Me Formei!

Que tempo é esse em que iniciarei minha atividade profissional?

Para falar um pouco sobre “estes tempos”, vou relatar o que ouvi e jamais esqueci. Em 1976, quando eu estava passando pelo antigo “trote”, ao qual os alunos quei ngressavam nas Universidades eram submetidos, um aluno do 5º ano de Psicologia fez o seguinte comentário em tom jocoso: “Coitadinha, quer ser Psicóloga? Pois fique sabendo que o mercado está saturado, não existe
emprego para Psicólogo e você, depois de passar por este trote e por 5 anos de Curso, vai pendurar seu diploma na cozinha. Tem certeza de que não vai aproveitar e desistir agora?”

Eu estava feliz da vida por ter passado no vestibular e confesso que, na hora, levei tudo na brincadeira, mas aquele comentário ficou como sinal de alerta na minha cabeça e eu me perguntei: “Se o mercado está saturado hoje, como estará daqui a 5 anos quando eu me formar?”

Hoje eu agradeço aquela brincadeira, pois desde aquele momento eu comecei a me perguntar “como” e “o que” eu precisaria fazer para poder dar um destino mais satisfatório para o meu diploma… do que a parede da cozinha
da minha casa! Conto este fato a vocês para que comecem a pensar em duas questões: – “Que tempo é esse em que iniciarei minha atividade profissional?” E “O que eu posso fazer para ampliar minhas chances de sucesso?”

Se você começar a falar que o mercado está saturado e que não existe emprego para Psicólogo, lamento muito informar que isso não é novidade nenhuma, como já deu para perceber. Embora hoje existam mais Psicólogos Clínicos em Cargos Públicos, em Hospitais, Clínicas de Emagrecimento, Equipes Médicas, etc., o número de profissionais que cada universidade coloca
no mercado a cada semestre é muito grande. Constatamos, apesar de tudo, que, nestes tempos, a estratégia mais bem sucedida é a de “criar oportunidades”, e por isso afirmo com muita segurança que suas chances de
sucesso serão tão maiores quanto maior for sua capacidadede criar oportunidades e sua capacidade de  se fazer necessário. Empregos com carteira assinada e direitos trabalhistas assegurados estão se tornando cada vez mais raros em todas as áreas profissionais. Como enfrentar essa realidade?

Procure direcionar seus esforços e investimentos criando uma “oferta de serviço”, olhando o mercado a partir da necessidade do usuário. Isso quer dizer: atendendo às necessidades do mercado você estará garantindo a continuidade da oferta de serviço. Tem muita gente necessitando e procurando pelo serviço diferenciado de Psicólogos e não encontrando!
É difícil acreditar nesta afirmação quando sabemos que tantos colegas chegam a abandonar a profissão por não conseguirem “espaço” no mercado de trabalho, principalmente na área clínica. Mas, em contra
partida, certamente poderemos notar que um número muito grande de profissionais chegam ao mercado de trabalho na área clinica com pouquíssima
vivência da “prática clínica” e alguns conseguem até se formar tendo sido apenas “observadores” do atendimento de seus colegas de “dupla”, mas sem
nunca ter atendido um paciente.

Já podemos começar a entender um pouco melhor a dificuldade em entrar no mercado de trabalho, mas a falta de experiência não é o único determinante
da situação. Praticar a Psicologia Clínica requer um investimento muito grande por parte do profissional, como não se vê em nenhuma outra profissão.
É indispensável que o profissional tenha condição derealizar – sendo otimista: por vários meses – uma  série de investimentos de ordem financeira a fim
de atender às despesas administrativas e técnicas características da prática clínica, tais como: aluguel de sala, despesas com condomínio, luz, telefone,
secretária, faxineira, IPTU, supervisão, terapia pessoal, cursos, livros, palestras, etc. Isso para falar do mínimo. Veja que nem falamos das despesas pessoais (alimentação, moradia, lazer) e de outras
também relacionadas ao aspecto profissional como transporte, estacionamento e vestuário. Quando o Psicólogo Clínico faz o balanço computando ENTRADAS e SAÍDAS na sua contabilidade mensal, muitas
vezes e durante vários meses, só consegue incluir dados na coluna SAÍDAS de seu balancete.

Muitos Psicólogos Recém Formados só conseguem incluir na coluna ENTRADAS um pequeno valor, muitas vezes “simbólico” que é pago pelo paciente que ele
trouxe da Faculdade! Os meses vão passando e o Profissional começa a ser cobrado em relação à sua independência financeira e perspectiva de sucesso profissional. Esta cobrança poderá ter origem no círculo mais íntimo, constituído pelo grupo social e familiar, quando estabelecidas comparações com amigos e familiares que optaram por outras profissões e não raras vezes ganham mais como estagiários do que o psicólogo como profissional. Também poderá ter origem em si mesmo, quando o psicólogo mantém um outro emprego para poder “bancar” a clínica – fato observado
freqüentemente – e se vê frustrado com os resultados obtidos, que se encontram bem distantes das expectativas que alimentava no início da atividade. Como se isso já não fosse o suficiente, muitas vezes o psicólogo
clínico acaba sendo cobrado também pelos pais, que já estão cansados de continuar sustentando o filho adulto e já formado e que ainda se vêem compelidos a continuar  investindo no sucesso profissional do filho. Diante
de todos estes fatos, é imprescindível que façamos uma reflexão nas “ferramentas” que poderão ser utilizadas para que a realidade configurada acima não venha a ser determinante para o abandono da profissão.
Sempre sou levada a pensar que nestes casos ocorre um prejuízo em “cadeia”, prejuízos generalizados que atingem todos os envolvidos:

