O psicanalista e sua função dentro do enquadre

Para cumprir com a tarefa para a qual me propus no atual texto, estava eu às voltas com inúmeros livros, citações, textos da ne em links, anotações que fiz ao longo de 23 anos de trabalho diário, relatos de caso publicados por psicanalistas, colunas de jornais etc. Experimentei então um certo sentimento de angústia, tive que parar, e como penso que qualquer pessoa deva fazer, frente a uma angústia despertada por fato novo em sua vida, parei tudo e me afastei da tarefa para tentar entender o que se passava. E o que entendi? Vou explicar passo a passo.

Entendi então que, se quero falar dessa função e principalmente questionar algumas de suas lendas, devo em primeiro lugar falar dessa função como ela acontece em mim e em como a faço acontecer na tal realidade da relação transferencial. Obviamente que, tudo isso, também estará fundado e atravessado nas inúmeras leituras que fiz ao longo de todos esses anos, e de tudo que, em minha prática vi que funcionava quando eu utilizava, e o que não funcionava, talvez muito a partir de como sou e de minhas experimentações em relação a vida, afetos, aprendizagens e processos terapêuticos pelos quais passei e/ou vivencio na atualidade.

Lembrei-me então, de vários terapeutas e supervisores que tive ao longo de minha vida, desde que o mundo da psicanálise se abriu, através do curso de graduação que procurei, a Psicologia. Nas lembranças, dois ficaram muito forte como indicativos para o que quero dizer aqui. Vou falar primeiro de um “mestre” muito querido que tive e que infelizmente não está mais entre nós, o psicólogo Paulo Hindemburgo a quem serei sempre grata por inúmeras aprendizagens. Ele sempre disse, em seus grupos de formação, que se pode ensinar tudo para terapeutas iniciantes, mas o tal “pulo do gato”, isso cada um tem que achar o seu, ou não achar. Fato é que isso não se ensina, nem se aprende, devemos buscar em nossos “interiores”. Li sobre isso, recentemente, em um artigo muito interessante da psicanalista Maria Helena Saleme com o título genial “A Normopatia na formação do Analista”(disponível no link) Clique Aqui

Acho que de outra maneira, ela a partir de sua experiência, fala-nos um tanto sobre a impossibilidade de alguns, apesar de todos os esforços empreendido em busca disso, alcançarem o requisito mínimo da escuta para desempenhar o ofício de psicanalista. Ou nas palavras de Paulo, o tal “pulo do gato”.

Lembrei-me também do meu primeiro supervisor, no IBRAPSI, em uma experiência inédita que aquele instituto abriu, o setor de estágios para ainda estudantes de psicologia, participei dele ainda no penúltimo e último ano da faculdade de Psicologia(1983), neste último ano, no atendimento em clínica social nesse instituto onde depois ingressei para a Formação. Mais adiante vim a ser coordenadora do setor de estagiários, experiência também muito enriquecedora. Mas, voltando a lembrança do meu supervisor. Fazíamos o que chama-se “dramatizações” supervisionadas sobre prováveis atendimentos. Certa vez, eu fazia o lugar da terapeuta, fazendo intervenções até que apropriadas, e esse supervisor, interrompeu tudo e me perguntou se eu falava daquele jeito com meus amigos, família etc Eu, entre sem graça e sem resposta, fiquei pensando. Ele perguntou para turma que foi unânime em dizer que não, que aquele não era meu jeito de falar habitualmente. Entendi e aprendi ali que a “fala” de um psicanalista inevitavelmente deve partir de quem ele(a) é, quem somos, como somos e de que maneira estamos incluídos nas relações sociais. Não dá para entrar no consultório e despir-se de si mesmo e de seu jeito e sua postura. E tudo isso transporta informações sobre cada um de nós, quer queira, quer não queira.

Então, partirei para falar desse lugar que ocupo enquanto psicanalista, inevitavelmente fundado no que eu sou e como eu sou, acredito que como todo e qualquer outro psicanalista. Teremos que entender-nos, e também nossa prática, dentro daquilo que Freud falou sobre o uso do divã e de suas características pessoais, que impunham tal uso e tal posicionamento na sala e de como acreditava que para outros talvez isso não fosse tão importante. Por que algumas correntes fizeram disso uma condição da técnica psicanalítica é algo para qual não acredito que se possa achar uma resposta única. Não mesmo!

Então, será desse lugar que me “contém”, que falarei do que acredito ser a função que exerço como psicanalista: mulher, brasileira, mãe, psicóloga e etc e de todas as emoções que se apresentam a partir desse lugar. Eu acredito que seja um engano pensar que podemos fazer de alguma outra maneira, mas como já deixei claro, essa é a minha função enquanto psicanalista, da forma como eu e somente eu, acredito que possa exercê-la.

O trabalho psicanalítico deverá segundo seu inventor, Sigmund Freud, levar em conta sempre o estabelecimento da neurose de transferência, ou seja, algo que é convidado a se estabelecer dentro do setting analítico e que levará o analisando a visitar suas lembranças conscientes e inconscientes, suas repetições da matriz de suas relações atuais. Espera-se que tenha lá um outro ser, o psicanalista, disponível para acompanhar esse alguém em suas viagens atemporais.

