Conseqüências psicossociais do alcoolismo na vida social do indivíduo

Resumo:

O fenômeno do alcoolismo, impulsionado por motivos sócio-econômicos ou mesmo por razões pessoais, traz consigo profundas transformações no plano psicossocial. Este estudo que se insere no campo da Psicologia Social e Clínica, busca verificar as conseqüências psicossociais do álcool na vida do indivíduo abordando o aspecto social. Para tal, foi feita uma análise da discussão teórica dos autores a fim de verificar as conseqüências dessa droga psicoativa que tanto interfere de forma desastrosa causando danos irreparáveis à saúde.  Os resultados apontam que as conseqüências advindas do uso do álcool, têm relação indissociável entre o usuário e o seu entorno socioafetivo, profissional e familiar. Na relação dialética entre os pólos, a substância psicoativa é representada como prejudicial à saúde e a sua ingestão de forma abusiva além de causar danos à saúde física e mental afasta o indivíduo da sociedade dificultando assim, a sua reabilitação e um possível retorno ao convívio social devidamente estruturado.

Palavras-chaves: Alcoolismo, conseqüências psicossociais, sociedade.

O alcoolismo, que vem a ser um grande problema social, é visto como uma toxicomania pela OMS (1970), que a conceitua como um estado psíquico e algumas vezes também físico, resultante da interação entre um organismo vivo e uma substância, caracterizado por um comportamento e outras reações que incluem sempre compulsão para ingerir a droga, de forma contínua ou periódica, com a finalidade de experimentar seus efeitos psíquicos e às vezes para evitar o desconforto de sua abstinência. A tolerância pode existir ou faltar e o indivíduo pode ser dependente de mais de uma droga.

O alcoolismo poder-se-á definir como um conjunto de problemas baseados no consumo excessivo e prolongado de álcool, de forma viciada, desmedida e regular, estando implícito todas as conseqüências daí decorrentes. Esta doença provoca diferentes distúrbios, consoante o grau de ingestão de bebidas alcoólicas e o uso continuado ou não das mesmas.

São numerosas as tentativas para se compreender o alcoolismo. Alguns autores acreditam que suas causas estão associadas a um complexo conjunto de fatores biopsiocossociais (BERTOLOTE, 1997; VAILLANT, 1995/1999).

Dentro de uma perspectiva sociocultural, vários trabalhos têm sido realizados na tentativa de compreender o consumo de bebidas alcoólicas. Muitos autores apontam que as influências ambientais constituem um fator preponderante para a instalação de futuros e/ou precoces alcoolistas, conforme verifica  Sonenreich (1971). Como principais influências do ambiente, destacam as pressões dos amigos, bem como induções do meio familiar, principalmente por parte do pai na infância do indivíduo ao oferecer alguns goles com o intuito de induzi-lo a hábitos mais masculinos.

Outros problemas também aparecem na literatura científica vinculados ao abuso de álcool: perdas múltiplas de emprego, reclamações da família, dos amigos e problemas conjugais como verifica Bertolote (1997).

Na esfera biológica, fatores hereditários e predisposição ambiental são freqüentemente mencionados como uma das possíveis explicações para o consumo e dependência do álcool.

O impacto social do alcoolismo inclui tanto a incapacidade individual como o fardo familiar associado à doença, sendo que o álcool normalmente provoca sérias perturbações psíquicas. Altera a capacidade de percepção (dificuldade de perceber as coisas) e a capacidade intelectual (dificuldade de aprender). Prejudica ainda a memória, muda o caráter, estraga a vida afetiva e pode arruinar a personalidade definitivamente. As implicações sociais, psicológicas, econômicas e políticas do alcoolismo são enormes e devem ser consideradas na compreensão global do problema, a qual deve considerar a tríade “substância, indivíduo e meio ambiente” e as suas mais diversas características. 

Metodologia

O objeto de estudo insere-se no campo da Psicologia Social e Clínica busca através de um referencial teórico, verificar as conseqüências psicossociais provocados pelo abuso do álcool. Para tal, utilizaremos metodologicamente a pesquisa bibliográfica onde será analisada a discussão teórica dos autores, sobre o efeito devastador do álcool na vida das pessoas.

Aspectos teóricos conceituais sobre as conseqüências psicossociais do alcoolismo 

A crise econômica, o desemprego, os problemas emocionais, entre outros fatores, têm levado um número cada vez maior de pessoas a buscar refúgio no álcool. O alcoolismo é considerado na atualidade, um dos principais problemas de saúde pública em todo o mundo. São crescentes os números sobre doenças graves provocadas pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas, bem como a incidência de mortes decorrentes destas doenças. O álcool também assusta como causa básica de acidentes de trânsito, crimes e suicídios.
O alcoolismo está entre as drogas de maior relevância no Brasil, pois o álcool exerce influencia sobre 12% da população. De qualquer maneira, estima-se que 90% das pessoas ingerem álcool de alguma forma. Normalmente as primeiras experiências acontecem na adolescência, quando se bebe para ficar "desinibido". O problema é que para jovens com tendência para o alcoolismo fica difícil saber quando parar ou mesmo perceber quando a pessoa deixa de ser um bebedor de fim de semana para se tornar um bebedor habitual.

