Auto-estima na Terceira Idade

Mariuza Pregnolato é psicóloga clínica e pesquisadora do comportamento. Possui especialização em Psicologia Analítica pelo Instituto Sedes Sapientiae e em Análise Comportamental pela Universidade de São Paulo. Em entrevista à revista Viva Saúde, Mariuza Pregnolato discorre sobre a importância da vaidade e dos cuidados pessoais, para a manutenção de um nível ótimo de auto-estima na terceira idade.

Viva Saúde: O homem depois dos 60 anos perde a vaidade? Por quê?

Mariuza Pregnolato: Não, não perde, a menos que ele tenha se recusado a aceitar a inexorável passagem do tempo como um processo natural e pleno de possibilidades de aprendizagem e crescimento pessoal. O homem que vive intensamente o momento presente, é capaz de ir aprendendo a lidar bem com os pedidos do seu próprio corpo e se adaptará continuamente a essas demandas de um modo leve e tranqüilo. Os felizardos que atingem essa condição, continuam tão ou mais vaidosos do que antes, porque continuam gostando de si mesmos e estão atentos para fazer, em termos de cuidado pessoal, tudo aquilo que mantém elevada sua auto-estima.

Viva Saúde: O homem que se cuida depois dos 60 vive mais?

Mariuza Pregnolato: O homem que se cuida chega aos 60 com muito mais vigor e, portanto, gozará de uma vida mais longa com qualidade em todos os sentidos. Aquele que desperta para se cuidar somente após os 60 terá, pelo menos, a possibilidade de desacelerar possíveis processos degenerativos em andamento no seu organismo.

Viva Saúde: Os que pintam o cabelo, fazem as unhas são mais felizes?

Mariuza Pregnolato: Felicidade é muito difícil de se mensurar ou comparar. Embora seja muito positivo que haja o cuidado com a aparência, às vezes as pessoas preocupam-se excessivamente com ela, tornando-se insaciáveis nos cuidados estéticos. O que importa é que a pessoa cuide-se para sentir-se melhor, satisfazendo-se com o resultado obtido e, portanto, sentindo-se feliz com ele.

Viva Saúde: Namorar na terceira idade faz bem?

Mariuza Pregnolato: Namorar faz bem em todas as idades, mas na terceira idade é melhor ainda, por inúmeros motivos. É tão difundido o tabu de que amor e sexo são para os jovens, que as pessoas, mesmo os casais, acabam se convencendo disso. O resultado é que, à medida que o tempo vai passando, começam a usar sua idade avançada para justificar o tédio, suas doenças e dificuldades nos relacionamentos afetivos e sexuais: A mulher deixa de lubrificar e o ato sexual torna-se desconfortável ou doloroso, enquanto o homem começa a perder ou não conseguir manter a ereção. Vão perdendo o interesse na vida sexual e ambos culpam a idade por isso. No entanto, quando o idoso se apaixona, tudo muda: o corpo responde imediatamente à estimulação da paixão, reagindo naturalmente: a mulher volta a excitar-se, lubrificando abundantemente e o homem depara-se com um desejo constante e o retorno de suas ereções. Em minha prática clínica tenho testemunhado muitas “mágicas” fisiológicas desse tipo. Os protagonistas dessas histórias produzem um relato muito parecido, sempre permeado de muita alegria e vitalidade: “Nunca amei assim antes”, “Hoje eu me sinto mais bonita(o) do que antes”, “Rejuvenesci tudo de novo”, “Pareço um adolescente de tão apaixonado que estou”, “Nunca imaginei que pudesse ser tão bom”, “Não entendo como é possível ser tão feliz nessa idade”, “Pensei que nunca mais fosse voltar a amar” e, a que mais gosto, dita recentemente por uma paciente minha: “Se eu tivesse encontrado ele (seu amante) há mais tempo, sei que não teria ficado doente, não teria tido nada daquela seqüência de problemas de saúde, porque era pura falta de paixão, falta de tesão”. Resumindo, namorar na terceira idade, é bom em todos os sentidos: revigora, revitaliza, embeleza, motiva, envaidece, aumenta a auto-estima e o desejo de cuidar-se para o outro; rejuvenece e deixa a vida cor-de-rosa como na adolescência, só que com licença, autonomia e consciência, livre das preocupações e medos de então.

Viva Saúde: Pq conservar a auto-estima faz tão bem para o ser humano?

Mariuza Pregnolato: Porque sem uma boa auto-estima não somos capazes de ver valor em nós mesmos e, portanto, também não daremos, aos outros, muitas oportunidades para nos valorizar. Um paciente explicou isso de um modo bastante claro, quando deu-se conta da importância de amar a si mesmo: “Quando não me cuido, sinto-me um lixo. Só quando vejo que estou bonito e atraente é que sinto-me mais confiante e seguro de que poderei despertar o interesse ou a admiração das pessoas. E isso sempre acontece. É porque já estou admirando a mim mesmo de antemão.”

