Impactos Psicossociais do Alcoolismo em Homens Adultos na sua Relação Conjugal

Resumo:

Este estudo que se insere no campo da Psicologia Social busca compreender os impactos psicossociais do alcoolismo na relação conjugal, onde o problema do alcoolismo não diz respeito apenas à pessoa que consome bebidas alcoólicas. Os membros da sua família, as pessoas mais próximas, são particularmente atingidas no plano afetivo e no seu quotidiano, sentindo-se tão desamparados como o doente alcoólico, onde as tensões e a insegurança ocasionadas pelo seu comportamento influenciam a todos e deterioram o ambiente familiar. Para tal, foi feito a análise da discussão teórica dos autores a fim de verificar os fatores que levam o indivíduo ao consumo abusivo do álcool. Os resultados apontam que são diversos os motivos pelos quais a pessoa ingere álcool: para evitar, e melhorar de, uma dor, por causa de uma preocupação qualquer, de um desajuste em casa ou no trabalho, por um sentimento de inferioridade etc. Contudo, as conseqüências são desastrosas as perturbações familiares são uma constante e o divórcio, conseqüência freqüente.

Palavras-chaves: Alcoolismo, problemas psicossociais, relação conjugal.

Introdução

No Brasil, nas últimas décadas, a sociedade tem percebido por meio de jornais, revistas, televisão, rádio, uma série de impactos psicossociais causados pelo uso do álcool.

Dentre esses impactos podemos citar, transtorno entre os indivíduos e os grupos no ambiente familiar, de trabalho, bem como na saúde física e mental, preconceito contra o indivíduo, e em alguns casos, homicídios e suicídios.
O efeito inibidor causado pelo álcool freqüentemente facilita a violência doméstica.  Ballone (2007) citando Bhatt (1998) afirma que homens casados violentos possuem índices mais altos de alcoolismo em comparação àqueles não violentos. Estudos relatam índices de alcoolismo de 67% e 93% entre maridos que espancam suas esposas. Bhatt citado por Ballone (2007) mostra que entre homens alcoolistas em tratamento, 20 a 33% relataram ter atacado suas mulheres pelo menos uma vez no ano anterior ao estudo, ao passo que suas esposas relatam índices ainda mais elevados.

Ballone (2007) citando o estudo de O'Farrell (2003) mostrou que no ano que precedeu o tratamento de alcoolismo, 56% desses homens alcoolistas relataram ter sido violentos contra suas parceiras, contra 14% dos homens da amostra controle, sem alcoolismo. Um ano após o tratamento para alcoolismo, o índice caiu significativamente para um total de 25%, depois de conseguida a abstinência desses pacientes, a violência decresceu para 15% (similar aos controles).

Segundo Galduróz e Caetanor (2004) et all à Revista Plantão Médico, Drogas, Alcoolismo e Tabagismo, RJ (1998), o álcool é a substância psicoativa mais popular do planeta e a droga preferida dos brasileiros (68,7% do total). No país 90% das internações em hospitais psiquiátricos por dependência de drogas, acontecem devido ao álcool. Motoristas alcoolizados são responsáveis por 65% dos acidentes fatais em São Paulo. O alcoolismo é a terceira doença que mais mata no mundo, além disso, causa 350 doenças, físicas e psiquiátricas, e torna dependentes da droga um de cada dez usuários de álcool. É a droga que mais detona o corpo, a que mais faz vítimas, é a mais consumida entre jovens no Brasil. O índice de câncer entre os bebedores é alarmante, quer por ação tópica do próprio álcool sobre as mucosas, quer por conta dos aditivos químicos de ação cancerígena que entram no processo de fabricação das bebidas.

Galduróz e Caetanor (2004) apresentam informações sobre O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, CEBRID, no ano de 2000, onde foi feito um estudo domiciliar em 107 cidades com mais de 200 mil habitantes, correspondendo a 47.045.907 habitantes, ou seja, 27,7% do total do Brasil. O uso de álcool na vida da população total foi de 68,7%. A prevalência da dependência de álcool foi de 11,2%, sendo de 17,1% para o sexo masculino e 5,7% para o feminino. A prevalência de dependentes foi mais alta nas regiões Norte e Nordeste, com porcentagens acima de 16%. Fato mais preocupante é a constatação de que, no Brasil, 5,2% dos adolescentes (12 a 17 anos de idade) eram dependentes de álcool.

