Sobre Superego, Ego e ID

Eu havia dito, na coluna anterior, que algo na teoria winnicottiana substitui superego, ego e id. Essa é uma hipótese minha, Winnicott nunca disse isso. Mas Winnicott nunca disse muitas coisas, e os estudiosos têm que extraí-las das tantas que ele disse. Pelo que entendi do que li de sua obra, ele não gostava de brigar. Às vezes escrevia de modo eloqüente, mas não passava disso. Achava que sair por aí brigando era de mau gosto: ele era, afinal, um gentleman, e fazia questão disso. Já avancei certa vez a idéia de que ele próprio era um representante dessa espécie nova que ele descreveu – o also self, e por isso não gostava de brigar. Mas o que importa é o falso self, não se Winnicott era ou não era. E é justamente sobre isto que vou escrever agora.
Por suas observações de crianças e de pacientes, Winnicott concluiu que nem todo o mundo era igual. Alguns eram o que eram. Outros não. Não são o que são, ou, dizendo de outro modo, não são o que seriam caso tivessem crescido naturalmente. A meu ver, essa foi uma revolução na psicanálise (e um dia ainda o será nas ciências sociais, quando estas se derem conta da importância desse fenômeno).

A idéia é assim: quando alguém nasce, algo lá dentro – paralelo àquilo (ou talvez a mesma coisa) que faz o corpo crescer faz crescer também o psiquismo. Assim como o embrião vira feto, e o feto vira bebê, a psique vai se desenvolvendo e passando por etapas sucessivas. Em algum momento do primeiro ano de vida extra-uterina surge no bebê isso que chamamos self. Winnicott diz que o self surge em conseqüência de uma série de experiências, que resultam em algo indefinido mas muito sólido que chamamos ‘eu mesmo’. Não é uma ‘instância’, no sentido freudiano do termo. É… é…, bem, não consigo definir. E Winnicott também não definiu. Ele chegou a dizer, certa vez, que achava muito chato esse negócio de a psicanálise usar a palavra ego: por que não usar self, que todo o mundo (inglês, certamente) sabia o que significava, e em vez disso empregar um termo estrangeiro que precisava de definição?

É engraçado o paralelo entre essa questão e aquela que se poderia encontrar nos escritos de Freud: o mestre usou, em alemão, a palavra seele – que significa literalmente ‘alma’, mas seus tradutores para o inglês acharam feio e traduziram por ‘ego’. Bruno Bettelheim chegou a escrever um livrinho sobre isso… (Editora Imago, para quem quiser ler.) Cabe ou não especular sobre o preço que a psicanálise pagou por isso?

Bem, o fato é que o self resulta de uma sucessão de experiências cujo denominador comum (agora são palavras minhas) acaba sendo aquilo que o bebê – e por fim a pessoa – sente ser ele/a mesmo/a. Há uns dez anos cheguei eu mesmo a essa conclusão, depois de maturar por outros dez. E aí, cinco anos atrás, deparei-me com essa ‘definição’ que é de Winnicott, e que ele escreveu vinte anos antes… Chato, né?

Mas há dois tipos de self. O primeiro é aquele que resulta de experiências que têm origem na espontaneidade do bebê. O bebê sente algo, ou deseja algo, e faz um gesto. Esse gesto é captado, atendido, e o bebê tem o seu problema resolvido. Há um circuito, aí, uma ‘história’, com começo, meio e fim. E o começo é esse gesto espontâneo do bebê.

O segundo tipo é igualzinho, mas com uma diferença fatal: neste outro caso, o começo não é o desejo do próprio bebê, nem algo que ele sente, e sim o desejo da outra pessoa, a que cuida do bebê, ou algo que ela decide que o bebê precisa. Aparentemente a diferença é pequena: Onde já se viu bebê saber o que quer – ou o que precisa?

Bem, Winnicott afirma – e não se cansa de afirmar – que no primeiro caso teremos um ser humano real, e no segundo, não – teremos algo como um simulacro.

Explicação: O gesto espontâneo do bebê é, para Winnicott, a marca registrada daquilo que chamamos sujeito – aquele capaz de ser, capaz de agir, capaz de existir. Lacan chamou a isso de je. Na ausência do gesto espontâneo o que temos é um bebê que aprendeu a funcionar de acordo com a vontade da outra pessoa, porque ficou marcado pela presença dessa vontade em sua vida. A experiência desse bebê é a de que a vontade vem de fora, não de dentro dele.

Claro, nada disso é consciente. As essoas desse tipo juram de pé junto que a vontade que manifestaram é a sua própria. Mas essas pessoas simplesmente não sabem que não sabem que não é. Por isso acham que é. Mas, como dizia o Pasquim antigamente, se encostarmos o ouvido no peito de uma pessoa dessas ouviremos nitidamente bater um outro coração – o coração da mãe ou do pai da pessoa, de quem quer que dela cuidou na infância e que a marcou (para sempre, até que um terapeuta dê jeito) com essa outra vontade.

