A consciência estendida de Rupert Sheldrake – parte II

O segundo ponto que eu quero expor sobre a consciência estendida é que nossa mente não está simplesmente localizada dentro de nossa cabeça. Acho que a idéia de que a mente está dentro de nossa cabeça nos dá uma idéia falsa de nosso relacionamento com nosso próprio corpo. As psicolo­gias tradicionais achavam que a psique, ou alma, estava espalha­da pelo corpo todo e até mesmo ao redor dele, conectando com o ambiente e até com os ancestrais. Portanto as psicologias tradicio­nais têm a idéia de que existem muitos centros psíquicos, não só a cabeça ou o córtex cerebral, mas que existem centros no coração, por exemplo. Os sistemas hindus e budistas falam de chacras, como sendo os centros psíquicos através do corpo. Na Europa Oci­dental existia também uma idéia semelhante, nas liturgias cristãs, por exemplo, ainda falamos dos "pensamentos do coração", as pessoas falam de "sentimentos viscerais". Portanto, a idéia de centros psíquicos ainda sobrevive e muito bem no Ocidente, embora não na agenda oficial. A partir de Descartes e da visão mecanicista, o coração passou simplesmente a ser uma bomba, não um centro de pensamentos. A idéia da psique permeando o corpo é fundamental na visão tradicional no mundo todo.

Acho que, de várias maneiras, no mundo moderno, o conceito científico que nos permite nos aproximarmos mais da idéia tradi­cional da alma é o conceito de campos. No mundo antigo as pes­soas acreditavam que o universo inteiro mantinha-se unido graças à alma do mundo, a anima mundi. Hoje acreditamos que tudo se mantém unido graças ao campo gravitacional universal, que é o que mantém as estrelas em seu lugar, e mantém o universo integra­do, portanto o campo gravitacional de Einstein ocupou o lugar da alma do mundo. Até o século dezessete as pessoas pensavam que os fenômenos elétricos e magnéticos dependiam da alma do imã. O campo magnético da Terra era considerado um aspecto da alma da Terra. Hoje os chamamos de campos magnéticos e elétricos, e as­sim como a alma que organizava as plantas e os animais que Aris­tóteles chamava de "alma vegetativa", uma idéia muito parecida foi incorporada desde a década de 1920 ao termo "campo morfoge­nético", campos formativos que organizam o embrião em desen­volvimento, e o corpo, e ajudam a manter o corpo saudável, e são a base de seus processos regenerativos. Como biólogo, comecei com biologia do desenvolvimento e passei uns vinte anos trabalhando com esse tipo de biologia e a idéia dos campos morfogenéticos foi meu ponto de partida para essa investigação mais ampla.

Quando começamos a tratar da relação do campo do corpo, que, a meu ver, podíamos imaginar como sendo uma espécie de psique, realidade psíquica, no velho sentido de alma, e, é claro, o campo do corpo e o próprio corpo, normalmente são relacionados, da mesma maneira que um campo magnético é relacionado com um imã. O campo magnético está dentro do imã, e também a seu re­dor, mexendo-se o imã, o campo se mexe. Penso, por exemplo, que o campo de meu braço está dentro de meu braço e ao redor dele. Mas, o que é interessante é que se eu perdesse meu braço, se ele ti­vesse sido cortado como resultado de um acidente ou uma opera­ção, eu ainda sentiria o braço. Pessoas que tiveram suas pernas ou braços amputados têm membros fantasmas, quase todas elas, e es­ses membros fantasmas parecem reais. Um dos grandes problemas em hospitais onde são feitas amputações de membros é que alguns dias depois da operação a pessoa tenta se levantar e andar, porque a perna ainda parece tão real que ela tenta andar apoiando-se nela, e cai no chão. Essas pernas e braços, esses fantasmas, continuam pa­recendo verdadeiros por muito tempo, na verdade, duram indefini­damente. Há pessoas ainda vivas hoje que têm braços e pernas fan­tasmas de membros que perderam na Segunda Grande Guerra, há mais de 50 anos. Quando alguém tem um braço ou uma perna falsa, uma prótese, na literatura médica o termo que usam para isso é di­zer que, quando colocam um braço falso, o fantasma do braço dá vida à prótese, encaixa-se como uma mão em uma luva. E as pou­cas pessoas que não têm fantasmas têm muita dificuldade de adap­tar-se à prótese, portanto, essa animação do membro artificial ­- animação é o próprio termo usado pelos médicos – acho que nos diz algo sobre a natureza do fantasma.

