Ice: droga antiga volta mais poderosa

Resumo

Metanfetamina, introduzida, em 1930, como descongestionante nasal, tornou-se uma droga de abuso largamente utilizada provocando várias "epidemias" de consumo devido ás suas propriedades euforizantes, assim como suas ações em diminuir o apetite e o sono e aumentar o desempenho físico e intelectual. Foi banida em vários países devido aos efeitos danosos que causa ao coração e sistema nervoso central (SNC), porém, no início dos anos 90, ela retornou aos USA na sua forma mais poderosa de uso.

Passou a ser fumada, sendo denominada, assim, de ice, proporcionando aos seus usuários efeitos psicoativos muito mais duradouros que os do crack/cocaína. E no Brasil? Como tudo o que é bom para os USA é, por princípio, bom para nós, na década de 60, era vendido na forma de um medicamento, o Pervitin, que era muito apreciado por jovens que dele faziam uso para aumentar sua capacidade produtiva. Em pouco tempo, o Pervitin passou a sofrer abuso, originando vários casos de dependência descritos na literatura científica brasileira.

Devido aos problemas causados, a metanfetamina, a exemplo de outros países, também foi banida no Brasil. Agindo pelo bloqueio da recaptação e promoção da liberação das monoaminas (dopamina, noradrenalina e serotonina) das vesículas armazenadoras e, ainda, inibição da MAO, a metanfetamina permite u'a maior quantidade desses neurotransmissores na fenda sináptica, aumentando, assim, a neurotransmissão monoaminérgica. É um análogo da anfetamina, apresentando efeitos muito similares a essa última, portanto é um poderoso estimulante do SNC. Assemelha-­se também em efeitos à cocaína, sendo utilizada pelas mesmas vias que essa, ou seja, oral, aspirada, injetada ou inalada (fumada). Logo após o seu uso, há um aumento do estado de alerta, da auto-estima, da euforia, da sexualidade, da energia e uma diminuição da fome, do cansaço e da necessidade de dormir.

O ice (forma fumada) e a forma injetada produzem um efeito extremamente prazeroso (flash, rush) não alcançado pelas outras vias. A longo prazo surgem dependência, tolerância aos efeitos euforizantes, além de problemas cardiovasculares, como taquicardia, aumento da pressão arterial, podendo ocasionar acidente vascular encefálico e infarto do miocárdio. Comportamento violento é observado, usualmente em resposta aos delírios persecutórios provocados pelo estado psicótico que se desenvolve. Nesses casos, é nítida a alteração de personalidade com irritabilidade e desconfiança de tudo e todos.

Introdução

"Ice", "chalk", "speed", "meth", "glass", "crystal" etc. são os nomes pelos quais a metanfetamina, um deri­vado da anfetamina, é conhecida nos USA15, 20, 23, 25.

Introduzida na terapêutica em 1930, foi comer­cializada inicialmente como descongestionante na­sal, mas suas propriedades euforizantes, assim como suas ações em diminuir o apetite e o sono e aumen­tar as performances física e intelectual, em pouco tempo, suplantaram seu uso terapêutico7,15,22, 32,35.

Histórico e Desenvolvimento

Historicamente, tem-se conhecimento da ocor­rência de várias "epidemias" de abuso de metan­fetamina. Um exemplo deu-se na Segunda Guerra Mundial, quando a metanfetamina foi utilizada lar­gamente para combater a fadiga de militares de vá­rios países. Soldados alemães, ingleses e americanos consumiam-na para eliminar o cansaço e manter o vigor físico e a vigília7,32,35.

No Japão, tanto soldados como operários de fá­bricas de material bélico foram consumidores de metanfetamina em grande escala, sendo que os pilotos Kamicaze utilizavam-na em níveis tóxicos7, 24, 32, 33, 35.

Fora do contexto da guerra, o uso de metan­fetamina como estimulante espalhou-se por vários locais, sendo que, nos USA, por exemplo, a "epide­mia" de abuso de metanfetamina ocorreu em dois momentos – em 1930-1940 -, quando essa droga podia ser adquirida como descongestionante nasal, sem prescrição médica, e uma segunda em 1960, quando a metanfetamina tornou-se uma das drogas utilizadas por subculturas, como os hippies. Nas déca­das de 50, na Suécia, e 80, no Japão e na Coréia, também constataram-se "epidemias" de consumo. Na Suécia, por exemplo, a metanfetamina era vendida com o seguinte slogan: "Dois comprimidos valem por dois meses de férias"7,15, 24,32,35.

