Trabalhando com a resistência (Técnica Psicanalítica – II)

Sabemos que na clínica psicanalítica encontraremos algumas formas de resistência muito conhecidas, clássicas, e outras absolutamente originais. Para cada uma delas teremos que desenvolver uma estratégia de abordagem. Sabemos também, que a resistência é parte fundamental do trabalho analítico, sem ela não há análise, porque essa se apresenta sempre tão mais forte, quanto mais nos aproximamos daquilo que está no recalcado, ou seja, o núcleo patógeno. Inicialmente foi considerada como tudo aquilo que atrapalha o livre curso da associação-livre, regra fundamental da relação analítica.
Fato é, que é de crucial importância sua abordagem, dentro daquilo que circunscrevemos enquanto psicanálise. Freud chegou a afirmar que poderíamos considerar Psicanálise, toda abordagem que trabalhasse com o par Transferência/Resistência.(1)
Abordaremos então, no presente texto, algumas considerações sobre esse par e seu aparecimento na clínica.

Além das Obras Completas de S. Freud e do livro de Otto Fenichel “Teoria Psicanalítica das Neuroses”, outra obra considerada parte fundamental sobre esse estudo, chama-se “Estudos sobre a Técnica Psicanalítica” de Einrich Racker, e ainda a obra de Horácio Etchegoyen que está muito bem apresentado em um artigo aqui na Rede Psi de autoria de outro colunista.

Sem o reconhecimento profundo de tais enunciados, não se pode conceber nenhum constructo, como sendo Psicanálise. São fundamentais tanto para entender seu funcionamento como para transformá-la em algo mais do que uma teoria ou método de conhecimento das relações humanas, transpondo-a para o campo da intervenção, onde ela detém a capacidade de interferir modificando, os fenômenos no mundo real, partindo da virtualidade da relação transferencial.

Em outro artigo aqui dessa coluna, “Psicanálise e o mundo Net – Ego Navega no Mundo Net”, arriscamo-nos a passear um pouco, talvez não ainda tanto quanto o necessário, na questão da virtualidade da relação transferencial e a importância que essa questão, hoje, pode assumir, frente às novas virtualidades do mundo contemporâneo.

Na clínica da psicanálise o aparecimento da resistência tomará aspectos diante de suas várias modalidades de apresentar-se, assim como tomará aspectos do quadro de onde ela se origina. Uma resistência de uma neurose de transferência tem aspecto bastante diferente de uma que se origina de uma neurose narcísica ou narcisista, conhecidas como as psicoses. Podemos pensá-la ainda na modernidade, frente aquilo que muitos teóricos tem falado sobre a predominância de quadros fronteiriços, ou os chamados “borderlines”, segundo essas análises, substituindo a antes predominante tendência à neurose. A resistência que se ergue a partir desses quadros encontra uma magnitude ainda maior, de difícil manejo para o psicanalista (psicoterapeuta), ainda mais quando essa se origina em uma transferência erótica, como está bem descrito no artigo citado mais acima, do colega Tovar Tomaselli.(no link) http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=572
A resistência na evolução da análise deve ser vista como algo a ser direcionado, como segurar com força uma rédea, não exercendo um freio exagerado, nem a deixando frouxa demais. Ela será o que possibilitará, apoiada na transferência, o trabalho analítico, como também já foi abordado aqui nessa coluna no texto “O Psicanalista e Sua Função Dentro do Enquadre”, sendo esse par que se apresenta para a análise, a transferência-resistência, resultante dos mecanismos neuróticos (neuroses de transferência) e deles se originando sempre.

Durante muito tempo se acreditou que as neuroses narcísicas não seriam passíveis de estabelecer uma situação transferencial, deixando-as dessa maneira do lado de fora do tratamento psicanalítico, hoje já não se mantém essa postura na maioria das linhas dentro da psicanálise, embora se saiba que a transferência nesses casos possui características diferentes das do tipo que chamamos apenas de mecanismos neuróticos.
O aparecimento da resistência se dá sempre de maneira insidiosa, ela vem aos poucos atrelada ao material que surge a partir da transferência, como explica Freud, dizendo que quanto mais o as associações se aproximam da fortificação defendida pelo recalque, mais os exércitos da resistência vão se tornando mais fortes e mais presentes na relação analítica. Ou ainda poderemos pensá-la a partir do modelo pré-científico da “cebola”, onde em um corte, veremos as várias camadas que existem até que se chegue ao núcleo patógeno, que exerce uma carga de atração. Trabalhar a questão resistencial, tendo esse modelo em mente, o do corte da cebola, costuma ser bastante proveitoso, aproximar-se camada por camada, associação por associação, dentro da noção de “timing”.

