O Estado Urobórico e as Zonas Erógenas

O que nós ocidentais sabemos sobre o psiquismo humano é uma materialização conceitual de fenômenos puramente rarefeitos que são transpostos à atividade intelectual dada uma predisposição subjetiva. O que não podemos negar é a atmosfera poderosa que essas descobertas suscitam em nossas mentes cada vez mais transtornadas pelo fetiche que é o conhecimento, ele que é o grande Deus da ciência, senhor de nosso ideal desenfreado de denominá-lo, de ver seu rosto pois não nos satisfazemos com sua sombra, esta, que almejamos trazer às claras como o sol faz todos os dias com nosso belo e ínfimo planeta, como se fossemos a grande estrela de um sistema no qual todos, inclusive nós mesmos, circulamos em volta, trazendo à baila a questão de uma compensação que nos remonta, irracionalmente, às idéias a muito superadas do sistema Ptolomaico.

“Naturalmente”, dizemos quando em resposta a uma pergunta óbvia que encerra na interrogação a asserção verdadeira de nosso pensamento. Respondemos à natureza dessa forma pois nossa identidade é transcendente, magnífica, encostamo-nos em algo com o intuito de subjugá-lo à nossa vontade em nosso desejo de ser sol, terra é muito banal. Um planeta que nem é o maior de todos e ainda me dá a certeza de que aqui não viverei para todo o sempre? Apoiar-me-ei sobre uma neurose coletiva contemporânea e já conjeturo minha existência no planeta vermelho, pois meu sintoma é ser – humano, minha divinização e perfeição é ser um “alien”, “criança em loja de brinquedos vivos e reacionários”.

O título do presente trabalho dá um belo susto nos distintos adeptos da psicanálise e da psicologia analítica, afinal, Jung não se impeliu a analisar zonas erógenas, não as refutava, ao contrário, reconhecia suas existências mas não lhes dava a primazia dada pela psicanálise, na verdade, nem discorria idéias sobre elas. Já o psicanalista deve se perguntar que raios é “estado urobórico”, e o que isto tem a ver com zona erógena. Pois tentarei elucidar essas questões.

Em um trabalho de nome “O Dragão, o Fálus e o Narcisismo” [1]coloco idéias relacionadas ao narcisismo primário, à simbologia fálica, à pulsão de morte, aos arquétipos do herói e da Grande-mãe, entre outras, tudo sob uma perspectiva holística permitida pelas descobertas de grandes autores da dita Psicologia Profunda. O artigo acima citado na verdade contém concepções que deveriam vir após estas, mas não achei prudente discorrer sobre um tema tão controvertido, como o que se apresenta, antes de provar que é possível lançar luz sobre a psique a partir do que nos é dado pela psicologia atual, sem sermos levados por sectarismos e, é claro, mantendo dialética respeitosa com o inconsciente sem muito racionalismo.

A compreensão das zonas erógenas se encontra, em sua maneira mais simplória, calcada na seguinte designação de Freud :

“Zonas erógenas denominam-se os lugares do corpo que proporcionam o prazer sexual. O prazer de chupar o dedo, o gozo da sucção, é um bom exemplo de tal satisfação auto-erótica partida de uma zona erógena.”

Temos então, tal qual Freud observou, no desenvolvimento psicossexual os três estágios caracterizados pela primazia das zonas erógenas: oral, anal e genital cada uma com suas conseqüências psicológicas, ótimo, nada que já não tenha caído na linguagem popular, mas que continua sendo de grande profundidade para novas reflexões.

Auto-erotismo é uma expressão que enlaça inevitavelmente o narcisismo, assim, é nos óbvio que o advento dessas zonas erógenas tem como principal característica a satisfação de um prazer narcísico; numa identificação narcísica com um objeto, por exemplo, sempre se terá uma atmosfera oral, assim, “come-se” o objeto e introjeta-se a sua imago identificando-se com ele. Mas pensemos: Será que as zona erógenas como componentes relacionados com a animalidade, o afã de nutrição, excreção e cópula, que são fatores primitivos e naturais, teriam apenas uma relação causal com o psiquismo? Será que a atmosfera oral de uma relação narcísica é só um desvio, um molde da pulsão auto-erótica original a nível inconsciente? As questões se apresentam com o foco nos signos “apenas” e “só”, respectivamente, que “são” não temos dúvidas.