No inicio dos anos 90, a forma mais poderosa de uso da metanfetamina foi introduzida nos USA. Os consumidores dessa droga passaram a fumá-Ia, con­seguindo efeitos psicoativos muito mais duradouros que os do crack/cocaína. Essa forma de uso (fumada) foi denominada ice15.

Barata, com processo de produção simples, podendo ser feito em casa, precursores em abundância no mercado, administração fácil (utiliza-se um cachimbo caseiro para fumá-Ia), via de introdução no organis­mo (via pulmonar) aparentemente "segura", quando comparada à via injetável, e, ainda, com efeitos mais duradouros que o crack/cocaína, fizeram do ice uma das drogas mais consumidas nos USA. De acordo com o National Household Survey on Drug Abuse, de 2005, cerca de 4,9 milhões de pessoas (2,3% da população americana) já tinham feito uso de metanfetamina alguma vez na vida, sendo o ice a forma predomi­nante de consumo22,23,25,29.

E no Brasil? Na década de 50, era aqui comer­cializado um medicamento à base de metanfetamina com o nome comercial de Pervitin, que era muito consumi­do entre jovens. Relatos de abuso desse medicamen­to são encontrados na nossa literatura médica. Cavalcanti5, em pesquisa realizada no estado de Per­nambuco, entrevistou 159 estudantes, distribuídos pelos cursos de medicina, filosofia e engenharia, e encontrou que 61,1% dos entrevistados faziam uso de Pervitin. Assim o autor descreve o fenômeno:

"To­dos, sem exceção, começaram a usar estimulantes, com a finalidade de combater o sono e, assim, pode­rem estudar até altas horas da noite, e o fizeram a conselho dos colegas… Desenvolveram problemas desagradáveis, como: irritação, hiperexcitabilidade, depressão, tonturas, astenia, tremores das extremi­dades, distúrbios neurovegetativos, dificuldade de evocar o que aprendeu na véspera, anorexia, cefaléia e distúrbios gástricos… a maioria dos nossos entre­vistados queixou-se de que eram obrigados a au­mentar a dose para conseguirem os mesmos efeitos que obtinham no princípio com dose menor. Além disso, referem emagrecimento, e uma cada vez mai­or exacerbação dos sintomas referidos…".

Wolffenbuttell34 descreve um caso típico de de­pendência de Pervitin: "Fui procurado, em consul­ta, por um moço de 26 anos, que, pela primeira vez na vida, recebeu do pai, médico, 2 comprimidos de Pervitin para tomar na véspera dos seus exames. Gostou da sensação de euforia que o Pervitin lhe deu, e da sintonização mais fácil com o meio que nele provocou (pois tratava-se de um caráter fecha­do) dificuldade de estabelecer pontes para com ou­tras pessoas. Sem que o pai soubesse, continuou a usar, diariamente, o Pervitin tendo chegado ao in­crível consumo de 5 tubos por dia. O pai resolveu interná-Io. Uma vez fora do Instituto Paulista, tendo de trabalhar e estudar, sen­tiu a necessidade do chicote, que é o Pervitin, e vol­tou, logo, a tomá-Io… A situação atual: o rapaz con­some três tubos de Pervitin por dia…".

Ribas27, de forma mais alarmista, assim descreve o abuso de metanfetamina na década de 70: "Ao in­fluxo de desastrosa propaganda sensacionalista, atra­vés de todos os meios de comunicação de massa, as multidões lançaram-se, em proporções epidêmicas, livremente nas farmácias e drogarias nos excessos de Pervitin e outras anfetaminas, cognominadas de "pí­lulas da felicidade, bolinhas" e outros matizes… De início, o público abusou das anfetaminas por via oral, em comprimidos. Recentemente, recorreu à via endovenosa… Acusa estados mentais mórbidos, não raro já de caráter psicótico (psicoses anfetamínicas)… um quadro do tipo maníaco… quadros de tipo esquizofrenia paranóide…".

