O Profissional Psi e o Mundo Net

Nesse artigo trataremos de algumas questões que surgem a partir da crescente participação do profissional “psi”, no lugar sem lugar, que é a Rede Mundial de Computadores, conhecida por todos como net.

A participação de profissionais em fóruns e comunidades virtuais parece que vem em um crescente, igual ou superior ao crescimento e avanço da rede em nosso país. Com isso,  algumas questões nos tem sido colocadas para reflexão, tanto no sentido científico, como ao que leva à reflexão sobre ética, principalmente no que tange a exposição de pacientes sem o seu conhecimento ou autorização. Isso tem sido feito com uma freqüência bastante preocupante, segundo nossa análise.
Outra questão levantada por essa participação será a sempre presente discussão de qual é a função exercida pelo psicólogo clínico, freqüentemente confundida com algo de cunho assistencialista ou como um conselheiro.

Ainda discutiremos um pouco aqui, algumas medidas de segurança, para esse profissional que se insere na net, sem entender que ela possui uma dinâmica muito própria, e, que assim como o mundo temporal (Levy), possui suas armadilhas e noções de bem e mal, e percebe-se que, muitas vezes, esse profissional irá se deixar envolver pela sensação equivocada de uma separação muito nítida entre o mundo net e seu mundo presencial, algo que não se dá necessariamente dessa forma.

Sensação de anonimato:

É comum aos novatos na net, pensarem suas participações como algo que não será percebido pelos seus vínculos, e, ao vivenciar a primeira situação que desmentirá isso, geralmente são acometidos de grande susto que desencadeará processos diferentes para diferentes dinâmicas individuais. Como exemplo, podemos citar o susto que muitos jovens brasileiros levaram ao tomar conhecimento de que seu perfil na comunidade virtual denominada de Orkut, estaria sendo levado em consideração em seleções para estágios e postos de trabalho.

Encontraremos também novos fatos a serem analisados como, por exemplo:

“Seja por ingenuidade, seja por gosto pela exposição, muitos terapeutas se colocam livremente na rede. Qualquer paciente pode saber sobre sua vida pessoal, com mais ou menos detalhes. No Orkut também é possível acessar, além da vida do terapeuta, todo seu círculo de amizades e de familiares. Se antes não se sabia nada a respeito do terapeuta, hoje é possível saber inclusive sobre a vida de sua família” (1 – pág. 55).

Teremos ainda outro fenômeno que são os profissionais que escolhem participar de fóruns e comunidades virtuais, com aquilo que conhecemos como “perfil fake”, ou seja, que não se pode identificar no mundo fora da net quem o acessa e atua a partir dele, porque para isso seriam necessárias autorizações legais e rastreamento de IP. Essa é uma forma de participação, que nos leva a questionar algumas lendas existentes no próprio mundo profissional desse sujeito, quanto a uma suposta neutralidade, que sabemos será bastante frágil, em seu mundo off-line,  frente a algumas provas de realidade a que é  submetida, mesmo que evitem-nas a todo custo.

“Na cibercultura, poder, autoridade e verdade mudam de lugar; podem ser momentaneamente construídos e/ou conquistados por meio de métodos, estratégias e práticas experimentais. A inserção na cultura – e na cibercultura – obriga ao pensamento original, aquele do erro, da hibridização e da incerteza. Por fim, a configuração do conhecimento na interação exige não apenas um ethos, mas também um pathos, a recuperação dos paradigmas da colaboração, da afetividade e do mergulho na complexidade”.(3)

Ao não entender essa perspectiva, aquele que busca a rede como forma de interação profissional, perde-se de antemão, de sua dimensão mais inovadora e propiciadora de mudanças. Esse será um equívoco para a inserção de qualquer modalidade profissional, mas quando é vista a partir de uma abordagem psi, soará ainda muito mais deslocada. O profissional psi, quando entra na net, abre mão sem saber ou refletir sobre, daquilo que Lacan chamará de “sujeito-suposto-saber”, porque esse saber inserido na net, é totalmente democratizado e nivelado, a assimetria que geralmente caracteriza as funções de quem aprende e de quem ensina, praticamente desaparece quando realocada no espaço virtual de debate.

