Representação social do Sistema de Cotas das Universidades públicas: Uma visão dos alunos do Sistema privado de ensino

Resumo

O sistema de cotas nas universidades é um assunto que vem sendo muito discutido por diversos veículos de comunicação, pois a sociedade diverge quanto ao assunto, e esta pesquisa tem como objetivo reunir e apresentar dados sobre a Representação Social do Sistema de Cotas das Universidades Públicas, ou seja, traduzir a opinião de jovens em idade de ingresso em universidades sobre o significado social da adoção do Sistema de Cotas pelas Instituições de Ensino Superior (IES) que poderão vir a se candidatar para o exame vestibular. Obteve-se os dados através de entrevistas semi-estruturadas com 4 alunos 3ª série do Ensino Médio de uma instituição privada, a qual foi gravada e transcrita para os dados serem analisados. Os resultados mostram uma indignação muito grande em relação ao sistema de cotas, um sentimento de exclusão, e percebe-se que há uma dúvida em relação à capacidade intelectual dos cotistas. Para a maioria  dos entrevistados o sistema de cotas não deveria ser instituído em nossa sociedade, já uma minoria aponta um fato positivo, pois possibilita os alunos que foram prejudicados pela defasagem na qualidade do Ensino Médio das escolas públicas, uma chance de reparação em relação aos alunos das escolas particulares, criando-se assim condições de maior igualdade no ingresso à universidade. Conclui-se, que os jovens não-cotistas argumentarem a real eficácia deste método, sentem-se prejudicados e acabam por questionar a capacidade intelectual dos cotistas – confirmando as hipóteses deste trabalho.

Palavras chave: Sistema de Cotas, Cotistas, Representação Social

Introdução

Este trabalho tem como objetivo reunir e apresentar dados sobre a Representação Social do Sistema de Cotas das Universidades Públicas, ou seja, traduzir a opinião de jovens em idade de ingresso em universidades sobre o significado social da adoção do Sistema de Cotas pelas Instituições de Ensino Superior (IES) que poderão vir a se candidatar para o exame vestibular. Pela teoria, a implantação do Sistema de Cotas surge como o único meio encontrado pelo Governo Federal de garantir aos jovens negros, índios ou estudantes egressos de escolas públicas o ingresso à universidade pública. A justificativa do Governo para tal medida é que apenas um número reduzido desses jovens consegue uma vaga nestas universidades.

Mas o que tudo isso significa na prática? O que os jovens, que pretendem ingressar em uma universidade, pensam sobre este assunto? Quais as conseqüências da adoção desta medida no dia-a-dia destes alunos? Qual é o perfil dos alunos que o Sistema de Cotas realmente pode beneficiar?

A fim de responder a todas estas questões e com isso interpretar o impacto social que a adoção de medidas como essas podem causar em nossa sociedade, entrar-se-á em contato com estes jovens através de entrevistas, reunir-se-á materiais bibliográficos e analisar-se-á todas essas informações a fim de desenvolver o presente trabalho.

Levantamento bibliográfico: Sistema de cotas nas Universidades

O sistema de cotas nas universidades é um assunto que vem sendo muito discutido por diversos veículos de comunicação, pois a sociedade diverge quanto ao assunto. Segundo uma pesquisa realizada com 6.264 pessoas acima de 16 anos pelo jornal Folha de São Paulo (23 de Julho de 2006) sobre o sistema de cotas para negros, 65% foram a favor, e 87% a favor para cotas para pessoas pobres. Uma triste realidade, é que apenas uma pequena parcela dos alunos, que concluem a escola pública, enfrentam o vestibular, e ainda encontra pela frente uma competição injusta, especialmente pelo menor preparo que apresentam em relação aos alunos provenientes das escolas particulares e cursinhos pré-vestibulares (Vasconcelos e Silva, 2005).

A idéia do governo brasileiro em relação ao sistema de cotas é combater as desigualdades sociais na educação, para que alunos negros, pobres ou índios tenham a possibilidade de ingressar no ensino superior.

Baseando-se na idéia de Bellini e Ruiz (Vasconcelos e Silva, 2005) de que a escola pública é que deve ter a preocupação em relação ao acesso para ensino superior, é o governo que deve investir na escola pública, no sentido de melhor preparar o corpo docente e a estrutura do ensino. Dessa forma talvez o sistema de cotas não fosse necessário.