De acordo com o Edwards (2005, p. 29), o alcoolismo é uma "intoxicação por álcool ou conseqüência grave de seu prolongado e excessivo consumo". A vítima sente necessidade premente de álcool, do qual não consegue abster-se ou, se o consegue, isso ocorre com muita dificuldade. Geralmente, o dependente do álcool é incapaz de ajudar a si mesmo a sair do vício.

Segundo Lopez (1981, p. 29), "as causas do alcoolismo encontram-se profundamente enraizadas nas complexas necessidades e inseguranças do indivíduo". De acordo com essa visão, não existe o que poderíamos chamar de um "tipo alcoólico". Por exemplo, o viciado pode beber sem parar, dia após dia, ou então, durante certas temporadas, seguida por período de abstinência.

Neste sentido, Fortes (1975) salienta que qualquer visão terá sempre, como parte de sua existência, um caráter de inacabada, uma vez que não apreende o fenômeno em sua plenitude, mas por outro lado, deixa sempre a possibilidade de complementar-se através de um refazer-se contínuo.

Melo (1981) ressalta que antigamente se pensava que o alcoólatra era indivíduo viciado e como tal se tratava o mesmo. Com o decorrer do tempo e o grande número de pesquisas científicas realizadas sobre o alcoolismo, comprovaram que o alcoólatra é um indivíduo doente, e também confirmou-se que as classes sociais atingidas pelo alcoolismo, vai desde a classe pobre até os mais ricos e independe de sexo ou cor.

Para Alonso-Fernandez (1991), os alcoolistas apresentam os seguintes traços em comum: a vivência da solidão, a desesperança e a imposição do presente anônimo e passivo. No tocante à vivência da solidão, Alonso-Fernandez chama a atenção para a condição de isolamento do sujeito desde a infância devido à omissão do outro, em oferecer-lhe amor. Deste modo, o outro é visto pelo alcoolista como um ser onipotente e ameaçador que pode e quer destruí-lo, desencadeando, assim, um conjunto de reações emocionais que nutrem seu sentimento de inferioridade física, psicológica e intelectual, fazendo com que o alcoolista recorra sempre à insinceridade como mecanismo de defesa na sua convivência cotidiana. O sentimento de solidão é devastador e insuportável porque assenta-se no aniquilamento de suas esperanças decorrentes da frustração afetiva.

Quanto à desesperança na personalidade de alcoolistas, ela se funda nos fantasmas de insucessos anteriores e no temor de novas frustrações no presente, fazendo com que o indivíduo sinta que seus projetos de realização pessoal estão condenados antecipadamente ao fracasso, pelo fato de seu passado resguardar muito mais decepções e desenganos do que conquistas. Predomina um estado de tédio e indiferença no qual espera-se nada da vida. Essa indiferença ocorre pela ausência de tolerância às frustrações, remetendo o sujeito ao mecanismo de repressão como forma de defesa por não suportar as tensões emocionais produzidas pela pressão das próprias necessidades individuais ( KOLCK & cols., 1991).

O alcoolista passa, então, a viver estagnado no presente anônimo e passivo sem dispor de perspectivas planificadoras que o direcione ao futuro, a um sonho de prosperidade, sujeitando-se à neutralidade e se aprisionando ao estado de desesperança-desengano puro que, em alguns casos, pode até culminar em atos suicidas.

Melman (1993) interpreta o alcoolista como um sujeito marcado por uma insatisfação constante consigo mesmo devido à sua não realização pessoal na sociedade. O sujeito procura no álcool o refúgio para alcançar sua satisfação, pois, sua existência se apresenta, na realidade, permeada por uma sensação de insuportabilidade carregada de sofrimento.

Segundo Justo (1998), predomina na vida do alcoolista o estreitamento da sociabilidade e o enfraquecimento dos relacionamentos interpessoais. Apesar do isolamento social, parte dos alcoólatras mantém algum tipo de vínculo com os familiares e desejos de retorno à vida normal.

O autor acredita que a fragilidade dos vínculos sociais se origina principalmente nas circunstâncias sociais precárias em que esses vínculos se formam e se mantêm. São sujeitos colocados fora das disposições estruturais de um dado sistema social, ou que voluntariamente se afastam dos padrões de comportamento dos membros que têm status e função dentro daquele sistema.

