Ressonância Mórfica de Rupert Sheldrake

Introdução

Na década de 20, animados por um espírito holístico, vários bi­ólogos, trabalhando independentemente, propuseram uma nova manei­ra de pensar a respeito da morfogênese biológica: o conceito de cam­pos morfogenéticos, embrionários ou de desenvolvimento. Esses cam­pos seriam semelhantes aos campos conhecidos pela física, no sentido de que corresponderiam a regiões invisíveis de influência, dotadas de propriedades inerentemente holísticas, mas constituiriam um novo tipo de campo desconhecido pela física. Estariam dentro dos organismos, e em torno deles, e conteriam dentro de si mesmos uma hierarquia aninhada de campos dentro de campos – campos de órgãos, campos de tecidos, campos de células. Como no caso da ciência do magnetismo e da eletricidade, na qual as almas foram substituídas por campos eletromagnéticos, no caso da biologia, graças a um passo comparável, as enteléquias foram substituídas por campos biológicos.

Os campos magnéticos constituíram, na verdade, uma das prin­cipais analogias utilizadas pelos proponentes dos campos morfogené­ticos. Assim como quando se corta ímãs dividindo-os em pedaços obtém-se ímãs pequenos, mas completos, cada um deles com seu pró­prio campo magnético, da mesma forma ao se seccionar organismos como os platelmintos obtém-se, no seu caso, pedaços dotados de cam­pos "platelmínticos" completos, capacitando-os a regenerar-se como platelmintos completos.

À semelhança das enteléquias, os campos morfogenéticos atraem os sistemas em desenvolvimento em direção aos seus fins, metas ou representações contidos dentro deles próprios. Matematicamente, os campos morfogenéticos podem ser modelados em termos de atratores encerrados dentro de bacias de atração (Waddington, 1966). O matemático René Thom expressou essa idéia da seguinte maneira:

"Toda a criação ou destruição de formas, ou morfogênese, pode ser descrita pelo desaparecimento dos atratores que representam as formas iniciais, e por sua substituição, por captura, pelos atratores que repre­sentam as formas finais" (Thom, 1975).

A idéia de campos morfogenéticos foi amplamente adotada na biologia do desenvolvimento. Mas a natureza desses campos perma­neceu obscura. Para alguns biólogos, "campo morfogenético" é apenas um modo útil de expressão, mas, na realidade, essa expressão nada mais encerra que "complexos padrões espaço-temporais de interações físi­co-químicas ainda não perfeitamente entendidas". Outros imaginam esses campos supondo-os governados por equações de campo morfo­genético existentes num domínio platônico de formas matemáticas eternas. Desse modo, as equações de campo morfogenético para os dinossauros, por exemplo, sempre existiram, até mesmo antes do Big Bang. Essas equações não foram afetadas pela evolução dos dinossau­ros ou pela sua extinção. As equações de campo morfogenético para todas as espécies passadas, presentes e futuras, e, na verdade, para todas as espécies possíveis (muitas das quais podem realmente nunca ter existido) habitam eternamente, de alguma maneira, num domínio matemático transcendente. São verdades matemáticas que estão além do tempo; não podem evoluir e não são afetadas por qualquer coisa que realmente acontece no mundo físico. São como planejamentos ideais para todos os organismos possíveis que existem na mente de um Deus matemático.

Há uma terceira maneira de conceber esses campos. De acordo com a hipótese da causação formativa, eles constituem um novo tipo de campo, até agora desconhecido da física, e dotado de uma natureza intrinsecamente evolutiva. Os campos de uma determinada espécie, tal como o da girafa, têm evoluído; são herdados pelas girafas atuais, que os receberam de girafas anteriores. Contêm uma espécie de memória coletiva, à qual recorre cada membro da espécie e para a qual cada um deles, por sua vez, contribui. A atividade formativa dos campos não é determinada por leis matemáticas intemporais – embora tais cam­pos possam, até certo ponto, ser modelados matematicamente – mas pelas formas efetivas assumidas por membros anteriores da espécie. Quanto maior for a freqüência com que um padrão de desenvolvimen­to é repetido, tanto maior será a probabilidade de que ele venha a ser novamente adotado. Os campos constituem os meios pelos quais os hábitos de cada espécie são formados, mantidos e herdados.