Podemos avaliar também que, em uma suposta transferência positiva, se apresente muitas vezes aspectos de resistência, como uma exagerada colaboração que se investe de aspectos da transferência erótica, como no caso dos padrões obsessivos. Há também, nesse tipo de padrão muito de resistência, esses pacientes extremamente colaboradores e obedientes das regras contratadas, não faltam, produzem sonhos, pagam sempre em dia, fazem relatos que mostram sempre avanços etc, mas na verdade avançam muito pouco em mudanças significativas do seu quadro. Estabelecem tal magnitude de gratificação para o analista que esse pode acabar imobilizado por ela.

Nos queixumes melancólicos também encontraremos outro padrão importante dela, aparentemente onde se confessa em suas dores, será onde o paciente mais resiste, como foi brevemente abordado, no texto anterior a esse, também aqui nessa coluna, o “Técnica Psicanalítica – Parte I”.

Nos padrões mais ligados às chamadas Neuroses Narcisistas, com magnitudes muito concretas, a resistência se apresentará em franca posição hostil, algumas vezes imbuída de uma perseguição erótica, outras como uma “Reação Terapêutica Negativa”, piorando a cada nova abordagem correta de seu psicanalista e outra vezes se apresentando como um silêncio repleto de não ditos e segredos altamente investidos enquanto zona sem luz; ou ainda no refúgio de um discurso linear, abstraído totalmente do afeto que deveria sustentá-lo, se apresentando então, como palavras vazias, rejeitadas e jogadas a esmo.

“Além disso, sabemos que o recalque deixa sintomas em seu rastro” (e).

A resistência atuará principalmente dentro do setting sempre como uma forma de burlar a “regra fundamental”, impedindo dessa maneira o livre curso das associações, desta maneira pensamos ser tarefa do trabalho analítico, enquanto ela atua, obter meios de minimizá-las ou ainda de acompanhá-las da melhor maneira que puder ser encontrada, dentro das limitações que nos fornece o enquadre (regras e combinações) daquele contrato terapêutico, como já vimos aqui nessa coluna, em outro texto: “O Psicanalista e sua Função Dentro do Enquadre”.

“As resistências exprimem-se de maneiras múltiplas. Tudo quanto impede o paciente de produzir material que derive do inconsciente é resistência. É impossível tabular as várias formas pelas quais a resistência se pode exprimir. O paciente pode parar de falar, ou pode falar tanto que impossibilite deduzir um fator comum das suas verbalizações. O que ele diz parece desviar-se cada vez mais do que realmente quer dizer; dando impressão mais de extensão que de profundidade” (2).

O que hoje encontraremos como uma variação desse entendimento, diz respeito à não considerar tanto a pressa em enfraquecer os mecanismos no aparecimento da resistência dentro do processo analítico, mas de alguma maneira, tentar uma aliança para que se trabalhe a partir dela em direção ao entendimento do recalcado, entendê-la como o que é, material inconsciente, presente no trabalho e que deverá ser aproveitado. Para essa postura, foram fundamentais os estudos de Einrich Racker e Horácio Etchegoyen.

Manter essa estratégia é algo bem diferente do que foi dito sobre esse fato clínico inicialmente, que seria algo que simplesmente atrapalharia o tratamento, que deveria ser sempre debelada aos primeiros sinais. Hoje sabemos que não será bem assim que encontraremos o melhor caminho para o acesso ao Inconsciente. A resistência vem sempre investida de grande carga, contra-catéxis, em sua representação legítima, segui-la é como colocar um investigador disfarçado à espreita de um suspeito. Essa seria uma proposta da técnica bem mais próxima ao que hoje se entende como resistência.