As complicações do abuso do álcool alteram de maneira significativa a vida de um indivíduo alcoolista. Logo, é possível que afete diretamente suas relações afetivas, estabelecidas nas relações conjugais. Buscaremos então, os fatores que contribuem para o consumo do álcool, assim como os impactos psicossociais que podem ser apresentados nas relações conjugais do alcoolista.


Metodologia

O objeto de estudo insere-se no campo da Psicologia Social e busca através de uma discussão teórica, compreender os efeitos psicossociais provocados pelo uso excessivo de álcool e suas conseqüências no âmbito familiar. Para tal, utilizou-se metodologicamente a pesquisa bibliográfica onde analisou-se o discurso dos autores, sobre o efeito devastador do álcool na vida das pessoas.


Discussão dos resultados

O alcoolismo é tido como um conjunto de problemas relacionados ao consumo excessivo e prolongado do álcool, onde este é definido como uma droga psicoativa que admite, dependendo da dose, da freqüência e das circunstâncias, um uso sem problemas. Desta mesma forma, podemos entender que o alcoolismo nada mais é do que o vício de ingestão excessiva e regular de bebidas alcoólicas, seguida de todas as conseqüências decorrentes. Indubitavelmente o primeiro contato com o álcool dá-se em um meio social, uma vez que o indivíduo está inserido em uma cultura e só através do meio cultural ele consegue ter este contato.

Melo (1981) subdivide o que ele chama de bebedores habituais, em duas categorias: acidentais e inveterados. Os primeiros seriam aqueles que se tornariam bebedores por causa da insinuação de outrem, sugestão coletiva, influências ambientais e outros fatores de mesma ordem. Na segunda categoria estariam os alcoolistas verdadeiros.

Fortes (1975) relata como em algumas culturas o álcool é aceito, tendo em vista que o grande uso da substância é um sinal de virilidade. Sendo assim, o adolescente para sentir-se homem, eufórico e corajoso se vale do álcool. Fortes comenta ainda como é comum beber em jantares de negócios, destrincha o ritual de cada membro de um grupo, sentados em uma mesa de bar, de pagar uma rodada; existem motivos variados para se beber, alguns bebem para esquecer de suas más experiências, outros por timidez, por aceitação social, entre outros fatores. Não obstante, existem casos onde o indivíduo bebe para acabar com sintomas de suas patologias da psiquiatria, tais como os maníaco-depressivos, que buscam escamotear seus transtornos de humor, os neuróticos alcançam certa redução do nível de angústia, os esquizofrênicos que conseguem certo grau de desinibição emocional e melhora no relacionamento interpessoal quando embriagados e os que têm disritmia cerebral, patologia caracterizada por grande instabilidade e insegurança dos pacientes, que obtêm certa tranqüilidade passageira ao ingerir bebidas.
O alcoolismo gera impactos psicossociais, que são as conseqüências por acontecimentos no meio social e psicológico, tornando o indivíduo vulnerável a várias situações conflituosas. Segundo Lussi, Pereira & Junior (2006), a vulnerabilidade psicológica de uma pessoa se define como a capacidade de reação a acontecimentos estressantes. Esses, podem levá-la ao desenvolvimento de transtornos mentais, quando exigem, para seu enfrentamento, habilidades que não foram elaboradas pela pessoa.

Se levarmos esses impactos ao âmbito familiar, ver-se-á mudanças drásticas nas relações conjugais, justamente por se tornarem vulneráveis ao meio social e psicológico, o que pode gerar crises existenciais, eventos traumáticos e conflitos insolúveis.

De acordo com Edwards, Marshall e Cook (2005), a complicação social do ato de beber implica o fracasso em ocupar um papel social esperado, seja na família, no trabalho, na comunidade ou como cidadão respeitador de leis. Se olharmos no âmbito conjugal, o papel do homem esperado pela esposa/companheira é o de provedor e protetor do lar, quando isso não ocorre surge a frustração de uma idealização cultural que se estende por milhares de anos e que vem interferir de maneira significativa na vida do casal.

