Estresse – ele pode ser mais competitivo do que você

Entenda como funciona essa patologia inicialmente invisível, porém altamente limitante depois de instalada.

 


Se você deseja evitar o estresse profissional, é importante entender como funciona essa patologia, já que o ambiente de trabalho é, às vezes, somente o cenário em que ela se manifesta e não, necessariamente, a origem de sua instalação. O estresse está intimamente ligado à maneira como a pessoa se relaciona com o meio ambiente e com suas expectativas a respeito de si mesmo. Por isso, manifesta-se de modo diferente para cada pessoa. O que é um fator estressante para um indivíduo pode ser fonte de prazer para outro e vice-versa, dependendo de suas características pessoais e das situações que enfrenta.  O estresse é, em princípio, uma resposta natural do organismo, que busca adaptar-se diante de uma situação nova.

As reações fisiológicas provocadas pela situação de estresse são benéficas, pois objetivam preparar a pessoa para o enfrentamento adequado de possíveis ameaças detectadas pelo organismo. Tornam-se um problema, porém, quando são acionadas de modo contínuo, impedindo o retorno à normalidade. Como as demandas do mundo moderno têm levado as pessoas a uma avaliação equivocada de seus próprios limites, o termo estresse passou a ser utilizado sempre com uma conotação negativa. Para entender melhor o seu funcionamento, podemos classificar o estresse em três fases:

Fase aguda
: É a fase inicial em que o organismo, anteriormente em equilíbrio, detecta uma situação ameaçadora e se defende aumentando o colesterol e a glicose no sangue (mais energia), liberando muita adrenalina (estado de alerta), dilatando as pupilas (melhora a visão), acelerando a freqüência respiratória (mais oxigênio no sangue), etc. A pessoa obtém, assim, melhores condições para avaliar o perigo e acionar seus mecanismos de luta ou fuga. Uma vez ultrapassado o perigo, esses processos são desacelerados, desativando-se toda essa operação de emergência. O organismo pode, então, recuperar-se do esforço adicional e retornar ao seu estado anterior de equilíbrio. Temos, aqui, uma situação de estresse positivo.

Fase de Instalação (ou de Resistência): Quando o enfrentamento do fator estressante não é eficiente em sua fase aguda, o organismo segue sentindo-se ameaçado e continua, ininterruptamente, em estado de alerta. Nessa situação, a super-estimulação dos processos envolvidos é contínua e sobrecarrega o organismo que, sem chance de recuperar-se do esforço adicional, resiste e segue acelerado. Porém, com o passar do tempo, começa a apresentar sintomas emocionais e físicos de desgaste, tais como irritabilidade, palpitações, sudorese, dificuldade de concentração, cefaléia, cansaço, humor instável, sentimento de insatisfação, etc. Esses sinais precisam ser interpretados como se o corpo, sábio conselheiro, estivesse dizendo: “Olhe para mim e veja o que você está fazendo comigo! Eu não estou conseguindo te acompanhar e estou na iminência de um colapso. Por favor, pare!”

Fase de Exaustão:
Se esse apelo, expresso em forma dos sintomas apresentados, não for atendido e os fatores estressantes continuarem presentes, a única possibilidade que resta ao organismo é parar por si mesmo, impedindo a pessoa de continuar nessa situação de excessiva exigência contínua. Neste contexto, em que já se agravaram os sintomas anteriores, somam-se vários outros, como intensa fadiga, distúrbios do sono, hipertensão arterial, queda da libido, etc. e, finalmente, surgem as doenças. É quando a pessoa, a despeito de sua vontade de resistir, não pode mais seguir adiante e é impedida de continuar. Neste momento, o corpo está dizendo: “Você perdeu o controle da situação. Eu sou seu amigo, mas só volto a funcionar direito quando você voltar a respeitar as minhas necessidades.” Agora que ficou mais claro o processo de adoecimento em virtude do estresse, cabe a você impedir que ele torne-se patológico em sua vida. Se você sente-se gratificado com seu trabalho, feliz em seus relacionamentos e gozando de perfeita saúde, não tem com que se preocupar. Tudo indica que você sabe lidar bem com as demandas do seu dia-a-dia. Mas, se após uma análise de suas condições atuais, você concluir que os sintomas que apresenta indicam que você anda estressado, ouça e respeite esses sinais e entre em ação imediatamente. Pare, enquanto você pode. Em primeiro lugar, identifique quais as situações que mais o incomodam e que são fontes de preocupação e sofrimento. A seguir, tente desenvolver uma estratégia para contorná-las, que envolva mudança dos hábitos e dos comportamentos disfuncionais, em função das necessidades que você detectou. E, finalmente, inclua atividades saudáveis e geradoras de sensações prazerosas para você em sua rotina diária. Para manter o estresse num nível ótimo, aqui vão algumas dicas: Aprenda a cuidar das questões de trabalho na empresa e a riscá-las completamente de sua mente ao final do expediente. Não gaste seu tempo nem a sua energia com discussões infrutíferas. O que você prefere: ter razão ou se dar bem?

