Planos para o Ano Novo, Psicologia Positiva e Vídeos

Em toda a passagem de ano é sempre a mesma história: vestimos branco para atrair a paz, amarelo para o dinheiro, vermelho para a paixão, comemos lentilhas ou uvas, pulamos sete ondas no mar, e tantos outros “comportamentos supersticiosos”, como diria Skinner.
Esta é aquela fase em que prometemos a nós mesmos e ao mundo emagrecer, parar de fumar, mudar de emprego, comprar uma casa ou “mudar de vida completamente”. Desta forma, iniciamos o mês de Janeiro (provavelmente até Fevereiro), cheios de esperança de que as transformações aconteçam.

Mesmo sem termos uma razoável idéia de como isso se processa, experimentamos o que outros de nossa comunidade disseram ter funcionado ou, o mais provável, simplesmente repetimos aquilo que já sabemos fazer, o que nos é conhecido. É nesta segunda “estratégia” onde pode estar um grande problema. Como disse a experiente psicoterapeuta familiar, Virgínia Satir, padrões de repetição no ser humano chegam, por vezes, a superar até mesmo seu instinto de sobrevivência. Freqüentemente, tendemos a repetir receitas que não resultaram em pratos satisfatórios, simplesmente por não sabermos que poderíamos mudar alguns ingredientes ou a forma de cozinhar. Como resultado, logicamente, acabamos produzindo as mesmas iguarias – como se “iguarias” fossem “pratos iguais” – e vamos trilhando, inadvertidamente, automaticamente, os mesmos velhos caminhos, querendo chegar a novos lugares e, pior, estranhando por que o cruel destino nem sequer nos aproximou daquele porto desejado.

E, cada vez que não conseguimos aquilo que planejamos, fortalecemos nossa crença de incapacidade, nosso sentimento de auto-eficácia sofre um declínio e aquele desejo de mudança vai sendo guardado… para o próximo Janeiro… “e já que não tem jeito mesmo para essa ‘vida bandida’, vamos pular o carnaval fantasiados de outra pessoa?”. Dando uma olhada nos vídeos da minha coleção que poderiam se relacionar a este tema, encontrei um que parece ser interessante. Chama-se O Segredo.

Este é mais um dos filmes/documentários produzidos ultimamente, que abordam certas leituras psicológicas sobre algumas hipóteses e descobertas da física quântica. E essa linha de raciocínio acomoda-se no campo de estudo, também recentemente criado, chamado Psicologia Positiva. A história da psicologia se confunde com estudos voltados à patologia e o seu tratamento – a atmosfera biomédica cartesiana vigente no período de nascimento da psicologia contribuiu nessa direção. Isso resultou em olhares muito bem treinados em identificar padrões de problemas e míopes para o “lado positivo” das pessoas.

Como tentativa de romper esse viés negativo sobre o desenvolvimento humano, surgiu, na última década do século XX, com raízes na Psicologia Humanista, o movimento da Psicologia Positiva. Calcado em um novo paradigma epistemológico, este novo campo científico apontou como principal objeto de estudo da psicologia o funcionamento saudável e adaptativo do ser humano, interessando-se pelos traços psicológicos e experiências considerados positivos tais como otimismo, satisfação, bem-estar, felicidade, gratidão, esperança, resiliência, capacidade de enfrentamento, empatia, etc. Martin Seligman, um dos expoentes da Psicologia Positiva, chama a atenção para essa mudança de foco, defendendo que, sem deixar de lado ter como objeto de estudo a patologia e seu tratamento, a psicologia deve abrir espaço para o estudo das “habilidades positivas” do ser humano, redirecionando o enfoque para a promoção da qualidade de vida.

A Psicologia Positiva já está compondo os currículos das Universidades, a exemplo da Universidade de Coimbra, em Portugal, que oferta a disciplina “Psicologia Positiva e Bem-Estar”. Por essa vertente, por exemplo, a psicoterapia tem o papel de conduzir o indivíduo a enxergar a si próprio não como um emaranhado de desejos frustrados e emoções reprimidas, como orientam algumas abordagens tradicionais, mas a reconhecer-se como um amplo e rico “reservatório” de virtudes potenciais em forma de experiências, conscientes ou não, que podem ser utilizadas como recursos capazes de abrir as portas para a resolução das demandas cotidianas e a realização pessoal.

Ao invés de se fixar e mergulhar nos problemas, muitas vezes supervalorizando-os, vira-se o telescópio da atenção para perscrutar e amplificar aquilo que se deseja e para os recursos que se tem e os de que ainda se necessita para a sua construção. Uma abordagem psicoterapêutica que já nasceu nessa perspectiva, mas ficou ilhada pelo paradigma “patologizante”, sendo, por algumas décadas, relegada ao segundo plano, está despontando nesse debate atual, a Psicoterapia Ericksoniana. Pegando carona no paradigma de pensar positivamente, podemos retornar ao tal documentário,

O Segredo, uma espécie de filme de auto-ajuda que fala sobre como utilizar na prática um poderoso instrumento de mudança, o trabalho de visualização de objetivos. Mas, como a maioria dos materiais de auto-ajuda, ele também tende ao extremo, quase à idolatria das idéias que defende, trazendo a falsa impressão de ser uma panacéia. Por isso, o expectador consciente deverá saber retirar o proveito da mensagem sem mergulhar no mundo da fantasia. O documentário defende que, ao pensarmos positivamente, ou seja, naquilo que desejamos – em vez de ruminar o que não queremos –, procurando sentir as emoções agradáveis correspondentes, estaremos iniciando um sofisticado e complexo processo de “fabricação” daquela realidade.

