O meme de Richard Dawkins

Quase tudo que é incomum no ser humano pode ser resumido em uma palavra: Cultura. Ela não está sendo usada em um sentido esnobe, mas como os cientistas a usam. A transmissão cultural é análoga à transmissão genética no sentido de que embora seja basicamente conservadora, pode originar um tipo de evolução.
A transmissão cultural não é característica apenas do homem. Um bom exemplo que se conhece entre os animais foi recentemente descrito por Jenkins no canto de uma ave (saddleback) que vive em ilhas próximas da Nova Zelândia. Na ilha na qual ele trabalhou havia um repertório total de cerca de nove cantos diferentes. Cada macho emitia apenas um ou alguns desses cantos. Os machos podiam ser classificados em grupos dialetais. Por exemplo, um grupo de oito machos possuindo territórios adjacentes, emitiam um canto específico. Outros grupos dialetais emitiam cantos diferentes. Algumas vezes os membros de um grupo dialetal compartilhavam mais de um canto diferente. Comparando os cantos dos pais e filhos, Jenkins mostrou que os padrões de canto não eram herdados geneticamente. Cada macho jovem provavelmente adotaria por imitação os cantos de seus vizinhos de território, de modo análogo à linguagem humana. Durante a maior parte do tempo em que Jenkins esteve lá, havia um número constante de cantos na ilha, um tipo de "fundo (pool) de cantos" do qual cada macho jovem obtinha seu próprio repertório pequeno. Mas, ocasionalmente Jenkins teve o privilégio de testemunhar a "in­venção" de um novo canto, a qual ocorria por um erro na imitação de um canto antigo. Jenkins se refere à origem dos novos cantos como "mutações culturais".

O canto nesta ave realmente evolui por meios não genéticos. Há outros exemplos de evolução cultural nas aves e nos macacos, mas eles são apenas curiosidades interessantes. É a nossa própria espécie que realmente mostra o que a evolução cultural pode fazer. A linguagem é apenas um exemplo dentre muitos. A moda nos vestidos e na alimentação, cerimônias e costumes, arte e arquitetura, Engenharia e Tecnologia, tudo isto evolui no tempo histórico de uma maneira que parece evolução genética altamente acelerada, mas que na realidade nada tem a ver com esta última. No entanto, como na evolução genéti­ca, a mudança pode ser progressiva. Há um sentido no qual a Ciência moderna realmente é melhor do que a Ciência antiga. Nossa compreensão do Universo não apenas muda com o passar dos séculos: ela melhora. Sem dúvida, a atual explosão de aperfeiçoamento data apenas do Renascimento, o qual foi prece­dido por um período sombrio de estagnação no qual a cultura científica européia ficou congelada no nível atingido pelos gregos. Mas, a evolução genética também pode ocorrer como uma série de explosões curtas entre platôs estáveis.

A analogia entre a evolução cultural e a evolução genética tem sido freqüentemente enfatizada, algumas vezes em um contexto de conotações místi­cas desnecessárias.

O que, afinal de contas, é tão especial a respeito dos genes? A resposta é que eles são replicadores. As leis da Física supostamente são verdadeiras em todo o universo acessível. Há qualquer princípio da Biologia que possivelmente tenha uma validade universal semelhante? Quando os astronautas viajarem para planetas distantes e procurar vida, eles podem esperar encontrar criaturas por demais estranhas e misteriosas para que possamos imaginar. Mas, há alguma coisa que deva sempre caracterizar a vida, onde quer que ela se encontre e qualquer que seja a base de sua química? Se existirem formas de vida cuja química é baseada em silício e não em carbono, ou em amônia e não água, se forem descobertas criaturas que morrem queimadas a -100º C, se for encon­trada uma forma de vida que não é baseada em química, mas em circuitos eletrônicos de reverberação, haverá, ainda assim, um princípio geral que se aplique à toda a vida? Evidentemente não sabemos, mas se tivesse que apostar, confiaria meu dinheiro em um princípio fundamental. Esta é a lei de que toda a vida evolui pela sobrevivência diferencial de entidades replicadoras. O gene, a molécula de DNA, por acaso é a entidade replicadora mais comum em nosso planeta. Poderá haver outras. Se houver, desde que certas outras condições sejam satisfeitas, elas quase inevitavelmente tenderão a se tornar a base de um processo evolutivo.

