Psicopatologia fenomenológica da atividade delirante

Adentrando ao campo das idéias, conceitos, juízos, raciocínio, vejamos as principais alterações do conteúdo do pensamento.

De-lírio, do latim, lira, ae – sulco, trilho. É o sair dos trilhos, descarrilhar. Rompe-se toda e qualquer barreira da Lógica Formal. Augusto Luiz Nobre de Melo (1979), aponta:

"(..) essa atividade anormal [atividade delirante] envolve modificações específicas da execução psíquica, que atingem e comprometem à intencionalidade do ato noético (Husserl, Kronfeld, Carl Schneider) e dão origem" (…) "a desordens da apreensão das relações significativas puras, que constituem, em última instância, a base supra-individual do entendimento interumano".

A idéia se apresenta, ou se re(a)presenta, à nossa psique na forma, por exemplo, de uma palavra, concreta ou abstrata, acompanhada, ou não, de imagens;  as idéias se encadeiam umas às outras, de acordo com nosso juízo, que estabelece a relação entre os termos sujeito e predicado. Esta relação poderá ser verdadeira ou falsa. O conceito, do latim conceptu, que significa concebido, é gerado por este encadeamento entre palavras ou idéias. Exemplo:  "O pássaro está para a gaiola assim como o homem está para …". O conceito não é dado por nenhuma dessas palavras em si, mas pela relação entre elas. As idéias engatadas, qual um trem, formam o raciocínio ou pensamento racional.

O pensamento deve obedecer a duas condições lógico-formais:

1ª. Uma sintaxe que é a construção gramatical que permite a disposição e ordenação das palavras na frase e das frases no discurso; ou seja, é o curso percorrido pelo trem das palavras nos trilhos;

2ª. Uma semântica que permite a mudança, sempre dinâmica, de significados das palavras ocorridas no espaço e no tempo, ou seja, é o conteúdo da carga transportada pelo trem do raciocínio.

Lembrando que inteligência é a capacidade de resolver novos problemas, na unidade de tempo, a partir de experiências prévias, se a associarmos ao juízo, do falso e do verdadeiro, obteremos o senso crítico, autocrítico e hétero-crítico, que é a função mais nobre do intelecto. Por isso mesmo, é a primeira a ser abolida e a última a ser recuperada em qualquer transtorno psíquico.

Neste ponto temos de examinar com cuidado o diagnóstico diferencial entre três situações muito próximas:


1ª. Pensamento delirante
– faz perder a capacidade crítica do paciente no que diz respeito ao seu conteúdo temático psicopatológico. Aliás, a grande característica aqui encontrada é a da mais absoluta convicção delirante.

2ª. Pensamento obsessivo
– conjunto de idéias que se impõe ao psiquismo de maneira obrigatória, compulsória, sem margem de escolha, de maneira egodistônica, isto é, contra a vontade do paciente, em dissonância com o seu ego.  A crítica está parcialmente perdida, mas, nem sempre. Esse neurótico vive grande sofrimento ao se observar executando rituais absurdos. Em contraste com a convicção delirante, a obsessão vem acompanhada de uma verdadeira neurose da dúvida que corrói o paciente. Ao examinar inúmeras vezes se a porta da rua está trancada, observa-se que lhe falta o conceito da evidência. É bom lembrar que essa dúvida é imposta pela doença, bem diferente do cético que a usa sistematicamente por ideologia, por opção livre.


3ª. Pensamento prevalente
– conjunto de idéias superestimadas pelo indivíduo, que por extrema paixão, tem sua crítica comprometida, e se torna razão-de-ser do mesmo; é egossintônico, isto é, cooptado pela vontade. Exemplos: vegetarianismo, seitas evangélicas neopentecostais, ideologias sócio-políticas etc., tendo como traço principal o fanatismo.  O fator cultural desempenha aqui um papel fundamental.

