A Melancolia – Um olhar


”— Também a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas – porque se realmente haviam esquecido, agora era tarde demais. Uma mulher arrastava uma criança, a criança chorava, novamente a campainha da Estação soou… Mamãe, disse a mulher. Que coisa tinham esquecido de dizer uma a outra? E agora era tarde demais. Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: sou tua mãe, Catarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha”. (Os Laços de Família Clarice Lispector)


Freud em seus trabalhos já mencionava minuciosamente a questão das melancolias. Para muitos estudiosos seu texto intitulado “Luto e Melancolia” (1917) será considerado um dos seus mais importantes estudos, apontando para questões fundamentais à própria construção da psicanálise.

Trabalharemos nesse texto conceituando o que será entendido a partir da concepção freudiana sobre o que é a melancolia, assim como a veremos dentro daquilo que estará abordado como ‘estrutura subjacente’(Fairbairn). Dentro dessa abordagem passaremos pela discussão da psicanálise apoiada no modelo do recalque (Freud) ou a que sublinhará a questão das relações de objeto a partir dos estudos de Karl Abraham.

“Em razão disto, podemos postular a existência de um potencial à depressão constantemente presente, mesmo no desenvolvimento que poderíamos considerar 'normal'”. (A)

Entendemos que trazer para estudo, a melancolia evidenciará particularmente o olhar sobre o desenvolvimento da patologia a partir de seu vinculo objetal, residindo aí o aspecto predominante em seu aparecimento. Essa é uma questão que esteve sempre presente na determinação do que fundamenta o método psicanalítico, ou seja, os investimentos em objetos, e de onde partirá seus estudos sobre as mais variadas patologias, muito embora Freud sempre tenha deixado claro sua crença na teoria do recalque enquanto a peça fundamental para o entendimento do adoecimento psíquico.

W. R. Fairbairn nos dirá a respeito:

“Acredito que já é tempo de que a atenção do psicopatológico, centralizada no passado primeiro sobre o impulso e depois sobre o ego, se concentre sobre o objeto ao qual se dirige o impulso. Para expressar-me com maior clareza, direi que chegou o momento de se estabelecer uma psicologia das relações de objeto”. (2)

Para compreender os complexos caminhos por onde se estabelecerá a relação de objeto característica na melancolia, teremos que necessariamente entendê-la como fundamental na formação desse quadro, porque será nessa relação, melhor dizendo, nesse investimento, que encontraremos as características que evidenciarão esse quadro. Freud foi bastante descritivo quanto a isso em seu texto sobre o desenvolvimento da melancolia, primeiro comparando-a e depois a diferenciando do trabalho do luto por algumas características. Encontramos em quase todos os autores consultados sobre o tema, uma visão na questão da auto-estima perdida e atacada na melancolia, diferente do que acontece no luto, onde esse fator não será encontrado com tanta força.

Essas considerações teóricas serão importantes se levarmos em conta a própria defesa de Freud quanto ao aspecto do recalque (lido em sua obra em português como repressão) que diz que: “A doutrina da repressão é a pedra fundamental sobre a qual descansa toda a estrutura da psicanálise” (“O Ego e o Id”).

Na melancolia ou quadros de depressão encontraremos demarcada toda uma leitura que nos remeterá às primeiras relações de objeto que marcaram o psiquismo, assim como na linha do tempo, às situações que a sobre-determinaram na conceituação de posteridade, conceito fundamental aqui também para a compreensão do aparecimento dos estados melancólicos ou depressivos.

Há que se pensar um fator desencadeante no aparecimento dos sintomas depressivos que farão a retração da libido e uma regressão da mesma, para pontos de fixação anteriormente determinados
Como aponta Fairbairn, é improvável que encontremos relações objetais orais satisfatórias (que determinam a base, segundo o autor, a estrutura da melancolia), a ponto de não determinar como 'subjacente', conteúdos que apontem para uma existência de uma tendência à depressão, ou ainda segundo esse autor, à outra saída que seriam relações caracterizadas como esquizóide.

