Psicologia do Destino de Szondi – parte III

Nova orientação ao problema da Cisão do Ego

Considerações gerais

O fenômeno a que, em 1911, Eugen Bleuler deu o nome heurístico de cisão do ego, já figurava na literatura com denominações diferentes, tais como "dissociação", ''desintegração da consciên­cia" (Gross), "disjunção" (Wernicke). Esses termos hoje desa­pareceram. Também com a expressão homônima "cisão da auto-consciência" (Foersterling), que significava um aumento da perturbação psicomotora, não se podia iniciar muita coisa. Por uma determinação conceitual mais clara devemos agradecer em primeiro lugar a Bleuler que, rebatizando a "dementia praecox" (Kraepelin) de esquizofrenia, como psicose de cisão, obteve fundamento sólido para a idéia de cisão ego.

Bleuler discriminou duas classes de cisão: uma primária, na qual associações de pensamentos concretos, firmemente liga­dos, separam-se; .outra secundária na qual um complexo de idéias, acentuadamente afetado, se define cada vez mais e, com firmeza, alcança na vida psíquica uma autonomia sempre crescente.

Com a denominação de esquizofrenia queria Bleuler atin­gir as duas classes de cisão porque freqüentemente se fundem numa só. As características da esquizofrenia são especialmente, na opinião de Bleuler:

(1) a falta de inibição;

(2) o autismo, em conseqüência da falha da inibição, idéias incompatíveis podem coexistir. Por exemplo, o esquizofrênico pode ver simultaneamente numa mesma pessoa seu inimigo Y e o médico X; como conseqüência do autismo, o paciente substitui a realidade, desagradável para ele, por um mundo irreal do desejo.

Duas outras importantes afirmações de Bleuler ficaram quase esquecidas. Afirmou em primeiro lugar que os fe­nômenos de cisão não são próprios somente da esquizofrenia; também a psique sadia, tanto na vigília, quanto no sonho pode cindir seu ego. Na opinião de Bleuler, a cisão esquizofrênica deveria ser definida simplesmente como exagero de um fenômeno fisiológico que separa (cindente). Disse ainda Bleuler que, em certas circunstâncias, a cisão fisiológica dos complexos pode acarretar indistintamente cisões histéricas, epiléticas, autísticas e paranóides. Fenômenos de cisão podem, conseqüentemente, surgir também em outras afecções. Segundo Bleuler, é de supor que o esquizóide venha a cindir-se demais; o sintônico, na me­dida exata; o epilético, pelo contrário, insuficientemente.

Com base nessas duas notáveis afirmações de Bleuler (que, na opinião de Szondi, ainda não teriam sido bem analisadas), de 1937 a 1963 Szondi estudou a cisão do ego em indivíduos sadios e em doentes mentais, em primitivos e civilizados. E isso por meio da Análise Experimental do Ego, da observação clínica e, em parte, também pela psicoterapia analítica e análises oníricas.

O exame dos casos clínicos, em 1956, deu-nos a oportunidade de verificar para que grau anterior de cisão costuma regredir muito freqüentemente o ego dos pacien­tes dos diferentes grupos. Essas análises experimentais do ego, realizadas em 3341 casos, nos estimularam a idealizar uma Teoria Funcional do Ego e a tornar exeqüível, com auxilio dessa teoria, uma nova orientação para o problema das cisões do ego.

Cisões do Ego à luz da Teoria Funcional do Ego

De conformidade com essa teoria, o ego não é um órgão anatomicamente localizável, nem um aparelho psíquico (Freud), mas um conjunto de quatro funções elementares que deno­minamos "radicais do ego". Esses quatro radicais congênitos do conjunto ego-funcional são:

(1) a participação, isto é, a tendência a formar com o outro o ser-uno, o ser-igual. Conduz, por projeção do poder próprio do ego, à formação de unidades duplas. Isto é, à vida do ego no outro (unidade mãe-criança, clã-solidariedade). Após a desintegração dessa dupla unidade participante, a mesma tendência funciona como projeção secundária, como extravaza­mento do poder próprio do ego sobre outras pessoas que, depois, prejudicam ou até perseguem o indivíduo projetante. É também o estado de impotência próprio do ego na paranóia proje­tiva (mania de perseguição);