A implantação do sistema de cotas existe também dos Estados Unidos, onde o candidato tem que passar pela análise de uma bancada de professores, na qual eles irão analisar o currículo por suas notas, diferente do Brasil em que todos têm o mesmo direito através do vestibular.

Uma das falhas mais graves das iniciativas governamentais em estabelecer o sistema de cotas é o caráter antidemocrático da tomada de decisões. Fala-se em percentuais, classes beneficiárias, custos por aluno, uso de vagas em faculdades particulares, ex-alunos da rede pública… Mas será que a sociedade foi em algum momento efetivamente consultada sobre estas medidas? (Vasconcelos e Silva, 2005).

Histórico

A história do sistema de cotas se inicia a partir do ano de 1996, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, onde a nova Lei de Diretrizes Básicas da Educação Nacional foi aprovada propondo a adoção de políticas de ações afirmativas, incluindo as cotas para negros, pessoas carentes ou ex-alunos de escolas públicas.
O primeiro estado a adotar o sistema de contas para negros e pardos nas universidades, foi o estado do Rio de Janeiro no ano de 2001, influenciando as demais instituições de ensino superior também fazê-lo.

O Brasil ao longo dos anos vem enfrentando um sério problema na área da educação, refletido também na área social. “O nível de escolaridade da população brasileira é relativamente baixo, mesmo se comparado com outros países da América Latina. Essa situação se agrava quando observamos aqueles que têm acesso ao nível superior. De acordo com os últimos censos neste nível de ensino superior, de 1994 a 1998 o número de alunos matriculados aumentou 28%. Segundo os dados do Censo de 1991, a desigualdade mais significativa entre os grupos de ‘cor’/’raça’ ocorre no nível que corresponderia ao ensino superior, na faixa dos 15 anos ou mais de estudos. No máximo 1% do total dos ‘pretos’, e ‘pardos’ chega ou completa um curso superior; mesmo entre aqueles com idades entre 25 e 29 anos, apenas 1,4% dos ‘pretos’ e 1,8 dos ‘pardos’ com mais de 15 anos ou mais de estudos, comparando com 8.5% dos ‘brancos’”. (Moehleck, 2000).

Situação atual

Como se pode observar nos dias de hoje, para entrar em uma universidade pública o aluno mais desfavorecido tem que enfrentar várias barreiras: o ensino da escola que não oferece um bom preparo para o vestibular, salas com um numero excessivo de pessoas e a concorrência pelas mesmas vagas com alunos que tem melhor base de ensino, seja ela de cursinho pré-vestibular ou de escola particular. Para diminuir essa diferença e garantir a entrada dessa minoria nas universidades públicas é que surgem as cotas universitárias.

“A Lei Estadual nº. 4151, de 2003, tornou obrigatória a oferta de 20% das vagas para negros, 20% para oriundos da escola pública e 5% para indígenas e deficientes físicos no estado do Rio de Janeiro” (UNESP, 2007).

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2006 no estado de São Paulo temos 454. 255 milhões pessoas que concluem o ensino médio (2° ciclo ou 2° grau) para 187.504 milhões que ingressam no ensino superior, esses números mostram a estimável diferença entre a população que completa o ensino médio e a população que inicia a vida acadêmica, sem levar em consideração as desistências e o numero de pessoas que chegam a terminar o ensino superior. Os 20% oferecidos são significantes em meio dessa estatística? Pois o aluno ingressa em uma universidade publica, mas não tem nenhum auxilio para dar continuidade ao curso, pois não devemos nos esquecer que a maior parte dos cursos das universidades públicas tem aulas em período integral e o aluno de baixa renda não pode, desta forma, trabalhar para se manter e não tem nenhuma preparação para suprir as necessidades educacionais por conseqüência de uma defasagem no ensino.

Pode-se observar a constante discussão sobre as cotas em uma reportagem do site To Ligado retirada do Jornal O Estado de São Paulo: “STF derruba sistema de cotas imposto à Universidade de Marília”.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) cassou a liminar que obrigava a Faculdade de Medicina de Marília a reservar 30% de suas vagas para alunos vindos de escolas públicas e com renda familiar de até um salário mínimo.
A universidade alega que a liminar os obrigava a adotar uma política pública educacional não prevista por lei e que a questão deve ser pensada por todos os lados interessados, pois o sistema de cotas não resolve o problema.
O melhor aluno que preencheu os requisitos necessários para as cotas ficou em 2.800° lugar no vestibular, o que seria injusto já que o aluno que ficou em 80° não conseguiria a vaga se a limiar estivesse valendo.

