Do espírito

Para a física estóica, “espírito” traduz-se como um sopro animador (pneuma), aquilo que vivifica: matéria sutil ou impalpável que é a força animadora das coisas (Abbagnano, 1971/2000; Teixeira, 1989, p. 238-248).
O termo “espírito” liga-se à idéia de leveza, sutileza, desprendimento, totalidade, expressos na negatividade, devido à sua presença implícita, à sua virtude de expressar-se em conseqüência de uma pungente ausência de algo que outrora manifestava-se em singularidade plena.

O espírito é a virtude integradora que permite a conjunção de contrários e diferenças a elevar-se na identidade sensível e singular que nega a substância dos próprios elementos que a compõem. É um princípio integrador que violenta a impermeabilidade das coisas e permite a criação. O espírito deve traduzir-se em singularidade, em rica manifestação, indissecável às resoluções do olhar humano, que o universo só permite expressar uma única vez.

Há também a relação histórica estabelecida entre o espírito e o riso. Freud (1905/1996, p. 213) cita a passagem em que o condenado à morte, a caminho de sua execução, pede aos guardas um lenço para cobrir a garganta, pois poderia pegar um resfriado.

Esta estória desperta o espanto, pelo desprendimento de si mesmo que o sujeito atesta ao zombar de sua própria condição, como se seu eu pairasse acima de toda e qualquer adversidade ou realidade externa, como se sua subjetividade pudesse prescindir do mundo e enunciar sua força absoluta frente ao mesmo.

É a vitória do narcisismo, diz Freud (1927/1996, p. 166), do eu, mesmo que destituído do juízo de realidade, a assegurar a sua invulnerabilidade. É a afirmação do espírito. Pois somente o espírito é que pode pairar por sobre as prisões da realidade, sejam estas prisões configuradas segundo critérios concretos ou normativos.

O espírito não é definido de fora, pois somente ele pode definir-se a si mesmo. Assim, não está preso à lógica, à necessidade de definição. O espírito paira por sobre as contradições, é puro movimento, puro recriar-se. Mesmo que tudo falhe, que tudo se destrua, está lá o espírito, a única possibilidade de existência perante a destruição de todas as alternativas, de todos os meios.

O espírito pode às vezes traduzir-se em silêncio, em sem-sentido (non-sense), em ausência, lugar do indecidido, o espaço que semeia a criação. Sem espírito, não há criação. Contudo, o espírito é uma impossibilidade. Frente a qualquer anúncio, mesmo que sutil, desta impossibilidade, percebemos o espírito, sua presença grandiosa que nos espanta, pois que nos coloca de frente para uma auto-abolição alegre, um desprendimento de si mesmo, imprevisto, uma retirada do campo comum em que trocamos nossos afetos, como uma contra-comunicação freqüentemente risível a zombar de uma determinação implacável que define o nosso destino, como a morte.

Não é portanto gratuita a relação histórica entre o espírito e tudo o que diz respeito ao riso e as arquiteturas de sua produção. Ser espirituoso é poder, em alguma medida, libertar-se, sempre de modo obtuso, mas de forma absurdamente justificável, daí o riso. Quando votado ao riso, a justificativa pelo absurdo é a saída do espírito.

Quando transitamos com tranqüilidade pelos meandros impróprios de uma expressão que atreve-se a contestar o óbvio, e insistir em enunciar o absurdo e o ridículo na dissimulação consciente de que estamos imersos no absurdo; mas que este é nosso mote de sobrevivência em uma realidade absurda, e que estar preso seriamente na mesma não merece mais do que nosso desprezo, mesmo que este possa brilhar por um único instante no beco sem saída de tal determinação: aí podemos abrir-nos para o riso: ínfimo na sua cronologia, mas eterno na memória que ensina, aos que virão, a abrir algumas brechas para o prazer, mesmo que sem corpo, sem o crivo do possível, mesmo que em espírito.

O espírito possui esta virtude, a de corporificar o improvável. Como já disse, ele é sopro, ele inspira, vivifica.

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