Dadas as questões-chave entremos mais afundo no assunto. Diz Freud:

“A sexualidade infantil apresenta duas outras características que são importantes do ponto de vista biológico. Mostra ser formada de certo número de instintos componentes que parecem estar ligados a certas regiões do corpo (‘zonas erógenas’), surgindo alguns deles desde o início em pares opostos – instintos com um objetivo ativo e outro passivo. Assim como na vida posterior o que é amado não são simplesmente os órgãos sexuais do objeto, mas todo o seu corpo, também desde o começo não são simplesmente os órgãos genitais mas muitas outras partes do corpo que constituem sede da excitação sexual e reagem a estímulos apropriados com prazer sexual. Esse fato tem estreita relação com a segunda característica da sexualidade infantil – ou seja, com o fato de que no início, ela se acha ligada às funções autopreservativas da nutrição e da excreção e, com toda a probabilidade, da excitação muscular e da atividade sensorial.”

Pois bem, as zonas erógenas correspondem ao advento da sexualidade no ser-humano possuindo uma amplitude abissal que nos permite colocá-las em um ponto de primordialidade no tocante à sobrevivência e ao germe da subjetividade.

A dicotomia prazer-desprazer caracteriza uma zona erógena, ela é dependente dessa relação, pois onde a libido acha de se investir deve-se ter uma fonte de prazer que, desestimulada, só poderá cair numa sensação neutra que será sentida como desprazer, assim dá-se a força do local como parte erógena dependente dessa oscilação em grande escala, onde cabe a busca pela sensação constante de prazer. Tendo não só a autopreservação ligada à abertura de uma zona erógena mas também, como Freud conota acima, a excitação muscular e a atividade sensorial, que condizem também com aspectos neuro-biológicos como o próprio sistema nervoso e os neurônios sensitivos, sendo que na vida intra-uterina já existem atividades reflexas e sensitivas (Diament,1976), e até exames com anencéfalos comprovaram que reações sensoriais são possíveis sem hemisférios cerebrais (Diament,1976), acredito que se pode aventar a suposição que mais tarde pode vir a transformar-se em hipótese, de que as zonas erógenas primárias, boca, ânus e genitais, correspondem a predisposições físicas(corpóreas) e psicológicas, físicas porque me é simplesmente impossível pensar em uma inconstância do prazer sem uma constância anterior, ou seja, em um princípio do prazer sem que aja o prazer idealizado no princípio de todo o sistema sensorial corpóreo adaptativo predispondo a uma inclinação total, assim, quero dizer, a causa empírica do princípio de prazer; e psicológico porque conceber o que subjaz o desejo e a psique humanos sem que isso tenha em si uma predisposição subjetiva e esteja presente no inconsciente da humanidade seria uma rendição ao padrão epistemológico ostensivo, quando o que interessa é uma “faísca” do princípio supremo da realidade experimentada por todos, aceitem conscientemente ou não; se sou junguiano ou freudiano, diria, tal como Freud, aventureiro, ocidental ou oriental, tal qual Jung, inclinado ao orientalismo.

Essas concepções remetem-nos a uma fase da vida humana extremamente controvertida, onde o que sabemos de psicológico é inversamente proporcional ao que temos em conhecimento biológico, é o princípio, a vida intra-uterina. Sobre esse assunto só podemos tratar indiretamente, atitude atual de nossa ciência do inconsciente, portanto trabalharei com aspectos simbólicos que nos aclararão uma pequenina parcela da realidade.

Um dos símbolos do útero é o forno, como diz Jung, este que é caracterizado por calor extremo, com a presença constante daquilo que é a grande descoberta da humanidade: o fogo. Em seu artigo intitulado “A Aquisição e o Controle do Fogo”, Freud interpreta psicoanalíticamente o mito grego de Prometeu, a interpretação inteira desse mito dada por ele não nos é importante agora, mas a certa altura disserta:

“A obscuridade da lenda de Prometeu, bem como a de outros mitos do fogo, aumenta com o fato de que o homem primitivo estava fadado a considerar o fogo como algo análogo à paixão do amor – ou, conforme diríamos nós, um símbolo da libido. O calor que se irradia do fogo evoca a mesma sensação que acompanha um estado de excitação sexual, e a forma e os movimentos de uma chama sugerem um falo em atividade. Não pode haver dúvida a respeito da significação mitológica da chama como um falo; temos mais uma prova disto na lenda que refere a origem de Sérvio Túlio, o rei romano. Quando falamos do ‘fogo devorador’ do amor ou das chamas que ‘lambem’ – comparando assim o fogo a uma língua – não nos distanciamos do modo de pensar de nossos ancestrais primitivos.” (grifos meus).