Esse quadro de abuso de Pervitin levou ao banimento da metanfetamina do Brasil, a exemplo do que ocorria em outros países. Nos dias de hoje, os levantamentos sobre consu­mo de drogas psicotrópicas no país não têm acusado consumo de metanfetamina em nosso meio13,14, ape­sar de ter sido detectada sua presença em comprimi­dos vendidos como ecstasy. Apesar de um perfil psicofarmacológico de ação muito diferente da metanfetamina, o ecstasy tem uma semelhança quí­mica com ela. A colocação de um grupo metileno­dióxido nas posições 3 e 4 do anel fenil da metan­fetamina obtém-se o MDMA (metilenodioxime­tanfetamina) ou ecstasy7,32, 35.

Porém, a metanfe­tamina não é considerada precursor químico do MDMA, ou seja, a síntese do ecstasy não parte da metanfetamina17. Por outro lado, a mídia tem insis­tido em divulgar o uso da metanfetamina por inter­nautas. Essas pessoas estariam fazendo este uso com o propósito de ficarem despertas, mais dispostas e, dessa forma, estarem aptas a permanecer por longos períodos em frente a uma tela de computador. Ainda segundo essas notícias, esses jovens teriam proble­mas com a retina. Esse problema está associado ao fato de que a metanfetamina causa midríase, ou seja, há uma dilatação da pupila, a qual perde a capacida­de de entrar em miose diante de uma grande lumino­sidade, provocando, dessa forma, o dano da retina2,7,35, Até o momento, não se constatou esse uso através dos instrumentos disponíveis para medir o consumo de drogas entre a população jovem brasileira, o que não quer dizer que seja inexistente. Mas, com certeza, caso ele já seja um fato, trata-se ainda de um consumo feito por uma pequena parte da po­pulação.

Formas de uso e produção

Metanfetamina é um poderoso estimulante do sistema nervoso central, mesmo em pequenas doses, podendo ser administrada por via oral em comprimidos, por via nasal sendo aspirada sob a for­ma de pó, por via pulmonar através da qual é inalada (fumada) e via intravenosa, onde o pó diluído em água é injetado na veia com auxílio de seringa e agulha22.

À metanfetamina fumada é atribuído o nome de Ice e constitui-se na forma mais utilizada nos USA. A fácil sublimação do sal cloridrato de metanfetamina, a grande disponibilidade desse sal com um bom grau de pureza6, o início rápido dos efeitos euforizantes, devido à absorção veloz da droga pelos pulmões, segurança diante do risco de transmissão de HIV e outras doenças infecciosas, que são associadas à via intravenosa, fazem a popularidade da metanfetamina fumada23,29. Acres­centa-se a essas propriedades a sua fácil obtenção: a partir da efedrina ou pseudoefedrina (presentes em vá­rios medicamentos broncodilatadores) e ácido clorídri­co, os usuários, de maneira artesanal, conseguem o cloridrato de metanfetamina17.

Numa temperatura de 200-400°C, a metan­fetamina é prontamente sublimada com mais de 90% da droga intata8. A alta eficiência da sua sublima­ção sob aquecimento é indubitavelmente um requi­sito para a seleção desse modo de administração en­tre os usuários de metanfetamina. Voluntários humanos, inalando 30mg de cloridrato de metanfe­tamina em um cachimbo aquecido à 300°C, relataram efeitos (high) intensos de prazer comparáveis àque­les produzidos pela administração intravenosa de 15mg de metanfetamina22,26.

Mecanismo de ação

A metanfetamina exerce seus efeitos indiretamen­te por elevar agudamente as quantidades de dopamina, noradrenalina e serotonina na fenda sináptica, aumen­tando a neurotransmissão monoaminérgica. O aumen­to da dopamina no sistema mesolímbico possivelmente é a origem das bases farmacológicas das propriedades reforçadoras da droga20,22,25,28.

Esse aumento das monoaminas na fenda sináp­tica, provocado pela metanfetamina, dá-se por três mecanismos principais:

1. Bloqueia a recaptação das monoaminas (dopamina, noradrenalina e serotonina) ligando-se ás proteínas transportadoras desses neurotransmissores1, 25, 28, 35.

2. Promove a liberação desses neurotransmissores das vesículas armazenadoras localizadas nos terminais axônicos 1,25,28,35.