Ressonância Mórfica

A hipótese da causação formativa, proposta pela primeira vez no livro A New Science Life (Sheldrake,1981), e posteriormente desenvolvi­da em The Presence of the Past (Sheldrake,1988), sugere que os sistemas auto-­organizadores, em todos os níveis de complexidade – incluindo mo­léculas, cristais, células, tecidos, organismos e sociedades de organis­mos – são organizados por "campos mórficos". Os campos morfoge­néticos são apenas um tipo de campo mórfico, aquele que diz respeito ao desenvolvimento e à manutenção dos corpos dos organismos. Os campos morfogenéticos também organizam a morfogênese das molé­culas; por exemplo, moldando a maneira pela qual as cadeias de ami­noácidos codificados pelos genes são distribuídas nas complexas estru­turas tridimensionais das proteínas. De modo semelhante, o desenvol­vimento dos cristais é modelado por campos morfogenéticos dotados de uma memória inerente de cristais prévios do mesmo tipo. Sob esse ponto de vista, substâncias tais como a penicilina cristalizam-se da ma­neira como o fazem não porque são governados por leis matemáticas intemporais mas sim porque, antes, já tinham se cristalizado dessa ma­neira; estão seguindo hábitos estabelecidos através da repetição.

A maneira pela qual indivíduos do passado, tais como moléculas de hemoglobina, cristais de penicilina ou girafas, influencia os cam­pos mórficos dos indivíduos atuais que lhes correspondem, depende de um processo chamado ressonância mórfíca, a influência do semelhan­te sobre o semelhante através do espaço e do tempo. A ressonância mórfica não diminui com a distância. Não envolve transferência de energia, mas de informação. Com efeito, essa hipótese permite enten­der que as regularidades da natureza são governadas por hábitos her­dados por ressonância mórfica, e não por leis eternas, não-materiais e não-energéticas.

Essa hipótese é inevitavelmente controvertida, mas pode ser tes­tada por experiências, e já existem consideráveis evidências circuns­tanciais a seu favor. Por exemplo, quando uma substância química orgânica recém-sintetizada (digamos, uma nova droga) cristaliza-se pela primeira vez, não ocorrerá nenhuma ressonância mórfica proveniente de cristais prévios do seu tipo. Um novo campo mórfico tem de passar a existir; dentre as muitas maneiras energeticamente possíveis pelas quais a substância poderia se cristalizar, uma realmente acontece. Mas a próxima vez que a substância for cristalizada em qualquer parte do mundo, a ressonância mórfica proveniente dos primeiros cristais tor­nará mais provável a ocorrência do mesmo padrão de cristalização, e assim por diante. Uma memória cumulativa irá sendo construída na medida em que o padrão for se tornando cada vez mais habitual. Como conseqüência, os cristais tenderão a se formar mais prontamente em todo o mundo.

Essa tendência é, de fato, bem conhecida; novos compostos são geralmente difíceis de cristalizar, levando, às vezes, semanas ou até mesmo meses para formar cristais a partir de soluções supersaturadas. Porém, à medida que o tempo passa elas tendem a aparecer com mais facilidade em todo o mundo. Entre os químicos, a explicação mais popular para esse fenômeno é a de que fragmentos de cristais seriam transferidos de laboratório para laboratório nas barbas ou nas vestimen­tas de químicos emigrantes (Danckwerts, 1982). Passariam, então, a servir como núcleos para novos cristais do mesmo tipo. Supõe-se também que essas semen­tes de cristais poderiam ser transportadas pelo vento para o mundo inteiro sob a forma de microscópicas partículas de poeira na atmosfe­ra. A hipótese da causação formativa prediz que essas cristalizações também devam ocorrer mais prontamente sob condições padronizadas à medida que o tempo passa, mesmo que os químicos emigrantes sejam rigorosamente excluídos do laboratório e que as partículas de poeira sejam filtradas da atmosfera.

