Encerrando 2007

Estamos na reta final do ano de 2007, mais um ano que se encerra deixando marcas na vida de cada um: dádivas, presentes, descobertas, progressos, realização de sonhos. Mas também deixa: dores, dissabores, perdas, decepções. No movimento contínuo da vida, seu balé mistura sentimentos opostos e vivências antagônicas, como Freud já apontava em suas formulações sobre a economia do aparelho psíquico.

Somos dotados da capacidade de sentir, e principalmente de nos orientarmos preferencialmente por esse modo de funcionamento, por tudo aquilo que gera afeto e que impulsiona nossas idéias, pelo que chamamos de desejo, às vezes até um tanto deslocado, sublimado, negado, mas presente ali, como tudo que nos fala de nossos interiores, alguns conhecidos e outros absolutamente envoltos em sombras.

Respeitamos as marcas que cada cultura coloca como seus limites e aqui estamos lidando com uma de muita importância para cada um de nós, a contagem do tempo, daquilo que nos diz sobre o tempo que já gastamos e o tempo pela frente ainda por descortinar, trazendo em seu interior a lembrança da inevitabilidade da morte, da presença de Thanatos. Nesse movimento percebemos que é comum, frente a esse limite, que cada um de nós, de maneira diferenciada, se pergunte sobre suas conquistas e perdas e que também construa projetos para a próxima fração de tempo que já se mostra vindo em nossa direção. Muitos, ao realizar essa tarefa, farão seus vínculos com tudo que não alcançaram, ou com tudo que perderam, estabelecendo um traço melancólico com o que se encerra, essa é uma tendência que facilmente observaremos em finais de ano e que devem a todo custo ser evitadas. Vivenciar lutos é necessário para a construção de novos vínculos, seguir adiante, podendo desistir ou adiar projetos que não se completaram. Há uma regra inquestionável que a psicanálise ajudou em muito a reforçar, ou mesmo a construir, é ela, a de que somos organismos "egoístas", fazemos sempre o melhor que se pode, entre o impulso e a defesa, e é nesse sentido que estaremos usando esse termo, definindo tudo aquilo que só faz sentido se lido na história de cada um, voltado para preservação de sua unidade, de seu equilíbrio egóico. Assim é que nos movemos, e quando estamos tortos ou insuficientes poderemos pensar em uma necessidade de ampliar nossos espaços de conquista, nossa relação entre o que desejamos e o mundo que nos cerca e que também é constituído pelas relações que colocamos nele, nessa colcha de "fuxicos" ou "retalhos", que se traduz pelo nome de humanidade.

Entendemos que, por diversas vezes, ou em sua quase totalidade, que o desejar nos lança no domínio do "estranho", de tudo aquilo que é estrangeiro em nossas vidas, abrir novos espaços significa sempre também, uma viagem no tempo, de retorno e de avanço, que faz com que aquele que se permite deitar em um divã e empreender a viagem da livre-associação, logo entenda que o tempo é um senhor sem divisas. Ele fala de passado atuando no presente e projetando um futuro incerto e mesclado por impulsos de avanços e retrocessos e colocando-nos de frente ao impensável desconhecido.

Por outro lado, somos seres em um mundo que construímos diariamente com nossas ações, mas que olhamos para ele como se alheio fosse ao que somos. Faz parte de todo um processo alcançado pela passagem pelo divã ou crescimento pessoal também possibilitado por outros fazeres, entender o quanto somos senhores, mesmo que inconscientes, de nossas escolhas, por mais contraditórias e absurdas que possam parecer e que todas elas contribuem com o mundo que construímos à nossa volta. Nesse entrelace do individual e o coletivo, buscamos aquilo que se entende como felicidade e que Freud situou no campo do amor e do trabalho nossas principais buscas de realização e três as fontes do sofrimento humano: o corpo com seu tempo (a inevitabilidade da morte); o mundo externo; e os vínculos que fazemos e traçamos com nossos afetos, com todos aqueles com quem nos relacionamos.