Esta liminar cassada foi à primeira do tipo a obrigar uma instituição pública de ensino a adotar o sistema de cotas. “As demais universidades que adotaram o sistema, fizeram-no por iniciativa própria” (O Estado de São Paulo, 01- 03-2001).
As cotas existem por lei. São consideradas 20% das vagas, os quais são questionados por todos, sejam eles beneficiados ou excluídos por elas. As universidades se perguntam como definir, como separar pessoas pardas, negras e brancas, se utilizam DNA, se vão simplesmente pela cor da pele, colocando assim também em discussão o que seria raça e como separar pessoas dentro desta terminação.

Ainda não se pode diferenciar se o sistema de cotas podem realmente beneficiar e incluir ou se acabam na verdade aumentando o preconceito. Esse assunto ainda exige pesquisa e muitos esclarecimentos para que se obtenham resultados realmente sólidos.

O ensino superior no Brasil e a discriminação socioeconômica racial

O sistema de cotas universitárias foi implantado recentemente no Brasil (Silva, 2007) no começo essas cotas eram somente para negros, pardos e índios, mas agora se estendeu à alunos que cursam o ensino médio em escolas publicas, fazendo com eles também possam ter chance de concluir o ensino superior em faculdades publicas através dessas porcentagens de vagas.
Então será que com essa nova implantação ao sistema de cotas, os alunos de escolas particulares vão se sentir menos favorecidos com relação aos alunos de escolas públicas, já que essa nova implantação tem como critério favorecer os alunos que estudaram em escolas publicas.

Segundo Silva (2007), uma universidade publica do Distrito Federal reserva algumas vagas para alunos que estudaram todo o ensino médio e fundamental em escolas próximas a região, este sim é um critério que visa mais a inclusão de alunos que são menos favorecidos dando a eles uma maior oportunidade para o ingresso nas universidades publicas.

Uma questão analisada também por Pinto (2003), mostra que se o ensino sofrer uma melhoria considerável e substancial garantiria a equivalência com relação ao ensino particular, fazendo com que os alunos de escolas públicas possam ter mais chances para ingressar na faculdade através do vestibular, portanto não devemos analisar que a entrada de um aluno no ensino superior se deva exclusivamente ao seu poder aquisitivo ou a quanto foi investido economicamente na sua formação.

A representação social como categoria de análise

Segundo Oliveira e Werba (1998, p. 105), as Representações Sociais são “teorias sobre saberes populares e do senso comum, elaboradas e partilhadas coletivamente, com a finalidade de construir e interpretar o real.” Isso significa que as teorias da Representação Social se fundamentam em conhecimentos adquiridos pelas pessoas em suas relações com o meio e com as outras pessoas.
Ao identificarmos as Representações Sociais de um grupo social conseguimos perceber qual é a real identidade, pois os elementos do senso comum indicam claramente o que as pessoas deste grupo pensam a respeito de sua comunidade; de suas regras e de sua importância.

As representações possuem precisamente duas funções, segundo Moscovici (2003, p.34):
1º “Em primeiro lugar, elas convencionalizam os objetos, pessoas ou acontecimentos que encontram”, ou seja, damos às Representações uma forma definitiva, determinando por categoria, partilhado por um grupo de pessoas.
2º “Em segundo lugar, representações são prescritivas, isto é, elas se impõem sobre nós com uma força irresistível.” Antes de iniciarmos os pensamentos, temos uma tradição do que deve ser pensado.

Tomar a Representação Social como categoria de análise significa analisar determinadas situações sob a ótica das interações humanas. Segundo Moscovici (2003, p.40), “todas as interações humanas, surjam elas entre duas pessoas ou entre dois grupos, pressupõem representações.” Por isso, as Representações não são criadas por um indivíduo isoladamente, e quando criadas se interagem e dão origem a novas representações, “Uma vez criadas, contudo, elas adquirem uma vida própria, circulam, se encontram se atraem e se repelem e dão oportunidade ao nascimento de novas representações, enquanto velhas representações morrem”.

O comportamento de um indivíduo em coletividade é influenciado pelas representações sociais, então, temos mudanças em nossas ações, segundo Moscovici (2003, p. 40), Representações Sociais: “Tais representações aparecem, pois, para ns, quase como que objetos materiais, pois eles são o produto de nossas ações e comunicações”.