O fogo como símbolo da libido e do falo, da energia sexual e de uma das zonas erógenas permite-nos belas conjunturas.

Falando como símbolo da libido, primeiramente poder-se-ia dizer que a vida fetal é o fogo, a constância do prazer e a totalidade do corpo como zona erógena, fazendo-se pensar no predomínio do princípio do prazer visto o não advento de seu opositor, o princípio de realidade. Na predominância do ID o sujeito é instinto, não é sujeito, logo, as exigências do ID são elas mesmas preenchidas, no total, sendo a vida fetal a experiência corpórea a priori de “ser ID”, afinal, as exigências instituais não podem passar do prazer intra-uterino, simplesmente porque ali o instinto é “identidade”, o que posteriormente, ele mesmo tentará engolir para tornar-se, exigindo dessa identidade (ego) sua demanda, por isso diz Freud que o “ego é a camada cortical do ID”. No que tange ao prazer sexual, em analogia, o útero é pedra bruta experienciada, o mundo físico é a lápide da mesma.

Assim a libido é corpo inteiro e predisposição genética, primitividade, seria na realidade Eros antes do advento da dicotomia das pulsões, de forma que essa mesma libido é a que será investida posteriormente na boca, no ânus e nos genitais, sendo estas antes de tudo “pele”, poder-se-ia dizer que qualquer parte do corpo é uma zona erógena em potencial. No tocante à pele diz Freud:

“…é a pele que assume esse mesmo papel – a pele, que em determinadas partes do corpo diferenciou-se nos órgãos sensoriais e se transmudou em mucosa, sendo assim a zona erógena pat exochn [por excelência].” Nesse mesmo raciocínio, enquadrando-o de forma célere, diria que “não obstante, na escopofilia e no exibicionismo o olho corresponde a uma zona erógena” (Freud),

reforçando assim a dimensão das possibilidades corpóreas que podem abrigar satisfação sexual e que podem ser chamadas “zonas erógenas”. A primeira grande questão, aqui debatida, é a do fato de que as zonas erógenas de Freud, entram em desacordo com a atividade instintiva pura, ou seja, a condição primária na qual se assentam as demais sem que se possa pular a “naturalidade” da experiência primária.

O que quero fazer sair ao lume de nossa compreensão, está implícita nessas observações de Darwin:

“Da mesma forma que se recita de cor e sem pensar um poema conhecido, igualmente uma ação instintiva segue uma outra como por uma espécie de ritmo; se se interrompe qualquer pessoa que canta ou recita de cor, é necessário ordinariamente voltar atrás para retomar o fio habitual do pensamento. Pierre Huber observou o mesmo fato num bicho-da-seda que construía um casulo muito complicado; quando um bicho-da-seda levou o seu casulo até ao sexto andar, e se coloca num casulo construído unicamente até ao terceiro andar, acaba simplesmente o quarto, quinto e sexto andares da construção. Mas se se retira o bicho-da-seda de um casulo acabado até ao terceiro andar, por exemplo, e se o coloca num outro terminado até ao sexto, de maneira que a maior parte do seu trabalho esteja já feito, em lugar de tirar partido disso, encontra-se embaraçado e, para o terminar, parece obrigado a partir do terceiro andar onde tinha parado, e esforça-se assim por completar uma obra já feita.”

Temos aí um imbricamento entre filogênese e a ontogênese do instinto que demonstra a temporalidade da práxis do tear de sua urdidura, esta última, predisposta filogenéticamente e que não permite o salto para o próximo nível sem que se tenha vivido, experienciado o desenrolar completo de forma natural, em nível de tropo, é como ler o final de uma boa história, que contém muito da trama em seu fechamento, mas quanto ao corpo da história, apenas conjeturar, eis as dificuldades de interpretação na psicanálise, diria, corretas, não completas, assim como as omissões da psicologia Junguiana, diria, completas, mas não corretamente clarificadas quanto à seu ponto de adjudicação. Essa é basicamente uma questão controvertida do Behaviorismo, de quando Skinner discorre idéias sobre seu conceito “seleção por conseqüência” que é um oposto análogo à seleção natural de Darwin, entrevendo-se até mesmo um ponto de vista teleológico quanto ao instinto; prefiro não falar sobre esse assunto neste artigo, mas apenas direi que o Behaviorismo aclara aquilo em que a psicanálise tateia no escuro.

