Neurobiologia da moralidade (Neuroética)

Introdução

Damos a palavra a Joshua Greene

Joshua Greene é filósofo e neurocientista cognitivo. É pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Psicologia e no Centro para Estudos sobre o Cérebro, Mente e Comportamento da Universidade de Princeton. Sua pesquisa experimental usa métodos de comportamento juntamente com imagens de ressonância magnética funcional para examinar a base neural da moralidade.

Sua dissertação examina os fundamentos da ética baseados em uma pesquisa psicológica e neurocientífica recente e na teoria da evolução. Neste momento, ele está saindo de Princeton indo para do Departamento de Psicologia da Harvard University.

Para chegar à neurociência, meu currículo não é muito comum. Formei-me em filosofia, mas assisti algumas aulas eletivas de neurociência e psicologia. Acabei fazendo pós-graduação e doutorado em filosofia. Enquanto trabalhava na minha tese de doutorado, comecei realizando trabalhos experimentais no Departamento de Psicologia com Jonathan Cohen, que é um neurocientista e psicólogo cognitivo, e John Darley, que é um psicólogo social em Princeton. Foi nessa época que começamos nossos estudos com neuroimagens sobre julgamento moral.

A idéia é tentar entender a função da emoção e da razão no julgamento moral. Nossa estratégia foi tomar dilemas morais que filósofos têm discutido a respeito por muito tempo e apresentá-los às pessoas enquanto seus cérebros estão sendo escaneados.

Em particular, tenho enfatizado questões que parecem, por um lado, gerar tensão entre duas linhas dominantes de filosofia moral ocidental: 1. aquelas que são proveitosas ou de conseqüências que enfatizam o raciocínio de custo-benefício; 2. e a kantista ou deontológica, que enfatiza os direitos, obrigações e deveres.

Minha opinião, o que parece ser confirmado com os resultados dos estudos das imagens do cérebro, é que há uma ligação entre o que pensamos como processo cognitivo e julgamento proveitoso e entre processos emocionais e julgamentos deontológicos, pelo menos em certos contextos.

Minha intenção não é criar uma definição rígida para a moralidade, mas focalizar nas questões que todos concordariam ser questões morais. No fim das contas, eu acho que uma questão moral é qualquer coisa que implique em pensamento moral. Desta forma, algo que eu não classifique como questão moral, outra pessoa pode considerar como uma questão moral.

De forma geral, questões morais são relacionadas com os direitos ou o bem-estar de outras pessoas. Mas este não é sempre o caso, pelo menos de acordo com alguns pontos de vista. Há coisas que você pode fazer completamente sozinho que são erradas moralmente, mas não causariam dano a ninguém, pelo menos de maneira observável.

Não acho que exista um limite claro para o campo da moralidade, no entanto, podemos estudar a moralidade através de coisas que todos concordam ser questões morais, como: quando é aceitável sacrificar uma vida para salvar outras?

Quanto a dar alguns exemplos de questões que a maioria das pessoas consideraria moral é um problema filosófico mais amplo que as pessoas que trabalham com as leis de ética e os princípios morais têm discutido a respeito por pelo menos duas décadas. O primeiro dilema é o seguinte, eu o chamo de "bonde elétrico": Um trem está indo na direção de cinco pessoas. O trem irá atropelar essas cinco pessoas se nada for feito para impedir a tragédia. Mas você tem acesso a um interruptor, e você pode apertar esse interruptor para mudar a direção do trem para um trilho lateral, onde há somente uma pessoa. Se você apertar o interruptor, apenas uma pessoa morrerá em vez de cinco. A pergunta: É aceitável apertar o interruptor para minimizar o número de mortes causado pelo bonde elétrico? A maioria das pessoas para quem eu fiz esta pergunta disse que sim.

Uma variação para esta pergunta [é o caso da "passarela"]: O trem está indo na direção de cinco pessoas, e desta vez você está na passarela que passa por cima do trilho do trem, entre o trem e as cinco pessoas. Acontece que você está em pé ao lado de um indivíduo grande, muito maior que você, e a única maneira de salvar essas cinco pessoas é empurrando esse grande indivíduo para fora da passarela, pois ele cairá nos trilhos e seu pesado corpo irá parar o trem, salvando a vida das cinco pessoas. Daí vem a pergunta novamente: É aceitável sacrificar a vida dessa pessoa para salvar a vida das outras cinco? A maioria das pessoas diz que não neste caso.

Estes dois cenários são basicamente os mesmos – pelo menos em termos de conseqüência. Estão trocando uma vida por cinco. A pergunta da pesquisa é: Por que as pessoas dizem que é aceitável em um caso, mas que não no outro caso? O que acontece aqui? Minha hipótese é que a diferença está na violência pessoal – empurrar o indivíduo para fora da passarela com suas próprias mãos – que provoca uma reação emocional que nos leva a dizer: "Não, isso é errado." E esse sentimento cancela qualquer análise de custo-benefício que normalmente fazemos, pelo menos na maioria dos casos. Enquanto que no primeiro caso, no qual você está simplesmente desviando o trem, nós não temos essa reação emocional e por isso pensamos na escolha de uma forma mais abstrata, em termos de custo-benefício.