Pelo texto científico publicado em periódico eletrônico: A desigualdade gerada pelo sistema de cotas de Marcos Henrique Silva de 2007, “A criação do sistema de cotas tem, na versão governamental, um liame com as ações afirmativas, conhecidas juridicamente como políticas públicas ou privadas com o fito de combater desigualdades históricas e discriminações em desfavor das minorias e voltadas a assegurar, efetivamente, o princípio constitucional da igualdade material”.
A adoção de medidas que ensejem uma integração das minorias ao ensino superior gratuito e ao mercado de trabalho é louvável e bastante salutar, desde que feita por meio de critérios técnico-objetivos e que não gerem um outro tipo de discriminação às avessas. “Do modo como são elaborados os atuais sistemas de cotas, não se logra o êxito desejado, pois o fato de se pertencer à classe de negros e índios não denota prontamente a hipossuficiência de uma pessoa.” Então, entendemos que, quando se fala em cotas sociais, normalmente está se referindo à reserva de vagas para alunos oriundos de escola pública, ou alunos de baixa renda. Ou ainda os dois. Isso é tão social, quanto à questão econômica e a questão racial. Nossa sociedade tem contradições econômicas e raciais. Tem desigualdades econômicas e raciais. “O princípio da igualdade, inserido na nossa Constituição, visa, consistentemente, a obstar fator de discrímen aleatoriamente escolhido e sem pertinência lógica. O preceito moral de que as pessoas devem ser tratadas como iguais não oferece uma boa razão para justificar a hostilidade ao ditame constitucional no caso da lei que estipulou o sistema de cotas para ingresso de negros nas universidades públicas estaduais do Rio de Janeiro. Ao implementar a igualdade material, através das chamadas ações afirmativas, estão se cumprindo exigências de outros mandamentos, também inseridos na Carta Magna, cuja efetividade deve ser mais intensa. Entre estes, as que se constituem nos objetivos nobres de um Estado Democrático são a cidadania e a dignidade da pessoa humana”. Moscovici (2003, p. 65).

Todos nós sabemos – e as estatísticas confirmam – que a fruição dos atributos da cidadania e da dignidade é bem menos vigorosa para o grupo dos afro-descendentes, embora estes representem 45% da população do país. Além do mais, encontramos, no artigo 3º do Estatuto Maior, outros objetivos fundamentais para os quais a “República Federativa do Brasil deve se voltar: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”. No texto científico publicado em periódico eletrônico de Décio João Gallego Gimenes de 2004, Princípio da igualdade e o sistema de cotas para negros no ensino superior, verificamos a implantação dessas ações a fragilidade do princípio da igualdade; e que os negros ainda ocupam posição inferior aos não-negros em nossa sociedade, o que se distancia do propósito de Nossa Constituição e de nosso ideal de Democracia. A lei nos possibilita criarmos ações e o crescimento de um povo, mas o que vemos e acontece no Brasil, são ações postas somente em prática quando temos uma situação de urgência.

Cremos que o atual sistema deve ser reformulado para que sejam beneficiados os que realmente precisam, pouco importando se índios, negros, mulheres ou brancos. Na verdade, o Governo deveria investir o percentual determinado constitucionalmente no ensino público fundamental e médio, gerando o acesso a todos às escolas, para que não fosse necessário sequer propalar a tal política populista das "cotas” (Silva, 2004). Concluímos que o ideal seria não nomear cotas, para que não haja rotulações, e não criemos uma situação preconceituosa aos beneficiados, é necessária uma reformulação no sistema atual.

Justificativa

Através desta pesquisa poder-se-á reunir e apresentar dados sobre a Representação Social do Sistema de Cotas das Universidades Públicas sob a ótica dos alunos do Ensino Médio pertencentes ao sistema privado de ensino, ou seja, poder-se-á analisar o universo da possível fonte geradora de preconceito e entender como esse processo se desenvolve na micro região analisada.
Partindo do princípio que o Sistema de Cotas surge como o único meio encontrado pelo Governo Federal de garantir aos jovens negros, índios ou estudantes egressos de escolas públicas o ingresso à universidade pública, conseguir-se-á através dos resultados, analisar de que forma esta nova situação é assimilada pelos jovens que não são abrangidos por essa facilitação ao ingresso à universidade pública.
Sendo este projeto de pesquisa relevante para identificar o impacto social que a adoção de medidas como essas podem causar em nossa sociedade e mais especificamente na região analisada, desenvolver-se-á então, o presente trabalho.

Objetivos

Analisar a Representação Social de jovens de escolas particulares, ingressantes em curso superior, sobre o Sistema de Cotas das Universidades Públicas.