“Podemos deduzir, portanto, que em todos está presente uma tendência esquizóide ou depressiva subjacente segundo tenham sido na fase oral primária ou na secundária as dificuldades que acompanharam principalmente as relações de objeto infantis” (2).

Levaremos em conta então, aqui no presente trabalho, considerações próximas às propostas por esse e outros autores, segundo as quais encontraríamos sempre por detrás de sintomas neuróticos, estruturas subjacentes que atenderiam a modalidade de núcleos psicóticos. Para isso poderemos pensar no antigo, mas sempre esclarecedor modelo pré-científico de Freud que descreve a patologia e o trabalho psicanalítico comparando-os a uma cebola, com suas diferentes camadas que se sobreporiam.

A relação do melancólico então, com o objeto perdido na atualidade, que determinou o surgimento do quadro enquanto dinâmica e sintomas seriam mais bem compreendidos então, como uma atualização de um desamparo anterior, que Otto Rank remeterá ao ‘trauma do nascimento’, mas que em Freud encontraremos enquanto algo que ganha significação na experiência do desmame, frente à ausência do Outro que integra e afasta a sensação de ameaça e fragmentação.

“A noção fundamental da psicopatologia de Fairbairn é que a doença nada mais é que uma tentativa de viver em circuito fechado.” (A)

Encontraremos na melancolia um lamento profundo frente à perda através da qual, um trabalho de luto, a elaboraria em algum momento. Recusa absoluta em lidar com impulsos de amor e ódio frente ao objeto perdido. Esse objeto, ainda segundo Freud, seria introjetado por um modelo próximo ao da identificação. Ao fazer isso perpetua a relação com esse objeto agora sob o controle de seu mundo interno, sofrer então é também uma forma de permanecer com o controle sobre a relação de objeto, agora fora do alcance das vicissitudes da realidade ou mundo exterior.

“Nem sei bem se sou eu quem em mim sente”. (Álvaro de Campos) (B)

Na relação transferencial essa modalidade de relação objetal aparecerá de maneira preponderante, onde o analista ocupará em intervalos mínimos ou sobrepostos as variações dessa ambivalência, ou ainda encontraremos como diria Pichon Rivière, de uma bivalência (investimento em objetos diferentes – esquizóide). Na ambivalência, aí já se falando de uma ansiedade depressiva, uma vez que os dois impulsos muitas vezes se apresentam absolutamente ao mesmo tempo em relação ao mesmo objeto, poderemos perceber com clareza os dois sentimentos, amor e ódio se estabelecendo no campo transferencial e uma retirada de energia de qualquer outro vínculo com o mundo externo.

“Geralmente, é extraordinariamente difícil estabelecer-se uma transferência com esses pacientes que, em sua depressão, voltaram as costas para o mundo inteiro” (3)

D.W. Winnicott em um artigo intitulado “O ódio na contra-transferência” (1947) (7) falará de uma maneira muito interessante no manejo do ódio por parte do analista dentro da relação transferencial. Vamos destacar em particular um trecho que nos interessa aqui para a apresentação desse trabalho:

“Gostaria de acrescentar que, em certos estádios de certas análises, o ódio do analista é procurado pelo paciente e, neste caso, o ódio objetivo se faz necessário. Se o paciente busca um ódio justificado ou objetivo, ele deve consegui-lo, caso contrário não conseguirá sentir que pode alcançar o amor objetivo”. (7)

O autor está aqui falando de uma relação com um psiquismo onde as primeiras relações objetais foram destituídas de ‘qualidades’ que o organizassem frente seus estados ambivalentes se constituindo nesse caso o psicanalista “a primeira pessoa na vida do paciente a fornecer certas coisas que são essenciais no meio ambiente”. (7)

Seria necessário o acolhimento desse ódio, como diz o autor, não com medidas sentimentais, mas como uma possibilidade tão concreta quanto o amor, para que a crença nesse sentimento amoroso pudesse surgir.
Através do estudo da depressão melancólica poderemos encontrar apontamentos em relação à teoria psicanalítica que aprofundaram as noções de relações objetais e toda formulação da definitiva teoria pulsional freudiana.