“Se é fato que uma saudável conversação se estabelece na Internet entre blogueiros, gente que lida com a tecnologia, webjornalistas etc., gerando conhecimento multidisciplinar e colaborativo e configurando grupos de intervenção política, também é fato que os intelectuais, em geral, não participam, ou participam pouco, desta conversação. Sua produção se concentra em outras instituições, que remontam às origens da Modernidade e cujas relações com a cibercultura – quando existem não são exatamente interativas e/ou colaborativas. Entre os principais motivos do distanciamento estão a diferença entre os modos de produção e circulação de conhecimento das instituições tradicionais e os da Internet”. (3)

Esse aspecto desse tipo de situação relacional se constitui atualmente em fonte de muitos estudos, para aqueles que questionam a inserção da informação, da sua capacidade formativa ou de controle, assim como sua possibilidade revolucionária ou de libertação desse homem pós-moderno.

"Sou, com efeito, um sonhador de palavras, um sonhador de palavras escritas” (Gaston Bachelard).

Muitos dos profissionais psis que adentram o mundo net, parecem não refletir sobre essas questões propostas pelo estudo da “cibercultura”, tornando-se dessa maneira, sujeitos que sofrem de seus fenômenos sem um ato de reflexão sobre.  Vivência sempre válida, enquanto sujeitos no mundo, mas arriscada quando esse se apresenta como profissional atuante nesse meio relacional. Dessa maneira, acaba por se tornar vítima e ao mesmo tempo agente corruptor de relações delicadas.

Entrar na rede como profissional, requer segundo nossa análise, grande responsabilidade e reflexão, uma vez que cada profissional se tornará produtor de informações, relativizadas pela simetria net, mas muitas vezes, transpostas para o corte do real, como verdades e paradigmas.

Dessa maneira pensamos que discutir “ética” inserida no mundo net, seja uma necessidade urgentíssima, e, talvez seu lugar de discussão, seja justamente o próprio espaço de onde se origina essa necessidade.

Discutindo um pouco a ética psi:

Sobre a ética médica:

"Os pacientes têm o direito à privacidade e este não deve ser infligido sem seu consentimento informado. Informações que permitam sua identificação não deveriam ser publicadas em textos, fotografias e outros dados a não ser que sejam essenciais para os propósitos científicos e que o paciente (ou pai ou tutor) dê uma autorização por escrito autorizando a publicação. O consentimento informado para esse propósito exige que o paciente tenha visto o manuscrito a ser publicado".(5)
 
Sobre a ética psi:

“Os casos analíticos, pela sua própria especificidade, não podem seguir as imposições dos editores de revistas médicas e seus parâmetros de precisão científica. Os casos necessariamente têm de ser disfarçados, os dados pessoais biográficos não podem ser enunciados. Têm que ser camuflados e, em alguns casos, até mesmo inventados, no intuito de proteger a privacidade do paciente. Também aí, a questão do pedido de autorização para publicação têm implicações que não existem nos casos médicos”.(5)

Basta empreendermos rápidos passeios pela net para ter uma noção bastante preocupante do quanto isso vem sendo negligenciado.  Quais serão os motores que alimentam tais empreendimentos? Resta  perguntarmo-nos a essa altura, uma vez que teremos que criar uma consciência crítica, para tentar dar conta desse tipo de atuação. Os Conselhos, por mais que se esforcem, não serão capazes de conter esse tipo de participação, cada vez mais crescente dentro da net. A título de promoção pessoal, propaganda ou tentativa ingênua de troca, muitos profissionais se inserem dessa maneira, pelo número ilimitados de sites, blogs, comunidades, fóruns e chats. Questionados a respeito, produzem um sem números de argumentações desconexas e desligadas de um aprofundamento sobre o tema ética e ambiente virtual, que pressupõe tudo aquilo que enunciamos mais acima e muitas mais variáveis não abordadas aqui nesse texto.