HIpóteses

Os alunos egressos de instituições privadas de ensino, e não pertencentes às minorias, consideraram que o Sistema de Cotas os prejudica;
Os alunos não-privilegiados pelo Sistema de Cotas concluem que os alunos cotistas são intelectualmente inferiores a eles.


Métodos

O método utilizado na pesquisa foi a realização de entrevistas semi-estruturadas dirigidas a alunos 3ª série do Ensino Médio de uma instituição privada de ensino abordando prioritariamente suas opiniões sobre a adoção do sistema de cotas pelas universidades públicas.
Diante dessas informações, o material obtido foi analisado e constituiu a base de dados para a verificação das hipóteses.

Sujeito

Foram entrevistados quatro alunos da 3ª série do Ensino Médio de uma instituição privada de ensino.

Instrumentos

Roteiro de entrevista.
Termo de consentimento livre e esclarecido para cada entrevistado, para os pais destes e para a escola a qual será realizada a pesquisa.

Aparato de pesquisa

Os materiais utilizados na pesquisa são: Papel, caneta e gravador.

Procedimentos

Os procedimentos para realização da coleta de dados foram, primeiramente o agendamento da entrevista com os entrevistados e após a autorização dos pais e da escola. O próximo passo foi transcrever as entrevistas para então analisá-las. A análise foi feita por categorias, sendo elas: Sentimento de indignação – Percepção de excluído pelo sistema – Percepção de falhas no sistema de cotas – Percepção da capacidade intelectual dos cotistas.
 

Resultados

Categoria 1 – Sentimentos de indignação
– eu acho que nós todos somos seres iguais, temo capacidade pra conseguir entrar em uma universidade pública que é difícil, então eu acho que está sendo um preconceito mesmo de tá fazendo esta separação.

– É… eu acho que isso ai é o cúmulo porque eles mesmo estão fazendo preconceito de ta separando o negro do branco pra entra numa universidade, acho que ta sendo isso é a gota d’água sabe estas cotas, eles são seres humanos como já disse, igual a qualquer um.

– eu acho que é errado pra ele te, tipo, um, ele vai entrar no meu lugar, eu estudo com ele na escola pública até o terceiro colegial, ai agente vai prestar uma faculdade e por ele ter, ser uma pigmentação maior que a minha eu não entro entendeu, eu  acho isso errado e se for vê o, minha bisavó é negra, então não pode dizer que eu, porque eu sou loiro de olho verde que vai mudar isso.

Pelas falas dos participantes podemos observar que há uma indignação muito grande em relação ao sistema de cotas, levando-os a serem totalmente contrários a este sistema alternativo de entrada na universidade

Categoria 2 – Percepção de excluído pelo sistema

 – Bom, na minha opinião, eu tô achando que está sendo um preconceito, porque eles mesmo tão separando o nível de conhecimento de cada um, eu acho que nós todos somos seres iguais, temo capacidade pra conseguir entrar em uma universidade pública que é difícil, então eu acho que esta sendo um preconceito mesmo de ta fazendo esta separação.

– negativo pra gente que estuda em escola particular, que agente estuda, a gente tenta tanto, e vai lá ii o negro o negro ou uma pessoa que não estuda as vezes, leva na brincadeira, passa na nossa frente, a gente que se esforça não consegue.

– eu estudei na escola pública, eu sei como funciona lá , e assim, eu acho que é errado pra ele te, tipo, um, ele vai entrar no meu lugar, eu estudo com ele na escola pública até o terceiro colegial, ai agente vai prestar uma faculdade e por ele ter, ser uma pigmentação maior que a minha eu não entro entendeu, eu  acho isso errado e se for vê o, minha bisavó é negra, então não pode dizer que eu, porque eu sou loiro de olho verde que vai mudar isso.

Pelas falas dos percebemos o sentimento de excluídos do sistema de cotas, porém este resultado já era esperado pelo grupo, pois como eles não são cotistas, automaticamente eles tenderiam a sentirem-se excluídos.

Categoria 3 – Percepção de falhas no sistema de cotas

– Há, no momento eu acho que ele é um sistema falho por que ele divide mal a sociedade fazendo assim com que aja uma segregação e eu acho que isso não ta certo.

– Eu acho que é um início pra inclusão das pessoas carentes, pois eu acho assim, não é a solução, a solução seria melhora a base, mas enquanto não tem a base, colocar estas pessoas com deficiência de estudo no na faculdade pública.

