Voltando aos gregos II

Critério de Verdade e

Causalidade em Aristóteles

Critério de verdade por correspondência

Essa foi a primeira definição de "verdade" da cultura humana e está escrita no livro Metafísica, de Aristóteles (Livro Gama, passagem de número  1011b, 25):

"Dizer daquilo que não é, que é,   e

dizer daquilo que é, que não é, é Falsidade.

Dizer daquilo que é, que é,   e

dizer daquilo que não é, que não é,  é Verdade".     

Para nós, do século XXI, pode parecer que Aristóteles só escreveu o óbvio! Mas, isto é um engano. É mais complexo do que parece, é o que se chama de critério "realista" de verdade.

Realismo, nesse caso, é quando as palavras, os conceitos dizem mesmo, na realidade, o mundo tal como ele é. Hoje, esse conceito realista de verdade pode ser considerado ingênuo.

Nesse critério de verdade,  Aristóteles fez  uma correspondência entre  a linguagem (Dizer do que…), e o mundo (do que é, ou do que não é). Foi a primeira explicitação do enigma:- Mas, o que é a verdade? Foi na realidade, a primeira resposta para o problema da verdade. Até agora a verdade ou era a do mito, sagrada, ou eram divagações que não chegavam a lugar algum.

Correspondência entre linguagem e mundo

Essa foi uma grande descoberta de Aristóteles. Quando fazemos uma adequação entre o que falamos e o que a coisa é, no mundo exterior à linguagem, estamos no âmbito daquilo que é verdadeiro. Quando aquilo que afirmamos não corresponde ao que os seres são, caímos no erro. Exemplo:

Se eu falo que essa planta é nova, o meu juízo sobre o mundo não corresponde ao mundo. Aí está o equívoco. Eu digo que é aquilo que não é. E este erro não é a morada da verdade. Se eu afirmo que essa planta é velha, e o meu juízo sobre o mundo, corresponde ao mundo, aí eu encontrei a Verdade. Eu digo que é realmente aquilo que é.  Esse é o meu critério: que as afirmações sejam adequadas àquilo que está sendo afirmado.

Para Aristóteles, há uma relação entre o que se diz do mundo e o próprio mundo, exterior à linguagem. Para ele, nós somos capazes de pensar ordenadamente, porque o mundo é ordenado!  É a permanência dos seres do mundo e suas regularidades, a origem do nosso processo de pensamento, da nossa verdade  e da nossa lógica! Se  todo o cosmos  fosse caótico, se nenhum evento tivesse conexão com algum outro, se não houvesse previsibilidade alguma, o pensamento e a lógica não seriam possíveis!  Esse modo de conceber a relação linguagem-mundo é hoje chamado de Realista.

É bom saber que esse critério de verdade  foi o único que existiu até metade do século XX. Hoje, a partir da Matemática e da Física, com novos mundos possíveis, temos critérios de verdade por concordância, ou coerência, por exemplo.

Estes outros Critérios de Verdade trouxeram como conseqüência uma visão 'instrumentalista' das Teorias Científicas! 

Instrumentalismo é o modo de encarar as Teorias Científicas como um conjunto de afirmações, que dão resultado empiricamente correto, e que o homem criou para poder manipular a realidade do mundo. Não há uma "verdade" a ser descoberta como no Realismo. E também no Instrumentalismo não há uma só teoria verdadeira. No Instrumentalismo o homem cria teorias, não as desvenda, que são 'instrumentos' de manipulação eficaz da realidade. Pode haver mais de uma teoria 'verdadeira', desde que as duas sejam laboratorialmente verificadas.

Hoje em dia coexistem esses dois modos de encarar a Verdade: Realista e Instrumentalista. Além disso, é possível  extrapolar esses critérios de verdade para a vida pessoal.


As quatro causas de um fenômeno estudado

Quando fazemos qualquer pergunta:- "Por quê", a resposta dada é sempre uma causa, se tiver sido bem respondida. Para Aristóteles, que criou esse conceito, todas as  espécies de causas  colaboram com a produção da realidade. Ele foi extremamente enfático: "Conhecer é conhecer as causas". Isso significa que o núcleo  do conhecimento verdadeiro, a Ciência, está centrado no estabelecimento das causas. Aristóteles desmembrou as causas em quatro, que veremos a partir de seu próprio exemplo: "Uma estátua de mármore de uma mulher".

Causa I : Causa Material.  É a matéria de que é feito o ente estudado.  No caso da nossa estátua, a causa material é o "mármore".

Causa II : Causa Formal.  É a forma que o ente estudado possui. No caso da nossa estátua, a causa formal  é de uma mulher.

Causa III: Causa Eficiente.  É aquela que nos  define o que está causando o fenômeno ou o ente estudado. Só empregamos o termo "causa", quando ela designa "aquilo de que uma coisa depende para a sua existência". Causa é aquele evento que sem o qual não há o fenômeno do efeito.  É a causa que produz o efeito. Os eventos não ocorrem de modo aleatório na natureza. Alguns são antecedentes (causas eficientes) e outros são conseqüentes (efeitos). A ligação natural que une a causa e o efeito é um vínculo do tipo  necessário  (no sentido filosófico). Para dizer nos termos de Aristóteles:  "Causa eficiente é aquela que transforma potência em ato".

