A técnica psicanalítica

Pretendemos iniciar a partir desse texto, uma abordagem da questão da técnica em correlação com a atualidade do movimento psicanalítico. Assunto complexo, porque além de trazer variações de perspectivas, podem ainda gerar um certo divergir dentro desse próprio movimento.

Para pensarmos em alguma variação da técnica psicanalítica teremos que primeiramente entendê-la em sua forma mais clássica e tradicional. Depois poderemos perguntar se realmente haverá possibilidade de propor-se alguma alteração em seu uso, ou se poderemos, como defendem alguns, importar técnicas sem perder as características que fazem da psicanálise, o que ela é, a fala do Inconsciente e esse o do analisando.

Deveremos saber de antemão que, não encontraremos uma linha fechada em relação a isso, há grupos e correntes que acreditam nessa possibilidade de variação da técnica, e ainda outros, que chamam de psicanálise apenas aos que seguem a variação clássica dessas orientações. A dificuldade de empreender essa análise, também irá partir do fato de, como sabemos, a psicanálise não possuir de maneira formalizada uma “teoria da técnica” e ter proposto pouca variação em suas considerações sobre o uso da técnica inicial. Alguns nomes, para a possibilidade desse debate, foram historicamente fundamentais como Sándor Ferenczi, Winnicott, Einrich Racker entre outros, esse último sublinhando e trazendo para o debate, a fundamental questão da transferência e contra-transferência no setting, e sua possibilidade de utilização.

Para iniciarmos essa proposta de debate, colocaremos aqui algumas considerações e aguardaremos, se possível, outras para tentar montar um painel de diferentes posicionamentos sobre essa questão.

Em uma entrevista, o psicanalista Gregório Baremblitt levanta questões interessantes na atualidade, sobre o crescente aparecimento de novas técnicas, que se tornam a cada dia mais numerosas, essas, fora do contexto psicanalítico, discorre ele também acerca da possibilidade de importação de algumas, para serem integradas de alguma maneira, dentro desse campo. (link no final da coluna). Um bom exemplo desta possibilidade, talvez possa ser encontrado no Psicodrama Psicanalítico ou mesmo na corrente da Análise Institucional.

Destacando uma das falas dessa entrevista:

“Então, eu acho que essa proliferação atual de propostas não pode ser desqualificada de entrada. Temos que ver o que se pode tomar de cada uma delas para construir um dispositivo que recupere esse senso de totalidade provisória que tinha a cerimônia primitiva, de multi e transdeterminação e de polimorfismo técnico. Esse é o lado positivo dessa proliferação que fundamenta minha proposta de conhecer cada proposta”.

“O problema é que cada uma dessas tendências, que tem sua leitura teórica em geral, específica e sua parafernália técnica, interpreta o mundo inteiro a partir de seu prisma. E exclui as outras. Então comete grossos erros, entre eles o reducionismo”.

E o que faz a psicanálise enquanto método com sua técnica? Vamos sustentar nossas afirmações a partir de uma obra que, costuma ser aceita, por quase todas as correntes dentro da psicanálise, para tentarmos partir de algo razoavelmente em comum. Vejamos:

Otto Fenichel nos diz em sua obra “Teoria Psicanalítica das Neuroses”: “Ora, que é que faz o analista? Ajuda o paciente a eliminar suas resistências tanto quanto possível. Pode aplicar vários meios, mas o fundamental é que o analista chama a atenção do paciente, que não percebe em absoluto ou percebe insuficientemente suas resistências, para os efeitos destas. Sabedor de que as verbalizações do paciente são, de fato, alusões a outras coisas. O psicanalista tenta deduzir o que está por trás das alusões e dar esta informação ao paciente. Quando existe um mínimo de distância entre a alusão e aquilo a que se alude, o analista dá-lhe palavras com que exprimir os sentimentos que estão no momento vindo à tona e, desta forma, facilita a conscientização respectiva”.

Pensamos que a forma como Fenichel descreve a questão da atuação do psicanalista é bastante precisa, ao mesmo tempo em que, delicadamente, faz entrever todas as questões que se levantam a partir dessa aplicação da técnica. Descrevendo parece algo bastante simples, de aplicação concisa e precisa, mas sabemos quantas outras questões, podem ser levantadas a partir disso, de dentro da perspectivas das várias correntes existentes nos seio da psicanálise. Algumas dessas indagações, já abordamos em outros textos daqui dessa coluna.