A citação acima exposta vale tanto como uma crítica ao próprio pensamento científico, quanto, se elevada ao nível abstrato, para encaixarmos as idéias aqui presentes de modo satisfatório.

O leitor deve se perguntar se me esqueci da citação na qual Freud interpreta o mito de Prometeu, pois bem, de certa forma é ela o esboço que dita a ordem da idéias, sendo assim, discorri sobre o fogo como símbolo da libido, sustentado antes de tudo pelo símbolo do forno, que em psicologia analítica significa o ventre materno, entre outras significações alquímicas que entram totalmente de acordo com o que aqui exponho, mas no momento prefiro deixar interpretações mais profundas de lado, quiçá, apareçam no porvir; sem demora, dirigir-me-ei agora ao fator de maior complexidade, seguindo a ordem de Freud, o fogo como símbolo fálico.

Bem, disse que as zonas erógenas na infância são predisposições que remontam ao prazer total do corpo fetal quando em sua condição que pode ser dita “primitiva” sem nenhum problema, indaguei o princípio do prazer em seu princípio, me utilizei de símbolos para tentar aclarar a situação intra-uterina que, com efeito, só pode ser pensada indiretamente, citei Darwin para demonstrar a perfeita cronicidade do instinto, agora, só me falta salientar o que omito, até o momento, propositalmente: o cordão umbilical e a sua primazia sexual.

Acredito poder afirmar que o cordão umbilical é falo sem que minha pusilanimidade me tome de assalto, ainda que seja impelido por ela a dizer que o falo não é o cordão umbilical, ou melhor, não é só, mas sim a primeira absorção arquetípica de um componente físico, ou seja, o cordão umbilical é objetivo, físico, para nós “mortais”, mas para o feto, é uma “idéia” gigantesca, a grande verdade é que todos nós “mortais” somos feto, mas diferente deles, somos alienados no conhecimento do bem e do mal. O prazer envolvido no cordão umbilical é “um” só com a natureza arquetípica do falo, mas já dentro do arquétipo incorporará várias matizes.

Diz Lacan:

“O fato do falo ser um significante, impõe que seja no lugar do Outro que o sujeito lhe tenha acesso. Mas esse significante aí estando apenas velado e como razão do desejo do Outro, é esse desejo do outro como tal que se impõe ao sujeito reconhecer, isto é. O outro no que ele é ele próprio sujeito dividido da Spaltung significante…As emergências que aparecem na gênese psicológica confirmam essa função significante do falo.”(grifos meus).

Assim sendo, poder-se-ia dizer que o falo depende do outro, assim como o auto-erotismo da zonas erógenas estavam primariamente impregnadas no Outro, por excelência a mãe. O falo é o próprio sujeito dividido, o fantasma da mãe no desejo do sujeito, fruto de uma libido que se encrosta no ego, numa identidade que se destaca do Outro, este, que ficará inconsciente em forma de espelho, em outras palavras, Winnicot diz que na fase de indiferenciação a criança mantém uma relação “visceral” com a mãe, este signo usado por ele é um belo ato falho, pois queria apenas dar uma idéia de proximidade total, mas por fim, acabou liberando uma palavra genial que, deslocada, sugere “membro”, que por sua vez, “pênis”, encaixando-se sem embargo “falo”. O fato, por exemplo, do exibicionismo acima exposto, é dependência do objeto em zona erógena, por isso Eros é união, eu e outro, em outras palavras e já explicitando a questão: toda zona erógena tem em si a característica do cordão umbilical num fluxo narcísico de libido para aquilo que era sua “identidade prazerosa”, o cordão umbilical é só a delimitação numa área específica, predisposição à “zona”, o prazer remonta ao corpo todo do feto.

É claro que a característica saliente do genital masculino merece ser identificada como “o falo”, afinal a protuberância daquele prazer já é imaginária, já faz parte da constituição mental do ser – humano na fase fálica, onde em sua procura pelo fálus, ditado pelas etapas de maturação pois não podemos fugir da naturalidade, se depara com uma projeção arquetípica, imaginária, coletiva, daí a universalidade do Édipo e da castração, que Freud já tentava delinear a partir de seu conceito “protótipo filogenético”.

