Individuação e Juventude: Respectivamente “Seriedade Cômica”

A capacidade de projetar-se com extrema paixão à existência, conhecida como "o fulgor da juventude", traz a dificuldade de ter de caminhar lentamente por degraus escorregadios com inclinação a célere velocidade. Questões que se apresentam abruptamente com a sutileza de tênues contradições forçando a consciência a uma decisão pelo paroxístico, em face de estar situado na entrada do problema de "ser" e em busca de conciliações semânticas para isso, mergulhando-se no que ambiguamente salva-o de afogar-se, a saber: uma imensa capacidade de sugestionar-se. Como escolher a música funesta e harmônica de Apolo se a flauta de Pan reflete a instintividade e a vida que são a conditio sine qua non de todo e qualquer movimento?

A indagação precedente, com efeito, não tange apenas à psique jovem, mas nela, apresenta sua potência máxima dada à necessidade de transcendência, de entrar em movimento para posteriormente, depois de tê-lo vivido, se impelir a conhecê-lo. A juventude se caracteriza como a saída de uma imobilidade existencial rumo a uma primeira adaptação a espaços mais amplos de identidade que estão intrinsecamente ligados à grandiosidade infantil e às mazelas adolescentes; aspectos de uma mesma realidade que se expressam em uma situação limítrofe pendente para o lado de alvos externos.

O interior é uma incógnita, só poderá ser aclarado paulatinamente por experiências cotidianas e por construção externa, diria que o jovem tem de resolver os problemas da adolescência assim como o adolescente os da infância. Mas o que dizer de jovens que procuram resolver seus problemas da juventude? Será que paradoxalmente estão além de seu tempo? A analogia perfeita seria como se a criança quisesse resolver seus problemas da infância sem o "outro", ou seja, por si só adquirir um "eu", essa analogia expressa perfeitamente a atmosfera conflitual, a saber: não existe um "por si só" pois não existe "eu" satisfatoriamente diferenciado, individualidade, esta, que inexistente, se afigura como ideal. Será que devemos atestar a impossibilidade dessa expressão ou será que movem-se montanhas pelo poder da fé nesse "eu" genuíno? Que compreensão avulta a frase de George Bernard Shaw, que diz: "A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la em jovens." ?

Faz se mister um exemplo na mitologia, Ícaro, o jovem alado que simplesmente se apaixonou pelo sol e por seu calor aconchegante, dado que sentia muito frio em voar, subindo desenfreadamente à seu encontro, corroborado pelo sorriso do deus que fez gosto à sua pertinácia, pena que esquecera-se de suas frágeis asas de cera forjadas por seu pai. Desse mito podemos tirar o espectro da psique jovem que se preocupa com a existência, com a individuação, e sua força heróica para impelir-se às mais difíceis empreitadas, o problema, ainda absorto em satisfações; e quem dirá que o belo não satisfaz os olhos utilizando, sempre, como estratagema uma peculiaridade escopofílica infantil? Para ver, deve-se ter uma forte inclinação à especulação, o jovem é forte e inclinado além da medida.[1]

Dizia Sócrates que o jovem tem de instruir-se, o adulto, de ser correto e o velho de entregar-se às suas idéias, pois bem, o jovem que busca o problema e a solução, que são a existência, muitas vezes se vê envolto nas três perspectivas apresentadas, de maneira que a base delas, e na qual o jovem realmente se acha, é a que mais implica em tempo, em construção, ou seja, instruir-se; ora, é como construir uma casa de tijolo em tijolo e ao mesmo tempo nela morar, e esta sem estar construída ser dita "minha casa",e amanhã, depois de mais dois tijolos, se pegar repetindo a mesma sentença, ou seja, no afã de estar pronto, satisfeito, enaltecido, diz para sua psique: "Tudo que encontro em ti, é meu", assim, é "sua" até a chuva que lhe molha a cabeça como fruto de um telhado inacabado.

Outrora procurava um texto em meio à minha papelada, se tratava de um texto do qual fizera uma apresentação para poucas pessoas, depois de tê-lo achado olhei no verso e vi escrita uma frase proveniente de uma intuição que tive momentos antes de fazer a apresentação, muito nervoso, e indagando-me sobre um bilhão de coisas, eis: "O equilíbrio extremo do estado de suspensão entre os opostos, implica num cheque-mate da moral e num prazer narcísico pela extravagância da negatividade, tudo isso, fruto de uma racionalidade desenfreada", e no finalzinho coloquei uma expressão de Lao Tse:"Abandone, antes que se esgote" ; quando me apercebi de que fora eu que havia escrito e não se tratava de alguns rascunhos tangentes ao texto, recordei-me exatamente do estado em que me encontrava naquela situação; identificado com a sombra.