(2) a inflação, isto é, a tendência do ego à duplicação de seu poder, portanto, o querer ser ambos-e-tudo, a "ambitendên­cia", na definição de Bleuler. Também se chama inflação à obsessão, por duas tendências opostas, que agem ao mesmo tempo, mas sem se unir, nem excluir-se. Tal estado correspon­de à cisão primária (Bleuler). Poderíamos também denomi­nar de "autismo no ser" a conseqüência da inflação; cujo con­teúdo pode variar de objeto e de intensidade. Por exemplo, desejar ser simultaneamente homem e mulher, diabo e anjo, se­nhor e servo, criança e líder, homem e animal. A isso denomi­namos inflação, segundo Jung. Domina na paranóia inflativa (megalomania);

(3) a introjeção, isto é a primitiva tendência do ego à tomada de posse, à incorporação e à capitalização dos objetos de valor, das idéias de valor e de todos os conteúdos de valor e de poder do mundo exterior e interior. Em resumo: a urgência de tudo possuir e de tudo saber. A função fisiológica da introjeção é de servir de ponte para a percepção externa e in­terna. A forma doentia e o autismo, em relação à posse, isto é, a alucinação, o "pensamento mágico", na qualificação de Bleuler para a esquizofrenia;

(4) a negação, ou tendência elementar do ego para es­quivar-se, para a negação, a inibição, o recalcamento. A for­ma doentia se chama negativismo, desvalorização total, desespero, encarceramento do ego, a autodestruição na catatonia e o suicídio.

As quatro funções radicais da psicopatologia não se restrin­gem a um conjunto de funções cognominado "o ego", mas fo­ram sempre consideradas isoladamente, de modo independente. A Análise Experimental do Ego provou, porém, que essas quatro funções elementares se interligam em sucessão regulada num movimento circulatório. Representam quase que "estações", tanto no desenvolvimento quanto na vida pos­terior do ego. Estações que têm de ser percorridas por todas as manifestações instintivas, percepções internas ou externas e re­presentações que afloram ao psiquismo. Já em 1947, podía­mos comprovar que também a evolução fisiológica do ego segue caminho idêntico ao da circulação: (1) participação-projeção; (2) inflação; (3) introjeção; (4) negação ou adaptação.

O citado movimento circulatório tem, na patologia do ego, uma importância especial. Poderíamos demonstrar que cada cisão do ego se produz devido à parada do movimento circula­tório numa "estação", ou seja, numa função elementar do ego.

Melhor dizendo: cisões do ego não se originam da divisão de "conteúdos", mas da falha, da paralização de determinadas fun­ções elementares. A natureza especial das funções do ego res­tantes, após o desligamento e uso exagerado, determina sempre, também, a natureza específica dos sintomas psicopatológicos. Se queremos definir melhor a expressão "cisão", devemos falar de "cisão das funções elementares ou das tendências elementares do ego". As funções cindidas, porém, desapare­cem exclusivamente do primeiro plano. Em verdade permane­cem ilesas no plano de fundo e podem, ocasionalmente, reinte­grar-se ao movimento circulatório ou, através da inversão da rotação das peças cindidas, ocupar solitárias o cenário da vida do ego.

Nessa teoria do movimento circulatório das quatro funções elementares do ego, têm lugar muito importante a integração e desintegração.

lntegração é um estado em que as funções elementares perfazem seu circuito conforme a regra, sem parada demasiado longa, ou seja, sem falha; melhor explicando: independentemente da qualidade do conteúdo psíquico existente. Isto significa que a vida do ego é integrada se todos os seus conteúdos (sejam manifestações instintivas ou representações e idéias) percorrem seu circuito, da projeção e da introjeção à negação. Na inte­gração, nenhuma das quatro funções elementares falta. Todas são capazes de ação.