Colocaremos aqui uma hipótese, a título de exemplificação e convite á reflexão: se um determinado paciente, em busca de informações sobre seu quadro, acesse a rede e busque a informação, ou como dizem, dê uma “goolgada”, comece a ler o texto e vá se reconhecendo no relato. Sem muito esforço, podemos pensar no tipo de danos, vários, que isso poderá acarretar no sujeito, mesmo para aqueles cujos aspectos exibicionistas sejam uma predominância (reforçando a gratificação). Pensamos que a grande maioria de profissionais que fazem isso, o fazem não por má fé, mas por uma “alienação” do conceito net, ou ainda de “ciberespaço”e seu atravessamento com o presencial.

“O ciberespaço possui o caráter de sistema dos sistemas, mas, por isso mesmo, também é o sistema do caos. Máxima encarnação da transparência técnica acolhe, no entanto, devido à sua irreprimível profusão, todas as opacidades do sentido. Desenha e redesenha a figura de um labirinto móvel, em extensão, sem plano possível, universal, um labirinto com o qual o próprio Dédalo não poderia ter sonhado. Essa universalidade desprovida de significado central, esse sistema da desordem, essa transparência labiríntica, eu a chamo o «universal sem totalidade». Constitui a essência paradoxal da cybercultura”.(6)

Torna-se então, talvez, necessário, que seja feito o convite para reflexão de qual tipo de atuação e interseção quer esse  profissional das atividades psicológicas, frente a esse novo espaço descrito como ciberespaço e qual a ética que construiremos para essa participação enquanto do lugar da fala profissional.

Outra participação que se torna bastante questionável será aquela que se dá em fóruns e comunidades que discutem indicações em psicofarmacologia, se atravessarmos essa questão com a de que, no Brasil, o acesso às medicações controladas ainda é algo bem facilitado, veremos a mistura perigosa de um atravessamento entre o virtual e o real. Essa é uma questão que merece muita atenção, discussão, algum controle possível e principalmente a conscientização dos profissionais em relação a uma ética sobre o tema.

Observamos também no mundo net, reiteradamente, a presença de pessoas com os famosos traços de “queixumes” que encontram no ambiente virtual um espaço privilegiado para suas atuações(acting) melancólicas. Irão encontrar como “ouvidos”, estudantes de psicologia ou de psiquiatria, ávidos por uma atuação “profissional”, ou ainda recém-formados à cata de clientes, ou ainda pessoas que irão se passar por profissionais sem sê-lo, para realização de objetivos narcisistas ou mesmo com intenções outras de má-fé, muitas vezes.

Em outro oportunidade poderíamos ainda debater o estrago que algumas atuações poderiam provocar em sujeitos acometidos por grandes fendas psíquicas com acesso a informações que deflagram todo um processo de viagem ao centro de seu delírio, ou como resultado de  pretensos atendimentos via “conselhos dados via Internet”, sabe-se lá por quem, identificado como profissional ou em formação. Há todo tipo de atuação acontecendo nesse momento na rede, inclusive pessoas que procuram prescrições de medicação, orientações sobre seu quadro ou de amigo ou parente próximo, encontrando alguns perfis que não se negam a prestar essa “ajuda”, fornecendo desde “inofensivos” conselhos até a indicação de medicação ou de pedidos de exames.

Pensamos ser necessário que profissionais bem capacitados que atuam na net, façam sempre valer a máxima: “Procure ajuda profissional”em sua cidade, principalmente para evitar a atuação de falsos profissionais que habilmente se escondem por detrás de perfis não identificáveis, ou os assim chamados “perfis fakes”. Ambiente virtual não é lugar de consulta, a não ser em condições especiais de contratação, o que na verdade, ainda é objeto de pesquisa. O Conselho Federal de Psicologia, só autoriza atendimento on-line (psicoterapia) como pesquisa, sendo necessário para isso antes se cadastrar e ser autorizado com um selo pelo Conselho, cumprindo várias exigências na confecção de sua página, inclusive quanto a normas de segurança, para proteção do sigilo. Muitos profissionais desconhecem essa Resolução, avançando pelo ambiente virtual de maneira absolutamente incorreta e sem parâmetros de pesquisa e de postura profissional diante de uma nova modalidade que surge nas variações de atendimento. Isso expõe não somente a quem é atendido, como também ao profissional, que acaba preso a malhas de relação profissional ainda desconhecidas em sua totalidade e dos fenômenos envolvidos nela.