"Todos os fenômenos que atraíram a atenção de Freud ao propor as pulsões de morte, desde a compulsão à repetição até a importância da agressividade, ódio, sadismo e masoquismo, estão de alguma forma presentes nos quadros depressivos, o que permite supor a possibilidade de elucidar alguns aspectos destes quadros a partir da segunda teoria das pulsões". (A)

Perceberemos até mesmo por essas brevíssimas considerações a importância da formulação do estudo de Freud sobre a melancolia para que fossem apontados os caminhos fundamentais que o levaram até o estabelecimento dos lugares (topos) onde se desenvolveria todo aparelhamento psíquico, assim toda a relação de energia, em seu ponto de vista da economia, que se opera a partir dele, culminando na dialética relação Eros e Thanatos.

Falaremos agora mais detalhadamente, do que está posto por Freud para a depressão melancólica, que segue sendo um dos principais orientadores para todas as modalidades de aparecimento da depressão, sendo esta o quadro propriamente dito, ou ainda, estando atrelada a quadros neuróticos enquanto 'estrutura subjacente', visando sua compreensão no presente artigo.

Freud irá observar logo no início de seu texto que “Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos que essas pessoas possuem uma disposição patológica”. Essas influências às quais se refere seriam reação à perda de um ente querido, ou abstrações que ocuparam esse lugar que poderão ser inúmeras que representem algum tipo de fator que demonstre uma ligação com aquele a quem se perdeu.

Na melancolia essa perda não seria necessariamente a morte do objeto, mas a perda dele enquanto objeto de investimento, ou como objeto de amor.

Propõe ainda que na melancolia essa perda estaria retirada da consciência, enquanto que para o luto não, “no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda”. Residindo então nesse aspecto aquilo que mais elucidará a relação de objeto existente na melancolia:
“No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego”.

É importante ainda ressaltar que todo conjunto de auto-recriminações tão características no melancólico (queixumes), na verdade estarão dirigidas “a um objeto amado, que foram deslocadas desse objeto para o ego do próprio paciente”; onde então poderemos dizer que houve uma “identificação do ego com o objeto abandonado”.

Freud concordará com a tese de Otto Rank de que essa escolha teria sido feita numa base narcisista e que poderemos afirmar então que parte da tendência ao adoecimento melancólico residirá na predominância do tipo narcisista de escolha objetal e a fixa na fase oral ainda narcisista da libido, de onde veremos que Fairbairn parte para suas afirmações.

“A auto-tortura da melancolia, sem dúvida agradável, significa, do mesmo modo que o fenômeno na neurose obsessiva, uma satisfação das tendências ao sadismo e do ódio relacionadas a um objeto, relacionadas a um objeto, que retornaram ao próprio eu do indivíduo…”

Na melancolia então, para sua compreensão de forma mais abrangente, teremos que levar em conta a característica ambivalente da relação de objeto, onde uma permanente luta de amor e ódio frente a ele estará presente todo tempo. Freud irá localizar essas lutas no Inconsciente, enquanto lugar, topos e também enquanto qualidade no material que produz, que retornará ao ego a partir do discurso melancólico, sendo então “representado à consciência como um conflito entre uma parte do ego e o agente crítico”.

Seriam então três as predisposições para a melancolia: “perda do objeto, ambivalência e regressão da libido ao ego”.

De maneira muito resumida seriam esses os principais pontos levantados por Freud em seu texto sobre a melancolia, onde também abordou a possibilidade, não presente para todos que dela sofrem, de se transformar em seu oposto, nos conhecidos episódios da mania. Dará ênfase nesse caso, ao terceiro aspecto.