A visão médica, claro, é que o fantasma é produzido dentro do cérebro e é meramente referido ou projetado para o lugar do bra­ço, mas ainda está no interior do cérebro. Eu acredito que é possível que o braço ou perna fantasma estão, na verdade, onde parecem estar, é o campo do braço ou da perna. Normalmente não é possível sepa­rar o braço verdadeiro do campo do braço, mas no fenômeno do membro fantasma é possível separá-Ios, você tem o campo sem o braço ou perna materiais. Portanto, será que esse campo está real­mente lá? Como podemos detectar esse campo? Essa é a maneira perfeita de detectar o campo do corpo, é uma situação extraordiná­ria, maravilhosa para fazê-Io. É muito triste para os que tiveram seus membros amputados, mas é uma sorte para nós que estamos interessados nessas questões mais amplas, porque aqui temos uma separação clara entre a experiência subjetiva, o que eu chamaria de campo do membro, e a estrutura material. O que é que está real­mente lá? Há algumas pessoas que afirmam serem capazes de ver corpos sutis, auras, há outras envolvidas na chamada medicina energética, ou medicina da energia sutil, que afirmam ser capa­zes de sentir esses campos corporais. Há até algumas pessoas que praticam a técnica chamada de "toque terapêutico", que desco­brem que podem aliviar a dor nos membros fantasmas massagean­do-os. É claro, eles estão massageando um membro que não está lá, mas eles afirmam que podem sentir o membro que, com a prática, podem realmente detectar o membro.

Bom, eu desenvolvi um experimento muito simples para testar os membros fantasmas. Esse é um experimento que desenvolvi muito recentemente. Mencionei uma versão mais antiga dele no meu livro, mas recentemente elaborei uma versão melhor que, por enquanto, só tive tempo de experimentar uma vez e o experimento não deu certo. Mencionei isso porque a técnica é simples, e é algo que alguns de vocês podem querer tentar se tiverem a oportunida­de. Acho que não funcionou porque eu estava trabalhando com um vedor, uma pessoa que normalmente procura água subterrânea ou tesouros enterrados, e ele nunca tinha feito esse tipo de coisa antes, teria sido melhor fazê-Io com algum terapeuta ou praticante de energia sutil. O experimento foi feito na casa de uma pessoa, atrás da porta pusemos pedaços de papel, seis pedaços de papel colados atrás da porta, numerados. A seguir a pessoa sem braço ficou atrás da porta com meu assistente, que jogou um dado, obtendo um nú­mero de um a seis, e a pessoa colocou o braço fantasma através da almofada da porta com o número correspondente. Imagine, então, que eu sou uma pessoa que amputou o braço e agora estou passan­do meu braço fantasma através de uma dessas almofadas, e você é um vedor ou um terapeuta de energia sutil, e você tem que me dizer o número da almofada. Se você puder fazer isso corretamente vá­rias vezes, isso seria uma boa evidência tanto para a existência de braços fantasmas quanto para o resultado dessas técnicas de diag­nósticos sutis. Portanto, é um procedimento bastante simples. No entanto, há um problema com isso: quando fizemos o experimento o vedor ficou dando as respostas erradas, que eram as respostas certas no teste anterior. Ele disse que a memória se agarrava à por­ta. Esses vedores muitas vezes dizem que a memória das coisas é um problema para eles, portanto, a solução para isso teria sido reti­rar os pedaços de papel e colocá-Ios em outra porta, e como a maio­ria das casas e instituições tem muitas portas, é possível usar uma porta nova para cada experimento.

Outro método seria tentar detectar o fantasma por meio de ins­trumentos. Se o fantasma interagir com qualquer tipo de instru­mentação, haveria uma forma de colocar isso sobre uma base cien­tífica muito mais rigorosa, porque mostraríamos que essas coisas poderiam ser detectadas não só por pessoas, mas também por meio de instrumentos. O método mais simples seria se as pessoas com membros fantasmas os colocassem dentro de vários tipos de apare­lhos científicos, por exemplo, um aparelho de televisão: se alguém colocasse seu braço fantasma no tubo catódico de um aparelho de televisão e se uma sombra de sua mão aparecesse na tela, isso seria muito dramático. Se eles os colocassem em um detector de cintila­ção ou em um espectrômetro de massa e se, em um deles, houvesse uma mudança no ponteiro, isso seria uma descoberta muito produ­tiva. Infelizmente, ainda não consegui convencer nenhuma pessoa com um membro amputado a fazer isso, porque, embora os médi­cos lhes tenham dito que é tudo imaginação e que o fantasma é uma ilusão, quando você lhes pede que coloquem o braço fantasma den­tro de um aparelho de TV eles ficam com medo de levar um choque elétrico. Essa é uma área em que fiz apenas algumas investigações preliminares, porque tenho estado muito ocupado fazendo alguns dos outros experimentos, mas o menciono porque há muitas opor­tunidades para esse tipo de pesquisa, onde é possível expandirmos nossa visão das coisas, no momento em que abandonemos as limi­tações estreitas de uma visão convencional e possamos ver que há muitas oportunidades para pesquisas científicas usando métodos estatísticos que podem ampliar nossa visão. Isso teria imensa rele­vância para as terapias alternativas bem assim como para o conhe­cimento teórico sobre a relação mente/corpo.