Diante das demandas próprias do mundo que criamos, seguimos ainda trôpegos entre o desejo de realizar rapidamente uma necessidade e o ato de formular o desejo, lidando com todos os mecanismos que o desejar envolve, inclusive certo adiamento de uma descarga imediata, como quando paramos frente a um excelente vinho para apreciar-lhe a garrafa, o cheiro e o leve traço na língua e só depois nos permitirmos bebê-lo, ainda assim, com uma certa lentidão que permitirá apreciar todo os sabores ali misturados que o fazem ser o que é. Assim é também, ou deveria ser, o nosso desejar, uma certa aliança entre o realizar e o traçar com cuidado tudo que nos leva a realizá-lo com o máximo de completude, como ‘Penélopes' tecendo e desfazendo, aguardando o objeto próprio do desejo, aquele que fará mais que uma descarga e que representará a completude temporária, própria da realização do desejo. O que significa isso hoje, frente a um mundo onde ofertas inesgotáveis de prazer são oferecidas ao homem, de maneira que nos acostumamos a chamar de ‘fast-food' pela rapidez como são devoradas renovando a angústia da incompletude? Talvez seja essa a tarefa que hoje a psicanálise tenha a realizar, não mais libertar a palavra sobre o desejo, mas ir em busca de sua própria origem para que não se perca na ilusão de que pode se realizar de forma irrestrita.

Na febre do final do ano, traço de limite tão importante em nossa cultura, que marca projetos futuros e encerramentos e que se coloca acima de crenças, ideologias, cultura ou geografias, nos detemos frente às nossas conquistas e realizações e nos preparamos com alguma esperança, para a fração de tempo que se iniciará. Junto a isso já passamos pela festa de Natal, que traz em seu interior uma questão de crenças religiosas, mas que já alcançou o simbólico social como a festa da fraternidade e solidariedade. Se a cultura do consumismo convida o tempo todo para aquele comprar febril de presentes, por outro lado obtivemos a possibilidade de trocar afetos com nossos vínculos, presenteando com prazer, aquele que só é possível perceber, para quem o ato de dar é uma conquista, entrelaçar desejos no momento do presentear, sublimação de impulsos que leva ao conceito mais radical da palavra sublime. Que esse possa ser um compromisso para uma vida, e não somente para as representações simbólicas natalinas. Mas, que esse ato nunca seja maior do que nossa capacidade de realizá-lo, que nunca solicite que nos percamos de nós mesmos em nome de ações elevadas pelo sublime, que haja sempre dentro da possibilidade do sublimar a mais profunda busca de realização humana e seus vínculos, com toda libido que isso envolve no ato de realizar. Que as fantasias e devaneios nos sejam permitidos, construindo uma possibilidade de concretização no que chamamos de realidade. Se, nem só de pão vive o homem, que nossos sonhos possam ter também a concretude de uma bela fatia de pão  quente ou a embriaguez de uma taça de vinho tinto.

De todas as maneiras até agora colocadas nesse texto, estão aqui presentes muitas das contribuições que a psicanálise freudiana e pós-freudiana trouxeram para tudo que fala também do nosso cotidiano, da forma de encarar fatos que constroem as relações humanas e suas inserções institucionais. Inúmeros conceitos advindos de sua teoria que ganharam a construção da "fala" social, ou como diriam "caíram na boca do povo". Se por um lado isso é notável, por outro a expõe a toda forma de reducionismo ou aprisionamento pelos dispositivos repressivos das instituições sociais. Caminhar nessa linha tão tênue, se constitui sempre como tarefa para cada estudioso da psicanálise, e não foi diferente aqui nessa coluna desde que foi iniciada. Ao finalizarmos esse ano, espero que essa tarefa tenha se cumprido, que possa ter contribuído de alguma maneira, mesmo que pequena, para o entendimento e divulgação da psicanálise, sem, no entanto reduzi-la ou empobrecê-la.

Faremos nossa passagem do tempo, sem negá-la ou enaltecê-la por demais, continuaremos aqui, construindo outros pontos de onde possamos partir para interessantes debates, com contribuições sempre muito valiosas de outros colegas e colaboradores desse site, como aconteceu nesse segundo semestre de 2007.

Aproveito a oportunidade para mais uma vez agradecer a toda a equipe do Rede Psi em sua destreza no atendimento de nossas solicitações e pedidos de ajuda. Que possam continuar sempre com o trabalho competente com o qual brindam esse site.

Fraternidade e paz, e que 2008 nos brinde com os mais fecundos debates, muita prosperidade, amor e trabalho. Até lá!

Se cada dia cai

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda (Últimos Poemas)

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro “Cinematerapia – Entendendo Conflitos”.

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