No domínio da morfogênese biológica, a hipótese prediz que quando organismos seguem um caminho inusitado de desenvolvimen­to – por exemplo, quando surgem adultos anormais como resultado da exposição de embriões a um ambiente inusitado – quanto maior for a freqüência com que isso aconteça, maior será a probabilidade de que volte a acontecer novamente. Já existem evidências obtidas em ex­perimentos com moscas-das-frutas indicando que, de fato, elas são mais propensas a se desenvolver anormalmente depois que outras sofreram desenvolvimento anormal (Sheldrake, 1988).

De acordo com esse ponto de vista, os organismos vivos her­dam não somente genes, mas também campos mórficos. Os genes são transferidos materialmente de seus ancestrais e lhes permitem fabricar determinados tipos de moléculas de proteínas; os campos mórficos são herdados não-materialmente, por ressonância mórfica, não apenas de ancestrais diretos, mas também de outros membros da espécie. O organismo em desenvolvimento sintoniza os campos mór­ficos de sua espécie e, desse modo, tem à sua disposição uma me­mória coletiva ou de grupo onde colhe informações para esse desenvolvimento.

Mutações genéticas podem afetar esse processo de sintonização e a capacidade do organismo para se desenvolver sob a influência dos campos, assim como alterações nos condensadores ou em ou­tros componentes de um aparelho de TV podem afetar a sintoniza­ção de determinados canais ou a recepção de programas; os sons ou as imagens podem ficar distorcidos. Mas o simples fato de os componentes mutantes poderem afetar as imagens e os sons produ­zidos pelo receptor de TV não prova que os programas são progra­mados pelos próprios componentes do aparelho e gerados dentro dele. De maneira semelhante, o fato de que mudanças genéticas po­dem afetar a forma e o comportamento dos organismos não prova que sua forma e seu comportamento são programados nos genes.

O Mistério do Instinto

O comportamento instintivo apresenta as mesmas características holísticas e propositadas da morfogênese. Uma vespa-caçadora fêmea, por exemplo, constrói um ninho subterrâneo, reveste-o com lama, e de­pois constrói um grande tubo e um funil sobre o orifício da entrada. A função da estrutura parece ser a de impedir o ingresso de vespas pa­rasitas, que, desse modo, não conseguem agarrar-se à superfície lisa do interior do funil. Põe então um ovo no fundo do ninho, o qual a seguir ela estoca com lagartas paralizadas, fechando-as em compartimentos separados. Finalmente, tampa com lama o buraco ao nível do solo, destrói o funil cuidadosamente construído e espalha os fragmentos. Faz tudo isso instintivamente, sem que precise aprendê­-lo com outras vespas.

Essa seqüência de comportamentos, como o comportamento ins­tintivo em geral, consiste numa série de "padrões de ação fixados" (Tinbergen, 1951). O ponto final de uma dessas ações serve como ponto de partida para a seguinte. E como na morfogênese, os mesmos pontos finais poderão ser alcançados por diferentes caminhos se a rota normal for perturba­da. Por exemplo, se um funil quase completo for danificado, a vespa-­caçadora o reconstrói; ele é regenerado.

De um ponto de vista vitalista, tal comportamento instintivo pro­positado depende da atividade organizadora da alma, ou enteléquia, que organiza a atividade dos sentidos, o sistema nervoso e os órgãos motores dirigindo-os para a realização de suas finalidades. Do ponto de vista criptovitalista, hoje convencional, essa organização direcionada para uma meta (goal-directed) pode ser atribuída ao programa genético. Mas a maneira como a síntese de determinadas proteínas resulta em com­portamento complexo direcionado para uma meta, como ocorre no caso da vespa-caçadora, permanece completamente obscura.

