Carta de Intenções para 2008

Admitindo que esteja certa a premissa de que só uma mu­dança fundamental no caráter humano, de uma preponderância do modo ter para um modo de existência predominantemente ser, pode salvar-nos de uma catástrofe humano-ambiental, surge a questão:
Será possível uma mudança de caráter humano em grande es­cala? Em caso positivo, como poderá ser feita?

Sugiro que o caráter humano pode mudar se existirem as condições seguintes:

1. Estamos sofrendo e temos consciência desse sofrimento.

2. Reconhecemos a origem do nosso mal-estar.

3. Reconhecemos haver um modo de superar nosso mal­ estar.

4. Aceitamos que a fim de superar nosso mal-estar deve­mos seguir certas normas de vida e mudar nossa atual maneira de viver.

Esses quatro pontos correspondem às Quatro No­bres Verdades que constituem a base dos ensinamentos de Buda que tratam da condição geral da existência humana, embora não de casos de mal-estar humano devidos a circunstâncias individuais ou so­ciais específicas.

O mesmo princípio de mudança que caracteriza os métodos de Buda também está subjacente à idéia de Marx da salvação.

Para compreender isto é necessário ter em mente que, para Marx, como ele mesmo declarava, o comunismo não era uma meta final, mas um passo no desenvolvimento histórico no sentido de libertar os seres humanos daquelas condições socioeconômicas e políticas que tornam as pessoas desumanas – prisioneiros das coisas, das máquinas, e de sua própria ambição.

O primeiro passo de Marx foi mostrar à classe trabalhadora do seu tempo, a classe mais alienada e miserável, que ela sofria. Ele empenhou-se em destruir as ilusões que tendiam a ocultar dos trabalhadores a consciência de sua infelicidade. Sua segunda medida foi mostrar as causas desse sofrimento, que ele assinala estarem na natureza do capitalismo e no caráter de ambição e avareza bem como dependência que o sistema capitalista produz. Essa análise das causas do sofrimento dos trabalhadores (mas não apenas do sofrimento deles) contribuiu para o principal empreen­dimento da obra de Marx, a saber, a análise da economia capi­talista.

O terceiro passo foi demonstrar que o sofrimento podia ser afastado se fossem afastadas as condições do sofrimento. No quar­to passo ele mostrava o novo estilo de vida, o novo sistema social que seria isento de sofrimento, inevitável no antigo sistema.

O método terapêutico de Freud era essencialmente seme­lhante. Os pacientes consultavam Freud porque sofriam e estavam conscientes de que sofriam. Mas em geral eles não estavam cons­cientes do mal de que sofriam. A primeira tarefa do psicanalista é ajudar o paciente a abandonar suas ilusões sobre o sofrimento e fazê-Ios saber de que consiste realmente a sua doença. O diag­nóstico quanto à natureza do mal-estar individual ou social é uma questão de interpretação, e vários intérpretes podem diferir. Em geral, o dado menos importante para o diagnóstico é o pró­prio relato pelo paciente daquilo que ele julga ser a sua doença. A essência do processo psicanalítico é ajudar os pacientes a se tornarem conscientes das causas de sua doença.

Em conseqüência desse conhecimento, os pacientes podem chegar à fase seguinte: a intuição de que sua doença pode ser curada, desde que sejam removidas as suas causas. Ao ver de Freud, isso significava desimpedir a repressão de certos fatos ocorridos na infância. No entanto, os psicanalistas tradicionais parecem não concordar em essência quanto à necessidade do quarto ponto. Muitos psicanalistas parecem pensar que, por si, a introvisão (insight) do que foi reprimido tem um efeito curativo.

De fato, isso freqüentemente acontece, especialmente quando o doen­te sofre de sintomas circunscritos, tais como dissociativos ou obsessivos. Mas não creio que se possa conseguir algo durável por parte de pessoas que padecem de um mal-estar geral, e da­queles em que se torna necessária uma mudança de caráter, a menos que mudem seu estilo de vida de acordo com a mudança de caráter que desejam conseguir.

Por exemplo, pode-se analisar a dependência de indivíduos interminavelmente, mas tudo o que se conseguir saber de nada valerá se eles permanecerem na mesma situação prática em que vinham vivendo antes de conseguirem esse conhecimento. Uma mulher cujo sofrimento de­corre da dependência para com o pai, muito embora tenha pene­trado fundo nas causas da dependência, de fato não mudará a menos que mude seu estilo de vida, afastando-se do pai, não aceitando seus favores, assumindo o risco e dor que essas medidas práticas no sentido de independência possam implicar. A intro­visão sem a prática será sempre ineficaz.