Temos aí então nossa predisposição “física” às zonas erógenas, de forma que tenho de discorrer sobre uma hipótese que me perpassa o espírito não deixando-se omitir: conjeturo que haja uma inconstância no prazer umbilical em contraponto com o restante do corpo, me parece que o corpo é corolário da libido umbilical, como se o cordão umbilical fosse o sujeito e o objeto do prazer, onde posteriormente se dará, no mundo externo, a primazia na busca do prazer em uma determinada zona erógena que terá a atmosfera do corpo todo em si, em outras palavras, seria uma constância, no útero, não de prazer constantemente abundante mas da união dos opostos constância-inconstância, uma razoabilidade única que foge a qualquer tipo de pensamento racionalista, sinto-me tentado a dizer, uma constância religiosa. Isto pode ser reforçado e compreendido pelo fato de que, como disse o psicanalista Francês Roosevelt M. Massola em uma palestra sobre o suicídio, “a vida intra- uterina é o paraíso religioso pois é um lugar onde não temos necessidades”, ou seja, não existe labilidade.

Dito isso, e certo de que o ser – humano não é uma máquina, reporto-me agora à predisposição subjetiva, às imagens arquetípicas participantes desse estado, como a serpente, que é um símbolo fálico por excelência e igualmente uma imagem arquetípica. Devo dizer que sua relação com o cordão umbilical tanto como serpente, ou seja, o animal, quanto à predisposição subjetiva, apenas a forma sem conteúdo e intrínseca à natureza do todo, da atmosfera e do vácuo, são a priori, de forma que os dois pontos de vista unidos são análogos respectivamente ao instinto e ao arquétipo, ainda que, já delineado, arquétipo seja instinto e instinto, arquétipo, já as pulsões, o desejo, o sadismo, são ligadas ao instinto sob o prisma do ponto de vista causal, mas quanto à sua finalidade, aos arquétipos. Existir comida e quem a coma é a predisposição biológica do instinto que será esboçada no ventre materno, existir uma ligação psicológica indiferenciada com o feminino é a predisposição psicológica do arquétipo que também será preenchida no ventre materno; desmembrar essa simplicidade natural é sinônimo de artificialidade humana, ainda que, como visto, seja necessária essa artificialidade que, reduzida ao máximo em sua potência, apresenta-se com discurso tautológico.

O estado urobórico é o nome que se dá a esta fase de indiferenciação em psicologia analítica, a uróboros é o símbolo do princípio da vida, do útero e do paraíso, a situação ideal onde não existiu, ainda, nenhuma separação. É uma figura presente em várias mitologias (vide imagem em anexo), sobre o símbolo Jung diz que é

“… a serpente que devora a si – mesma, que com si – mesma se emparelha, se embaraça, se mata, e de novo vem a ressuscitar. Como hermafrodita está integrada por contrastes e é ao mesmo tempo símbolo da união desses contrastes. Por um lado, é um veneno mortal, um basílisco e um escorpião, por outro, a panacéia e um salvador.” [2]

O símbolo da uróboros explicita perfeitamente as três zonas erógenas, não obstante, digo que a uróboros é um símbolo referente ao cordão umbilical, num estado indiferenciado onde há a criança de um lado e a mãe de outro, por isso a junção consigo mesmo.

A uróboros é uma imagem coletiva, uma predisposição subjetiva onde tudo é muito linear, predispõe ao falo, ou é o símbolo do falo por excelência, a direção tomada pelo desejo possui um fator subjetivo a priori, pois ao mesmo tempo em que é imagem do útero e do cordão umbilical demonstra também uma fase do desenvolvimento histórico do ser – humano, é uma imagem primitiva em todos os sentidos.

Possui também a forma oval que simboliza o feminino, assim é masculino e feminino ao mesmo tempo, como Jung diz acima é hermafrodita e traz à baila a união dos opostos, concepção que se converge perfeitamente ao que discursei acima no que tange à constância-inconstância do prazer. Quando disserto sobre esse símbolo levo em conta seu significado subjetivo total e seu significado objetivo-biológico total, pois nesse estado as contradições ainda não se encontram sujeitas ao nosso racionalismo, elas são o extremo dos contrastes e a sua congruência. Tudo o que isso significa para o psiquismo humano é então causal e finalístico, conceber tudo como puramente finalístico, como fazem os atuais junguianos, ou totalmente causal, como os psicanalistas e sua concepção de desejo, é fruto de faltas de razoabilidade e de limitação.