Ao estabelecer o contrato terapêutico terei que levar em conta qual a demanda que ouvi e qual será a meta que a análise deverá andar ao encontro de(mapa), nem sempre ou quase nunca elas coincidem, mas com certeza deverá ser dada ao analisando a possibilidade de empreender essa viagem ou de não aceitar fazê-la. Por isso acredito que ao final das entrevistas, será necessário comunicar ao paciente de onde partirá a busca para aquele algo que, deverá ser o caminho por onde irá iniciar sua jornada “sem fim”, como o tal jogo de xadrez ao qual Freud compara a psicanálise(no texto “Sobre o Início do Tratamento – Novas Recomendações aos Médicos que exercem a Psicanálise – vol XII). E sugerir a ele(a) um tempo para que possa refletir e escolher pela entrada ou recusa da situação de análise. E só depois considerarei a análise iniciada com todas as considerações que se devo fazer em relação ao seu andamento, formulando seu contrato terapêutico que significa bem mais do que regras para dar forma ao “enquadre”.

Mas, aqui nesse texto, não vou falar da psicanálise em andamento, mas daquilo que penso a partir de minha atuação, ser o lugar que o analista ocupa dentro desse contrato terapêutico, e, como pode trabalhar a partir de uma desejada neutralidade, sem abdicar na contra-transferência, daquilo que ela tem de ferramenta de trabalho e não suas partes cegas que se aliam às resistências do paciente. Para isso estaremos falando de um(a) analista com longo processo terapêutico já empreendido, ou que pelo menos esteja em pleno curso dele, isso jamais poderá ser diminuído ou negligenciado.

Parto do princípio que a neutralidade se circunscreve naquilo que podemos chamar encaminhamento do desejo, o fluxo das associações do analisando e seus padrões de repetição, mas no que tange aos conteúdos que passam pelo real que é histórico e político, acho quase impossível manter-se absolutamente neutro, assim como no campo do afeto de interlocutor. Se isso posto, as sociedades psicanalíticas não teriam entrado em crise tão profunda, à época da discussão sobre a presença do Amílcar Lobo como psicanalista em formação em sociedade ligada a IPA do Rio de Janeiro, a partir do fato dele de forma comprovada, fazer parte de quadros médicos ligados a tortura na ditadura militar. Então, sabemos que a neutralidade se rompe em um processo dessa magnitude, ou ainda em outras menores, como por exemplo poderemos ter que enfrentar ao lidar com pacientes potencialmente suicidas ou portadores de doenças terminais. Então, coloco esses casos excepcionais, para tentar demonstrar que, quanto a suposta neutralidade, nem que seja por situações limites, não poderá defender uma posição da pretendida frieza de um cirurgião(se é que este também a possui).

Ao longo de meus anos de prática fui percebendo como atuar a partir de minha contra-transferência é sempre uma bússola bem mais precisa. Quem já não viveu uma sessão de sono avassalador, apenas naquela hora e não em outras do seu longo dia? Cito assim, um exemplo corriqueiro. Deixar disponibilizado o Inconsciente e seus conteúdos para a tarefa psicanalítica, fundamentada para o analista no conceito de “atenção flutuante” é dispor-se bem mais que a uma simples escuta e muito mais que manter-se isento. Ao mesmo tempo é entregar-se a um fluxo onde o outro diz para onde ir, onde minhas crenças pessoais ou limites estão suspensos como em um sonho, porque ali, naquele espaço, não serei eu a realizar. Isso dará isenção motora, mas não emocional. Dessa maneira considero que a experiência inteira de um psicanalista é “indizível”, e por mais que tenhamos a vontade de comunicá-la, não será possível. Esse lugar de analista é um lugar ao mesmo tempo muito preciso e ao mesmo tempo mágico, como diz tão bem Luiz Alfredo Garcia-Roza, em sua obra “Introdução a metapsicologia freudiana vols 1, 2 e 3”:

"A bruxa metapsicologia: é desta forma que Freud se refere à metapsicologia. A Bruxa, a feiticeira. E Freud, mais do que ninguém, acreditava na bruxa,posto que ela existe. E um sentido mais amplo,o termo metapsicologia designa o conjunto da elaboração teórica de Freud, a produção de modelos conceituais afastados da experiência, ficções teóricas a partir das quais a própria experiência é radicalmente transformada."

Mas, se há algo do qual estou plenamente convencida, é de que esse lugar não é neutro e nem tão somente idealizado(sujeito-suposto-saber), ele é habitado por preceitos próprios e que precisam ser compreendidos enquanto lugar da técnica, porém esta como universal, ao mesmo tempo que, absolutamente particular. Será algo bem mais próximo do que Winnicott fala sobre mãe “suficientemente boa”, esse talvez seja o lugar mais apropriado para fazer enxergar o desempenho que acredito ser a função de um psicanalista, voltando a ressaltar que talvez essa seja a característica que em minha prática procuro redirecionar.

