A divisão das estações: um olhar sobre o mito

Os mitos são histórias sobre deuses ou seres místicos. A palavra “mito” vem do grego “mythos” e significa fábula ou palavra. Esses eram contados tradicionalmente de forma oral e também passados de geração a geração. Os mitos nos alcançam em muitas dimensões, como pinturas, esculturas, histórias, poemas, contos-de-fada, folclore e até mesmo em nosso comportamento.
Durante séculos nós utilizamos os mitos de forma consciente para explicar os mistérios da vida e do mundo, desde a criação do mundo, mudança das estações do ano, conflitos nos relacionamentos e até mesmo o enigma da morte. Voltando no tempo temos Platão, que transmitia conceitos filosóficos complexos através dos mitos, Jesus também utilizava parábolas para explicar de forma fácil os problemas mais difíceis, ainda temos na antiga medicina hindu, a utilização deles como forma de tratamento a dificuldade mental e emocional, o curandeiro prescrevia histórias aos pacientes para que meditassem, com isso eles encontrariam as próprias soluções para os conflitos. Nós nos esquecemos há muito tempo que temos uma dimensão simbólica, uma dimensão que compartilha de diversos símbolos. Essa profunda dimensão foi chamada de Inconsciente Coletivo, nele encontramos as mais diversas experiências humanas, tomamos consciência de comportamentos arquetípicos e transpessoais. Resumindo os mitos tem uma capacidade de nos permitir enxergar além, de nos fazer perceber aquilo que é a verdadeira questão de diversos problemas. A história que será contada nesse artigo é um mito grego sobre as estações do ano.

Tudo começa com Demeter (Deusa da agricultura) que vivia com sua adorável filha Perséfone, ela sempre esteve afastada das disputas, conflitos e problemas terrenos, preferia viver numa plena harmonia com sua filha. Certo dia Perséfone estava passeando num belo campo e colhia alguns narcisos (belas flores de inúmeras formas e cores) tranqüilamente, quando de repente o chão se abriu e então surge das profundezas da terra, Hades, em uma carruagem majestosamente sombria, puxada por cavalos negros. Ele a segura fortemente e a arrasta para as profundezas da terra. Pela força ele a torna sua esposa e a estupra. Demeter ao procurar sua amada filha, fica abalada, pois não a encontra, procurou em toda a terra e não conseguiu achar nada, nenhuma pista do que ocorrera com sua filha. Desiludida quase perdendo as esperanças em sua busca, encontra uma criança que lhe conta que Hades a havia seqüestrado. Demeter enfurecida com Hades e amarga com a própria terra, que para ela ter-lhe-ia traído por dar passagem ao deus infernal, ordena que tudo pare de produzir, que tudo seque e que tudo morra! Ela estava totalmente desconsolada, pois, não aceitava a brusca mudança em sua vida. Obedecendo a deusa, a terra secou, logo, os deuses passaram a não receber suas oferendas e começaram a reclamar com Zeus (principal deus do Olímpo). Não tendo o que fazer pede a Hermes (deus dos viajantes) que ele vá ao reino dos mortos e avise a Hades que devolva sua filha.

Hades pensa em fazer um acordo com Demeter, ele sobe à terra e a invoca para conversarem. Demeter rapidamente aparece e durante a conversa a deusa não aceita as idéias dele. Mas ironicamente o senhor dos mortos, conta que Perséfone já havia comido uma romã (a fruta dos mortos) de bom grado, isto porque a moça já estava apaixonada por ele.

Então Demeter sem ver solução, totalmente contra sua vontade tenta um acordo. Pois, sabia ela que as leis de Hades são irrevogáveis, e que nem mesmo Zeus poder-lhes-ia infringir. Decidiram então, que a partir deste momento, Perséfone teria de ocupar dois lugares na estória, o de filha adorada e o de rainha dos infernos.

Perséfone ficaria seis meses com sua Mãe e seis meses com o seu amado. Nasce neste momento a divisão das estações do ano. Nos seis meses em que Perséfone está com sua mãe, se faz na terra primavera – verão, é o tempo de felicidade pra terra, as flores nascem a paisagem se enfeita, e quando está com seu marido, se faz outono – inverno, a terra fica triste, gelada e sem emoção. O mito acima foi a justificativa simbólica daquela época para entendermos o funcionamento do mundo, explicando o que faz com que o tempo mude e o que traz as estações do ano. Antigamente os povos criavam os mitos para representar e entender o real e nós herdamos isso! Graças às contribuições de Carl Gustav Jung, foi descoberto que os mitos habitam em toda nossa vida, através do inconsciente coletivo, aonde temos informações universais.

Os mitos são imagens primordiais, ou seja, arquétipos, que são os potenciais, modelos de comportamentos que facilitam a vida. Ao olharmos mais fundo, ou seja, olharmos de forma simbólica, Demeter representa a experiência materna, não só biológica, mas também sagrada e interior, a que nutri, protege, tenta suprir as necessidades da cria, paciência é a descoberta do corpo como algo precioso. Mas como todo o sistema junguiano trabalha com os opostos, os arquétipos também não fugiriam a essa realidade, o lado negativo dessa imagem é a superproteção, devora a criança, não a divide com ninguém, instintiva, agressiva é a típica mãe que vive achando defeitos nos amigos, namorados e em todo o meio social em que o filho vive, ou seja, sufoca a própria cria. Perséfone já encarna a experiência da pureza corrompida, é a “criança” forçada a entrar no mundo feminino adulto, a “criança” que é retirada do seu lugar no mundo e é colocada em um lugar desconhecido. É representante do mistério, do desconhecido, é sedutora e fascinate, ela é a parte de nossa alma que transita entre o inconsciente e o ego. Por ultimo vemos Hades, o senhor das trevas, é a imagem mitológica que controla o mundo dos mortos, seu mundo é um local de extensa riqueza, sob a luz da psicologia junguiana vemos o deus como um representante do término do ciclo da vida, mais amplamente o término de um comportamento, a mudança geral em nossas atitudes é a possibilidade de um novo ciclo na vida.

Com isso vemos que esse personagem não é ruim, ele pode representar o casamento, o nascimento, a morte de questões antigas de nossa vida. Um exemplo é a despedida de solteiro, aonde, comemoramos a entrada num mundo de responsabilidades com o outro, e ao mesmo tempo lamentamos a perda de um antigo estado civil. Outro exemplo pode ser o caso da depressão pós-parto, pois, vemos a tristeza pela perda da antiga vida e a entrada em uma nova. Esses são acontecimentos inconscientes. Resumindo Hades preside todos os finais e começos em nossa vida.

Esses personagens encarnam imagens arquetípicas, ou seja, representações de padrões inconscientes do comportamento, que têm um objetivo em comum, facilitar a vivência humana na terra.

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