Diz Jung:

“FREUD podia, com uma certa razão, afirmar que todas as formas redondas ou ocas têm significado feminino, e todas as formas longitudinais, significado masculino, como por exemplo chaves com extremidades ocas ou fechadas, ou, também, telhas côncavas que ficam por baixo, e convexas que ficam por cima (em alemão estas se chamam "monjas" e "monges"). Nestes casos, o interesse que naturalmente se tem pela sexualidade e também a sugestão humorística convidam, de certa forma, à formação deste tipo de analogias. Estas transposições não são somente motivadas pelo impulso sexual mas também pela fome, ou seja, pelo instinto de alimentação, e pela sede. Com os deuses, não só existem uniões sexuais, mas eles também são comidos e bebidos. A atração sexual tem que se sujeitar a uma transposição deste tipo. Por exemplo, o moço gosta da moça a ponto de querer "comê-la". A linguagem está cheia de metáforas nas quais um instinto é expresso nos termos do outro. E não é preciso tirar a conclusão de que o verdadeiro e essencial sentido seja o "amor", ou a fome, ou o instinto de poder, etc. O sentido específico consiste muito mais no fato de cada situação despertar o instinto que lhe corresponde, o qual, então, passa a dominar como uma necessidade vital, fato decisivo, tanto na escolha do símbolo (O falo não é um sinal que indica o pênis, mas, pelo seu múltiplo significado, um símbolo[3]), como na sua interpretação.” (grifos meus).

Assim podemos perceber o intricamento que o instinto, a sobrevivência, antes das pulsões, exerce sobre a formação de símbolos sem que nos demos conta de suas características primárias, inconscientes, subjetivas, que aqui se nos apresentam.

A forma redonda que traz à baila o feminino, dentro de toda essa perspectiva só pode nos levar a um local específico que, sem embargo, nos mostra a perfeita convergência das idéias: a placenta.

“A placenta é o órgão-elo entre mãe e filho que permite, via escala zoológica, voltar-se ao ovo mais simples oliogolécito, pois proporciona ao indivíduo em desenvolvimento a garantia de suas necessidades básicas: respiração, nutrição e eliminação de seus catabólitos” (Garcia, 2003),

e mais,

“ A placenta apresenta grande complexidade bioquímica, pois exerce funções múltiplas relacionadas com atividades efetuadas pelos pulmões, rins, hipófise, ovários, fígado e intestino do adulto” (Garcia, 2003).

É o aspecto cíclico da serpente que explicita a forma oval que nos faz pensar na placenta, ou seja, numa perspectiva visual in loco é exatamente no ponto de ligação que se tem um outro símbolo quando na visão do todo, circunscrevendo-se a atenção no ponto de junção tem-se uma imagem, e afastando-se o olhar tem-se outra, discurso parecidíssimo ao das imagens ambíguas da Psicologia Experimental Gestalt e ao seu ponto de vista teleológico das percepções, poderia dizer que a Psicanálise vê a junção da serpente e omite, por uma questão natural de miopia, o símbolo total, já a Psicologia Analítica se atém à visão total do símbolo em distância, mas perde o ponto exato de sua congruência e formação, por uma situação natural de hipermetropia.

A serpente nesse símbolo traz ainda uma questão controvertida quanto à natureza da imagem arquetípica e à evolução do instinto: Sabe-se que a placenta é uma aquisição tardia da natureza, e que na evolução das espécies seu desenvolvimento foi iniciado pelos répteis que saiam do habitat fundamentalmente aquático se deslocando para o terreno, de forma que a placenta é uma evolução do saco vitelino. Sabe-se também que a vida intra – uterina remonta parte por parte da evolução, saindo da unicelularidade passando, em certa altura, pelos mamíferos superiores onde o feto tem até mamilos múltiplos como os dos cachorros, culminando no alto desenvolvimento primata. Será que isso tem sua razão de ser para o psiquismo humano tanto no tocante à biologia instintiva da sexualidade quanto nas imagens “naturais” da alma?