Há um limite muito tênue entre uma atuação que se poderá chamar de invasora daquela que será participativa. Em ambas diremos que há a presença de um certo “acting” operado pelo psicanalista, a diferença é que o primeiro a faz convencido de que não o realiza, de que se mantém neutro, e, no segundo caso, irá operar a partir de elementos bem precisos e conscientes, ao mesmo tempo que disponibiliza parte de sua carga afetiva, compreendida e utilizada para o processo terapêutico, tendo como seu desejo, como falamos no texto anterior, a inscrição da meta da eficácia de seu trabalho, ou o objetivo de alcançar a proposta daquele contrato terapêutico que foi desenhado pelo mapa do desejo daquele que procurou aquela análise, o paciente ou analisando.

Penso ser pouco provável um psicanalista que nunca se emocionou com conteúdos de seu paciente, ou se comoveu e se alegrou com suas conquistas. Alguns fugirão do contato com esses conteúdos em si, presentes em seu trabalho; outros como acredito, tornarão isso parte integrante daquilo que entendem como sua tarefa. A principal dificuldade que encontro de defender tal postura, passa pelo uso equivocado e manipulador que a defesa dessa tese poderá trazer em seu bojo. Porém acontece, que tenho entendido que as maiores barbaridades que tenho tido notícias, sobre atuações pretensamente psicanalíticas, têm sido feitas em defesa de uma ausência e neutralidade fria e cirúrgica, porque se não está dito de onde parte, reforça a crença infantil na existência de uma verdade ou ideal de normalidade a ser alcançado. Entender, e deixar que o processo analítico faça compreender, que nenhuma verdade vem sem assinatura e que, com certeza, não se mostrará imutável de maneira única e para sempre, assim como muito menos, atenderá a todos e em todas as situações. Entender que esse movimento é próprio do amadurecimento psíquico. Que tudo que está vivo é flexível, como diria a sabedoria oriental, e que, o que só encontra a rigidez, será o que está morto,mesmo quando esse organismo permaneça vivo.

Posso esconder minhas impressões em pensamentos e minhas expressões faciais, sentada atrás do divã ou poderei fazer delas, ferramentas de minha tarefa, por exemplo. Já que não posso ter aquela face de “jogador de pôquer” pretendida por alguns profissionais psis. Então faço uma escolha que não irá custar-me pedaços daquilo que me identifica como quem sou, e de certa maneira, acho que isso seria uma recomendação técnica porque como disse Freud o mínimo que se deve para o paciente no processo de sua análise é que usemos de sinceridade. A dissimulação e as duplas mensagens foram com certeza, muitos fortes, nos motivos que os trouxeram para o divã.

A linha que dará a sensatez de tal escolha será dada pela capacidade analítica, o potencial do compromisso em relação ao desejar, nesse caso do contrato terapêutico, o desejar do outro que não se realizará em minha vida, mas na do outro com seus Outros e seus vínculos. A qual lerei, como a um livro muito interessante que está sendo escrito e que posso sugerir modificações para seu autor. Nada além disso.

A única ressalva que faço é que, essas características, daquilo que entendo como postura do psicanalista, propondo a troca da neutralidade por uma transparência comprometida, é que isso só será totalmente entendido e possível, depois de se ter construído uma profunda intimidade com todas as propostas mais tradicionais da técnica psicanalítica, inclusive e principalmente, pela passagem pelo divã. Mal comparando, diria que seria como as pinturas de Miró. Quem as aprecia, tem uma mínima noção do quanto se tem que ter acumulado de “saber” e manejo técnico, para poder se expressar daquela maneira “simples”. Mantive por anos em meu consultório, uma gravura desse artista, intitulada de “3 personnages sur fond noir” que ganhei de presente. Observá-la serviu-me para lembrar da complexidade que o aprofundamento nos remete e de como, quase sempre dentro desse processo de crescimento, vamos nos tornando menos máscaras e mais apenas o que somos, mesmo quando nossa tarefa é a psicanálise. Embora haja ainda hoje grande parte das linhas em psicanálise que defendam uma postura rigorosa e afastada, para que se exerça a função de psicanalista. Pode ser inclusive que, muitos digam então, que o que eu faço não seja psicanálise. Isso é bem possível, mas não é o que acredito que aconteça. Vou considerar, como o próprio Freud postulou, que entendo a função do psicanalista fundada na relação transferencial, por hora isso será o que considerarei suficiente.

Com esse texto, pretendo encerrar a primeira série que pretendi fazer, aqui nessa coluna. Na verdade se observarem bem os textos estão de certa maneira interligados e me permiti, neste aqui, repetir citações antes feitas para serem sublinhadas.

Acredito que a psicanálise, dada a crise que atravessa neste momento, esteja se afirmando mais uma vez, enquanto identidade, abandonando algumas crenças infantis e permitindo-se alguns passos que, ouso acreditar, a levarão até uma maturidade de sua atuação e conseqüente alteração na sua forma de inscrição e reconhecimento pela sociedade. Cada psicanalista atravessará essa crise acompanhado de todos os demais, mas também de alguma maneira, absolutamente solitário.


About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro “Cinematerapia – Entendendo Conflitos”.

Comments are closed.