Destacando-se aos poucos de um narcisismo primário que ainda não teve tempo suficiente para uma auto-regulação, como resolver um problema, ou melhor, "o" problema da humanidade?[2] Em outras palavras, como o conseguiria transmudado em um selvagem, partindo-se sempre da premissa natural de que o mais forte sobrevive, lei intrinsecamente ligada à idéia mágica de evolução, sem compreender claramente o que é força? Dando voz à função transcendente essa é uma das questões que se apresentam numa identificação com a sombra, comumente ocorrida em jovens que procuram sair daquele estado urobórico infantil sem se dar conta de que sonham ser ele o procurado, fazendo assim o que chamaria de um "retorno à mãe", nesse caso, tornando-se dragão, indiferenciado, devastando sua consciência e tornando-se cada vez mais irascível e sangüíneo, pois as verdades inauditas fluem como as águas da "nascente de um rio".

A juventude diz: "Tudo é racional, o mundo é racional, o concreto é o que apresenta-se aos olhos, mágica é o que eu vejo na televisão, ou seja, fruto de engendramentos racionais, de movimentação rápida, sutil, inteligente, corolário da capacidade do homem, isso é magia, tem só a aparência de ser algo imaginário, mas não é, "é coisa de gente habilíssima". Percebe-se, entretanto, que o discorrido tem um espectro de "magia", pois entreve-se algo que escapa aos olhos, à percepção externa, e é como se funcionasse por si só, com uma "engrenagem" própria; mas os jovens sabem: "É o homem que a domina"; é aparente aí o inconsciente coletivo e como o jovem tem de lidar com ele em nosso tempo, com a idéia dos "super-homens", bem explicitada na sacral atmosfera nietzscheniana.

Darei um exemplo de uma analogia perfeita com o parágrafo precedente, mas transpondo-o para uma camada mais profunda do psiquismo, basicamente uma confissão, dadas minhas inclinações subjetivas, eis: a capacidade de conceituar os fenômenos da psique se torna cada vez mais abissal, deixando o jovem com uma identidade de crosta, apenas a fina camada superficial que se compraz em delinear e nomear o que de vivo acontece por dentro, na verdade, é uma persona muito bem estruturada que procura transformar em racionalidade tudo que é irracional, um simbolista, de maneira que não diria que tais interpretações são mentirosas ou falsas, são verdadeiras e geniais, disfarçam-se sobre a aparência da lucidez, mais são mortas e fogem inteiramente do concreto, do tempo e do espaço, diria somente que Satanás foi criado por Deus e era um anjo de Luz, conhecedor dos mistérios divinos, assim, a maçã reluz como ouro, mas chama-nos a viver uma copiosa demagogia interna. Estando no deserto, sendo tentado e forjando mentalmente "fatos" que visam à satisfação, face a recém saída da fonte batismal, encontrando-se então num momento em que maior reflexão, qualitativa e quantitativa, se faz necessária para "‘se seguir´ o caminho de sua alma", como no mito cristão, há de se ter fé e ser o mais justo possível consigo mesmo; não obstante, sucumbir à tentação é conseqüência do esquecimento de que se está no deserto, e não na sociedade em meio a toda a sua opulência; o deserto é o extremo oposto de suas atuais necessidades.

Fenômenos subjugantes desta espécie podem ser vistos em toda parte, exacerbando a personalidade de jovens aprendizes que se imaginam mestres, de forma que estes conflitos são cunhados na força de propulsão que tem o jovem; claro, poucos jovens têm inclinações filosóficas, mas muitos, quiçá todos, alimentam uma inferioridade. Certa vez tive um sonho que me indicava que meus pés estavam muito rápidos, eis: "Via uma cidade com uma igrejinha no meio, a cidade não tinha avenida nem asfalto, era uma cidade no campo, em construção, e com várias vielas. Eu e meu pai passávamos de carro na frente da igreja e eu indaguei-o onde ‘ele '(não sabia quem) morava, ao que meu pai apontou uma espécie de uma carpintaria com a porta frontal aberta e as ferramentas à mostra, sendo que a carpintaria era do lado da igreja; então fiz uma cara ruim e disse ‘credo, que podre essa casa' e pedi pra meu pai acelerar. Depois disso apareceu um padre apontando o dedo pra mim e dizendo ‘você não pode se abster da Idade Média', repetindo isso várias vezes".