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Penso que nossas mentes podem também influenciar o que ocorre no mundo a nossa volta. Alguns pesquisadores psíquicos estudaram fenômenos de psicocinesia, a mente controlando a ma­téria, e a estudaram em relação ao decaimento radioativo e em rela­ção aos fenômenos que envolvem processos aleatórios. A meu ver, um dos experimentos mais interessantes é aquele que foi feito por Renée Pehoc, na França, que usou galinhas, aliás, pintinhos. Ele tem uma máquina robótica que se movimenta de acordo com um gerador de números aleatórios. Ele pega pintinhos com um dia de vida e eles se fixam (imprint) nessa máquina. Como vocês sabem os pintinhos com um dia de vida se fixam em qualquer objeto mó­vel, é um de seus primeiros procedimentos de aprendizagem. Eles se fixam em pessoas, em brinquedos, em qualquer coisa que mexa. Então, eles se fixam nessa máquina. A seguir ele põe os pintinhos em uma gaiola, em um lado da sala, e a máquina no chão. Como es­tão fixados na máquina, eles querem chegar perto dela, mas os mo­vimentos da máquina são totalmente aleatórios, gerados por uma fonte aleatória. Quando os pintinhos não estão presentes, os movi­mentos da máquina pela sala são totalmente aleatórios, ela se mo­vimenta pela sala aleatoriamente. No entanto, quando os pintinhos estão na sala, a máquina vai para aquele lado e passa a maior parte do tempo perto da gaiola. O desejo deles de que a máquina che­gue mais perto influencia a máquina de tal forma que encontramos desvios padrões extraordinariamente altos nesses experimentos. Esses são experimentos fascinantes e foram repetidos por outras pessoas. Renée Pehoc também já fez o mesmo experimento com outros animais além de pintinhos, como coelhos.

Acho que esses são os resultados mais interessantes. Acho que a psicocinesia, os efeitos da mente sobre a matéria, se eles existem, ocorrerão quando as pessoas têm um motivo forte. O problema com a maioria das pesquisas parapsicológicas é que ela envolve ta­refas bastante sem sentido. Ou seja, influenciar a direção de um gráfico no computador não é muito importante para a maior parte das pessoas e adivinhar cartas de um tipo totalmente insignificante que estão sendo olhadas por um estranho em uma outra sala, pen­sem bem, não poderíamos imaginar uma situação em que a proba­bilidade da coisa funcionar fosse menor. É surpreendente que eles consigam qualquer resultado, porque os fenômenos da vida real dependem de coisas que realmente importam para as pessoas. Se estamos procurando efeitos da mente sobre a matéria, o melhor lu­gar para procurá-Ios seria nos laboratórios científicos, especial­mente laboratórios químicos, físicos e biológicos. Os cientistas têm fortes expectativas sobre o que querem encontrar. Eles têm um tabu extraordinariamente forte contra a possibilidade de que pos­sam ter qualquer influência paranormal sobre aquilo que acontece em seus experimentos e têm uma crença ingênua em sua total obje­tividade. Isso cria condições ideais para a manifestação de fenôme­nos psicocinéticos. Ora, sabemos que no domínio da psicologia e da medicina os efeitos do pesquisador são bem descritos e docu­mentados. Na medicina, o efeito placebo ocorre quando as pessoas esperam que uma pílula nova tenha poderes de cura maravilhosos, e médicos e pacientes acreditam isso. Se eles não sabem qual é a pí­lula falsa, e qual é o remédio, o efeito placebo muitas vezes funcio­na bem. É claro, se você disser às pessoas "essa é o placebo, é uma pílula falsa, e essa é o remédio maravilhoso", as pessoas que toma­rem o placebo não se beneficiam dele. Só funciona se você não souber o que está tomando. De qualquer forma, os testes duplo-ce­gos são padrão na medicina clínica. Na psicologia, a importância de técnicas experimentais cegas é amplamente reconhecida, e há livros inteiros sobre o efeito experimental. Isso mostra que as pes­soas, os pesquisadores, podem influenciar o que ocorre. Ninguém jamais explicou por que eles têm uma influência assim tão forte so­bre o resultado de testes médicos e psicológicos, e, é claro, isso também funciona com animais. Como aqueles entre vocês que es­tudaram psicologia provavelmente sabem, Robert Rosenthal e ou­tros fizeram experimentos em que as pessoas testam ratos ou ou­tros animais, e se eles acreditam que os ratos que estão sendo testa­dos são inteligentes, astutos, os ratos têm resultados melhores no teste do que no caso em que eles acreditam que os ratos são burros, mesmo que os ratos tenham sido tirados de um mesmo grupo e selecionados aleatoriamente. Portanto, existem grandes efeitos da mente sobre a matéria na psicologia e na medicina.