Bertolote (1997) considera a questão da vida do alcoolista como uma estrutura social anômica. Segundo esse autor, a associalização decorre da falta de capacidade do sujeito para competir na sociedade em função de repetidos fracassos no mundo social. Snyder (1954) compreende o alcoolismo como uma conduta desviante e, nesse sentido, nos dizeres do autor, os alcoolistas são pessoas anômicas, desorganizadas, vazias, angustiadas, compulsivamente independentes e que desconhecem toda autoridade.

Os problemas relacionados com a saúde, nas pessoas que ingerem diariamente bebida alcoólica, vão além dos problemas sociais, tais como: problemas na integração famíliar, no ambiente de trabalho, relacionamento com a sociedade e o comprometimento do organismo como um todo, especialmente estômago, fígado, pâncreas e intestinos.

Para Zago (1994), o alcoolismo é uma busca de soluções para curar as feridas mais íntimas e para preencher o vazio existencial tão presente nos tempos de hoje, entende que, ao concretizar esta sua existência em um contexto social consumista como o que vivemos, as pessoas, lentamente, vão distanciando-se de sua essência, na medida em que percebem que o valor pessoal está atrelado à questão da posse.

Assim, a destituição de bens produz a perda do valor pessoal, a perda da identidade com este contexto e o sentimento de vergonha de mostrar-se por inteiro. Ao mesmo tempo em que ocorre essa supervalorização das coisas, avoluma-se o sentimento de incompetência para alcançar tanto aquelas coisas que, nesta sociedade consumista, representa o seu ser, quanto para a busca de soluções a seus problemas.


Considerações finais

É comum verificar questões médicas de saúde em geral prevalecendo nos debates sobre os malefícios envolvidos no consumo alcoólico. Impossível desconsiderar, no entanto, que o álcool está intimamente ligado a problemas no campo social. Essa tem sido considerada "a dimensão esquecida", entre outras razões, pela inexistência de padrões métricos pareáveis com dados de saúde, pela insuficiente sistematização internacional de dados sociais comparativos e também em função da limitação das fontes de informação já existentes, cuja captação de dados não permite estudos estruturados.

Distinguidas dos problemas de saúde, as categorias de problemas sociais relacionadas ao álcool incluem: vandalismo; desordem pública; problemas familiares, como conflitos conjugais e divórcio; abuso de menores; problemas interpessoais; problemas financeiros; problemas ocupacionais, que não os de saúde ocupacional; dificuldades educacionais, e custos sociais.

Ainda que uma causalidade direta não possa ser estabelecida, o estudo dessas categorias de danos – incluindo variáveis como volume de álcool consumido, padrões de consumo e outros fatores interativos – demonstrou que as conseqüências sociais do uso do álcool colocam esse produto, no mínimo, como um fator adicional ou mediador entre outros que contribuem para a ocorrência de problemas psicossociais que destroem a vida do indivíduo.

Referências Bibliográficas

ALONSO-FERNÁNDEZ, F. (1991). A personalidade prealcoolica. São Paulo: Artes Médicas.

BERTOLOTE, J. M. Problemas sociais relacionados ao consumo de

álcool. Em S. P. Ramos & J. M. Bertolote (Orgs.), Alcoolismo hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

EDWARDS, G.; MARSHALL, E. J. & COOK, C. C. H. (2005). O Tratamento do Alcoolismo: Um Guia para Profissionais da Saúde. Tradução: Amarílis Eugênia Fernandez Miazzi; consultoria, supervisão e revisão técnica desta edição Ronaldo laranjeira, Marcelo Ribeiro. – 4. ed. – Porto Alegre: Artmed.

FORTES, J. R A. Alcoolismo. São Paulo: Ed. Savier, 1975.

JUSTO, J. S. Errâncias e errantes: Um estudo sobre andarilhos de estrada. São Paulo: Arte & Ciência, 1998.

KOLCK, O. L. V., Tosi, S. M. V. D. & Pelegrini, T. F. Auto-imagem em alcoólicos crônicos. São Paulo: Artes Médicas, 1991.

LOPEZ, I. A droga legalizada. Temas, nº 21, Dezembro. São Paulo, 1981.

MELO, A. L. N. de. Psiquiatria, Vol. II. 3ª ed. São Paulo: Atheneu, 1981

MELMAN, C. Alcoolismo e toxicomania: Uma abordagem psicanalítica. São Paulo: Escuta, 1992.
 
SONENREICH, C. Contribuição para o estudo da etiologia do alcoolismo. São Paulo: Escuta, 1971.
 
VAILLANT, G.E.  A história natural do alcoolismo revisitada (B. S. C. da

Cunha & J. A. L. dos Santos, Trads.). Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.

(Original publicado em 1995)
ZAGO, J. A. (1994), Drogadição: Um jeito triste de viver. Informações psiquiátricas. Rio de Janeiro, v. 13, pp. 155-158. 

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