Mas temos que ir para mundos distantes a fim de encontrar outros tipos de replicadores e outros tipos resultantes de evolução? Um novo tipo de replicador recentemente surgiu neste próprio planeta. Ele está nos encarando de frente. Ainda está em sua infância, vagueando em um caldo primordial, mas já está conseguindo uma mudança evolutiva a uma velocidade que deixa o velho gene muito atrás.

O novo caldo é o caldo da cultura humana. Precisamos de um nome para o novo replicador, um substantivo que transmita a idéia de uma unidade de transmissão cultural, ou uma unidade de imitação. "Mimeme" provém de uma raiz grega adequada, mas Dawkins queria um monossílabo que soasse um pouco como "gene". Ele abreviou mimeme para meme. Se servir como consolo pode-se, alternativamente, pensar que a palavra está relacionada à "memória", ou à palavra francesa même.

Exemplos de memes são melodias, idéias, slogans, modas do vestuário e por aí vai. Da mesma forma como os genes se propagam no "fundo" pulando de corpo para corpo através dos espermato­zóides ou dos óvulos, da mesma maneira os memes propagam-se no "fundo" de memes pulando de cérebro para cérebro por meio de um processo que pode ser chamado, no sentido amplo, de imitação. Se um cientista ouve ou lê uma idéia boa ele a transmite a seus colegas e alunos. Ele a menciona em seus artigos e conferências. Se a idéia pegar, pode-se dizer que ela se propaga a si própria, espalhando-se de cérebro a cérebro. Os memes devem ser considerados como estruturas vivas, não apenas metafórica, mas tecnicamente. Quando você planta um meme fértil em minha mente, você literalmente para­sita meu cérebro, transformando-o em um veículo para a propagação do meme, exatamente como um vírus pode parasitar o mecanismo genético de uma célula hospedeira. E isto não é apenas uma maneira de falar – o meme, por exemplo, para "crença em uma vida após a morte" é, de fato, realizado fisicamente, milhões de vezes, como uma estrutura nos sistemas nervosos dos homens, individual­mente, por todo o mundo.

Basicamente, a razão pela qual é uma boa política tentar explicar fenômenos biológicos em termos de vantagem aos genes é que eles são replicadores. Assim que o caldo primordial ofereceu condições nas quais as moléculas podiam fazer cópias de si mesmas, os próprios replicadores passaram a dominar. Por mais de três bilhões de anos o DNA tem sido o único replicador digno de menção no mundo. Mas ele não mantém necessariamente esses direitos de monopólio para sempre. Sempre que surgirem condições nas quais, um novo tipo de replicador possa fazer cópias de si mesmo, os novos replicadores tenderão a dominar e a iniciar um novo tipo de evolução própria. Quando essa nova evolução começar não terá, em nenhum sentido obrigatório, que se submeter à antiga. A evolução antiga de seleção de genes, produzindo cérebros, forneceu o "caldo" no qual os primeiros memes originaram-se. Quando os memes auto-copiadores surgiram, seu próprio tipo de evolução, muito mais rápido, teve início. Os biólogos assimilaram a idéia de evolução genética tão profundamente que temos a ten­dência a esquecer que ela é apenas um dentre vários tipos possíveis de evolução.

É por imitação, em um sentido amplo, que os memes podem replicar-se. Mas, da mesma maneira como nem todos os genes que podem se replicar têm sucesso em fazê-Io, da mesma forma alguns memes são mais bem sucedidos no "fundo" do que outros. Isto é análogo à seleção natural. Foram mencionados exemplos específicos de qualidades que determinam um alto valor de sobrevivência entre os memes. Mas, de um modo geral, elas têm que ser as iguais àquelas discutidas para os replicadores: longevidade, fecundidade e fidelidade de cópia. A longevidade de uma cópia qualquer de um meme é, talvez, relativamen­te pouco importante, assim como o é uma cópia qualquer de um gene. Como no caso dos genes, a fecundidade é muito mais importante do que a longevidade de cópias específicas. Se o meme for uma idéia científica, sua difusão dependerá de quão aceitável ela é para a população de cientistas; uma primeira estimativa de seu valor de sobrevivência poderia ser obtida contando o número de vezes que ela é citada em revistas científicas em anos subseqüentes. Se for uma melodia popular, sua difusão pelo "fundo" de memes poderá ser avaliada pelo número de pessoas que a assobiam nas ruas. Alguns memes, como alguns genes, conseguem um sucesso brilhante a curto prazo ao espalhar-se rapidamente, mas não permanecem muito tempo no "fundo". As canções popu­lares e os saltos finos de sapatos são exemplos destes. Outros, tais como as leis religiosas judaicas, poderão continuar a se propagar durante milhares de anos, geralmente devido à grande durabilidade em potencial dos registros escritos.