De um ponto de vista holístico, tal comportamento propositado depende de princípios organizadores holísticos. A natureza desses princípios, às vezes chamados de "propriedades sistêmicas emergen­tes", é em geral deixada na obscuridade. Eu os imagino como cam­pos mórficos, que, à semelhança de outros tipos de campos mórfi­cos, são herdados por meio de ressonância mórfica. Instintos são os hábitos de comportamento da espécie e dependem de uma memória coletiva inconsciente. Graças aos campos mórficos, padrões de com­portamento são atraídos em direção a fins ou metas fornecidos por seus atratores.

Se o comportamento é, de fato, governado por campos mórficos, quando alguns membros de uma espécie adquirem um novo padrão de comportamento e, conseqüentemente, um novo campo comportamen­tal, por exemplo, aprendendo uma nova habilidade, então outros mem­bros dessa espécie deveriam manifestar tendência para aprender a mesma coisa mais rapidamente, mesmo na ausência de quaisquer meios conhecidos de conexão ou de comunicação. Quanto maior for o núme­ro de membros dessa espécie que aprenderem essa nova habilidade, maior deveria ser esse efeito no mundo inteiro. Assim, por exemplo, se ratos de laboratório aprendem um novo truque na América do Norte, ratos de laboratório em qualquer outra parte do mundo deveriam apre­sentar uma tendência para aprendê-Io mais depressa. Há evidências experimentais indicando que esse efeito realmente ocorre (Shekdrake, 1981, 1988).

O Mistério da Memória

Até mesmo animais muito simples possuem a capacidade de aprender a partir da experiência. E até mesmo os padrões de ação fixados do comportamento instintivo envolvem aprendizagem indivi­dual: as vespas-caçadoras, por exemplo, aprendem a reconhecer várias características do meio ambiente em torno do ninho que estão cons­truindo; de outro modo, seriam incapazes de encontrar seu caminho de volta ao ninho quando saem à procura de lama ou para caçar lagartas. Além disso, aprendizagem implica memória. Como elas se lembram?

Teorias mecanicistas da memória supõem, inevitavelmente, que a memória depende de "traços de memória" materiais, que se acham, de algum modo, armazenados dentro do sistema nervoso. Esses tra­ços hipotéticos são, com freqüência, assimilados a conexões numa central telefônica, ou a gravações em fita, ou a videotapes, ou a lo­cais de armazenamento de memória no computador. A idéia mais popular é a de que os traços de memória dependem, de alguma ma­neira, de modificações que ocorrem nas junções entre as células ner­vosas, as sinapses.

Os neurocientistas vêm tentando, há décadas, localizar traços de memória nos cérebros de animais usados em experimentos. O proce­dimento usual consiste em treinar esses animais para fazer alguma coisa e depois cortar partes de seus cérebros para descobrir onde as memó­rias são armazenadas. Mas até mesmo depois que grandes pedaços de seus cérebros foram removidos – em alguns experimentos, mais de 60% – os infelizes animais podem freqüentemente lembrar-se do que eles foram treinados para fazer antes da operação (Lashley,1950). Um pesquisador resumiu o malogro em encontrar traços de memória localizada obser­vando que "a memória parece estar, ao mesmo tempo, localizada em toda a parte e em nenhuma em particular" (Boycott,1965).

Alguns cientistas propuseram que as memórias podem estar arma­zenadas de uma maneira distribuída, vagamente análoga ao armazena­mento de informações em hologramas, sobre grandes regiões do cére­bro (Pribram,1971). Outros postularam a existência de sistemas de armazenamento "sobressalente" (backup) não-identificados como responsáveis pela sobrevivência de hábitos aprendidos, depois que vários supostos locais de armazenamento de memória foram removidos por cirurgia. Mas pode haver uma razão ridiculamente simples para esses malogros recorren­tes em encontrar traços de memória nos cérebros: eles podem não existir. Se você procurar, no interior do seu aparelho de TV, traços dos programas que você assistiu na semana passada, sua busca estará condenada ao fracasso pela mesma razão: o aparelho sintoniza trans­missões de TV, mas não as armazena.