Ao pensarmos a psicanálise teremos que fazer um retorno no tempo, ler com atenção o que ficou dito por seu inventor, autor e pesquisador inicial, que foi Sigmund Freud. Ele nunca fechou a questão da utilização da técnica, muito menos circunscreveu a psicanálise a sua atuação clínica, pelo contrário, deixou em aberta a possibilidade dela ser aplicada em diferentes campos ou integradas a outras ciências, linhas de pesquisas ou outros modelos de formulação de pensamentos. E, talvez esse seja um dos maiores encantos da moça Psicanálise.

Quantos já não se sentiram enlevados lendo ou ouvindo, um psicanalista bem formado, discorrendo sobre as nuances de uma obra literária ou um de uma produção cinematográfica? Costuma ser fascinante tal aventura psicanalítica. Se pensarmos toda produção humana como a produção do desejo, então poderemos pensar que, talvez, a psicanálise possa lançar sua trama conceitual, para bem mais longe que as portas das Clínicas, mas isso com certeza não é novidade, inúmeros autores já falaram sobre o tema.

Conta-nos Renato Mezan, que poderá ser lido no link postado, ao final desse artigo:

Da mesma forma, é preciso combater a ignorância de certos analistas que, encastelados no santuário de seus consultórios, renunciaram à curiosidade e ao desejo de aprender algo novo sobre questões tão próximas de sua seara, com isso se condenando à repetição do já sabido e ao estiolamento da sua prática”.

É a partir de uma concepção muito próxima ao que ele diz nesse parágrafo que tentaremos pensar junto. Esse é o convite para esse e para os próximos textos. A tentativa é difícil, mas se não pudermos fazer isso aqui e acolá, que tipo de adestramento poderemos produzir nesse campo? Esse tem sido o principal mote dessa coluna, questionar o que chamaremos de “engessamento” do psicanalista.

Como poderemos refletir, ou por enquanto, apenas imaginar, uma diversificação da aplicação da técnica psicanalítica? Talvez, como nos sugere Gregório Baremblitt, importando de inúmeras outras linhas de pesquisa, algum arsenal que se mostre não concorrente ou redutivo do constructo teórico da Psicanálise.

Pouco provável é que, hoje, se trabalhe cotidianamente obedecendo criteriosamente e rigorosamente, aquilo que conhecemos como “Sobre o início do tratamento”, “Recomendações aos Médicos que exercem a psicanálise” etc. Isso sem levar em conta a discussão em torno do divã, que poderá ser encarado como uma “variação da técnica” ou regra do enquadre de acordo com a corrente que dele “fala”. Há, mesmo que não seja dito, ou divulgado, uma diversificação da técnica psicanalítica acontecendo a cada nova sessão, com cada um que se percebe como psicanalista. Se isso não é falado, pensamos ser muito mais por algo que Maud Mannoni nos mostra em seu livro “Da Paixão do Ser À Loucura de Saber”, que tem relação com uma questão que é narcísica no analista e que está fundamentada em uma hostilidade e rivalidade inerente às instituições psicanalíticas. Diz ela:

“Seria da ordem da utopia a questão de uma comunidade analítica passível de acolher a criação, a invenção e a novidade? O que parece utópico é sonhar com um grupo sem tensões, desconhecendo, com isso, o que está em ação em todos os grupos: a pulsão de destruição, o ódio, a ambivalência e a rivalidade” (pág. 129).

Nos conta ela também, da necessidade que Winnicott teve de afastar-se dos institutos, para manter-se trabalhando naquilo que identificava como “pulsão criadora” e que, para ele, estaria necessariamente ligada, a perda do sentimento de onipotência. Esse afastamento foi o preço que pagou, para preservar sua liberdade e independência, segundo a autora.

Então veremos que construímos, de certa maneira, toda uma resistência para apresentar ou defender uma variação da técnica psicanalítica, não como se isso diminuísse a psicanálise, mas sim, àquele que ousa enunciar e anunciar esse “segredo”. Enquanto isso, outras linhas menos “virtuosas”, produzem uma verdadeira parafernália que chamam de técnica, e, muitas vezes, também querem chamar de psicanálise, embora tendo noção, mesmo que vaga, do quanto isso é uma impostura.

Como nos diz Mannoni, que já nos mostrava com antecedência o atual panorama, diz ela:

““ O paciente, com efeito, viu-se esvaziado por um certo discurso psicanalítico. O entusiasmo pelas novas terapias está ligado, assim, ao desinteresse dos analistas experientes por uma nova clientela de pacientes, menos conformada aos esquemas clássicos da neurose, pacientes que estão mais próximos de uma crise de adolescência interminável, mais vulneráveis no plano de uma fragilidade narcísica (borderlines [fronteiriços]) ““.