Dentro da questão da resistência, não poderemos deixar de, pelo menos citar, seu funcionamento também para o psicanalista, no fato clínico que conhecemos como contra-resistência, que se apóia no processo transferencial e se encontra a ele ligado de maneira sempre presente, que também falará daquilo que conhecemos como “pontos cegos”, existentes dentro da fantasmática que pertence ao sujeito psíquico do psicanalista. Em relação a essa, todo cuidado será pouco, é questão sempre atuante dentro do setting, algo com o qual se deva estar “ocupado” todo tempo, uma vez que, assim como a resistência que atua a partir do analisando, ela poderá se apresentar de maneiras absolutamente disfarçadas, até pelo(a) psicanalista “bondoso” que acolhe, cuida, ajuda etc ou ainda por aquele que leva o conceito de neutralidade ao seu limite máximo. Favorecendo dessa maneira muito mais, as necessidades narcísicas destes, do que o trabalho analítico em si. A contra-resistência também não deverá ser encarada como fatos ocasionais, de alguma maneira ela também tenta se fazer presente a cada nova intervenção, entender isso é dar amplitude ao trabalho que acontece ali entre o divã e a poltrona do psicanalista.

Esses são temas que merecem ainda muito aprofundamento. Nossa intenção aqui nesse texto, construído para o Rede Psi, busca lançar o tema para a reflexão e busca de aprendizado. Consideramos hoje, discutir os mecanismos da resistência algo que aponta para um questionamento e modificação de alguns padrões muito aceitos dentro do que se chamaria aplicação da técnica em Psicanálise.

Deixamos para estudos, vários links com excelentes artigos aqui indicados e bibliografia básica sobre a questão. Esperamos assim, estar contribuindo de alguma maneira, para que se possa ampliar, permanentemente, o espaço sobre a discussão da técnica psicanalítica, levando em consideração seus conceitos tão fundamentais, precisos e orientadores.

A Psicanálise não é e nunca caberá em algo nos moldes de uma “receita” ou “manual instruções”, mas é rica em apontar pontos (método) onde devemos estar atentos, isso é inegável para quem dela se aproxima. Viajar acompanhado de um guia será sempre mais informativo e seguro.

“Aos seus discípulos ele gostava de mostrar um cartão-postal onde se podia ver um homem ingênuo, um labrego, num quarto de hotel tentando soprar uma lâmpada, como se fosse uma lamparina. ‘Se vocês atacarem o sintoma diretamente, estarão agindo como este homem’, dizia-lhes Freud. Vocês devem procurar o interruptor” (in: A Vida Cotidiana de Freud e seus pacientes – Lydia Flem).


Textos disponíveis na Net para estudo do tema:

*Contratransferência: Uma revisão na literatura do conceito – LEOPOLDO GONÇALVES LEITÃO

http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/aps/v21n2/v21n2a04.pdf


*Transferência erótica: uma breve revisão

Luciano Rassier Isolan*

http://www.scielo.br/pdf/rprs/v27n2/v27n2a09.pdf

* O analista trabalhando: reflexões sobre a teoria da técnica

José Alberto Zusman

http://www.abp.org.br/capsa/capsa2006_josealberto.doc


*Contratransferência e atuação

Luís F. G. de Andrade.

http://www.escolafreudianajp.org/trabalhos/Contratransferencia_e_atuacao.pdf


Bibliografia de apoio:

1 – S. Freud – Obras Completas

Textos: a)“Recomendações aos Médicos que exercem a Psicanálise” – vol XII

b)“Psicanálise Silvestre” – vol XI

c)“Recordar Repetir e Elaborar” – vol XII

d)“Observações sobre o Amor Transferencial” – vol XII

e)“Repressão” – Vol XIV

f)“Linhas de Progresso na Terapia Psicanalítica” – vol XVIII

2- Otto Fenichel – “Teoria Psicanalítica das Neuroses”

3 – Racker, Heinrich – Estudos sobre a Técnica Psicanalítica

4 – R. Horacio Etchegoyen – Estudos sobre a Técnica Psicanalítica

5- Nahman Armony – Psicanálise – Da Interpretação Á Vivência Compartilhada

6- Joyce Macdougall – “Em Defesa de uma certa anormalidade: teoria e técnica Psicanalítica”

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro “Cinematerapia – Entendendo Conflitos”.

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