“Os répteis são os descendentes dos antigos anfíbios que solucionaram o problema da reprodução e se transformaram nos primeiros vertebrados totalmente terrestres. A solução para o problema veio com a aquisição do ovo aminiótico. Dos anexos embrionários desenvolvidos nesse tipo de ovo, o alantóide tem função de pulmão, e o âmnio, que dá nome ao tipo de ovo, envolve um espaço cheio de líquido onde se encontra o embrião – uma réplica em miniatura do pequeno lago ancestral. O desenvolvimento desse novo tipo de ovo foi um passo tão importante na evolução dos vertebrados terrestres que os répteis, juntamente com as aves e os mamíferos que deles descendem, são freqüentemente denominados amniotas.” (Garcia, 2003).

Compreende-se assim que a placenta é nossa ligação com a história evolutiva por excelência, “ab aeterno praeterita”, dando nos razões suficientes para dizer que a serpente arquetípica faz parte de nossa biologia e da passagem da natureza animal fundamentalmente aquática, em algum tempo, para tornar-se terrena.

O fato da placenta nos mitos ser simbolizada por um réptil que por sua vez simboliza o cordão umbilical, nos leva até a formação do cordão umbilical, de forma que já disse que a placenta é uma evolução do saco vitelino desenvolvido pelos répteis, diz Garcia:

“Nos mamíferos o saco vitelino terá pouco significado, pois a função trófica é desenvolvida pela placenta. O mesmo não ocorre nos peixes, nos répteis e nas aves, em que a nutrição dependerá das reservas do saco vitelino” e “ o saco vitelino persiste nos mamíferos apenas como estrutura rudimentar”, e mais “ o pedúnculo do embrião e o do saco vitelino afinam e conectam-se para, juntos, formarem o cordão umbilical”,

ora, o cordão umbilical vem da mesma estrutura primitiva réptil que intui o símbolo da uróboros, a serpente fálica umbilical intra-uterina e histórica que une o princípio do prazer de Freud ao inconsciente coletivo de Jung; podendo-se confirmar, de alguma forma, que o discorrer das idéias tem sua razão de ser, ainda que como mero esboço, até o presente, filosófico.

O mar é o símbolo arquetípico do inconsciente, é a morada profunda na qual se encontra nossa identidade que deve ser conscientizada, ele é a morada mais longínqua de nossa história evolutiva, não é só uma idéia primitiva do mar que amamos e tememos, que abriga mistério e incita nossa curiosidade, é a congruência de nossa biologia com o ato de pensamento primitivo que em si é tão natural como o próprio mar externo que já foi “nossa” morada, ou seja, uma predisposição subjetiva calcada em fenômenos pretéritos. Parece-me que discursando dessa forma dou vazão à afirmação de registros mnemônicos no inconsciente coletivo, sei que Jung nunca refutou essa idéia, só não podia provar, pois, a questão da serpente e do cordão umbilical me faz pensar incoerente dentro dessa perspectiva.

Não tenho medo de dizer que o que escrevo de alguma forma corresponde à minha subjetividade e personalidade, aos meus interesses e à porta que se me abre após a tomada de uma posição histórica no mundo, onde meu “eu”, na verdade, consegue compreender sem muita pessoalidade a afirmação do grande poeta Renato Russo quando diz “O Brasil é o país do futuro”, ainda que isso implique em certa evidência quanto à minha pessoa, mas estritamente porque, ao que me tange, nasci nesse povo, assim compartilhando dessa miscelânea fabulosa e problemática orgulhando-me de minha falta de liberdade original.

Freud e Jung adoravam dizer “esse é o temperamento alemão” ou “esse é o temperamento suíço” respectivamente; pois compreendo porque adoravam conotar tal expressão, afinal, os subdesenvolvidos recebem e absorvem tudo, até as fezes alheias, pois esse é o temperamento brasileiro, sinônimo subversão, de Gandhi, não de Hitler, o que nos dá, às mais das vezes, o título de “estáticos” e mazelados frente à barbárie. Nossa escravidão histórica e intelectual compensa-se em grandiosidade emocional, surrada, de quem é novo na história e busca uma libertação por vias tortuosas, essas, distorcidas ainda mais pelo lixo que vem lá de cima, de um “bebezão” que, como diz Gregório de Matos, “não sabem governar sua cozinha e podem governar o mundo inteiro”, não obstante, alimentando-nos de esterco desde que nascemos, adaptamo-nos aos poucos e a naturalidade da seleção natural é nossa amiga. A mistura ocorrida nas invasões bárbaras dá apenas uma idéia de quem, posteriormente, pisou em nosso solo, os precursores, portugueses, espanhóis, ingleses, etc. Uma nova terra que é a extrema oposição do arianismo, face a esse, somos sujos, impuros, ou seja, misturamos uma mistura, assim, nossa raça é multiracial, o que nos parece não ter raça, ou melhor, “não ser de raça”, quando na verdade essa é ela; a sua própria negação. Apenas sigo “minha cobra” como diriam várias tribos primitivas.