3. Inibe a MAO (monoaminoxidase), enzima que metaboliza as monoaminas, permitindo u'a maior quantidade das mesmas na fenda sináptica, aumentan­do, assim, a neurotransmissão monoaminérgica1,35.

Estudos recentes em animais têm sugerido que a metanfetamina pode degenerar tanto neurônios dopaminérgicos como serotoninérgicos. Permanece ainda para ser determinado se humanos expostos à metanfetamina também apresentam essa neuro­toxicidade cerebral e quais as conseqüências funcio­nais dessa toxicidade10, 12,35.

A metanfetamina tam­bém pode afetar as estruturas termorreguladoras do sistema nervoso central, podendo predispor os usuários à hipertermia10,12,28,35.

Comparando-se os mecanismos de ação da metanfetamina e da cocaína, sabe-se que ambas blo­queiam a recaptação das monoaminas. Entretanto, o mecanismo íntimo desse bloqueio difere entre as duas drogas. De fato, a metanfetamina é capaz de ocupar o mesmo sítio que a dopamina na proteína transpor­tadora localizada na membrana pré-sináptica. Já a cocaína age em outro sítio da proteína transporta­dora e, ao ocupá-Io, produz uma deformação alos­térica do sitio da monoamina, impedindo, assim, a recaptação da dopamina4.

Efeitos

Como dito anteriormente, a metanfetamina é um análogo da anfetamina, apresentando efeitos muito similares a esta última. Apesar de mecanismos de ação um pouco diferentes, a metanfetamina exibe efeitos também semelhantes à cocaína, sendo ambas, ice e crack, fumadas através de cachimbos de produção caseira 15,20,22,23,25.

Conforme a via de administração, os efeitos po­dem ser mais ou menos intensos, sendo as vias mais "poderosas" a intravenosa e a pulmonar (metanfe­tamina fumada). Imediatamente após fumada ou in­jetada intravenosamente, a metanfetamina produz um efeito extremamente prazeroso (flash, rush)3,25. Quando cheirada ou utilizada por via oral, esse efei­to não é alcançado, apenas uma euforia mais dura­doura é produzida, mas não tão intensa como ocorre com as vias anteriores25.

Os efeitos imediatos, que ocorrem após utiliza­ção de metanfetamina, são um aumento do estado de alerta, da auto-estima, da euforia, da sexualida­de, da energia e uma diminuição da fome, do cansa­ço e da necessidade de dormir. Esses efeitos, em um primeiro momento, parecem ser desejáveis e contro­láveis, mas a droga tem um enorme potencial de de­pendência e a "fissura" (desejo incontrolável pela droga) instala-se rapidamente. Em geral, os usuários são despreocupados com essa possibilidade e, somen­te muito tardiamente, percebem que estão consu­mindo quantidades cada vez maiores de metan­fetamina11,15,20,25.

A metanfetamina a longo prazo de uso pode cau­sar problemas sérios de saúde, incluindo má nutri­ção, exaustão, rabdomiólise e problemas de infec­ção, no caso de metanfetamina por via injetáveI28,31.

É comum o usuário, que faz uso compulsivo de metanfetamina, apresentar comportamento estereo­tipado, caracterizado por uma hiperatividade com desenvolvimento repetitivo, por horas, de certas ati­vidades sem significado, às vezes acompanhada de ranger dos dentes. Esse comportamento é reversível. Pode apresentar, ainda, a síndrome coreica, com mo­vimentos involuntáríos convulsivos, principalmente dos membros superiores, combinados com movimentos faciais assimétricos. Essa condição é reversíveI 2,7,24,35.

Confusão e delírios também podem ser observa­dos mediante o uso crônico da metanfetamina e um progressivo estado psicótico, sintomaticamente indistinguível de esquizofrenia, desenvolve-se15,36. Esses sintomas psicóticos podem persistir por meses ou anos, após o uso da droga ter cessado. Comporta­mento violento, usualmente em resposta aos delírios persecutórios, freqüentemente ocorre, expondo o usuá­rio à situação de risco de morte. Nesses casos, é nítida a alteração da personalidade com irritabilidade e desconfiança de tudo e de todos20, 24, 25, 36.