E nas demais ciências? Bom, ninguém sabe. Ninguém jamais testou a influência do pesquisador nas ciências físicas e aqueles que praticam a física e a química, normalmente consideradas as mais objetivas das ciências, são totalmente ignorantes de técnicas de simulação. A fim de examinar até que ponto elas são levadas em consideração na prática da ciência normal, eu fiz um levantamen­to recentemente de publicações científicas importantes para ver quantos trabalhos publicados envolviam o uso de técnicas cegas. No primeiro grupo de publicações importantes de física e química do tipo Journal of the American Chemical Society, dos 237 traba­lhos que examinamos nenhum deles envolvia técnicas de simula­ção. Nas ciências biológicas, dos 914 trabalhos que examinamos apenas 7 envolviam essas técnicas. Em outros como o Biochemical Journal, Cell Heredity, nenhum deles. Nas ciências médicas 5,9% dos experimentos publicados envolviam técnicas cegas. Mais do que a biologia, mas mesmo assim abaixo daquilo que seria de se es­perar. Na psicologia e no comportamento animal, 4,9%, também muito menos do que seria de se esperar, considerando-se a cons­ciência que os psicologistas têm desse fenômeno. Na parapsicolo­gia foram 85%, portanto a parapsicologia está bem na frente de to­das as outras ciências no uso de metodologias objetivas e rigorosas, e nas ciências físicas as técnicas são praticamente desconheci­das. Quando fizemos um levantamento das universidades, nas onze melhores universidades na Grã-Bretanha, Oxford, Cambrid­ge, Londres, Edinburgh, e assim por diante, para ver quantos de­partamentos usavam métodos cegos em pesquisa, ou os ensinavam a seus alunos, o resultado foi o seguinte: na química inorgânica, ne­nhum em 7; na química orgânica, nenhum em 7; na física 1 em 9 e esse departamento de física só os usava porque tinham um contrato industrial que estipulava seu uso.

Não sou o tipo de pessoa que diga "vamos falar mal dos ou­tros", acho que devemos sempre tentar encontrar uma abordagem positiva, e o experimento que estou sugerindo aqui é para ver se existem efeitos da mente sobre a matéria na ciência regular. O ex­perimento que proponho é o seguinte: em aulas práticas laborato­riais normais, do tipo que os estudantes fazem normalmente, diga­mos, uma aula prática de bioquímica – normalmente, numa aula prática desse tipo as pessoas comparam uma amostra do teste com uma amostra de controle, por exemplo, uma enzima ativada com uma enzima de controle – eu sugeriria que nessas aulas práticas metade dos alunos fizesse tudo como sempre faz, sabendo o que é o quê, e a outra metade faça um teste cego, e as amostras sejam rotu­ladas de A e B. Você verá que não há qualquer custo envolvido nis­so; estamos fazendo a aula prática normal, a única diferença é a eti­quetagem dos tubos. A seguir você faz uma análise da divergência entre os resultados para ver se há alguma diferença dos resultados do teste cego e do teste feito em condições abertas. Se os resultados nas condições cegas forem diferentes, isso mostraria a existência de um efeito do pesquisador. Essa técnica simples pode ser utiliza­da em qualquer ramo da ciência, e pode ser que em alguns ramos da física e da química não haverá efeitos do pesquisador, e então, pela primeira vez, haveria evidência experimental para a suposta objeti­vidade das ciências físicas. Mas, se existirem efeitos do pesquisa­dor, o que eu acho que haveria, então temos que ver o porquê. Será apenas tendência do observador? É porque as pessoas registram os dados de uma maneira tendenciosa, de acordo com suas expectati­vas? Ou são os próprios sistemas que dão resultados diferentes de acordo com suas expectativas? Poderia haver uma espécie de efei­to psicocinético real nas enzimas ou nos próprios sistemas sob in­vestigação, afinal de contas, já ficou demonstrado que eles influen­ciam os processos de decaimento radioativo.

Acho que esses efeitos da mente sobre a matéria, a interação entre o observador e a coisa observada, podem desempenhar um papel essencial na ciência. É claro, quando muitas pessoas esperam um resultado específico, quando se constrói um consenso científi­co, há uma tendência para que o resultado apareça repetidamente nos experimentos. Mas até que ponto a construção de consenso ci­entífico é a descoberta de uma realidade objetiva e até que ponto é a criação ou uma moldagem da realidade de acordo com nossas ex­pectativas. Ninguém sabe a resposta para essa pergunta até o mo­mento porque ninguém fez os experimentos. Acho que a mente ampliada poderia se ampliar até o próprio coração da ciência. Pu­bliquei um trabalho recentemente com esses resultados no Journal of Scientific Exploration e tenho cópias se alguém quiser.