Para entendermos detalhadamente o que é Causa Eficiente, vejamos o que são :

Potência e Ato

Potência : é aquilo que um ente pode vir a ser. Ou melhor, são aquelas possibilidades que um ente tem de poder se transformar no futuro.  Os entes não podem se transformar em qualquer coisa no futuro: possuem aquelas limitações que a matéria  de que são constituídos impõe.  Por exemplo: um cubo de gelo não possui a potência de vir a ser uma labareda de fogo.

Ato: é aquilo que um ente realmente é, no momento estudado. É como o ente se apresenta no presente. O ente não se apresenta em todas as suas possibilidades no presente. Apresenta somente uma por vez. Da maneira como o ente se apresenta é o que ele é "em ato". Por exemplo: uma mulher de traços bonitos, mas desleixada com a sua aparência, não está realizando em ato – no presente – toda a sua beleza. A sua beleza plena está como possibilidade, aberta no futuro. Ainda não ocorreu e pode ser que aconteça ou não. É acontecimento em "potência".

 

Resumo:     Potência – >  possibilidade futura

                   Ato – >  realidade presente

Outros  exemplos de Ato e Potência: Vou até à fruteira da minha casa e vejo várias maçãs verdes. A maçã está verde em ato. Mas ela  pode amadurecer ou apodrecer,  que são potências que a maçã possui. Ou vou até uma praça e deparo-me com um bebê no colo de seu avô. O bebê é um ser humano muito novinho em ato. Mas, é uma criança em potência. Um adolescente em potência . É um adulto em potência. Um velho em potência. Um cadáver em potência.

Um ente realiza, ou seja, torna reais, todas as suas potencialidades? Não. O ente possui a potência sempre aberta como possibilidade, mas isso não significa que a realizará toda em ato. Por exemplo: esse bebê pode falecer adulto. E daí, sua potencialidade de ser um velho não se tornará real,  em ato.

Mas, não devemos nos esquecer que a causa só age, para transformar algo em efeito, quando a própria causa está em ato. Ou seja, a causa (em ato) atua no mundo e transforma um outro ente, que está em potência, por sua vez em um outro ato. Ou melhor, quando observamos,  as transformações se dão dessa forma de ato em ato :

Maçã verde + micróbio (causa) =  Maçã podre (Efeito)

 Ato 1                Ato 2                     Ato 3

As potências de cada ser só existem idealmente. Quando as coisas estão acontecendo dinamicamente no mundo, as causas e efeitos vão se sucedendo, na prática, de "atos" em "atos".  Esse conceito de "potência" é importante para o cientista para pensar as possibilidades de algo ocorrer e também suas probabilidades de ocorrência.

No exemplo de Aristóteles, qual é a causa eficiente que transformou o mármore bruto em escultura de mulher? Resposta: o escultor. Até hoje, quando um cientista está no seu laboratório, tal qual um detetive, procurando a causa de um evento, ele quer encontrar a causa eficiente! A causa eficiente é a mais importante de todas.

Causa IV: Causa final –  É descobrir-se a finalidade do ente ou do fenômeno estudado. Para Aristóteles isso fazia sentido, graças a toda a sua Metafísica, que afirmava que todos os entes seguiam rumo à uma teleologia, que significa, em direção a uma finalidade, a um fim a ser alcançado. A causa final ou finalidade de um ente, ou de um acontecimento, é a resposta à pergunta : "Para quê"?  Qual é a causa final da estátua de mármore? Para quê a estátua foi feita? Por exemplo, foi feita para enfeitar, poderia ser uma das respostas. Aí a sua finalidade seria estética, para o homem poder admirar o belo.

A detecção das 4 causas de um fenômeno garante ao cientista uma EXPLICAÇÃO do que está ocorrendo. Quando falamos que estamos "explicando" algo, é porque reconhecemos e distinguimos cada uma das 4 causas.

Um conceito usado em explicações científicas é o de "Cadeia ou Rede Causal" :  "é uma seqüência de causas eficientes ligadas entre si". De modo que é uma sucessão de causa eficiente – efeito, onde o efeito  número 1  torna-se causa de um outro efeito  número 2, ligados necessariamente. Vejamos esse exemplo simplificado:

Causa 1 -> Efeito 1 = Causa 2 -> Efeito 2 = Causa 3 -> Efeito 3 = Causa 4 …

                                    
Digamos que:  

  • Causa 1= aquecimento da superfície
  • Efeito 1= chuva
  • Causa 2= chuva
  • Efeito 2= enchente
  • Causa 3=enchente
  • Efeito 3= desabrigados
  • Causa 4=desabrigados
  • Efeito 4= doenças … e assim sucessivamente.

A cadeia causal é uma interligação forte entre os fenômenos. Quando raciocinamos que tudo o que existe, acontece em cadeia causal, chamamos de Determinismo.Determinismo afirma não só que tudo tem uma causa eficiente, mas que essas causas estão necessariamente ligadas entre si. 

Indeterminismo  aceita a existência de eventos espontâneos que não geram cadeias causais.

Apliquemos esses conhecimentos em Psicopatologia.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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