Desintegração, pelo contrário, indica um estado no qual as quatro funções elementares estacionaram e, conseqüentemen­te, os conteúdos do psíquico percorrem o circuito compulsiva­mente, "sem ego", ou seja, no estado crepuscular (por exemplo, ataques crepusculares e epiléticos).

Com essa teoria puramente funcional, que examina em pri­meiro lugar as cisões das funções do ego, e não os conteúdos deste (ao contrário de Freud) tenta-se responder às per­guntas que a seguir formulamos: como se dá a cisão das quatro funções elementares do ego nos indivíduos primitivos (negros selvagens), nos civilizados e nos doentes mentais?

Cisões do Ego nos Primitivos

O arquivo da lnternationale Forschungsgemeinschaft für Schicksalspsychologie (Sociedade Internacional de Pesquisa da Psicologia do Destino) de Zurique, dispõe de mais de 100 aná­lises experimentais do ego com o teste Szondi, referentes a negros selvagens da África Equatorial. Foram realizadas por Percy, então médico-chefe da Instituição Albert Schweitzer, me­diante exames feitos nos acompanhantes sadios dos doentes trata­dos no hospital da floresta virgem, em Lambarène. Os exami­nandos vinham da selva e eram selvagens. Estavam entre eles membros das tribos primitivas de Fang, Galoa, Akele, Massan­go, N'komi e Esfiha. De 100 negros, 42 eram portadores de uma cisão projetiva de participação, total; 72% deles apresen­tavam uma combinação de cisões, predominando a projeção. A cisão do ego desses primitivos era idêntica àquela encontrada (entre os civilizados) nos paranóicos com mania de perseguição, delírio egocêntrico, delírio de interpretação e delírio de reivin­dicação.

Entretanto, os 100 negros examinados (também na condi­ção de membros da primitiva sociedade aldeã) eram indivíduos totalmente sadios, não esquizofrênicos, apresentando cisões psi­cológicas (do ego) justamente porque viviam com exagero a função sob forma de uma extrema solidariedade com o clã. E, sobretudo em unificação total (do ego) com seus animais totê­micos, suas plantas totêmicas, como era próprio de sua religião. A anulação das três outras funções do ego, a saber inflação, in­trojeção e negação – tão importantes para o homem civilizado – não fazia adoecer sua psique primária.

Esses resultados provam duplamente:

(1) que Bleuler ti­nha razão quando admitia serem fisiológicas as cisões, mesmo nos homens primitivos;

(2) que nos primitivos uma projeção total pode levar a uma sadia solidariedade com o clã e à religião totêmica, enquanto em povos cultos, a mesma cisão do ego con­duz a delírios fantasmagóricos e alucinações. O julgamento das conseqüências de uma projeção está, portanto, ligado a deter­minada época da civilização.

Cisões do Ego em Civilizados­

Por carência de espaço; temos de desistir da explanação sobre o processo de evolução das cisões do ego nas diversas fases cronológicas da vida humana. Neste momento, tratamos so­mente dos tipos de cisão do ego de dois grupos de adultos: o do homem comum e o dos homens mentalmente sublimados:

(1) Qualquer indivíduo adulto pode cindir o feixe das quatro funções do seu ego, de tal modo que, em vigília, atue apenas a parte cindida constante de projeção e negação. Essa parte cindida caracteriza-se como "adaptação social". Na consistência psíquica do ego, essa adaptação significa um estado de renúncia (negação) às extrapoladas (projetadas) pretensões do desejo.

A outra parte cindida, posta fora de ação, compreende o ser-tudo (inflação) e o ter-tudo (introjeção).

Para ser um homem socialmente adaptado é indispensável renunciar ao ter-muito e ao ser-muito. Freqüentemente tal adaptação tem início no 9º ao 10º ano de vida. Na média da popu­lação, porém, só paulatinamente atinge sua freqüência máxima (54,2%). À freqüência da adaptação apresentam curva sem­pre ascendente: entre 13 e 20 anos de idade, 22%; 21-30 anos, 28,3%; 31-40 anos, 29,1%; 41-60 anos, 40,3%; 61-70 anos, 43%; 71-80 anos, 54,2%.