A hipótese da causação formativa sugere que a memória depende da ressonância mórfica e não de localizações materiais para armaze­namento de memória. A ressonância mórfica depende da similaridade. Envolve um efeito de semelhante sobre semelhante. Quanto mais se­melhante um organismo é em relação a um organismo no passado, tanto mais específica e efetiva será a ressonância mórfica. Em geral, qual­quer determinado organismo é o que há de mais semelhante a si pró­prio no passado e, por essa razão, ele está sujeito a uma ressonância mórfica altamente específica oriunda do seu próprio passado. Por exemplo, você é mais semelhante ao que você era um ano atrás do que semelhante ao que eu era. Essa auto-ressonância ajuda a manter a forma de um organismo, a despeito das contínuas modificações dos seus materiais constitutivos. De maneira semelhante, no domínio do com­portamento, ela sintoniza um organismo especificamente com os pa­drões de atividade do seu próprio passado. Nem seus hábitos de com­portamento, de fala e de pensamento nem suas lembranças de deter­minados fatos e de eventos passados precisam estar armazenados sob a forma de traços materiais em seu cérebro.

Mas o que dizer do fato de que se pode perder lembranças em conseqüência de lesões no cérebro? Alguns tipos de lesões em áreas específicas do cérebro podem resultar em tipos específicos de dano: por exemplo, a perda da capacidade para reconhecer rostos após uma lesão do córtex visual secundário do hemisfério direito. Uma vítima desse tipo de lesão pode ser incapaz de reconhecer até mesmo os rostos de sua esposa e de seus filhos, embora ainda consiga reco­nhecê-Ios pelas suas vozes e de outras maneiras (Sacks,1985). Isso não prova­ria que as memórias relevantes estavam armazenadas dentro dos te­cidos danificados? De modo algum. Pense novamente na analogia com a TV. Danos produzidos em certas partes do circuito podem levar à perda ou à distorção da imagem; em outras partes do cir­cuito, os danos podem levar o aparelho a perder a capacidade de produzir som; danos no circuito de sintonização podem provocar a perda da capacidade para receber um ou mais canais. Mas isso não prova que as imagens, os sons e programas inteiros estejam arma­zenados no interior dos componentes danificados.

Essa idéia permite que o funcionamento da memória individual e a herança de instintos e de capacidades comportamentais sejam en­carados como diferentes aspectos do mesmo fenômeno. Ambos depen­dem da ressonância mórfica, mas o primeiro é mais específico do que a segunda. A memória individual e as capacidades de aprendizagem têm lugar contra o background de uma memória coletiva herdada por ressonância mórfica de membros anteriores da espécie. No domínio humano, tal conceito já existe na teoria de Jung do inconsciente co­letivo, como uma memória coletiva herdada (Jung,1959). A hipótese da ressonân­cia mórfica permite que o inconsciente coletivo seja visto não apenas como um fenômeno humano, mas como um aspecto de um processo muito mais abrangente, por intermédio do qual os hábitos são herda­dos por toda a parte na natureza.

O Mistério da Organização Social

Sociedades de cupins, de formigas, de vespas e de abelhas podem conter milhares ou até mesmo milhões de insetos individuais. Podem construir ninhos grandes e elaborados, exibir uma complexa divisão de trabalho e se reproduzir. Essas sociedades têm sido freqüentemente comparadas a organismos dotados de um nível mais alto de organiza­ção, ou superorganismos.

Inevitavelmente tem havido, desde há longa data, discussões no sentido de se estabelecer se tais sociedades realmente representam um nível superior de organização viva, dotada de propriedades ho­lísticas, irredutíveis e específicas, ou se elas devem ser considera­das como agregados explicáveis em termos de suas partes e das in­terações mecanicistas entre os insetos individuais. De um ponto de vista vitalista, a colônia, como um todo, possui uma alma que co­ordena os insetos individuais dentro dela (Marais,1973). Os mecanicistas, ao con­trário, têm de tentar entender tudo isso em termos do comportamento das partes isoladamente estudadas. Por uma questão de princípio, nenhuma alma misteriosa ou nenhum misterioso fator holístico de organização podem estar envolvidos (Wilson,1971).