Viva Saúde: Quem aceita melhor a velhice, e por isso, consegue conservar a auto estima: o homem ou a mulher?

Mariuza Pregnolato: Há inúmeras exceções, evidentemente, mas como regra, é a mulher. É que ela, ao ultrapassar o período da menopausa, já não sofrerá oscilações hormonais e não irá ver-se à mercê das inúmeras responsabilidades que lhe tiravam o sono, tendendo a adquirir uma maior estabilidade de humor, serenidade e confiança, e a sentir-se bastante preparada para novos relacionamentos. Para o homem, a situação é diferente porque o efeito das modificações hormonais desestabilizam seu humor, tornando-o mais emotivo. Além disso, a gradativa redução (ou modificação) de sua potência sexual tende a gerar insegurança e depressão que, se não tratadas, poderão ocasionar esquiva a novos relacionamentos.

Viva Saúde: Qual a dica que vc dá para uma pessoa se cuidar, pra se aceitar com as mudanças do tempo?

Mariuza Pregnolato:  Continue apostando em você e na sua capacidade de ser feliz, de agradar ao outro, de dar e de receber. Ao perceber que algumas coisas já não podem ser feitas como antes, adapte-se para fazer diferente, mas não as abandone, transforme-se e transforme-as para melhor. Agindo assim, você terá muitas surpresas agradáveis. Por exemplo: Durante a atividade sexual, um homem bem-resolvido não ficará ansioso ou constrangido ao perceber-se sem ereção. Ele saberá continuar desfrutando dessa relação, sem ansiedade, sabendo que a ereção voltará dentro de alguns minutos porque já tem bastante intimidade com seu corpo e aprendeu a aguardá-la. Sabe como fazer para estimular-se, para estimular sua parceira e ser estimulado por ela. O resultado serão preliminares mais longas e prazerosas para ambos. Escolha dedicar-se às atividades que lhe dão prazer, evite companhias desagradáveis, desobrigue-se de laços que não lhe interessam e busque a companhia de pessoas de todas as idades. Dance, jogue, leia, ande, corra, nade, aprenda novos idiomas, faça terapia, aprenda e faça coisas novas todos os dias. Aliás, aprender sempre algo novo é a receita mais eficaz  para afastar doenças degenerativas, especialmente o mal de Alzeimer. Saia só e também acompanhado. Entenda que a idade não o impede de ser feliz, basta que você module o ritmo e a intensidade das atividades, adaptando-as às suas necessidades atuais. Uma pessoa não se torna melhor ou pior só  porque o tempo passou, ela se constrói à medida em que o tempo passa, a  partir  do  modo  como  vive  cada  momento  presente.  Velho chato é, muito  provavelmente,  o rótulo dado ao resultado  de  uma equação bastante simples:   jovem chato + várias décadas transcorridas = velho chato.Há um aumento real da expectativa de vida da população mundial e essa nova realidade já vem mudando a forma de se olhar a pessoa idosa, que começa a ganhar a importância que não possuía até agora no mundo ocidental (ainda não existe, no Brasil, um serviço de saúde pública estruturado para a saúde do homem, por exemplo). A tendência é que criem-se cada vez mais serviços voltados ao idoso em todos os setores de atividade: lazer, educação, serviços, esporte e entretenimento, colocação profissional (para aqueles que a desejarem), etc.., Enfim, a população começa a envelhecer no mundo todo e o idoso tenderá a tornar-se o consumidor mais importante e respeitado em algumas décadas. É importante que todos aprendamos a envelhecer felizes, com qualidade de vida. Para um envelhecimento saudável, nossos hábitos de vida são muito mais importantes do que nossa herança genética. Isso deve ser entendido como uma ótima nóticia, porque significa que podemos escolher uma velhice feliz. Para isso precisaremos de alimentação e hábitos saudáveis, atividade física regular e adequada, repouso, lazer, relacionamentos e atividades prazerosas e muita, muita paixão. Onde há paixão não sobra nenhum espaço para a depressão e apatia. Envelhecer é automático, basta não morrer, mas o envelhecimento saudável é uma conquista. É preciso vencer o preconceito que existe sobre o que o idoso pode ou não pode fazer. Como os jovens, ele deve continuar acreditando que pode e ousar tudo aquilo que sabe que lhe fará bem. Irá cansar-se mais rapidamente, mas com um condicionamento físico adequado, poderá ter uma mobilidade excelente, uma atividade sexual saudável e contínua, uma vida plena e feliz.

About Mariuza Pregnolato

Especialista em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo e pelo Instituto Sedes Sapientiae

One Response to Auto-estima na Terceira Idade

  1. Roseli Mendonça 13 de setembro de 2014 at 12:50 #

    A vida não acabou!