Pensamos que o entendimento sobre esses mecanismos envolvidos na melancolia estará presente em todas as formas onde se apresentariam as disposições depressivas, sejam de origem melancólica propriamente dita, ou estados passageiros conhecidos como contextuais ou circunstanciais, envolvendo um luto objetivo ou não.

Reflexões sobre o tema:

Pensemos um pouco a partir dessa exposição sobre essa afecção, em sua grande incidência na atualidade, com essa abundante invasão de psicofármacos que prometem a saída mágica para esses quadros. A que, e, por que estaríamos respondendo “melancolicamente” aos mecanismos sociais instituídos nas relações objetais que nos adoecem? Quais as vozes e palavras que não dizemos, que ligação seria essa, a princípio materna e confirmada pela função paterna, que não estaremos realizando? Que palavras de amor não dizemos, que lugar para a insatisfação e ira reservamos em nossas construções psíquicas? Será permitido insurgir-se, transbordar, divergir, investir no criativo que funda o novo?

Se queremos vida, entenderemos que o lugar onde o amor habita tem que necessariamente caber o ódio em seu componente que gera impulsão, o fator agressivo da pulsão. Thanatos desarticula Eros que constrói unidades cada vez maiores em busca da satisfação (vide artigo sobre Pulsão de Morte nessa coluna), quando essa pulsão agressiva está represada encontramos um Eros ferido e perdido de sua amada Psique. Será na ordem da desordem, da desobediência, que Eros realizará seu desejo de amor, onde então poderemos supor a importância do agressivo para vida.

Ao atravessarmos os temas depressão melancólica e modernidade seremos lançados inevitavelmente para o pensar à função de uma psicoterapia frente ao mundo e seus vínculos, a refletirmos em qual seria a fala que um psicanalista desnudará, pela escuta, para aquele que o procura com relação ao seu acariciado sofrimento e imobilismo. Cada vez mais, a clínica é tomada por associações diferentes onde se encontrará sempre lá subjacentes, uma profunda desilusão e desinvestimento das relações de vínculo. Em um mundo, onde estudiosos apontam para a questão narcísica, o que terá a dizer o psicanalista com o seu trabalho, frente às recorrentes desilusões melancólicas(depressivas)?

Não podemos deixar de lembrar, para encerrar nossas divagações finais sobre o tema, que toda contenção poderá levar a uma explosão ou implosão do que foi contido pela tensão e pressão em acúmulo. Supomos assim que essa ira contida e suprimida desembocará em algum lugar, dentro ou fora desse psiquismo. Dessa maneira, pensamos obter subsídios para colaborar, sem pretender esgotá-lo, para o debate de muitas das questões que hoje invadem os noticiários e ao nosso ‘espantado’ cotidiano.

Terminar esse texto com um trecho da poesia de Fernando Pessoa em sua pele de Álvaro de Campos nos parece apropriado e convidativo às reflexões que propusemos aqui.

O Sono
O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso (…) (B)

Bibliografia:

1. Luto e Melancolia – Obras Completas vol – Sigmund Freud
2. Estudos Psicanalíticos da Personalidade – W. R. Fairbairn
3. Teoria Psicanalítica da Libido – Karl Abraham
4. Teoria Psicanalítica das Neuroses – Otto Fenichel
5. Vocabulário da Psicanálise – J. Laplanche e J.-B. Pontalis
6. Teoria do Vínculo – Enriche Pichon-Rivière
7. “O Ódio na Contra-Transferência” – in Da Pediatria À Psicanálise – D.W. Winnicott

Links:

A- http://www.estadosgerais.org/historia/90-estados_depressivos.shtml
B- http://www.revista.agulha.nom.br/facam93.html
C- http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/EnaideBarros.htm
D- http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?102

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro “Cinematerapia – Entendendo Conflitos”.

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