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Entro agora em uma outra área de experimentação que acho particularmente importante e interessante. Com relação a efeitos psíquicos – efeitos da mente à distância – a maior parte das pesqui­sas até o momento foram feitas na área de parapsicologia humana. Na verdade, alguns parapsicólogos definem sua disciplina como o estudo das capacidades humanas extraordinárias. A meu ver, no entanto, estamos olhando no local errado se quisermos realmente descobrir mais sobre esses fenômenos. Acho que se essas coisas existem, elas provavelmente serão muito mais freqüentes em ani­mais do que em seres humanos. Pessoas urbanas e modernas são provavelmente o último lugar onde devemos procurar fenômenos passíveis de repetição como esses. Quando comecei a pensar no as­sunto, pensei "como estudaríamos esses fenômenos nos animais?" É claro, os comportamentalistas de animais têm os tabus normais e não estudam essas coisas em animais selvagens. As pessoas que verdadeiramente as observam são as que têm animais domésticos. Metade dos domicílios na Grã-Bretanha, provavelmente um pouco menos em Portugal, tem animais domésticos, as pessoas têm ani­mais porque gostam de tê-Ios por perto, têm algum tipo de ligação com eles. O relacionamento entre humanos e animais é algo muito antigo, e é claro, sociedades rurais tradicionais estão sempre envol­vidas com animais, gatos, cachorros, carneiros, cavalos, burros, galinhas, etc. e antes disso, nas sociedades dos caçadores-coleto­res, as atividades xamânicas eram em grande parte relacionadas com animais e espíritos de animais. Portanto, acho que essa cone­xão com animais é essencial para nossa humanidade. Tem sido as­sim por toda a história humana, e creio que nossa consciência evo­luiu junto a esse relacionamento com animais. Nas sociedades urbanas modernas as pessoas não têm necessidade de animais que trabalhem, como no caso dos agricultores, mas, apesar disso, elas têm animais domésticos em casa, embora seja um hábito caro, eles dão trabalho, têm cheiro forte, etc. As pessoas realmente querem esses relacionamentos com animais. As pessoas que têm animais domésticos os observam dia a dia, semana a semana, ano a ano, muito mais do que cientistas e laboratórios que apenas os exami­nam durante algumas horas. Donos de animais e agricultores estão estudando seus animais o tempo todo, e há um enorme corpo de in­formações sobre o comportamento animal entre esses donos. Mas essa informação foi completamente negligenciada pela ciência or­ganizada, porque acham que não pode ser levada a sério e, uma vez mais, há a questão do tabu, essa arrogância que, a meu ver, foi um mal da ciência por tanto tempo: as mentalidades arrogantes dizem: "não escutem o que dizem os donos de animais, eles são apenas pessoas ignorantes e sem instrução que querem acreditar nessas coisas sobre seus animais, porque têm esse relacionamento emo­cional antinatural com eles". É muito fácil para as pessoas dizerem isso, e rejeitar esse conhecimento, e esse tabu significa que uma fonte preciosa de informação que pode ser oferecida pelos donos de animais foi completamente menosprezada. Nas escolas e uni­versidades veterinárias existe hoje uma área em crescimento cha­mada de "estudos de animais companheiros", mas o único financia­mento para isso, na verdade, busca examinar o beneficio que ani­mais domésticos trazem para os seres humanos. Essa área estuda como ter animais domésticos reduz a probabilidade de ataques car­díacos ou faz as pessoas idosas se sentirem menos sozinhas, e as­sim por diante. Mas, na verdade, ela não examina os animais.

Portanto, essa área foi completamente menosprezada. Há um tabu sobre levar animais domésticos a sério, assim como sobre le­var parapsíquicos a sério. Mas quando examinamos as coisas que os donos de animais dizem, há uma fonte preciosa de informação. A maioria dos donos de animais acredita ter uma ligação telepática com seus cães ou gatos. Isso foi descoberto através de levantamen­tos, e há inúmeras histórias que podem ser coletadas, como eu ve­nho coletando, de donos de animais sobre coisas que seus animais fazem, que sugerem uma sensibilidade para com o pensamento e a intenção humanos, que podem funcionar à distância. Por exemplo, a capacidade que muitos cães ou gatos têm de saber quando seus donos estão vindo para casa. Muitas pessoas observaram que cães, gatos ou outros animais, especialmente papagaios, ficam nervosos 10, 15 minutos, meia hora, às vezes até uma hora antes de seu dono chegar em casa. Os cães normalmente vão esperar perto da porta, ou os gatos vão olhar por uma janela, ou mostrar algum comporta­mento característico que significa que parece que sabem quando seu dono está a caminho de casa. A primeira vez que eu ouvi essa história fiquei muito surpreso. Pessoalmente eu nunca tinha obser­vado isso com nenhum de meus animais, mas comecei a perguntar a amigos e parentes e descobri que isso é extremamente comum. Então fiz um apelo nos USA para que as pessoas envias­sem histórias sobre isso e colecionei muitas delas, o que me fez pensar que era um fenômeno que realmente merecia ser investiga­do. Desde então venho colocando anúncios em jornais e revistas na Grã-Bretanha, na Alemanha, na Suíça e na França solicitando his­tórias desse tipo. Hoje tenho mais de 2.000 histórias, classificadas em várias categorias, em um banco de dados informatizado e isso me dá uma história natural básica desses fenômenos com animais domésticos. Deixe-me dar um exemplo, do tipo de histórias que re­cebemos neste banco de dados, sobre um cachorro que sabe quan­do seu dono está chegando em casa. Essa é de uma pessoa no Ha­vaí: "Meu cachorro Debby sempre fica esperando na porta uma meia hora antes de meu pai chegar em casa do trabalho. Como meu pai estava no exército, ele tinha um horário de trabalho muito irre­gular. Não fazia diferença se meu pai ligava antes, e uma época eu achei que o cachorro reagia à chamada telefônica, mas isso obvia­mente não era o caso porque às vezes meu pai dizia que estava vindo para casa mais cedo, mas tinha que ficar até mais tarde. Às vezes ele nem telefonava. O cachorro nunca se enganava, portanto eu eli­minei a teoria do telefone. Minha mãe foi a primeira pessoa que no­tou esse comportamento. Ela estava sempre preparando o jantar quando o cachorro ia para a porta. Se o cachorro não fosse até a por­ta, nós sabíamos que papai ia chegar mais tarde. Se ele chegasse tarde, o cachorro mesmo assim o esperava, mas só quando ele já estivesse no caminho de casa". Como vocês podem ver, temos agora em nosso banco de dados cerca de 580 relatos de cachorros que fa­zem isso, cerca de 300 relatos de gatos que fazem isso, com esse tipo de qualidades.