Não pretendo de forma alguma comparar as distintas teorias e encaixá-las num juízo de valor, apenas levo em conta as duas visões do psiquismo pensando individualmente, pois se o que recai no inconsciente não aspirasse a tornar-se conhecimento novo não teríamos indagações nem ciência e já teríamos exaurido o conhecimento, a grande questão fica em como poderemos nos aproximar da natureza a partir do conhecimento, pois o mesmo parece desrespeitá-la se foge ao idealismo eterno de tornar-se criança, veja bem, tornar-se. Regidos pela opulência do plenipotenciário da raça humana tornamo-nos joguete de nós mesmos forjando simulacros do divino em identidades imaginárias, se não acreditasse em Deus, não diria isso.

Coloco-me numa posição humanista, idealista, de que o inconsciente não é mera ciência, é a fonte de Narciso que “refletia perfeitamente, como um espelho, a vegetação ao redor” (Jean Lang), sendo certo de que todos sabem disso, ainda que não percebam, a nossos materialistas diria o que eles já sabem, a saber, “o inconsciente não é ciência, a ciência é conseqüência de sua atuação”. À abstração desse esboço não dou o nome de ciência, mas, “consciência científica compensatoriamente medieval.”

Sem embargo, agora podemos supor que uma identificação pode ter uma atmosfera oral muito mais subjetiva do o simples retorno causal à fase oral de Freud e à sexualidade infantil, de maneira que ela possui “numinosidade”, características de indiferenciação que possuem matizes instituais e imaginárias-alma, ambas primitivas e predispostas. A perfeita harmonia existente entre o dualismo homem animal-divino encontra sua expressão, é claro, sempre em forma de discursar paradoxal, mas o não apego só implica em contradições profundas que para serem conscientizadas em rumo ao futuro de nossa ciência necessitam não do racional, mas do irracional, do respeito que abriga potencialidades, estas, impotentes do ponto de vista do “poder”, da soberba, pois aí já se fugiu do respeito, quiçá, há uns bons séculos.

Tudo que coloquei nesse artigo são fruto de observações, reflexões e o que meus sonhos me demonstram, acredito que sectarismos científicos e nossa posição epistemológica colocam traves em nossa ciência do psiquismo, de forma que o espetáculo que é o inconsciente na verdade deve ser tratado não como mero objeto de especulação, mas como discurso natural que diz, como Heráclito: "Limites da alma não encontrarias, nem todo o caminho percorrendo; tão profundo logos ela tem".

Referências

Jung,C.G. Psicologia y Alquimia. Plaza e Janes editores, 1989.

________. Um mito moderno sobre coisas vistas no céu. Ed: Vozes, 1991. 2ºedição

Freud, Sigmund. Vol. VII Obras Completas. Ed: Imago, 1972. Edição Standard Brasileira.

____________. Vol XI Obras Completas. Ed: Imago, 1972. Edição Standard Brasileira.

____________. Vol XIII Obras Completas. Ed: Imago, 1972. Edição Standard Brasileira.

____________. Vol XXII Obras Completas. Ed: Imago, 1972. Edição Standard Brasileira.

Lacan, Jacques. Escritos. Ed: Perspectiva, 1996. 4º edição.

Darwin, Charles. A origem das espécies e a seleção natural. Ed: Perspectiva, 1997.

GARCIA, Sônia Maria Lauer de; FERNANDEZ, Casimiro Garcia. Embriologia. 2. ed. Porto Alegre: Artes médicas, 2003.

DIAMENT, ARON JUDKA. Evolucão neurológica do lactente normal. Ed: Ateneu, São Paulo. 1976.

[1] Devo dizer que pode ser de grande valia a leitura desse artigo para a compreensão do atual.

[2] Tradução minha do espanhol.

[3] Essa é uma nota de rodapé que achei prudente colocar entre parênteses.

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