Na evolução do homem primitivo a civilizado, o passo de­cisivo consiste, portanto, em por em ação a função de negação, a renúncia às projeções do desejo.

O homem selvagem, supostamente sem pretender renunciar a essas projeções, as satisfaz completamente, em vigília, pela participação e unificação com seu totem e seu clã. O civiliza­do, ao contrário, só no sonho as satisfaz.

(2) O homem sublimado põe em ação, num movimento circulatório contínuo, todas as funções elementares do ego; to­dos os conteúdos da psique as percorrem; os conteúdos do ego, porém, só passageiramente, durante uma breve pausa, permanecem numa das quatro estações. Esses grupos humanos sem cisões do ego são raros. Com maior freqüência, encontramos o denominado "trabalhador intelectual compulsivo" que cinde so­mente a função de projeção e, pela sujeição ao trabalho, dá um cheque-mate em sua obsessão (inflação) ou a contenta parcialmente. 

Cisões do Ego em doentes mentais

Nossas pesquisas confirmaram experimentalmente a tese de Bleuler relativa à existência de uma cisão fisiológica do ego em homens tanto primitivos, quanto civilizados sadios. Mas, con­firmaram igualmente sua opinião de que os fenômenos de cisão podem ocorrer não apenas no grupo das esquizofrenias, mas tam­bém em afecções psíquicas de outro tipo. Pelo exame clínico­-psicopatológico, relativamente numeroso, de 1087 casos de diversos países, pudemos separar oito tipos diferentes de cisões do ego e verificar a relação especial dessas cisões com determinados qua­dros mórbidos.

Na enumeração dessas oito formas de cisão, procedemos de modo a indicar sempre, em relação às duas partes cindidas do ego, tanto as funções clinicamente atuantes quanto as cindidas, com suas respectivas manifestações clínicas e fisiológicas.

Formas de Cisão no Grupo das Esquizofrenias

Neste grupo foram encontradas quatro formas diferentes de cisão do ego:

1ª forma: cisão projetiva-varanóide:

(a) a parte cindida, clinicamente atuante, põe em ação somente a projeção total; o quadro clínico indica uma paranóia projetiva, isto é, mania de perseguição, delírio de observação, delírio de reivindicação; paranóia de base epilética, segundo Buchholz (1895) e Seidel.

(b) a parte cindida, situada no plano de fundo, põe fora de ação a inflação, a introjeção e a negação; essa parte condi­ciona o chamado "ego do trabalhador compulsivo", que pode aparecer após um acesso projetivo-paranóide; com certa freqüência, pode acontecer uma rápida permuta das duas partes cindidas, de modo que mal pode ser notada a fase paranóide; a cisão projetivo-paranóide apresenta-se em seu desenvolvimento como ego precoce "participativo", em forma de unidade mãe/­criança; outrora, quando ainda existia o "homem selvagem", encontrávamos em 42% dos primitivos, como dissemos atrás, a cisão projetivo-paranóide do ego.

2ª forma: cisão do ego inflativo-paranóide, inflativo-epilep­tiforme, histérico-inflativa e hebefrênica:

(a) a parte cindida clinicamente atuante põe em ação somente a obsessão, a inflatividade; os sintomas clínicos são:

(1) megalomania, delírio re­ligioso, erotomania, delírio de reivindicação;

(2) obsessão epi­leptiforme do tipo de ataques com idéias delirantes sobre a morte ou a religião;

(3) obsessão saltitante, incoerente, histeriforme, teatral-patética, freqüentemente retalhativo-hebefrência com idéias megalomaníacas;

(4) escroqueria hebefrência, falsifica­ção;

(5) mania inflativa.

(b) a parte cindida põe fora de ação a projeção, a introjeção e a negação; essa parte cindida costuma freqüentemente fazer as vezes da obsessão, apresentan­do os sintomas clínicos da evasão epileptiforme (fuga), da dro­momania (ou, poriomania), da epilepsia retroflexiva, ou também de genuínos ataques epiléticos. A forma inflativa de cisão pode aparecer fisiologicamente, enquanto evasão, em crianças de 5 a 6 anos de idade; mais tarde, na adolescência (17 a 18 anos de idade).