O cético de carteirinha irá dizer "bem é apenas uma rotina", mas na maioria dos casos não é uma rotina, se fosse as pessoas nem notariam. A maioria das pessoas não é idiota, e se fosse apenas uma rotina, elas estariam conscientes dessa possibilidade. Na maior parte dos casos é óbvio que não é uma rotina. O próximo argumento do cé­tico de carteirinha é "bom, o que deve acontecer é que as pessoas da casa sabem quando o dono está vindo e com isso seu estado emocio­nal muda, e o animal capta essa mudança através de deixas sutis". Bem, é claro que isso é possível se as pessoas realmente prevêem que alguém está vindo para casa, seu estado emocional pode mudar, elas podem ficar excitadas ou talvez deprimidas e o animal pode captar essa mudança emocional e reagir a ela. Mas, em muitos dos casos, as pessoas na casa não sabem quando a outra está vindo para casa, é o animal que lhes diz e não elas que dizem ao animal.

Quando eu estava discutindo esse assunto com Nicholas Humphrey, meu amigo cético disse: "bem, tudo isso ainda não eli­mina a possibilidade de que eles ouvem o barulho do motor do car­ro, um motor de carro familiar a 30, 40 quilômetros de distância", e eu disse: "isso é obviamente impossível". E ele: "pelo contrário, apenas demonstra como a audição dos cachorros é aguçada". Foi essa discussão que levou à idéia de fazer um experimento. Eu dis­so: "OK, e se eles vierem para casa de táxi, ou no carro de um ami­go, ou de trem, ou de bicicleta da estação em uma bicicleta empres­tada, para que não haja sons familiares?" E ele disse: "nesse caso, o cachorro não reagiria", e desde a publicação deste livro eu já des­cobri muitos cachorros, gatos e outros animais que fazem isso. Eu falarei do experimento em um momento, mas, primeiro, direi algu­ma coisa sobre o levantamento que fizemos. Já fizemos quatro le­vantamentos domiciliares usando amostras aleatórias que pergun­tavam aos donos de animais a respeito das habilidades de seus ani­mais. Vemos aqui o resultado de dois levantamentos na Grã-Breta­nha e dois nos USA, um nos subúrbios de Los Angeles e um em Santa Cruz, Califórnia, um em Londres e outro em Rams­bottom, uma cidadezinha perto de Manchester, no nordeste da Inglaterra. Telefonamos para pessoas escolhidas aleatoriamente usando técnicas padronizadas de amostragem e perguntamos se elas tinham animais. Dos donos de animais, havia mais donos de cachorros do que de gatos na maior parte das localidades, a não ser em Santa Cruz onde havia mais donos de gatos do que de cachor­ros. Perguntávamos: então "seu animal parece saber previamente quando um membro da família está vindo para casa?" Aproxima­damente 50% dos donos de cachorro em todas as localidades disse­ram que sim – em Los Angeles foram mais de 60% – e podemos ver através desses resultados que os gatos em todas as localidades fa­zem isso menos que os cachorros. Portanto há uma diferença clara entre gatos e cachorros, mas eu acho que não é necessariamente porque os gatos sejam menos sensíveis que os cães, apenas que a maior parte deles simplesmente está menos interessada. Portanto, há uma diferença óbvia entre gatos e cães, os gatos também fazem, mas no caso dos cachorros são muitos, pois cerca de 50% dos ca­chorros parecem mostrar esse comportamento prévio. Estamos fa­lando de milhões de cães só na Europa. Todas as cidades e aldeias provavelmente têm um cão que faz isso, ou vários deles. Portanto, temos aqui um fenômeno muito bem conhecido. Há uma grande quantidade de experiências que sugerem que isso realmente ocor­re, e o que estamos fazendo agora são experimentos em que real­mente testamos se os cachorros sabem quando as pessoas estão vindo para casa. Nos primeiros experimentos que foram feitos, pe­díamos às pessoas que anotassem em um caderno o comportamen­to do cachorro, mas os céticos disseram: "bem, assim você tem uma tendência subjetiva". Portanto, agora nós fazemos uma fita de vídeo de todos os experimentos. Temos uma câmera de vídeo em um tripé, apontando para o lugar onde o cachorro ou o gato espe­ram pela pessoa que vem para casa. Há um controle de tempo na câ­mera e ela fica funcionando por horas. Então, temos horas de filme que irão mostrar se o cachorro ou o gato vão até a janela, e por quanto tempo ficam lá, um registro objetivo e perfeito. É claro, es­ses filmes não são muito interessantes de ver, centenas de horas de capachos de portas da frente não são lá um tema muito emocionan­te, mas, felizmente, há um botão para acelerar e passar rapidamente pelos pedaços em que nada está acontecendo. O que vou lhes mos­trar daqui a pouco é um vídeo de um desses experimentos que foi feito com um cachorro com que trabalhei principalmente na Ingla­terra. O cachorro chama-se JT e o nome de sua dona é Pam. Quan­do Pam sai, ela deixa JT com seus pais, que vivem no apartamento ao lado do dela. Eles observaram há muitos anos que JT sempre ia para a janela quando Pam estava a caminho de casa, ou quase sem­pre. Esse experimento foi filmado profissionalmente pela televisão estatal austríaca, e por essa razão a trilha sonora é em alemão, em­bora seja um cachorro inglês. Portanto, eu explicarei o que está acontecendo em inglês para aqueles cujo alemão não é lá muito bom. O importante, aqui, é que o experimento foi genuíno, eu con­cordei em realizar esse experimento para a televisão estatal austría­ca, se eles filmassem com duas câmeras, para que pudéssemos ver o cachorro e a pessoa que estava na rua ao mesmo tempo. E se eles escolhessem as horas de sua vinda para casa de maneira aleatória, que nem ela mesma soubesse previamente, que ninguém soubesse previamente; o operador filmando o cachorro, e nem ela nem seus pais sabiam previamente quando ela viria para casa, e ela viria para casa de táxi para eliminar a possibilidade de sons de carros familia­res. Esse, portanto, é um experimento que foi realizado dentro des­sas condições.