Nós observamos no cérebro as respostas diferentes às várias perguntas, algumas delas são como o caso da passarela com a violência pessoal, e outras são como o caso do interruptor. Quando comparamos a atividade do cérebro durante esses dois tipos de casos, nós observamos que o caso com a violação pessoal aumentou a atividade do cérebro nas regiões associadas com a emoção, e o que você pode denominar como conhecimento social.

Nós não sabemos se essas respostas são instintivas na maioria das pessoas ou se elas podem ser treinadas. Minha teoria sobre isso é que há pelos menos um componente genético forte. Mais especificamente, a idéia de violência íntima e pessoal faz parte de nossa história evolucionária desde a Antiguidade. Nossos ancestrais têm lidado com isso há muito tempo, e por isso faz sentido que as pessoas tenham o instinto de reação à violência. Enquanto que danos mais distantes – como redirecionar um bonde elétrico com o interruptor, ou ainda mais distante, a evasão de impostos – são coisas que nossos ancestrais nunca tiveram que lidar, então seria surpreendente se as pessoas tivessem instintos para lidar com essas situações.

Meu palpite é que a diferença entre o caso do bonde e o caso da passarela é realmente a diferença entre violações morais ante as quais nós somos, de certa forma, inatos, predispostos a reagir biológica ou emocionalmente.

As pessoas têm que tomar no dia-a-dia, decisões morais comuns. Suponhamos que você esteja caminhando à margem de um lago onde uma criança está se afogando. Você poderia entrar na água e salvar esta criança facilmente, pois a criança está perto da margem e o lago é raso. Mas seus sapatos de couro estragariam quando você entrasse na água. Você seria uma pessoa muito ruim se dissesse: "Eu não vou salvar esta criança porque não quero estragar meus sapatos."

Em um caso diferente, mas de certa forma similar, nós todos recebemos correspondências que dizem: "Por favor, doe $100." Esta é uma carta de uma organização de socorro respeitável. Nós podemos salvar a vida de crianças que estão passando fome na África e precisam desesperadamente de comida e remédio. Uma pequena doação pode salvar uma vida; por favor, faça a sua parte. E nós dizemos, "Eu gostaria de ajudar essas crianças, mas estava pensando em comprar um par de sapatos de couro." Se você faz isso, nós não achamos que você é uma pessoa tão ruim. Talvez você não seja um Santo por querer comprar mais um par de sapatos caro quando você poderia estar gastando seu dinheiro salvando a vida de crianças que passam fome na África. Mas não achamos que você é uma pessoa tão má se você decide não ajudar a criança na África da mesma forma que achamos que você é muito ruim por deixar a criança se afogar no lago porque você está preocupado com os seus sapatos.

A influência da religião na hora de fazer julgamentos morais é uma questão bem complicada. A religião e a moral interagem, pelo menos nas pessoas que são religiosas. Acho que até certo ponto, a religião sanciona e rejeita certas coisas de acordo com instituições pré-existentes sobre o que é certo e o que é errado. Mas não há dúvida de que as religiões também podem moldar o senso das pessoas sobre o que é certo e o que é errado. Por exemplo, a religião judaica e a islâmica são, de certa maneira, responsáveis por seus devotos não quererem comer carne de porco. Isso não é algo que acontece automaticamente. Deve haver um tipo de ação cultural que é mobilizada em grande parte pela religião.

Quanto aos elementos importantes para o futuro desta pesquisa, penso que veremos mais trabalhos com diversidade cultural, dessa forma teremos uma sensação de como julgamentos morais variam ou o quanto eles são os mesmos para diferentes pessoas com diferentes experiências culturais. E em termos de um trabalho psicológico mais básico, ainda falta muito para ser feito na tentativa de entender que tipo de fatores afeta nosso julgamento moral.

Em termos de neurociência, creio que a tecnologia vai melhorar bastante e nós tomaremos melhor proveito dela. Quem sabe, comecemos a entender esses julgamentos em termos de circuitos cerebrais usando ferramentas com uma resolução temporal melhor, não simplesmente em termos de regiões gerais do cérebro.

Outros campos que não sejam diretamente relacionados com psicologia ou neurociência podem ser afetados por essa pesquisa. Eu acredito que ciências comportamentais podem certamente ser afetadas de um modo geral. Economistas, por exemplo, estudam o ato de tomar decisões e trabalham com o modelo que afirma que as pessoas são altamente racionais e puramente egocêntricas. O entendimento da psicologia moral, eu suponho, vai deixar claro que este modelo é inadequado. Aspectos de nosso pensamento moral terão de ser incorporados em qualquer modelo compreensivo da tomada de decisão social.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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