O embasamento apresentado está na física quântica, que tem nos apontado que estamos imersos em um universo de “ondas de possibilidades”, que estão aí, somente como probabilidade, até o momento em que escolhemos e materializamos uma delas, transformando-a em “partícula de realidade”. Isso significa dizer que nossa realidade não seria dada a priori, mas criada (construída) no momento exato em que direcionamos nossa intenção e ação em determinada direção. Buscando outras sustentações dentro da psicologia para essa discussão, poderíamos citar o conceito de Profecia Auto-realizadora, que ilustra muito bem este fenômeno de gerarmos, sem perceber, um resultado que acreditamos ser o único possível.

Temos muitos indícios de que somos súditos de nosso conjunto de crenças, valores, conceitos, que agem, talvez, por ativação de uma rede de sistemas cognitivos de prontidão, percepção, processamento e evocação que podem funcionar como lentes que filtram e/ou transformam em “figura” (partícula) os elementos de possibilidade que sempre estiveram ao nosso redor como “fundo” (onda), e que estejam de acordo com os conteúdos desses sistemas cognitivos. Diariamente, testemunhamos nos clientes em psicoterapia, importantes mudanças em suas vidas, que só se processam após a “atualização” de certas crenças autolimitantes.

Quem já não ouviu falar dos chamados treinamentos passivos de atletas olímpicos? Infindáveis sessões de “treino” foram realizadas no fundo de uma poltrona mediante procedimentos de visualização, resultando em melhoria no desempenho, como se o atleta tivesse realmente “suado a camisa”. Isso há algumas décadas. Hoje, a neurociência já comprovou através dos exames de Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET), que as áreas do cérebro que se ativam no momento em que uma pessoa vê um objeto ou se recorda dele são as mesmas. Ou seja, o cérebro é quem vê. Nossos olhos são apenas os instrumentos que capturam as luzes e direcionam seus estímulos para o cérebro. E esse “cérebro que vê” não distingue entre realidade e ilusão, se esta última for bem fabricada, e reage a ambas de forma semelhante (sobre essas fascinantes idéias não deixem de assistir aos vídeos da série Matrix e o interessante eXistenZ (é assim mesmo, “e” minúsculo e “X” e “Z” maiúsculos)). E para que esse cérebro que vê, consiga “fazer”, provavelmente, lança mão dos fenômenos ideodinâmicos, tão estudados e empregados na hipnose, que comprovam uma estreitíssima relação entre mente e corpo. Bem, o velho ditado “quem procura, acha”, já nos apontava esse caminho.

O já conhecido conceito de Mente Intencional está em consonância com essas idéias. Por isso, é não só possível como provável que, cada vez que pensamos estar “descobrindo” algum problema, podemos, na verdade, estar inadvertidamente criando-o. E, admitindo que realmente tenhamos esse “poder de criação”, seria razoável desejar utilizá-lo para construir o que queremos, não o que não desejamos. E é justamente sobre esse processo de criar o que se deseja na própria vida que trata o filme/documentário O Segredo. Ele traz como conceito central o que chamaram de Lei da Atração. Segundo essa “lei”, aparentemente formulada por análise empírica, tendemos a “materializar” aquilo no que concentramos nossos pensamentos e sentimentos, independentemente de juízos de valor sobre os resultados. Por isso, retornando aos nossos desejos de mudança lá do início deste texto, como mostra O Segredo, se desejarmos emagrecer, parar de fumar, mudar de emprego, comprar uma casa, etc., devemos tratar de construir imediatamente imagens mais claras e detalhadas do objetivo, como se já os tivesse alcançado, ou seja, respectivamente, imagens de magros, respirando amplamente com um bom fôlego, trabalhando onde gostaríamos, morando na casa que desejamos.

Agora, independentemente de esta tal lei da atração ter sido realmente promulgada e estar em vigor ou não, compare os possíveis efeitos dessa “estratégia positiva” com a velha forma de lidar com os problemas que normalmente usamos por estarmos condicionados pela herança do paradigma da negatividade: quando temos um problema ou algo que não desejamos, habitualmente, ficamos remoendo-o o dia inteiro, e com isso criamos uma verdadeira pinacoteca virtual de imagens “do problema”, a título de encontrar formas de acabar com ele, reclamando e clamando aos céus que nos afastem aqueles cálices. Pelo mesmo raciocínio usado nos parágrafos acima, esse festival de imagens mentais “daquilo que não queremos” pode infestar nosso aparelho cognitivo sofisticadíssimo fazendo-o funcionar para nos deixar atentos ao problema, não às possíveis soluções, e nossos processos ideodinâmicos trabalharão conforme as ordens recebidas. Em resumo, perceberemos ou “criaremos” ou “atrairemos” – como queiram – mais problemas e assim… adivinhem o que desejaremos, mais uma vez, no próximo Janeiro? Não se deve perder de vista a forma simplista que essa idéia de pensamento positivo é apresentada nO Segredo. Parece uma “fórmula” do “elixir milagroso para todos os males”, que agora nos trará uma vida de felicidade eterna.

O Segredo nos apresenta apenas uma postura que, de uma forma ou de outra, realmente influencia nossa mente e nosso corpo. O quanto e o como isso se dá ainda permanece tema para muita investigação. Outros vídeos de minha coleção, relacionados direta ou indiretamente a este tema, que estão expostos na página http://www.psicovideos.cjb.net: – Quem Somos Nós? – Quem Somos Nós? Uma Nova Evolução – O Universo Elegante – Universos paralelos – eXistenZ – Quem mexeu no meu queijo?

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