A partir da perspectiva holística, tais colônias são realmente organismos de um nível superior ao dos insetos individuais que vivem dentro delas. Seus princípios organizadores são usualmente concebi­dos lançando-se mão de termos vagos, tais como propriedades sistê­micas ou padrões auto-organizadores de informações. Sheldrake propõe que tais princípios devam ser considerados como campos mórficos. Tais campos abrangem e incluem os indivíduos dentro deles, assim como campos magnéticos abrangem e incluem as limalhas de ferro que eles organizam segundo padrões característicos. Os insetos individuais estão dentro do campo mórfico social assim como as partículas de ferro estão dentro do campo magnético. Com base nesse ponto de vista, tentar compreender o campo mórfico social a partir do comportamento de insetos isolados seria tão absurdo quanto tentar entender o campo magnético apenas retirando algumas dessas partículas de ferro indivi­duais para fora do âmbito de ação desse campo e estudando suas propriedades mecânicas isoladas.

A organização de colônias de insetos envolve várias caracterís­ticas misteriosas que se manifestam totalmente à parte da prodigiosa complexidade de sua própria organização social. Por exemplo, em seus estudos sobre os cupins sul-africanos, o naturalista Eugène Marais descobriu que eles podiam reparar bem depressa danos provocados nos montículos dos cupinzeiros, reconstruindo túneis e abóbadas, trabalhan­do a partir de ambos os lados da fenda que Marais havia feito e en­contrando-se perfeitamente no meio, mesmo que os insetos individuais fossem cegos. Realizou então um experimento simples, mas fascinante. Enterrou uma grande placa de aço vários cm mais larga que o cupin­zeiro e mais alta que sua profundidade atravessando-o bem pelo cen­tro da fenda, de maneira a dividir o montículo e todo o cupinzeiro em duas partes separadas:

"Os construtores que trabalham num dos lados da fenda nada sa­bem sobre aqueles que se acham do outro lado. Não obstante, os cupins constroem uma abóbada ou torre semelhante em ambos os lados da placa. Quando, eventualmente, você retira a placa, as duas metades se ajus­tam perfeitamente depois que o corte divisório é reparado. Não pode­mos escapar da conclusão extrema de que em algum lugar há um plano preconcebido que os cupins meramente executam" (Marais, 1973).

Com base neste ponto de vista, tal plano existiria dentro do cam­po mórfico da colônia como um todo. Por ressonância mórfica, esta abrangeria uma memória coletiva de todas as colônias de cupins do passado, a ela semelhantes, bem como uma memória do próprio pas­sado da colônia, por auto-ressonância.

De maneira semelhante, o comportamento de cardumes de peixes e de bandos de pássaros exibe uma coordenação que, até agora, de­safiou as explicações. Por exemplo, bandos enormes de narcejas seten­trionais podem voar descrevendo curvas ou inclinando-se lateralmente como se fosse um único superorganismo, e a velocidade com a qual as "ondas de manobra" passam através do bando é rápida demais para admitir qualquer explicação mecanicista simples. A idéia de que sua coordenação ocorre por intermédio do campo mórfico do bando, o qual se estende à volta de cada pássaro individual e os abraça a todos parece fazer mais sentido (Sheldrake,1988).

De modo semelhante, pode-se pensar que os campos mórficos sociais coordenam o comportamento de manadas de renas, de gru­pos de baleias e de todos os padrões de organização social. Os mes­mos princípios deveriam aplicar-se às sociedades humanas (Sheldrake,1988). Por exemplo, os membros de uma tribo tradicional estão incluídos nos âmbitos do campo social da tribo e dos campos de seus padrões cul­turais. Esses campos possuem uma vida própria e fornecem à tribo seus padrões de organização habituais, mantidos por auto-ressonân­cia com a própria tribo no passado. Dessa maneira, o campo da tri­bo inclui não apenas os seus membros vivos, mas também os seus membros do passado. De fato, no mundo inteiro, a presença invisí­vel dos ancestrais na vida dos grupos sociais tradicionais é explici­tamente reconhecida.