Um exemplo terrível disso – trata-se de um adulto sob tortura, bem diferente de um bebê sendo carinhosamente criado… –, encontramos no livro ‘1984’, de George Orwell: um homem, habitante de um país governado por uma tirania absoluta, a cuja testa está o ‘Grande Irmão’, que controla tudo na vida dos cidadãos (através de um aparelhinho diabólico, uma televisão que não pode ser desligada e que, além de transmitir os programas oficiais do governo, vê e ouve tudo que se passa na casa da pessoa).* Esse homem entra em contato com uma mulher que, vamos descobrindo aos poucos, é uma subversiva que inicia um processo de ‘re-educação’ com ele: informa-o de que nem tudo precisa ser como o governo diz, e assim por diante. Naturalmente ele se apaixona por ela, e naturalmente eles têm um caso, e naturalmente eles acabam presos. E então, na prisão, esse homem é submetido a um tipo de tortura tão terrível, mas tão terrível, que ao não agüentar mais ele começa a berrar: ‘A culpa é dela. Foi tudo culpa dela. Coloquem os ratos nela…’** e nesse momento a tortura acaba. Ele é devolvido à sua cela, e lá pelas tantas o libertam. E o livro termina com uma frase de gelar o sangue: “Winston ia para casa. Amava o Grande Irmão.’

(A primeira parte talvez não seja exatamente essa, mas não importa; a segunda – a última frase do livro, é exatamente assim.) Então? Você entendeu do estou falando? Sim, estou falando precisamente da interferência do adulto no desejo (ou na necessidade) do bebê, o que poderia ser resumido com a idéia da “substituição de uma mente por outra” – ou mais precisamente, de uma vontade por outra. A tal ponto essa substituição é total, que a ‘nova’ mente/vontade parece, àquele que a recebeu, ser inteiramente própria, pelo simples fato de que a coisa aconteceu num momento muito cedo, quando o bebê ainda não tinha uma noção muito real da sua própria vontade. Bom, hein? E o pessoal que brinca com a idéia de ‘lavagem cerebral’…

Então, o que Winnicott diz é que esse self transplantado pode ser chamado de falso. Falso não porque a pessoa o falsifica, mas sim porque ele não é o self original que teria se desenvolvido se quem cuidava do bebê tivesse se conectado com o gesto espontâneo dele. Ou melhor: se quem cuidava do bebê tivesse atendido ao desejo do  bebê, em vez de aplicar ao bebê o seu próprio desejo.

Assim, o que chamamos de falso self, segundo Winnicott, poderia muito bem, a meu ver, substituir a noção de superego proposta por Freud. O superego é o desejo do outro. Disso já sabemos. E o superego é o instrumento pelo qual a fonte dos desejos – o id – é controlado, policiado, reprimido. Ora, mas se o falso self faz exatamente isso, qual a diferença?

E há mais uma semelhança: Assim como o superego controla o id e submete o ego, o falso self, da mesma forma, leva a pessoa a agir como ela deve, não como ela quer. Para os leitores de Winnicott, então, o que chamávamos de superego poderia ser chamado de ‘falso self’, e o que poderíamos chamar de id agora pode ser chamado de ‘self verdadeiro’. O ego é o único que sobra, para Winnicott, da tríade freudiana, mas o que ele chama de ego é apenas o aparelho de comunicação de fora para dentro e vice-versa. (Winnicott, repito, nunca disse isso. Esta é uma modesta contribuição minha aos estudos winnicottianos.)**

Machado de Assis é, a meu ver, o Grande Mestre do falso self. Alguma dúvida? Ah, você não lê Machado há muito tempo? Então pegue e releia algumas coisas dele, porque eu aposto nisso. Só não sentei para escrever um trabalho sobre isso porque não tive tempo nem energia nem paciência.
Bem, o que eu queria dizer é que superego, ego e id são noções muito boas para falarmos de pessoas que funcionam a partir do self falso. Pessoas que funcionam a partir do self verdadeiro não precisam disso. Nelas as três instâncias estão integradas. E a palavra integração será o tema do próximo capítulo.

Até lá.

* – Daí o ‘Big Brother’, o programa em que a gente vê tudo que se passa na casa em que estão os atores, perdão, os personagens… Ah, você não sabia que o seu programa favorito tem uma origem tão horrível, não é? Pois bem, está vendo como vale a pena conhecer Winnicott?

** – Os ratos aparecem na história porque a tortura a que Winston é submetido é assim: Colocam-no sentado numa cadeira, todo amarrado. Sobre a sua cabeça colocam uma grande gaiola que envolve a cabeça inteiramente. Dentro da gaiola há alguns ratos enormes, e entre os ratos e o rosto de Winston há algumas portinholas. Os torturadores vão abrindo as portinholas uma atrás da outra, enquanto advertem Winston: “Esses ratos não comem nada há três dias. Se você não colaborar vamos abrir a última portinhola e eles vão devorar o seu rosto inteirinho até você morrer de dor.”

Advertência: Não faça a experiência em casa com o seu irmãozinho. Você não foi treinado para fazer funcionar esse brinquedinho.

*** – Ah, sim, se você está se perguntando onde fica o superego na pessoa regida pelo self verdadeiro, saiba que você fez uma ótima pergunta. É que, segundo Winnicott, o self verdadeiro amadurecido não precisa de tanto superego: Ele próprio é dotado da capacidade de perceber o outro e suas necessidades – através de um mecanismo que Winnicott chamou de concern – ou ‘concernimento’, em português.

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