Isto nos leva à terceira qualidade geral dos replicadores bem sucedidos: a fidelidade de cópia. À primeira vista parece que os memes não são, de forma alguma, replicadores de alta fidelidade. Cada vez que um cientista ouve uma idéia e a transmite a outra pessoa ele provavelmente muda-a bastante. Os memes estão sendo transmitidos a nós sob forma alterada. Isto é bastante diferente da qualidade particulada, do tipo tudo-ou-nada, da transmissão dos genes. Parece que a transmissão dos memes está sujeita à mutação contínua e também à mistura.

É possível que esta aparência de não particularidade seja ilusória e que a analogia com os genes não se interrompa. Afinal de contas, se olharmos para a herança de muitas características genéticas tais como a altura ou a cor da pele nos seres humanos, não parecerá o resultado de genes indivisíveis e que não se misturam. Se uma pessoa negra e uma branca se casam, seus filhos não serão nem negros e nem brancos: serão intermediários. Isto não significa que os genes envolvidos não sejam partículas. Ocorre apenas que há tantos deles relacionados à cor da pele, cada um tendo um efeito tão pequeno, que parecem se misturar. Até agora falamos de memes como se fosse óbvio do que um meme unitário consiste. Mas isto, é claro, está longe de ser óbvio. Pode-se dizer que uma melodia seja um meme, mas e uma sinfonia: quantos memes teremos aqui? Será cada movimento um meme, cada frase ou melodia, cada compasso, cada acorde, ou o quê?

O "complexo gênico" costuma ser dividido em unidades genéticas grandes e pequenas, e uni­dades dentro de outras unidades. O "gene" foi definido não de maneira rígida absoluta, mas como uma unidade de conveniência, um pedaço de cromossomo com fidelidade de cópia suficiente para servir como unidade viável de seleção natural. Se uma única frase da Nona Sinfonia de Beethoven for característica e memorável o suficiente para ser abstraída do contexto de toda a sinfonia e utilizada como um prefixo intrometido na mídia, então, neste sentido, ela merece ser chamada de meme.

Da mesma maneira, quando dizemos que todos os biólogos atualmente acreditam na teoria de Darwin, não se quer dizer que todo biólogo tem, gravada em seu cérebro, uma cópia idêntica das palavras exatas do próprio Charles Darwin. Cada indivíduo tem sua própria maneira de interpretar as idéias de Darwin. Ele provavelmente as aprendeu não das obras de Darwin, mas de autores mais recentes. Muito do que Darwin disse, em detalhe, está errado. Se Darwin lesse este livro, ele dificilmente reconheceria aqui sua teoria original. No entanto, apesar de tudo isto, existe alguma coisa, alguma essência do darwinismo, que está presente na mente de todo indivíduo que entende a teoria. Se assim não fosse, então quase qualquer afirmação a respeito de duas pessoas concordarem entre si não teria sentido. Um "meme de idéia" pode ser definido como uma entidade capaz de ser transmitida de um cérebro para outro. O meme da teoria de Darwin, portanto, é o fundamento essencial da idéia que é compartilhado por todos os cérebros que a compreendem. As diferenças nas maneiras como as pessoas representam a teoria não são, por definição, parte do meme. Se a teoria de Darwin puder ser subdividida em partes componentes, de tal forma que algumas pessoas acreditam no componente A, mas não no componente B, enquanto outras acreditam em B, mas não em A, então A e B deveriam ser considerados memes separados. Se quase todas as pessoas que acreditam em A também acreditam em B – se os memes estiverem, usando o termo genético, fortemente "ligados" – então será conveniente juntá-Ios como um só meme.