As Controvérsias Continuam

As teorias vitalistas da natureza da vida atribuíam sua organiza­ção propositada a almas não-materiais, ou a fatores vitais a que deram vários outros nomes. As teorias mecanicistas sempre negaram a exis­tência de tais entidades "místicas", mas acabaram tendo de reinventá-­Ias sob novos disfarces. Os vitalistas sempre criticaram o reducionis­mo da abordagem mecanicista e chamaram a atenção para suas limi­tações e para suas insuficiências. Os mecanicistas sempre criticaram o vitalismo com base na alegação de que ele é estéril, contando com misteriosas entidades hipotéticas inacessíveis à investigação experimen­tal. Quanto à abordagem mecanicista, apontam eles, tem sido, ao contrário, muito produtiva e tem proporcionado uma compreensão de muitos aspectos dos organismos, tais como o código genético para as proteínas, aspectos que eram antes completamente desconhecidos e insuspeitados.

Entretanto, durante mais de sessenta anos, os organicistas têm tentado transcender a controvérsia vitalismo-mecanicismo enfatizando as propriedades holísticas dos organismos vivos. Eles consideram os organismos biológicos como exemplos de sistemas holísticos que se encontram em todos os níveis de complexidade, desde os átomos até as galáxias (Koestler,1967; Whyte,1974). Alguns organicistas, especialmente os defensores da abordagem sistêmica, retiveram a metáfora da máquina, mas adotaram versões mais sofisticadas dessa metáfora (Varela,1979). Os teóricos sistêmicos, em parte por receio de serem rotulados de vitalistas, têm evitado, em geral, propor que há novos tipos de entidades causais na natureza, tais como almas ou campos desconhecidos da física. Em vez disso, os problemas devem ser entendidos em termos abstratos, tais como transferência de informações e feedback, sem se preocupar muito com a base física desses processos, os quais se presume, implicitamente, que dependem apenas das forças e dos campos conhecidos da física (Capra,1982).

Outros organicistas concentraram-se na idéia de campos organi­zadores, tais como campos morfogenéticos. Tais campos, até certo pon­to, desmistificam a antiga concepção de almas, mas ao mesmo tempo mistificam a idéia de campos, dotando-os de propriedades surpreenden­tes, com as quais nem sequer sonhava a física do século XIX. O pro­blema é que a natureza desses campos permaneceu obscura. Os meca­nicistas habitualmente os criticam pelos mesmos motivos que os levam a criticar os fatores vitais: são inacessíveis à investigação experimen­tal. Essa crítica é procedente caso se considere que os campos morfo­genéticos nada mais são que uma maneira de falar sobre interações fí­sico-químicas complexas, embora convencionais, ou como reflexos de verdades matemáticas eternas num domínio platônico transcendental.

No entanto, se os campos morfogenéticos (assim como outros tipos de campos mórficos) são considerados habituais, eles se tornam expe­rimentalmente testáveis. Esses campos contêm uma memória inerente dada por ressonância mórfica, e, como tais, diferem das concepções correntes dos campos conhecidos da física, os quais, como ainda se supõe, são governados por leis eternas. De acordo com a hipótese da causação formativa, os campos mórficos não funcionam apenas nos organismos vivos, mas também em cristais, em moléculas e em outros sistemas físicos. Estes são igualmente organizados por campos com uma memória inerente. Agora que se pensa que toda a natureza é evoluci­onista, não é mais possível aceitar como inquestionável a idéia con­vencional de que todos os sistemas físicos e químicos são governados por leis eternas da natureza. As assim chamadas leis da natureza podem ser, isto sim, semelhantes a hábitos mantidos por ressonância mórfica.

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About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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