Os impactos sociais do alcoolismo podem gerar problemas que desencadeam outros, criando uma cadeia de conflitos, violência, problemas no trabalho, perda de reputação, perda de oportunidades educacionais e profissionais, dificuldades financeiras, entre outros.  Podemos perceber que os impactos sociais estão presentes nos diversos ambientes, com isso o alcoolista pode se tornar alvo de críticas e rejeições nos lugares que freqüente.

Os alcoolistas, assim como qualquer indivíduo, podem manter um relacionamento conjugal da maneira que lhe convier.  Para conceituar a relação conjugal vai depender do tipo de relação que o indivíduo vive. Se for casamento, conceitua-se como um vínculo estabelecido entre duas pessoas mediante o reconhecimento governamental, religioso ou social e que pressupõe uma relação interpessoal de intimidade. Segundo Melo (2007), referindo-se ao texto legal do código Civil de 2002 afirma que a união estável seria a relação lícita entre um homem e uma mulher, que vivem como se casados fossem, e apenas não se casaram por uma opção particular ou por algum impedimento momentâneo, ao passo que o concubinato seria as relações entre o homem e a mulher, impedidos de se casar, por ser ilícita esta relação.
A situação matrimonial de um alcoolista não deve interferir em sua demanda no consumo do álcool, mas sim o seu convívio na relação conjugal, podendo trazer melhora ou piora em seu quadro clínico.

Considerações Finais

O alcoolismo dentro de uma família traz uma grande dose de estresse, transformando-se rapidamente em uma doença de todo o grupo familiar. Este estresse é responsável pelo rompimento da estabilidade. Frente a tais problemas, são freqüentes os isolamentos sociais, as disfunções sexuais (em ambos), a inversão de papéis, confundindo assim a parte com o todo.
Alcoolizações com conseqüente distúrbio de conduta são capazes de gerar numa família inúmeros sentimentos, tais como: ansiedade, vergonha, raiva, etc, que por sua vez levam a culpa e negação. Isto acaba por determinar o isolamento social, bem como ambiente familiar de constantes brigas e ressentimentos, interferindo principalmente na relação conjugal. Frente a esta instabilidade, as crianças acabam desenvolvendo atitudes de luta ou fuga. Filhos de alcoolistas tendem a apresentar insegurança e dificuldade no desenvolvimento emocional.
Visto que o alcoolismo é uma doença que traz danos não somente ao indivíduo alcoolista, mas também à sociedade, conclui-se que este é um problema de relevância grande para os familiares, à medida que interfere o bem-estar dos indivíduos aí inseridos, norteando (ou melhor, desnorteando) as relações e as vidas destes entes.


Referências Bibliográficas

BALLONE, G. J. Abuso nos Relacionamentos Íntimos – in. PsiqWeb, Disponível em: www.psiqweb.med.br, 2007. Acesso em: 26/08/2007.

EDWARDS, G.; MARSHALL, E. J. & COOK, C. C. H. (2005). O Tratamento do Alcoolismo: Um Guia para Profissionais da Saúde. Tradução: Amarílis Eugênia Fernandez Miazzi; consultoria, supervisão e revisão técnica desta edição Ronaldo Laranjeira, Marcelo Ribeiro. – 4. ed. – Porto Alegre: Artmed.

FORTES, J. R A. Alcoolismo. São Paulo: Ed. Savier, 1975.

GALDURÓZ, J.C.F. & CAETANOR, R. (2004). Epidemiologia do uso de álcool no Brasil. Publicado pela Revista Brasileira de Psiquiatria v.26 supl.1 São Paulo. In: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=sS1516-44462004000500002&lng=pt&nrm. Acesso em: 10/10/2006.

LOPEZ, Immaculada. A droga legalizada. Temas, nº 21 Mês Dezembro. São Paulo, 1981.

LUSSI, I. A. DE O; PEREIRA, M. A. O. & JUNIOR A. P. (2006). A Proposta de Reabilitação Psicossocial de Saraceno: um modelo de auto-organização?  Publicado pela Revista Latino-Americana de Enfermagem vol.14 no.3  Ribeirão Preto. In: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010411692006000300021&script=sci_arttext&tlng=pt  Acesso em: 02/05/2007.

MELLO, N. D. (2007). União estável: conceito, alimentos e dissolução. Disponível em: http://www.boletimjuridico.com.br/doutrina/texto.asp?id=696. Acesso em: 26/08/2007.

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