Na vida real, Pam não vem para casa em horas escolhidas alea­toriamente, e que ela própria desconheça previamente. Quando está no trabalho, ou quando sai para fazer compras ou visitar ami­gos, ela vem para casa em vários momentos diferentes, e nós moni­toramos regularmente as horas em que ela volta, mais de 200 expe­rimentos foram monitorados, temos dezenas deles em vídeo. O ca­chorro nem sempre reage, cerca de 85% das vezes JT realmente es­pera por ela quando ela está vindo para casa, cerca de 15% ele não o faz. Analisamos as ocasiões em que ele não faz, a maioria das vezes ocorreu quando a cadela do apartamento vizinho estava no cio. Isso mostra que JT pode se distrair. Isso também ocorreu algumas vezes quando havia visitas na casa ou outro cachorro, e algumas vezes sem nenhum motivo. De qualquer forma, JT normalmente reage quando Pam decide que vai para casa. Naquele filme vocês viram que ele não começa a reagir quando ela entra no táxi, e sim quando ela estava pronta para ir para casa. Na vida real ele não reage quan­do ela entra no carro para ir para casa, e sim quando ela começa a se despedir dos amigos e pensando "bem, vou-me embora". Ele pare­ce captar essa intenção dela. E este é o número de segundos no pe­ríodo de dez minutos em que JT está esperando perto da janela. É bem verdade que ele vai até a janela ocasionalmente quando Pam não está a caminho de casa, normalmente porque vai latir para um gato que passa na rua ou está olhando alguma coisa que está acon­tecendo do lado de fora. Nesses gráficos incluímos todos esses ca­sos, embora fique claro no vídeo que ele não está esperando, mas como os céticos dizem que se você usar evidência seletiva isso de­monstra que você inventou a coisa toda, não fizemos nenhuma se­leção aqui. Às vezes há uns trechos barulhentos, quando ele vai até à janela de qualquer maneira, mas podemos ver que isso é a média de 12 ocasiões diferentes quando ela estava fora por mais de 3 ho­ras. O tempo que ele está esperando na janela é maior aqui e aqui, quando ela está no caminho de casa do que quando ela não está. Ve­mos um pequeno aumento antes de ela ir para casa, que, a meu ver, tem que ver com esse efeito antecipatório. O tempo em que ela está voltando é o tempo em que ela já está no carro, portanto, ela está se preparando para vir no momento imediatamente anterior a esse. Essas são ausências de tempo médio, seis ausências de tempo mé­dio e uma vez mais aqui vemos essa antecipação nos dez minutos antes de ela sair. É bastante claro, mas JT está obviamente esperan­do por ela principalmente quando ela está no caminho de casa. Essas aqui são ausências curtas, essas são alguns experimentos mais barulhentos, mas eles mostram o mesmo resultado. O que é claro nesses gráficos é que JT não vai para a janela com mais fre­qüência quanto mais tempo ela estiver fora. Ele obviamente está muito mais na janela aqui, quando ela está no caminho de volta, do que nos períodos correspondentes aqui. Esses efeitos têm uma enorme significância estatística. Vários tipos de análise mostram significâncias que vão mais além da escala de meu computador. Esses efeitos são do tipo p é menor que .00001.