3ª forma: cisão do ego autística, introprojetiva e introjetiva:

(a) a parte cindida, clinicamente atuante, é o ego introproje­tivo que põe em ação a projeção e a introjeção; na psicopatologia, isto se chama autismo; psicologicamente acontece o seguinte: os desejos inconscientes não são transferidos a pessoas do meio­-ambiente – como na paranóia projetiva – mas, ao próprio ego; todas as pretensões do desejo são incorporadas, introjetadas, ou seja, afirmadas; em conseqüência, o doente ultrapassa os li­mites da realidade, tem alucinações, age de maneira autista, in­disciplinada (Bleuler); no início da melancolia, o ego tam­bém sofre uma cisão autista, porém, enquanto o esquizofrêni­co autista é onipotente em relação a "ter", o melancólico torna­-se impotente por uma autodesvalorização, auto-inculpação e delírios de auto-acusação e de indigência; contudo, é tão autista quanto o esquizofrênico, só que forma idéias delirantes negativas com as quais se coloca igualmente acima dos limites da realidade.

(b) a parte cindida põe fora de ação a inflação e a negação; essas duas funções do ego condicionam a "ini­bição". Autismo e inibição são sintomas clínicos de partes cindidas opostas. A Análise Experimental do Ego pôde também aí confirmar as afirmações de Bleuler. A forma autis­ta aparece fisiologicamente no período infantil de obstinação, e porque freqüentemente a cisão introjetiva pura, sem projeção, pode levar ao autismo, é também chamada de tipo introjetivo de cisão – o oposto dela é a despersonalização.

4ª forma: cisão do ego negativo-catatônica:

(a) a parte cindida clinicamente atuante põe em ação, nas psicoses, somente a exagerada negação e a destruição; nas neuroses, ao contrário, o recalcamento e a evitação neurótica; o grave negativismo aparece clinicamente na esquizofrenia catatônica, na mania e no suicídio;

(b) a parte cindida põe fora de ação a introje­ção, isto é, as idéias delirantes projetivas, inflativas e introjeti­vas; supostamente, a negação catatônica dos psicóticos é uma espécie de tentativa de cura espontânea da paranóia e do autis­mo; nos neuróticos, o recalcamento assegura certa pro­teção contra a aceitação da homossexualidade egodistônica e a solidão. Fisiologicamente, a cisão de negação aparece, sobre­tudo como recalcamento da primeira infância (3 a 6 anos de idade), depois, na pré-puberdade (9 a 12 anos).

As quatro formas de cisão mencionadas permitem distin­guir, no grupo das esquizofrenias, quatro formas nosológicas:

(1) a paranóia projetiva;
(2) a paranóia inflativa;
(3) a esqui­zofrenia introjetivo-autista;
(4) a esquizofrenia negativo-cata­tônica.

Formas de Cisão no Grupo das Epilepsias­

Como nota preliminar, frisamos que as perturbações epi­leptiformes do ego podem também aparecer nos tipos de cisão esquizofrênica, pela inversão do movimento de rotação das par­tes cindidas. Os dois tipos de cisão paroxística seguintes pos­suem uma conotação especial, pois primária é a perturbação epileptiforme do afeto e não a perturbação do ego. A menta­lidade assassina de Caim e o conteúdo dessas perturbações do afeto causa, secundariamente, as cisões do ego.