Um novo Homem, Oxalá!

A função da nova sociedade é favorecer o surgimento de um novo homem, de seres cujo caráter exiba as qualidades se­guintes:

. Disposição a abandonar todas as formas de ter, a fim de plenamente ser.

. Segurança, sentido de identidade e confiança com base na fé do que se é, na necessidade de relacionamento, inte­resse, amor, solidariedade com todo o mundo circundante, em vez do desejo de ter, possuir, controlar o mun­do e assim tornar-se escravo das coisas possuídas.

. Aceitação do fato de que ninguém e nada fora de nós dá significado à vida, mas que esta independência e de­sinteresse podem tornar-se a condição para a mais plena atividade dedicada a cuidar e participar.

. Estarmos plenamente presentes onde estivermos.

. Alegria proveniente do dar e participar, e não do acumu­lar e explorar.

. Amor e respeito pela vida em todas as suas manifesta­ções, no conhecimento de que não as coisas, o poder, tudo o que é inerte, mas a vida e tudo o que é próprio a seu crescimento é sagrado.

. Tentar diminuir a ambição, o ódio e as ilusões tanto quanto possível.

. Viver sem adorar ídolos e sem ilusões, porque já se che­gou a um ponto que não exige ilusões.

. Desenvolver a capacidade de amar, juntamente com a ca­pacidade crítica, e de pensamento não emocional.

. Abandonar o narcisismo e aceitar as trágicas limitações inerentes à existência humana.

. Adotar como o supremo objetivo da vida o pleno cresci­mento de nós mesmos e dos nossos semelhantes.

. Saber que para atingir esse alvo é necessário disciplina e respeito pela realidade.

. Saber que nenhum crescimento é salutar se não ocorrer em uma estrutura, mas saber, também, a diferença entre es­trutura como um atributo da vida e "ordem" como atri­buto do inanimado, do inerte.

. Desenvolver a imaginação, não como uma fuga de circuns­tâncias intoleráveis, mas como previsão de possibilidades reais, como meio de afastar circunstâncias intoleráveis.

. Não iludir a outros, mas também não ser iludido por outros; pode-se ser chamado inocente, mas não ingênuo.

. Conhecermo-nos a nós mesmos, mas não o eu que conhe­cemos, mas também o eu que não conhecemos – muito embora tenhamos um vago conhecimento do que não sa­bemos.

. Sentir nossa identidade com a vida, e, com isso, abando­nar o objetivo de conquistar a natureza, subjugando-a, ex­plorando-a, violentando-a, destruindo-a; mas tentando, ao invés, compreender a natureza e cooperar com ela.

. Liberdade que não se confunde com gratuidade, mas a possibilidade de sermos nós mesmos, não como um feixe de desejos ambiciosos, mas como uma estrutura delicada­mente equilibrada que a qualquer momento se defronte com a alternativa de decair, viver ou morrer.

. Saber que o mal e a destrutividade são conseqüências ine­vitáveis do fracasso em evoluir.

. Saber que apenas uns poucos conseguiram perfeição em todas essas qualidades, mas não ter a ambição de "atingir a meta", cônscio de que essa ambição é apenas outra forma de desejar ardentemente, de ter.

. Felicidade no processo de aumentar sempre o espírito de vida, seja a que ponto se consiga chegar, porque viver tão plenamente quanto se possa é tanto mais satisfatório quanto a preocupação pelo que se pode ou não se poderia conseguir tem pouca probabilidade de se revelar.

Não é objetivo deste artigo sugerir que as pessoas que vivem no industrialismo cibernético e burocrático contemporâneo – seja na versão "capitalista" ou "socialista" – possam romper a forma ter de existência e aumentar o domínio do ser. De fato, tarefa deste porte exigiria um tratamento específico, que se poderia adequa­damente intitular A Arte de Ser. Alguns livros são valiosos, e muitos outros são nocivos por sua falsificação, ex­plorando o novo mercado que abastece as pessoas desejosas de livrar-se de seus males. Alguns livros valiosos podem ser de real ajuda a quem tenha sério interesse no problema de conseguir o bem-estar.

You may say I'm a dreamer…

Um lindo Natal para todos.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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