Vou insistir um pouco mais com a analogia entre meme e gene. Enfatizamos que não se deve pensar nos genes como agentes consci­entes intencionais. A seleção natural cega, no entanto, faz com que eles se comportem como se fossem intencionais, e tem sido conveniente, para abreviar, referirmo-nos aos genes na linguagem de propósitos. Por exemplo, quando dizemos "os genes estão tentando aumentar seu número nos "fundos do futuro", o que realmente se quer dizer é que "os genes que se comportam de modo a aumentarem seu número nos fundos do futuro tendem a ser os genes cujos efeitos vemos no mundo". Assim como achamos conveniente imagi­nar os genes como agentes ativos, trabalhando intencionalmente para sua pró­pria sobrevivência, talvez seja conveniente pensar da mesma maneira sobre os memes. Em nenhum dos dois casos devemo-nos tornar místicos. Em ambos a idéia de propósito é apenas uma metáfora, mas já vimos que metáfora útil ela é no caso dos genes. Até mesmo usa-se palavras como "egoísta" e "implacá­vel" para os genes, tendo plena consciência de que são apenas um modo de falar. Poderemos, com exatamente o mesmo espírito, procurar memes egoístas ou implacáveis?

Qualquer usuário de um computador digital sabe como são preciosos o tempo e o espaço de armazenamento de memória de um computador. Em muitos centros de computação grandes eles são literalmente avaliados em dinheiro; ou cada usuário poderá receber uma ração de tempo, medida em segundos, e uma ração de espaço, medida em "palavras". Os computadores nos quais os memes vivem são os cérebros humanos. O tempo possivelmente seja um fator limitante mais importante do que espaço de armazenamento; ele é objeto de forte competição. O cérebro humano e o corpo por ele controlado não podem fazer mais do que uma ou algumas coisas de cada vez. Se um meme quiser dominar a atenção de um cérebro humano, ele deve fazê-lo às custas de memes "rivais".

No caso dos genes, complexos co-adaptados de genes podem se originar no "fundo". Um conjunto grande de genes relacionados ao mimetismo nas borboletas tornou-se fortemente unido no mesmo cromosso­mo, tão fortemente que pode ser visto como um gene. Examina­mos a idéia mais sofisticada do conjunto evolutivamente estável de genes. Den­tes, garras, vísceras e órgãos dos sentidos mutuamente adequados evoluíram nos "fundos" gênicos dos carnívoros, enquanto que um conjunto estável dife­rente emergiu dos "fundos" dos herbívoros. Será que alguma coisa semelhante ocorre nos "fundos" de memes? Terá o meme para deus, por exemplo, se associa­do a outros memes específicos, e será que esta associação auxilia a sobrevivência de cada um dos memes componentes? Talvez pudéssemos considerar uma igreja organizada, com sua arquitetura, rituais, leis, música, arte e tradição escrita como um conjunto co-adaptado estável de memes que se auxiliam mutuamente.

Para mencionar um exemplo específico, um aspecto da doutrina que tem sido eficiente em compelir à obediência religiosa é a ameaça do fogo infernal. Muitas crianças e até mesmo alguns adultos acreditam que sofrerão tormentos horríveis após a morte se não obedecerem as regras dos sacerdotes. Esta é uma técnica particularmente sórdida de persuasão, tendo causado grande angústia psicológica por toda a Idade Média e até mesmo hoje. Mas é altamente eficiente. Quase podemos supor que foi deliberadamente planejada por um clero maquia­vélico treinado em técnicas profundas de doutrinação psicológica. No entanto, duvido que os sacerdotes tenham sido tão inteligentes. Mais provavelmente memes inconscientes garantiram sua própria sobrevivência por meio das mesmas qualidades de pseudo-implacabilidade que os genes bem sucedidos exibem. A idéia de fogo infernal é, simplesmente, auto-perpetuadora devido a seu impacto psicológico profundo. Ela ligou-se ao meme para deus porque as duas idéias reforçam-se mutuamente e cada uma ajuda a sobrevivência da outra no "fundo" de memes.

Outro membro do complexo religioso de memes é chamado fé; significa confiança cega, na ausência de evidência, ou mesmo diante dela. A história de São Tomé é narrada não para que o admiremos, mas para que possamos admi­rar, por comparação, os outros apóstolos. Tomé exigiu evidência. Nada pode ser mais letal para certos tipos de memes do que a tendência a procurar evidência. Os outros apóstolos, cuja fé era tão forte que não precisavam de evidência, nos são apresentados como dignos de serem imitados. O meme para a fé cega garante sua própria perpetuação pelo recurso inconsciente simples de desencorajar a indagação racional.