Percebemos que os entrevistados adotaram uma posição crítica ao sistema de cotas, percebendo suas falhas.

Categoria 4 – Percepção da capacidade intelectual dos cotistas

– eu acho que nós todos somos seres iguais, temo capacidade pra conseguir entrar em uma universidade pública que é difícil, então eu acho que esta sendo um preconceito mesmo de ta fazendo esta separação.

– e vai lá ii o negro o negro ou uma pessoa que não estuda as vezes, leva na brincadeira, passa na nossa frente, a gente que se esforça não consegue.

– Ah, eu acho que é uma forma di privilegia umas pessoas que não tem capacidade assim na educação pra passar direto nem agente ta numa escola particular que tem melhor ensino.

Pelas falas dos participantes podemos perceber que há uma dúvida em relação à capacidade intelectual dos cotistas, pois pela interpretação dos não-cotistas se há um privilégio de vagas é porque estas pessoas não seriam aptas a entrar na universidade pelos métodos tradicionais.


Discussão

Segundo (VASCONCELOS E SILVA ,2005), apenas uma pequena parcela dos alunos que concluem e escola pública enfrentam o vestibular, e ainda encontra pela frente uma competição injusta, especialmente pelo menor preparo que apresentam em relação aos alunos provenientes de escolas particulares e cursinhos pré-vetitulaeres. De fato pelo que percebemos nas entrevistas é que os alunos do terceiro ano do ensino médio estão tendo um preparo muito maior, e também o interesse por querer prestar o vestibular foi  unânime, todos disseram que iriam prestar.

O que vai ao encontro da idéia de  Bellini e Ruiz (apuce VASCONCELOS E SILVA ,2005) de que a escola pública é que deve ter a preocupação em relação ao acesso para o ensino superior, é o governo que deve investir na escola pública, no sentido de melhor preparar o corpo docente e a estrutura de ensino. Desta forma talvez o sistema de costa não seria necessário.

Para todos os entrevistado o sistema de cotas não deveria ser instituído em nossa sociedade, um dos entrevistados comentou que a solução do ensino público seria a melhoria da base.


Conclusão

Buscou-se aqui analisar a Representação Social de jovens de escolas particulares, ingressantes em curso superior, sobre o Sistema de Cotas das Universidades Públicas.

A aprovação da política de cotas e sua implantação, tem para estes jovens, um fato positivo, pois possibilita os alunos que foram prejudicados pela defasagem na qualidade do Ensino Médio das escolas públicas, uma chance de reparação em relação aos alunos das escolas particulares, criando-se assim condições de maior igualdade no ingresso à universidade. Mas, os jovens não-cotistas argumentam a real eficácia deste método, sentem-se prejudicados e acabam por questionar a capacidade intelectual dos cotistas – confirmando as hipóteses deste trabalho.

Embora os dados disponíveis não permitam conclusões definitivas, os resultados obtidos até ao momento apontam para um balanço não muito favorável. E as avaliações sobre o Sistema de Cotas necessitam considerar isto, pois futuramente os alunos cotistas e não-cotistas estarão convivendo dentro da mesma universidade, e não sabemos que tipo de impacto essa Representação Social dos alunos não-cotistas (e pertencentes à maioria) terão sobre a minoria não-cotista já prejudicada pelas diversas formas de preconceito. Diante disto, que cenários possíveis se delineiam à nossa frente?

Faz-se necessário que mais pesquisas deste tipo sejam realizadas e que o Sistema de Cotas passe a ser avaliado em todas as fases de sua realização, para que com o tempo os resultados obtidos possam formar uma base de conhecimento capaz de determinar sua validade ou não, e, então se possa pensar em uma manutenção da atual legislação de cotas.

Notou-se que os alunos egressos de instituições privadas de ensino, e não pertencentes às minorias consideram que o Sistema de Cotas os prejudica, pois nas entrevistas isso ficou claro.

Segundo dados colhidos nas entrevistas realizadas concluímos que os alunos não-privilegiados pelo Sistema de Cotas tem dúvida da capacidade intelectual dos alunos cotistas.

Sem pretender obter respostas imediatas, estas são questões que ficam para a continuidade do debate.

 
Referências

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Alunos:

Elaine Mônaco            
Livian R. L. Gomes    
Paula Mendes              6º semestre de Psicologia da UNIP – Araraquara/SP      
Paulo Fonseca            
Silvana Coutinho
 

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