Buscar na web um ambiente de troca de informações, é algo que veremos como um movimento do profissional psi bastante saudável e produtivo, não há nesse artigo aqui apresentado, qualquer crítica a essa busca. Julgamos apenas que seja necessário, com uma certa urgência, construir uma ética mínima de participação em veículo que na verdade é um ambiente aberto e democrático e, portanto público.

“Certamente seria um tanto exagerado dizer que a Internet é o novo entorpecente da humanidade, mas não há como ignorar que as pessoas estão extasiadas pela invenção, mais por seus excessos e fantasias que pelo real intercâmbio de conhecimentos e experiências de aprendizagem cooperativa.”(4)

Sem dúvida o profissional psi também ainda, em sua grande maioria, está encantado e fascinado por essa nova ferramenta de comunicação. Se, nos grandes centros isso já se torna convidativo, podemos pensar no quanto será importante, formador e revolucionários para aqueles profissionais que se encontram isolados em cidades menores no interior desse imenso país. É compreensível então, que aos primeiros contatos, tudo seja feito com alguma euforia destituída dos seus conteúdos críticos e reflexivos, é a tendência do sujeito psíquico realizar dessa maneira. Porém, torna-se por conta disso mesmo necessário, fundar uma discussão sobre nossa participação nesse meio.

Estamos na rede e agora? Peixes enrolados ou navegadores com bússolas? Essa é nossa questão urgentíssima! Devemos, no entanto, discutir tudo isso sem cair na outra armadilha, que é a velha tendência em tornar a net à vilã de atos promovidos por sujeitos psíquicos equivocados ou mesmo com impulsos de má-fé. A net como qualquer outra ferramenta utilizada pelo homem ganha as características da intenção quanto ao seu uso. Por detrás do teclado e da tela tem um sujeito desejante constituído(ou não), o que tornará aquela máquina ética ou não, benéfica ou maléfica diante da malha intrincada que são as relações humanas e inseridas na cibercultura com seus fenômenos próprios.

“Antecipando-se às críticas que certamente advêm dos descrentes em uma nova era proporcionada pelas facilidades tecnológicas e planetárias, Lévy sai na autodefesa: Não olho exatamente os mesmos objetos que os rabugentos. Mais do que me alinhar com aquilo que morre, eu me encanto com o que cresce”  (4).

Livros consultados:

1 – Psicologia & Informática  — Produções do III PSICOINFO e II JORNADAdo NPPI

2 – Psicologia e Informática  –  O ser humano diante das novas tecnologias – NPPI

Links indicados para assuntos correlatos:

1 – A LIBERDADE NAS ONDAS. CIBERATIVISTAS E A WIRELESS-FIDELITY.André Lemos
http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/wi-fi.htm

2 – A obscenidade do  cotidiano e a cena comunicacional contemporânea
http://www.pucrs.br/famecos/pos/revfamecos/25/Fernanda_Bruno.pdf

3 – Os intelectuais e a cibercultura: além de apocalípticos e integrados
http://www.espacoacademico.com.br/033/33clemos.htm

4 – Internet, a ilusão democrática –  Leandro Ramires Comassetto*
http://www.socitec.pro.br/e-prints_vol.1_n.1_Internet_a_ilusao_democratica_-_Leandro_Ramiro_Comassetto.pdf

5 – Psicanálise em Debate  –  Resumo de um artigo de Glenn Gabbard sobre a publicação de casos clínicos em psicanálise  –  Dr. Sérgio Telles
http://www.polbr.med.br/arquivo/psi0301.htm

6 – Pierre Levy – O universal sem totalidade, essência da ciberculturahttp://www.sescsp.org.br/sesc/conferencias/subindex.cfm?referencia=2888&autor=168&ParamEnd=6&ID=36

7- Notícia sobre ciberbuylling – Globo.com 27/09/07
http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL110445-6174,00.html

8 – Compulsão à Internet: Mito ou Realidade
http://gballone.sites.uol.com.br/voce/internet.html

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro "Cinematerapia - Entendendo Conflitos".
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