É inútil querer convencer racionalmente o delirante de seu juízo crítico equivocado. Vejamos:

 – 100 pessoas estão calmamente descansando na varanda de seus apartamentos. Na rua passa em alta velocidade uma viatura da PM com a sirene ligada. É possível que umas 50 delas nem percebam, tal a anestesia que se desenvolve em cidades grandes e violentas quanto a que fica esse prédio. Umas 30 se assustam:- "Será que os assaltantes estão por perto? Vamos sair da janela antes que uma bala perdida  nos ache". 10 reclamam:- "Quando precisamos deles, nunca estão por perto". 9 pensam: "Coitados destes Policiais Militares, o tempo todo arriscando a vida, e por um salário tão pequeno!" E, 1 diz com convicção: – "Estão atrás de mim. É o Serviço Secreto. Eles estão sempre me vigiando. Querem me aniquilar". Este último apresenta uma Vivência de Significado Anormal, segundo Kurt Schneider (1963): "As reações vivenciais anormais se desviam, sobretudo, da média das normais, por causa de sua extraordinária intensidade, à qual se acrescenta a sua inadequação com respeito à motivação dada".

Anormal porque está fora da norma-padrão estatística.  A relação é de 1%. Mas, vejam: 50% estavam anestesiados. Evidentemente, isso também é absolutamente anormal do ponto de vista da saúde mental, entretanto, numa sociedade patológica, onde se passa nosso prosaico exemplo, a anestesia torna-se normal, isto é, uma norma  estatística pela sua alta freqüência; isto acontece por uma adaptação convergente, isto é, positiva no sentido de diminuir o estresse (ou stress), aumentando nossas chances de sobrevivência diante da imperdoável ação promovida  pela seleção natural, segundo a Biologia Evolucionária que tem em Richard Dawkins um de seus maiores expoentes da atualidade.

Nesse exemplo a estrutura delirante se faz em 2 tempos:

1ºt. A percepção correta da viatura,

2ºt. A vivência com significado delirante. Este mecanismo chama-se percepção delirante.

Pode ser a 3  tempos:

1ºt. O paciente olha numa vitrine do shopping uma longa e loira peruca de mulher;

 2ºt. Esta percepção correta atual liga-se, extra-consciente e autonomamente, a uma experiência vivida com grande sofrimento: quando criança usava seus cabelos loiros bastante longos e os amiguinhos diziam que parecia uma menininha;

 3ºt. O estímulo da peruca, após fazer este percurso na inconsciência do paciente, volta como vivência delirante: "Esta peruca foi posta aí para me humilhar. Os donos da loja sabiam que eu a veria. Querem testar minha virilidade".

Pode ter 1 tempo apenas: Um turista vai ao Vaticano no momento em que o Papa abençoa a multidão de sua sacada. Ao vê-lo, o paciente emocionado recebe o pensamento completo: "Eu sou o novo Messias!" Isto é a intuição delirante que já nasce feita.

Às vezes o delírio é secundário a uma alucinação. São 2 tempos:

1ºt. O doente alucina auditivamente a sirene da polícia;

2ºt. "Vieram-me fuzilar!"  Isto é um delírio alucinatório, no caso alucinação auditiva, mas, que pode ser de qualquer outro tipo: visual, olfativa, gustativa, tátil etc.

Interessante é notar que nem sempre o conteúdo delirante é falso. É o exemplo do marido que se diz traído por sua esposa, desenvolvendo um delírio de ciúme. A vizinhança sabe que realmente ela tem um amante, porém, o marido nunca obteve um dado da realidade que pudesse justificar sua suspeita. Sua convicção é delirante, embora por acaso, e neste caso, o tema da morbidez coincida com a verdade.

Nunca o delírio ocupa 100 % do universo psíquico. Vejam o caso do delirante que cometeu um homicídio e que, entretanto, não foi para o Manicômio Judiciário – onde ficam internados, por motivo de segurança, os doentes mentais que cometeram delitos – e sim, para a penitenciária comum. Como? Ficou claro que o crime não guardava qualquer relação com o tema delirante do assassino. Foi cometido por sua porção sadia de personalidade. Portanto, com consciência, imputabilidade e responsabilidade civil (cf.  Psiquiatria Forense).

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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