• O Psicólogo perde ao abrir mão da atividade que abraçou por opção, e não raramente por paixão, por sever obrigado a seguir outro caminho.
• A população perde a possibilidade de beneficiar-se com a prestação de serviços de profissionais sérios, éticos, capazes e competentes em sua atuação.
• A sociedade perde a possibilidade de receber em seu seio pessoas mais “compensadas” e em condições deoferecer uma contribuição social maior e de melhor qualidade.
• A Psicologia perde, pois não receberá a contribuição deste profissional que abandonou a profissão.. Como reverter este quadro? Refletindo sobre o quê ou quais são os fatores que determinam a ocorrência deste fato e, principalmente, refletindo o que é preciso se fazer hoje para ter ampliadas
suas probabilidades de sucesso! Conscientize-se de qu,eembora o início da profissão seja difícil, não é impossível ganhar justa e honestamente o seu sustento a partir do seu trabalho. Esteja disposto a atender às necessidades
básicas de estudo, terapia pessoal e supervisão: tripé de sustentação que injeta “qualidade” no trabalho oferecido à população, que levará à satisfação do usuário do serviço.

O cliente satisfeito faz propaganda de graça dos trabalhos de um profissional por praticamente toda sua vida. Já o cliente que interrompeu o acompanhamento psicológico por insatisfação técnica ou ética com o psicólogo, poderá ser uma propaganda negativa de grande durabilidade.

Tenha claro em sua mente que oferecer um trabalho de qualidade não é mais um diferencial, mas condição para entrar e ter chance de permanecer na profissão. Quando um Psicólogo não desperta credibilidade no usuário do seu serviço ele nem iniciará um tratamento – utilizando qualquer coisa como justificativa: falta de tempo, de dinheiro, etc. Ou, se der início ao
acompanhamento, em pouco tempo o abandona.Neste momento, alguns Psicólogos devem estar pensando: A Helen esqueceu que a motivação e disponibilidade do paciente para psicoterapia poderáestar relacionada com as dificuldades emocionais deste e suas “defesas”. Não, eu não esqueci. Só
acho que além de se considerar esta possibilidade, deve-se também considerar outras. Responda: é possível ajudar um paciente AUSENTE a lidar com suas “defesas”? A resposta será: Não! Mas se fizermos uma outra pergunta: é possível, mesmo que o paciente esteja ausente, que eu reflita
em que medida ou de que forma eu possa ter contribuído para o abandono do tratamento pelo paciente? A resposta não será um “Não” categórico
e fechado como o da resposta acima. Isso significa que a constante reflexão sobre a sua atuação profissional – PARTICULARMENTE QUANDO VOCE
PERDE UM CLIENTE – poderá ajudá-lo a eliminar ou minimizar aquilo que nas suas atitudes, na sua postura ética, no nível de qualidade do serviço que
você oferece, na credibilidade que você foi capaz de despertar no cliente “ajudou” ou, de alguma forma, contribuiu para que ele fosse embora… e perdesse a oportunidade de usufruir dos benefícios que um
acompanhamento psicológico poderia trazer-lhe. De uma forma ou de outra, o paciente que comparece  a uma consulta inicial, mesmo que com suas
resistências internas “dificultando”, conseguiu superá- las naquela oportunidade e chegar até o profissional. Infelizmente, muitas vezes é o próprio profissional,  e por algum motivo que poderá ser técnico
ou não, que ajudou o paciente “a ir embora”, contribuindopara o prejuízo do usuário que perde esta oportunidade de se beneficiar com um acompanhamento psicológico.

Ressalto também a importância do Jovem e do velho profissional resistirem sempre e bravamente ao assédio da “Lei de Gerson” que impera atualmente na sociedade, fazendo parecer aceitável e até ética aidéia de que “O importante é levar vantagem, certo?” Esse pensamento seduz alguns profissionais que abandonam o comportamento ético e honesto
– tendo como desculpa a dificuldade de iniciar a atuação profissional, ou a sua sobrevivência e de seus familiares (justificativa para lesar pacientes,
convênios e parcerias) – criando regras imaginárias de compensação que o autorizam a agir de forma desonesta. Isso é competição de Mercado!

Helen Spanopoulos (CRP 06/23.611-0)
é diretora da clínica CEAAP.
Confi ra o artigo na íntegra acessando o site
[www.clinicaceaap.com.br ou (11) 3289-5220]

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