Neurose e Psicose, duas palavras vazias

Vejamos, consultando o crítico Sonenreich, alguns dos critérios mais usados:

1. autonomia psíquica:

neurose apresentaria perda parcial, pouco implicando a personalidade;

psicose com maior perda de autonomia, interferindo mais na personalidade.

2. gravidade do quadro:

neurose seria menos grave que a psicose, o que faria o leigo  pensar que ela devesse ser  tratada por filósofos ou psicólogos clínicos;

psicose, mais grave, tratada por psiquiatras.


3. causa correlata presumida:

neurose seria preferentemente psicógena (funcional);

psicose seria preferentemente somatógena (orgânica).

  • a. não podemos afirmar que as neuroses são afecções sem substrato orgânico; assim como foram excluídas dentre elas até agora a epilepsia, a neurolues, a coréia etc. poderão ser excluídas, no futuro, as outras afecções, com técnicas apropriadas.
  • b. não podemos afirmar que as psicoses têm um substrato orgânico mais certo do que as neuroses; muitos autores definem certo grupo de psicoses justamente na base do mesmo critério falacioso: doenças psíquicas sem substrato orgânico.
  • c. manifestações psíquicas idênticas às incluídas em quadros chamados neuróticos, aparecem após afecções orgânicas do Sistema Nervoso Central ( tóxicas, infecciosas, traumáticas, vasculares etc.)
  • d. as mais clássicas neuroses acompanham-se de lesões em certos órgãos (sistema cárdio-vascular, digestivo, vestibular etc.), e é impossível, prática e teoricamente, delimitar o momento e as formas de transição entre transtorno funcional ou orgânico.

4. setores da psique:

neurose comprometeria a emoção;

psicose,  a razão e a vontade + ação (conação).

5. a consciência da realidade: 

o neurótico não a perderia;

o psicótico sim, a perderia.

Apenas como exemplo: a neurose hipocondríaca é considerada por muitos como uma interpretação delirante e às vezes mesmo alucinatória da corporeidade; nos psicóticos maníacos e melancólicos o transtorno fica apenas no plano da temporalidade, e correlativamente da espacialidade.


6. a consciência da doença (estreitamente relacionado ao conceito anterior):

o neurótico a teria;

o psicótico não.

Alguns doentes chamados comumente de psicóticos, como o bipolar e o esquizofrênico, têm consciência da doença, embora avaliando-a de maneira errônea, como também erram alguns pacientes neuróticos, por exemplo, nas cenestopatias, obsessões, histéricos, neurastênicos etc.


7. o comportamento social:

o neurótico permaneceria socialmente organizado;

o psicótico,  socialmente desorganizado.

Personalidades apenas originais, que voluntariamente se desviam dos padrões aceitos, concebidos e definidos, seriam psicóticos; porém, entre estas se podem contar indivíduos dos mais produtivos, especialmente artistas que não só em nossa época, mas sempre foram considerados como excêntricos, revolucionários etc. Por outro lado, um TOC, que sempre é entendido com um neurótico, constrói um sistema de gestos e atitudes dos quais não pode prescindir, uma série de tiques e trejeitos, afastando-se dos comportamentos normais.


8. sensibilidade à psicoterapia:

a neurose teria sua indicação máxima;

o psicótico seria refratário a ela.


9. sinais e sintomas:

seriam distintos e característicos para a neurose, e, para a psicose.

Podemos parar por aqui. São nove itens furados. A nosografia atual tem abandonado essas expressões, substituindo-as, principalmente, por distúrbio ou transtorno.

Os critérios apresentados são absolutamente falhos não devendo convencer a ninguém. Mas, infelizmente, o uso de neurose e psicose é universal.

Falamos em neurose de angústia, fóbica, obsessivo-compulsiva  etc.

Falamos de psicose quando surgem, principalmente, delírios e alucinações, porém, nem sempre estão presentes.                                                 

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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