Ainda, com o uso mais freqüente e prolongado da droga, desenvolve-se a tolerância à sua ação euforizante (necessidade de aumentar a dose para sentir os efeitos prazerosos iniciais). A administração diária de metanfetamina, em doses crescentes, pro­duz um aumento progressivo em seus efeitos comportamentais, como atividade locomotora, e tam­bém um aumento da ansiedade e paranóia. Esse fe­nômeno é chamado de sensibilização e pode persis­tir por muito tempo, mesmo após a interrupção da droga2, 6, 24, 35.

O usuário de ice caracteriza-se por fazer uso da droga por horas seguidas ou mesmo dias, seguido por um período de parada, durante o qual sente uma extrema fadiga, exaustão, desorganização de idéias, hipersonolência, depressão e fissura9, 19. O usuário, que faz uso pesado da droga, mostra uma progressiva deterioração social e ocupacional15.

Problemas cardiovasculares são observados em usuários de metanfetamina, tais como taquicardia, aumento da pressão arterial, podendo causar acidente vascular encefálico e infarto do miocárdio, ambos com risco de morte7,16, 20, 22, 25, 35.

Nos casos de overdose de metanfetamina, um quadro mais grave ainda desenvolve-se, caracteriza­do por hipertermia, taquicardia, seguidas por colap­so circulatório e convulsões, as quais, se não trata­das prontamente, podem ser fatais; podem ocorrer também hemorragia encefálica e infarto do miocárdio, como já foi dito. E, ainda, usuários podem entrar em coma seguido de choque cardiovascular, podendo ser fatal 7,16,20,22,35.

Os efeitos da abstinência da droga são prolonga­dos, iniciando, numa primeira fase que pode durar de 2-6 horas, com uma marcada depressão, isolamen­to, hiperfagia, agitação, ansiedade e um desejo imen­so de dormir. Quando finalmente o usuário conse­gue dormir, assim permanece por 24-36 horas ininterruptas. O desaparecimento desses sintomas pode levar dias ou semanas com freqüentes períodos de depressão, sonhos vívidos e "fissura" pela droga. A abstinência raramente é uma ameaça à vida, mas pode necessitar hospitalização. Nos casos de depressão severa, esses pacientes devem ser vigiados, já que existe a possibilidade de tentarem suicídio7, 20, 22, 35.

Problemas fetais também podem ocorrer quan­do mulheres usam metanfetamina durante a gravi­dez. O crescimento intra-uterino pode ser retardado, e o nascimento prematuro é observado nesses casos. Durante o primeiro ano de vida, a criança pode ser letárgica com falta de apetite, apresentando vômi­tos e tremores18,21.

A metanfetamina, quando comparada à cocaína, exibe diferenças em várias áreas que incluem dura­ção de efeito, freqüência do consumo e duração do efeito compulsivo de repetir a droga. Por exemplo, o efeito da metanfetamina, dependendo da via de ad­ministração varia de 4-8 horas, enquanto o efeito da cocaína é somente de 10-30 minutos. O crack (cocaína fumada) necessita ser consumido a cada 10­-15 minutos, mas para a metanfetamina, devido aos seus efeitos mais duradouros, uma nova dose só é necessária após horas. A duração média de um uso ininterrupto do crack é de 12 horas, porém, para o usuário de metanfetamina, é o dobro, isto é, 24 horas. O padrão de uso de ice é de 100-250mg, a cada 4-6 horas, por um período de 24-48 horas15,18,25.

Ice, a forma fumada da metanfetamina, que tem trazido sérios problemas aos USA devido ao seu abuso, ainda não foi detectada (oficialmente) no Brasil. Porém, a metanfetamina no Brasil já teve um papel importante nas décadas de 50 e 60 como droga de abuso, a tal ponto que foi banida. A sua detecção em comprimidos de ecstasy, comercializados no Brasil, demonstra que essa droga está presente entre nós, sugerindo que uma nova "epidemia" de consumo não está descartada. Po­rém, fica uma pergunta ainda sem resposta: Por que o ice ainda não interessou ao consumidor brasileiro de drogas? Considerando todas as suas propriedades e seus efeitos de estimulante do sistema nervoso central, seria um forte concorrente do crack. Portanto, as autoridades brasileiras de saúde pú­blica deveriam estar abertas para esta possibilidade.

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About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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