Os memes e os genes muitas vezes podem se reforçar mutuamente, mas às vezes eles se opõem. O hábito do celibato, por exemplo, supõe-se não ser herdado geneticamente. Um gene para o celibato está fadado a falhar no "fundo", exceto sob condições muito especiais tais como encontramos nos insetos sociais. Assim mesmo, um meme para o celibato pode ser bem sucedido no "fundo" de memes. Suponha, por exemplo, que o sucesso de um meme dependa de quanto tempo as pessoas gastam transmitindo-o ativamente a outras pessoas. Todo tempo gasto em fazer qualquer outra coisa que não tentar transmitir o meme pode ser considerado tempo perdido do ponto de vista do meme.

O meme para o celibato é transmitido por sacerdotes aos meninos jovens que ainda não decidi­ram o que querem fazer de suas vidas. O meio de transmissão é a influência humana de vários tipos, a palavra escrita e falada, o exemplo pessoal e assim por diante. Suponha, para continuar o raciocínio, que o casamento enfraquecesse o poder de um sacerdote de influenciar sua congregação, talvez porque ocupasse grande parte de seu tempo e atenção. Isto, de fato, tem sido proposto como um motivo oficial para a obrigação ao celibato entre padres. Se isto ocorresse, o resultado seria que o meme para o celibato poderia ter maior valor de sobrevi­vência do que o meme para o casamento. Exatamente o oposto, é claro, ocorreria com um gene para o celibato. Se o sacerdote é uma máquina de sobrevivência para os memes, o celibato será um atributo útil para ser introduzido nele. O celibato é apenas um componente secundário em um grande complexo de memes religiosos que se ajudam mutuamente.

Podemos Imaginar que os complexos de memes co-adaptados evoluam da mesma maneira como os complexos de genes. A seleção favorece os memes que explo­raram seu ambiente cultural para vantagem própria. Este ambiente cultural con­siste de outros memes que também estão sendo selecionados. O "fundo" de memes, portanto, passa a ter os atributos de um conjunto evolutivamente está­vel, o qual os novos memes acham difícil invadir.

Temos sido um pouco negativos com relação aos memes, mas eles têm seu lado alegre também. Quando morremos há duas coisas que podemos deixar atrás de nós; genes e memes. Somos construídos como máquinas gênicas, criados para transmitir nossos genes. Mas este nosso aspecto será esquecido em três gerações. Seu filho, talvez até seu neto, poderão se assemelhar a você, talvez nas características faciais, no talento para a música ou na cor do cabelo. Mas, com a passagem de cada geração, a contribuição de seus genes fica dividida pela metade; não leva muito tempo para atingir proporções desprezíveis. Nossos genes poderão ser imortais, mas a coleção de genes que constitui cada um de nós certamente desintegrar-se-á. Não devemos buscar a imortalidade na reprodução.

Mas, se você contribui para a cultura mundial, se você tem uma boa idéia, compõe uma melodia, inventa uma vela de ignição ou escreve um poema, a idéia poderá sobreviver, intacta, muito tempo após seus genes terem se dissol­vidos no "fundo" comum. Sócrates poderá ter ou não genes vivos no mundo hoje, mas quem se importa com isso? Os com­plexos de memes de Sócrates, Leonardo, Copérnico e Marconi ainda prosperam.

Não importa quão especulativo seja o desenvolvimento da teoria dos memes, há um item sério que gostaríamos de enfatizar mais uma vez. Quando examinamos a evolução das características culturais e seu valor de sobrevivência, devemos deixar claro a sobrevivência de quem estamos falando. Os biólogos estão acostumados a procurar vantagens ao nível do gene (ou do indivíduo, do grupo, ou da espécie, de acordo com o gosto). O que não levamos em conta anteriormente é que uma característica cultural poderá ter evoluído da maneira como o fez simplesmente porque é vantajoso para ela própria. Não temos que procurar valores biológicos de sobrevivência convencio­nais de características como religião, música e danças rituais, embora eles tam­bém possam estar presentes. Assim que os genes fornecerem às suas máquinas de sobrevivência cérebros capazes de imitação rápida, os memes automaticamente assumirão a responsabilidade. Não temos nem mesmo que postular uma vanta­gem genética da imitação, embora isso certamente ajudasse. Basta que o cérebro seja capaz de imitação: haverá então a evolução de memes que exploram plena­mente a capacidade.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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