5ª forma: despersonalização paroxística, condicionada pelo afeto:

(a) a parte cindida clinicamente atuante põe em ação, sincronicamente, três funções do ego: a negação, a inflação (com inibição) e a projeção; o fenômeno que resulta desse fato é a despersonalização epileptiforme e hístero-epileptiforme; caso a negação se transforme em autodestruição, forma-se o quadro clínico da despersonalização caracterizado por crises de dipsomania episódica, pelo suicídio e freqüentemente também pela histeria e depressões crônicas;

(b) a parte cindida põe fora de ação a importante função do ego que escapa ao mundo da percepção: a introjeção; na psicologia do ego, a desperso­nalização é definida como conseqüência de um desligamento da introjeção condicionado pelo afeto; portanto, como conseqüên­cia do desligamento da ponte da percepção ligando o exterior ao interior; com o desligamento da introjeção, falham também todos os conteúdos incorporados: conhecimento, memória, ima­gens mnésicas motoras e senso-motoras; já em 1911 se referia Bleuler à cisão dos afetos como proteção na esquizofrenia; é efetivamente uma proteção, pois, caso a introjeção domine so­zinha o quadro clínico, surge certamente o autismo; fisiologi­camente, aparece a despersonalização exatamente nas fases de transição: jardim de infância – idade escolar (5 a 7 anos) – idade juvenil – adulto.

6ª forma: cisão desintegrada, epileptiforme, com estados crepusculares:

(a) a parte cindida clinicamente atuante é total­mente separada do ego; todas as quatro funções elementares são provisoriamente desligadas; clinicamente surge um estado crepuscular, pequeno mal oral, freqüentemente a pura desorien­tação ou mutação do ego;

(b) a parte cindida situada no plano de fundo mantém em seu íntimo as quatro funções do ego desli­gadas no primeiro plano. Esse ego aparece, freqüentemente, antes e depois do ataque crepuscular como um pressentimento de catástrofe (fobia). Fisiologicamente, pode essa desintegração surgir de modo passageiro, como mutação do ego, dos 17 aos 20 e dos 60 aos 70 anos de idade.

7ª forma: cisão do ego de forma compulsiva, anancástica:

(a) a parte cindida clinicamente atuante põe em ação simultâ­nea, com igual intensidade, a introjeção e a negação; cada ato de afirmação (dizer sim, introjeção) é imediatamente bloquea­do por um ato de negação (dizer não); assim tem origem o quadro clínico da ambivalência, do desespero, da incapacidade de ação na neurose e na psicose compulsivas;

(b) a parte cin­dida põe fora de ação a inflação extremamente perigosa e a pro­jeção; melhor dizendo, põe fora de ação a paranóia; conse­qüentemente, a cisão compulsiva serve de proteção contra a pa­ranóia de fundo, porém, a compulsão pode também assegurar proteção contra a homossexualidade egodistônica latente; fisiologica­mente, a cisão compulsiva atinge sua freqüência máxima dos 9 aos 13 anos, isto é, na puberdade (ou, pré-adolescência).

8ª forma: cisão de adaptação do ego: já dissemos que, em adultos civilizados sadios, domina a forma de cisão do ego de­nominada "de adaptação"; com a finalidade de exaurir o as­sunto, mencionamos aqui, ainda uma vez, essa forma de cisão para expor em sua totalidade o sistema dos oito tipos de cisão:

(a) a parte cindida atuante põe em ação as funções de proje­ção e negação; desse modo tem origem a adaptação;

(b) a parte cindida põe fora de ação as tendências para tudo-ser (in­flação) e tudo ter (introjeção); essa parte cindida se denomi­na também "narcisismo total"; em indivíduos sadios de forma­ção acadêmica, ocupantes de altas posições, essa parte cindida atua no primeiro plano com características de narcisismo; en­quanto a adaptação fisiológica cresce constantemente até a idade senil, a cisão de narcisismo total é muito freqüente entre 20 e 30 anos, e mais rara na puberdade. Na pré-puberdade e na idade avançada, esse tipo de cisão quase nunca ocorre.

Aplicação da Teoria da Cisão do Ego

Interpretação da Mutação de Quadros Mórbidos Antagônicos           

A sistemática relativa à teoria funcional da cisão pode pres­tar ao psicopatologista boa assistência para a compreensão, tanto de aparentes antagonismos que surgem no decurso da moléstia, quanto de casos mistos.

Como primeiro exemplo, mencionamos a discutida conexão entre a esquizofrenia e epilepsia.

