A Bela e a Fera:

mera atração entre opostos?

Em um primeiro momento, o desenho “A Bela e a Fera” parece simplesmente nos convidar – já a partir de seu título– a acompanhar a história de dois seres que vestemcomo poucos a roupagem da conhecida frase “os opostosse atraem”. Mas, lembrem-se, eu disse “parece”, pois à luz da Psicologia Analítica há uma justifi cativa mais complexa para que tal atração ocorra.

O filme retrata a história de um belo príncipe que foi transformado em Fera por uma feiticeira, devido à sua arrogância e egoísmo, tendo como condição para a quebra deste feitiço a sua capacidade de amar e ser amado em um prazo de 21 anos. Ele então se recolhe em seu castelo e passa a viver solitariamente, apenas contando com a presença de seus empregados, que também sofreram as conseqüências do feitiço e forma transformados em
utensílios domésticos.

Bela, uma jovem bonita, inteligente, educada e afetuosa se torna prisioneira de Fera em seu castelo, em troca da liberdade de seu pai.
È diante do encontro destes opostos que o fi lme se concentra, apontando as conseqüências que ocorrem quando um homem não vivencia de forma integrada seus aspectos femininos (anima). No caso de Fera, foi
necessário que algo externo – o feitiço – ocorresse para que, ao encontrar-se com Bela, olhasse para dentro de si e despertasse sua anima, até então impossibilitada de vir à consciência. E é apenas no momento em que a reconhece como integrante de seus aspectos conscientes é que
se torna capaz de se apropriar de sua real beleza: a interior. Inclusive, esta é citada por uma de suas empregadas quando, juntamente com ele, se dá conta de que a jovem pode ser aquela capaz de quebrar o feitiço e o orienta a
agir de forma sutil, delicada e educada com ela. Quando fi nalmente consegue tratá-la como tal, despertando sua admiração por ele, Fera dá a maior prova de sua mudança quando liberta Bela para que possa ir socorrer seu pai, fi cando apenas com a esperança de que este amor seja retribuído. A libertação de Bela simboliza a libertação da anima que, posteriormente, mostra-se integrada em sua consciência quando ocorre a morte simbólica de Fera, na
condição de monstro, para dar vida ao homem/príncipe novamente, no momento em que Bela também admite seu amor por ele.

Deste modo, simbolicamente, o fi lme traz como mensagem a importância de que homens e mulheres vivam de forma mais harmoniosa com suas polaridades internas, o que refl etirá não só em suas relações amorosas, mas também nas suas próprias dinâmicas individuais, como é possível conferir no desfecho da relação estabelecida entre Bela e a Fera. Em última análise, é possível compreender a fi gura de Bela como “representante legal”
da anima de Fera, daí a justifi cativa para o despertar da mesma e, mais ainda, para a forte atração destes opostos…

Sugestões para leitura: CAVALCANTI, R. (1993). O Casamento
do Sol da Lua – Uma Visão Simbólica do Masculino
e do Feminino; WHITMONT, E. C. (2002). A Busca do Símbolo.
Conceitos básicos de Psicologia Analítica.
Fabiana Carone é psicóloga junguiana (CRP 06/84188)
[fabiana@prepsico.psc.br]

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