Esses resultados foram amplamente publicados na Grã-Breta­nha, nos jornais, e é claro foram criticados pelos céticos, que estão sempre prontos para dizer que nada semelhante poderia ocorrer. Esses experimentos foram criticados por um dos céticos mais ati­vos na Grã-Bretanha, cujo nome é Richard Wiseman. Segundo ele, eu não tinha usado procedimentos adequados, não os tinha regis­trado de forma adequada, etc. Eu fiz também muitos experimentos com horas de retomo aleatórias. Pam tem um pager em seu bolso que eu ativei por telefone de Londres e ela vem para casa em mo­mentos verdadeiramente aleatórios, usando um desses pagers da telecom. De qualquer forma, ele criticou os detalhes, então eu dis­se: "Tudo bem, por que você mesmo não faz o experimento? Eu or­ganizo tudo para que você possa fazê-Io com o mesmo cachorro. Emprestamos uma câmera de vídeo, Pam irá onde você quiser, o seu ajudante ficará observando-a". Na verdade, então, o próprio Wiseman filmou o cachorro e ficou no apartamento dos pais da Pam, enquanto seu ajudante ia com a Pam para pubs, ou outros lu­gares, até que em um momento determinado aleatoriamente fosse decidido que eles voltariam para casa. Eles checavam o tempo todo para garantir que não haveria chamadas telefônicas secretas, ne­nhum meio de comunicação invisível, nenhuma fraude ou trapaça.

Wiseman é um mágico, e ele é um desses céticos que está sem­pre afirmando que tudo pode ser feito por trapaça ou ilusionismo. Bem, ele mesmo esteve lá, e eles estavam se protegendo de tudo, e ele realizou três experimentos com Pam na casa de seus pais, e es­ses foram os resultados dos três experimentos que ele fez, usando todos seus controles rigorosíssimos, seu próprio procedimento ale­atório, e outras coisas mais (os resultados são exatamente iguais aos outros; o público ri). Portanto, esses resultados são sólidos, mesmo com um cético, que ao fazer o experimento na verdade não quer que ele dê certo. E agora estamos trabalhando com outros ca­chorros e gatos e encontramos resultados semelhantes, e se vocês estiverem procurando temas para projetos de pesquisas essa é uma área extremamente produtiva e interessante. As pessoas leigas acham-na fascinante, porque elas geralmente estão interessadas em animais domésticos e as implicações são enormes, mas também é simplesmente divertido e pode ser feito com um custo muito baixo, você precisa de uma câmera de vídeo pra esses experimentos, mas câmeras de vídeo são bastante baratas hoje em dia e muitas pessoas as têm. Atualmente realizo uma série de experimentos em Santa Cruz, Califórnia, com um tipo de periquito italiano que mostra o mesmo tipo de reação: eles guincham quando o dono está vindo para casa, e obtemos quase o mesmo tipo de gráficos, mostrando que os guinchos vão aumentando de intensidade quando o dono está a caminho de casa em horas aleatórias.

Portanto, provavelmente aqui em Portugal, seria possível fa­zer esses experimentos com cães e gatos, na verdade acho que essa pesquisa pode ser feita em qualquer lugar. É uma pesquisa muito, muito interessante. Como o contribuinte paga pela maior parte da ciência, e como a maior parte dos contribuintes tem ani­mais domésticos, se a ciência for refletir o interesse das pessoas que pagam por ela, esse tipo de pesquisa estaria no topo da agenda científica. Nas circunstâncias atuais chega a estar próximo ao úl­timo lugar. Mas eu acho que é o tipo de pesquisa que dá uma nova perspectiva à ciência, uma nova maneira de olhar o mundo, que faria a ciência muito mais importante e significativa, e certamen­te muito mais interessante, e daria grandes projetos para alunos de escolas e universidades.

Embora divertidos, esses experimentos nos mostram muita coi­sa sobre o comportamento animal e confirmam a maior parte das coisas que os donos de animais dizem que seus animais fazem. Isso faz com que eu leve muito mais a sério essas histórias de donos de animais. Existe conjunto enorme de experiências, cerca de 8 ou 9 fenômenos diferentes, que estamos investigando atualmente com animais domésticos, e também com cavalos. São divertidos, e tam­bém são evidência para fenômenos do tipo psíquico. Acho que esse fenômeno é semelhante à telepatia e, se quisermos estudar essas coisas, é muito melhor estudar animais do que pessoas. Uma das dificuldades da pesquisa parapsicológica tradicional é que nesses experimentos um tanto monótonos os pontos geralmente vão dimi­nuindo, porque os participantes ficam entediados. Bem, felizmente os cachorros nunca ficam entediados com a chegada de seus donos em casa, e podemos fazer esse tipo de experimento milhares de ve­zes. Esses são fenômenos muito mais sólidos do que os fenômenos meio efêmeros da parapsicologia.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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