Quando acordei a primeira coisa que me veio foi "estou muito rápido", posteriormente interpretei o simbolismo de cada parte e fui tomar café. Depois, quando me impeli a ler alguma coisa, peguei um livro de História e quando o abri sem marcadores e casualmente, "pímba", estava lá, na página que eu abri, a descrição perfeita da carpintaria e das cidades medievais, ponto por ponto, iguais às do meu sonho. Na hora compreendi claramente o ponto exato de meu andar afoito pois houve uma junção com outros sonhos e, tal como expressa Montaigne: "As letras são um agradável passatempo, mas se nos devemos absorver nelas a ponto de perdermos a alegria e a saúde, o que em suma nos é mais precioso, renunciemos", em vez de me encher de nossa ciência atual, fui escutar uma banda de meu gosto, ainda que fantasmas me forçassem o contrário.

Poderia relatar um milhão de sonhos que retratavam a fuga de meu inconsciente racial rumo à ostentação de uma existência "mais legal", cheia de coisas novas e interessantes, ocidental que sou, sempre me escondendo atrás de novas peripécias. "Seriedade cômica", vide título, significa isso, um salto divertido ao prazer de voar como Ícaro, que diversas vezes sonhava estar planando no ar, e ao acordar abria os braços e via que tudo fora uma fantasia, uma potencialidade vista no mais profundo inconsciente que não se sujeita a uma transposição do imaginário ao sólido campo da consciência sem uma abjeta "abstração", queria ele viver o sonho prazeroso longe da realidade, por isso não se conteve ao ver que o sol lhe aquecia o gélido vôo real, pois bem, sem embargo, não se brinca com o inconsciente levado por um ideal, ou melhor, como diz Jung, por uma "santa curiosidade".

Nossa sociedade dá vazão a esse tipo de atitude, visto que somos moldados por padrões já estabelecidos fomentados pela intelectualização do mundo, perpetrando-os numapráxis prolixa, e vejo poucos que se utilizaram de nossa condição temporal, histórica, para retroceder, no bom sentido, voltar e respeitar tudo como um todo sem se manter fora do que é teleológico. Os jovens estão "cheios", como farão para esvaziar-se? Como compreender que o instinto de sobrevivência de Cuchulain, herói celta, está intrinsecamente ligado à "sobrevivência da honra", deixando a reação ao medo da morte juntamente com o desejo sexual em camadas mais superficiais do mandala?

O jovem, fundamentalmente "medieval", tem de ver sua existência dirimida pela adultice desenfreada da humanidade, tendo de se imbuir de sentenças de uma realidade alienada dizendo amiudadamente: "o futuro"; sem se dar conta de que o tempo não é fetiche, dando vazão à um discurso reacionário da psique jovem: e o presente ? O presente do jovem já é o futuro, um futuro caracterizado por uma solidez da camada superficial de personalidade à qual chamamos racionalidade, ou "racional‘ismo'", a doutrina cartesiana impregnada numa mentalidade que se esquece de seu elemento intuitivo, assim, elevada aos extremos, alienante como qualquer ideologia, confundida as mais das vezes com inteligência, perpetrando a fuga da naturalidade de uma jovem evolução; podemos estar em novos tempos, o que faz parte da natureza do mundo adjudicada ao velho tema da sociologia "a construção da realidade objetiva", mas, ao que me parece algo razoável, o tempo do crescimento de uma espiga de milho sempre foi o mesmo, hoje e antes de existirem segundos, minutos, horas… E se algum jovem pensador, como eu, se vê absortamente catatímico no desejo desmedido de uma identidade impossível, se a música de Apolo faz com que irrompa-lhe a hipocondria, aconselho de segunda mão, no sentido prático, o que diz Eliphas Levi sobre Deus: "Que se pode dizer quando tentamos falar dele, senão incoerências e absurdos? Não é ele o infinito indivisível, o todo sem partes, o existente sem substância? Dogmas humanos, palavras de delírio, sejam esquecidas! Deus seria finito se pudesse ser definido; não falemos mais dele, vivamos para sempre em seu amor! Símbolos, imagens, alegorias, lendas, são os sonhos da sua sombra… o amor é a realidade da sua luz."

[1] Uma boa comparação seria entre o discorrido nesse parágrafo e a pergunta inicial do texto.

[2] Se aqui dou um ponto de vista teleológico ao narcisismo primário, é porque discorro pelo viés de sua universalidade, sendo assim, impessoalidade, sinceramente, não espero que isso seja compreendido por psicanalistas, ainda que tal compreensão me fosse de grande enlevo.

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