente

Pessoas que se posicionam como dependentes de outras, que precisam ser cuidadas. Em geral não administram seu próprio dinheiro, e se mostram frágeis e assumem um papel infantilizado em relação a esse tema. Comum entre esposas que não trabalham fora de casa, de classe A ou B.

O Vinculo Financeiro Saudável

Que seria, então, o vínculo saudável com o dinheiro? Se partirmos de uma simples concepção de saúde como ausência de transtornos, podemos estipular que tal vínculo apresentaria as seguintes características:

1. Um padrão de gastos, poupança e investimentos condizentes com a objetividade contábil de seu padrão de renda e perfil. (Não gasta demais e nem de menos; investe uma porcentagem aceitável; etc)

2. Ciência de cada porção de seu patrimônio e de tudo que está acontecendo com seu capital.

3. Abertura para lidar direta e francamente com assuntos financeiros, sem sentimentos desagradáveis e nem exagerado entusiasmo.

4. Maturidade decisória sobre assuntos financeiros. É capaz de tomar suas próprias decisões, se bem informado.

5. Compreensão do poder e do limite do dinheiro: seu significado como meio de troca e promotor de bem-estar, e sua incapacidade de reparar certas perdas ou substituir sentimentos ou pessoas ausentes.

Conclusão

Certamente esta reflexão sobre a Saúde Financeira não esgota o tema. Um propósito deste texto é o de convidar o leitor para uma reflexão pessoal: “Você lida de forma saudável com seu dinheiro?”
Psicólogos sempre esbarrarão com questões financeiras dos clientes/pacientes. Seja em termos de sintomas ou mesmo em questões de relacionamento profissional (A famosa questão das formas de pagamento da terapia, p.e.). E mesmo que as finanças não sejam o foco do serviço sendo prestado, o profissional de Psicologia deve estar apto a entender o que elas significam na vivência íntima do ser humano.

Referências e Indicações de Estudo

Sobre o DSM-IV

http://virtualpsy.locaweb.com.br/

Sobre a Psicopatologia do Dinheiro

http://www.unicamp.br/unicamp/canal_aberto/clipping/fevereiro2005/
clipping050203_gazetamercantil.html

http://www.psicologiafinanceira.com.br/

One Response to Psicopatologia do Vínculo Financeiro

  1. Roberto DanVie 7 de julho de 2015 at 19:52 #

    Muito boa sua reflexão. Gostei.