Satisfaça-se com sua coerência interna e aposte no reconhecimento das pessoas mais inteligentes e sensíveis. Ele pode não vir imediatamente, mas está plantado. Seja objetivo e prático, atacando os problemas pela ordem de importância e não necessariamente de emergência, tanto na vida profissional quanto pessoal. Um exemplo? Talvez seja melhor você deixar de pagar o IPTU que vence hoje (que você pagará amanhã, sem ficar sofrendo pela adição de uma pequena multa) do que deixar de enviar o relatório de vendas para a reunião de diretoria. Tente adotar uma atitude positiva, valorizando cada pequena realização sua e relativizando a importância dos problemas que não foi possível resolver. Aprenda a dizer não. Isso não significa ser indelicado, indisponível ou antipático. É possível desenvolver a habilidade de negar-se sendo firme, delicado e disponível para uma nova solicitação, tudo ao mesmo tempo. Sorria pelo menos cinco vezes por dia, mesmo que no início seja só para treinar. O efeito do sorriso é surpreendente: você descontrai tensões musculares e, de quebra, conquista a simpatia das pessoas. Inove. Faça diferente e descubra coisas diferentes e novas todos os dias. Olhe para onde você nunca olhou.  Alegre-se com cada passo que você dá. Não troque seu bem-estar por um cargo conquistado com sofrimento. Você não conseguiria usufruí-lo. Escolha chegar lá pleno de saúde e disposição.

Exercite seu corpo com atividade física, seja ela qual for, desde que seja prazerosa para você. Pode ser nadar, correr, dançar, caminhar, surfar, etc.   Durma bem, alimente-se adequadamente e evite todo tipo de excessos. Faça alongamentos ao longo do dia. Aprenda a respirar corretamente e faça relaxamento todos os dias, através de uma respiração suave, especialmente quando sentir-se ansioso. Isso tem um efeito fantástico sobre o corpo e a mente, proporcionando calma e equilíbrio.  Dê bastante atenção ao lazer, escolhendo fazer aquilo que mais lhe agrada. Não tente ser perfeito. Ninguém é. Quem aparenta ser, com certeza, vai te decepcionar qualquer dia destes. Seja bom sendo você mesmo. Isso requer o reconhecimento de suas potencialidades e, ao mesmo tempo, seus limites. Você é só humano, lembra? Se, ainda assim, você não conseguir descobrir porque anda estressado ou se a situação em que você se encontra parecer complicada demais e além do seu controle, busque ajuda.  Não espere que ela assuma proporções catastróficas. Converse com amigos e familiares cuja opinião você respeita, leia e informe-se acerca do problema e, se nada disso funcionar, busque ajuda de um psicoterapeuta de sua confiança. Além da ajuda para solucionar seu conflito atual, você aprenderá a conhecer melhor os seus mecanismos emocionais, entendendo porque é que você se permite entrar em armadilhas desse tipo e a desenvolver mecanismos mais funcionais para as situações futuras. O que não dá para negar é que a qualidade da nossa vida, em todas as suas esferas, depende exclusivamente de cada um de nós, de nossas escolhas e atitudes.

About Mariuza Pregnolato

Especialista em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo e pelo Instituto Sedes Sapientiae
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