Alguns psicopatologistas defendem a tese da existência de um antagonismo biológico entre as duas molés­tias. Outros falam de combinação, ou seja, de casos mistos. Já em 1895, Buchholz aventou a hipótese da paranóia de base epilética.  Dörries e Selbach também são de opi­nião que as esquizofrenias paranóides, catatônicas e hebefrênicas podem ter base epilética. Alajouanine & cols., afirmam que a ação da epilepsia desencadeia os surtos psicóticos.

Das formas de cisão esquizofrênica e epilética identificadas empiricamente pela experiência, e não por especulação teórica, resulta visivelmente que a esquizofrenia e a epilepsia podem ser duas diferentes manifestações de duas partes cindidas do mesmo ego. Mas, tendo ambas suas próprias predisposições hereditá­rias, raramente surge essa combinação. Urna das partes cin­didas provoca a perturbação do ego na epilepsia. Explicando melhor: se a parte esquizofrênico-paranóide atua no primeiro plano, a parte cindida epileptiforme se coloca no plano de fun­do. As duas partes cindidas podem, porém, trocar de lugar pela inversão de sua rotação, corno num palco giratório. A obser­vação clínica das duas partes cindidas nas formas de cisão 3ª e 5ª evidencia a possibilidade de um aparecimento sucessivo das duas formas por meio da inversão do movimento rotatório das partes cindidas.

O segundo exemplo relativo às formas de cisão 1ª e 7ª des­taca a relação entre obsessão e esquizofrenia. Essas duas for­mas são partes cindidas do mesmo ego. A obsessão protege freqüentemente da esquizofrenia paranóide. Este segundo exemplo nos conduz à terapia.

Aplicação da Teoria da Cisão à Terapêutica

Se a parte cindida for condicionante da perturbação para­nóide esquizofrênica do ego, é sempre contra-indicado anular a compulsão por meio de qualquer psicoterapia. Em certas cir­cunstâncias, ao contrário, pode-se deslocar a paranóia com ações coercitivas, pela inversão artificial do movimento de rotação das partes cindidas. Mas, só através de uma análise experimental do ego podemos verificar se é possível fazê-Io. Na Terapia Analítica do Destino expusemos uma série de métodos de­nominados artificiais para a inversão do movimento das partes cindidas, destacando o psico-choque. Porém, antes de inverter artificialmente a rotação das partes cindidas, é preciso saber se a parte cindida que se pretende trazer para o primeiro plano é mais difícil de suportar que a outra, aquela que desejaríamos colocar no plano de fundo. Aí a Análise Experimental do Ego pode novamente ser o guia de nosso roteiro.

A teoria da cisão desempenha um importante papel na es­colha da terapêutica ocupacional. É fundamental saber que através de uma ocupação adequada pode-se reintegrar paulati­namente as partes cindidas na movimentação do ego. Um exem­plo clássico é a ligação da introjeção através da aprendizagem contínua e da acumulação de conhecimentos (estudo da medi­cina, de idiomas), nos casos de despersonalização. Tam­bém a vida doentia das partes cindidas do primeiro plano pode ocasionalmente socializar-se. Assim, a obsessão pode ser trata­da com o manuseio de fichários; a paranóia com a ativi­dade exercida por detetives (contra-espionagem, psicologia). Muitos conseguem através do trabalho de sanitarista (enfermeira, cirurgião, presbítero, analista) socializar a parte cindida (de mentalidade assassina, epileptiforme), ainda que apareça em cena episodicamente, como um encolerizado Caim.

A clínica do Campo Psi é específica das perturbações do ego. Pacientes com perturbações da pulsão e do afeto na maioria das vezes procuram o clínico psi apenas depois que seu ego já está perturbado.

No centro de todas as psicoses e neuroses está o ego. De­pois vem a vida pulsional e afetiva.

Disso tudo, resulta que a clínica psi tem tanta necessidade de uma psicologia e análise do ego adaptadas a ela, quanto a oftalmologia precisa da ótica e do oftalmoscópio.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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