Renato Mezan afirma, com certa freqüência que, há toda uma necessidade dessas novas gerações de psicanalistas produzirem escrita, e isso tem sido feito com maior freqüência, mas pensamos que ainda se apresenta uma certa resistência, que reflete algo que não é só um fenômeno brasileiro, mas da psicanálise como um todo, resistir a produzir textos que contenham questionamentos sobre a utilização da técnica ou sobre cortes possíveis onde se possa pensar em sua variação. Talvez pelas considerações feitas por Mannoni acima citadas. Nos fala ainda essa mesma autora, da importância da narrativa do psicanalista sobre seu atendimento, o que envolve, necessariamente, o desvendar do como se dá sua utilização da técnica:

Diz Mannoni:

“Aprender a falar do trabalho feito com um paciente é chegar a situar de que maneira o analista está pessoalmente implicado no tratamento”.

A partir do reconhecimento da necessidade desse “falar do seu trabalho” para a prática da psicanálise, poderemos pensar como o debate sobre técnica e Formação de Psicanalistas acabarão sendo atravessados um pelo outro, até talvez, misturar-se de maneira não mais identificável de suas características individuais entre os temas. Ousamos sugerir que, será preciso pensar em grupos de “troca de idéias”, algo mais informal que uma supervisão e menos histórico-individual que uma análise didática, esse espaço seminário, talvez ao modelo das quartas-feiras de Freud, poderiam ser pensados como espaços onde esse debate poderia ocorrer, mas para isso teríamos também que trabalhar os dispositivos institucionais envolvidos nisso. Um espaço paralelo e permanente. Talvez propor algo, como os grupos operativos, com a finalidade de debate e onde o foco hostil estivesse sempre sendo evidenciado e se possível, reintegrado de outra maneira pelo grupo, cuja tarefa, seria muito mais relatar e discutir novas modalidades, não apenas estudar e aplicar as indicações e prescrições do método, organizados na técnica analítica que funciona muito bem, mas poderá ser, pelo menos revisitada vez ou outra, com alguma coragem. Essa não seria uma experiência nova, mas o que vemos sendo feito, acaba se constituindo como um mero grupo de discussão, onde o “engessamento” é reforçado e a “pulsão criadora” continua impedida. Veremos então, que resultados não serão alcançados pela mera colocação desses dipositivos, embora acreditemos que as instituições que os promovam hoje poderão ainda dispor, de um espaço onde tudo isso possa ganhar carga; as que não o possuem, talvez estejam um pouco menos inseridas nesse debate.

Percebamos, então, que muitas são as questões que abordam diretamente uma explicação ou questionamento sobre a técnica prevista e indicada pelo constructo teórico e o método psicanalítico, e, nesse infindável tema, nos debruçaremos daqui pra frente. Contamos com a participação de todas as formas que se escolha aqui estar.

“Assim a resistência deve ser entendida, em primeiro lugar, do lado do analista. Mas a função deste consiste menos em informar o paciente do que em evocar nele novas possibilidades de dialetizar seu pensamento. É através do erro que o paciente progride, é através do engano que acede a uma verdade de sua história, uma verdade recalcada, rejeitada e não integrada até que se opere, na análise, um desvendamento, e que, além da simples” vivência “do sujeito, o tempo apropriado à duração da repetição permita que se instaure uma dimensão simbólica que transcenda a relação imaginária na qual, ainda e com demasiada freqüência, trancafia-se a análise da transferência e da resistência (Mannoni)

Esse não é, como foi dito já aqui, um tema original, mas está proposto como tentativa de pensar essa psicanálise em seus contextos brasileiros, repletos de características próprias e que atende a uma população que traz traços culturais para o divã bastante identificador e também constituinte de suas instâncias do psiquismo. Se a psicanálise propõe um método que é universal, sem dúvida nenhuma, talvez possa adequar a aplicação da técnica a partir de uma análise que partirá de seu seio mesmo, não cedendo apenas a pressões de mercado e sobrevivência de sua prática.

Até já!

 

Link para artigos citados:

Gregório Baremblitt

http://crpsp.org.br/a_acerv/jornal_crp/105/frames/fr_entrevista.htm

Renato Mezan

http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs20/artigo2007.htm

 

Obras citadas:

· Da Paixão do Ser À “Loucura” de Saber – Maud Mannoni

· Teoria Psicanalítica das Neuroses – Otto Fenichel

· Recomendações aos Médicos que exercem a Psicanálise – S. Freud – Obras Completas – vol XII

· Sobre o Início do Tratamento – – S. Freud – Obras Completas – vol XII

 

 

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro “Cinematerapia – Entendendo Conflitos”.

Comments are closed.